14 de dezembro de 2008

Especulações Tardianas

Gabriel Tarde é um dos muitos autores que mais me fascinam. Tenho por ele um carinho especial, e é difícil que se passe uma semana sem que eu folheie uma de suas obras e assinale alguma passagem. Muitas vezes anoto, traduzo e esqueço a referência. Viram folhas soltas, avulsas, anotações como esta, cuja referência não anotei, e que me serviu para assinalar a faceta surpreendentemente mística deste autor, coisa que lhe valeu críticas de Enrico Ferri. São suas especulações metafísicas, pela quais ele se desculpa, inclusive:

Não digamos nem a outra vida nem o nada; digamos a não-vida, sem nada prejulgar. A não-vida, não mais que o não-eu, não é, necessariamente o não-ser; e os argumentos de certos filósofos contra a possibilidade da existência após a morte não funcionam, não mais que aqueles dos cépticos idealistas contra a realidade do mundo exterior. — Que a vida seja preferível à não-vida, nada de menos demonstrado. — Talvez a vida seja somente um tempo de provas, de exercícios escolares e dolorosos impostos às mônadas que, ao saírem desta dura e mística escola, encontrem-se purgadas de sua anterior necessidade de dominação universal. Persuado-me de que poucas dentre elas, uma vez depostas de seu trono cerebral, aspirem para aí retornar. Retornadas à sua originalidade própria, à sua independência absoluta, elas renunciam sem trabalho e para sempre ao poder corporal, e, durante a eternidade, vão saborear o estado divino, onde o ultimo segundo da vida as mergulhou, isentas de todas os males e de todos os desejos, — eu não digo de todos os amores — e na certeza de terem um bem escondido, eternamente durável. Assim se explicaria a morte: assim se justificaria a vida, pela purgação do desejo... Mas chega de formular hipóteses! Você perdoa-me esta brincadeira metafísica, amiga leitora?
Observação: Melhor eslarecer este ponto para alguns de nossos leitores. Mônada, segundo Leibniz, seria cada uma das substâncias simples e de número infinito, de natureza psíquica. Elas não teriam qualquer relação umas com as outras, e se agregariam harmoniosamente por predeterminação da divindade, constituindo as coisas de que a natureza se compõe.