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7 de julho de 2024

A Velhice

 

Os idosos que não constituem uma força econômica não têm os meios para fazer valer seus direitos: o interesse dos exploradores é romper a solidariedade entre os trabalhadores e os improdutivos de maneira que estes últimos não sejam defendidos por ninguém. Os mitos e os clichês postos em circulação pelo pensamento burguês se esforçam para mostrar no idoso um outro. “É com adolescentes que duram um bom número de anos que a vida faz os idosos”, observa Proust; eles mantêm as qualidades e os defeitos do homem que continuam sendo. Isso, a opinião quer ignorar. Se os idosos manifestam os mesmos desejos, os mesmos sentimentos, as mesmas reivindicações que os jovens, eles escandalizam; em sua idade, o amor, o ciúme parecem odiosos ou ridículos, a sexualidade repugnante, a violência desdenhosa. Eles devem dar o exemplo de todas as virtudes. Antes de tudo, exige-se deles serenidade; afirma-se que eles a possuem, o que autoriza a desconsiderar sua infelicidade. A imagem sublimada que lhes é proposta de si mesmos é a do Sábio aureolado de cabelos brancos, rico em experiência e venerável, que domina de muito alto a condição humana; se se desviam dessa imagem, então caem abaixo: a imagem que se opõe à primeira é a do velho louco que delira e devaneia e de quem os filhos zombam. De qualquer forma, por sua virtude ou por sua abjeção, eles se situam fora da humanidade. Pode-se, então, sem escrúpulo, negar-lhes aquele mínimo que é julgado necessário para levar uma vida digna.

BEAUVOIR, Simone de, 1908-1986. A velhice. Tradução Maria Helena Franco. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2018.

2 de novembro de 2022

O Artista

 

O artista romântico figura o porta-voz de uma verdade que ele é o único a poder transmitir. Sua valorização do sonho e do sobrenatural, seu gosto pelos grandes sentimentos e sua paixão pelo inútil opõem-se ao materialismo, ao positivismo e, sobretudo, ao utilitarismo social. Frequentemente incompreendido, marginal ou revoltado contra a antiga ordem, o artista romântico parece-se muito com o “eremita de Croisset”.

CASIN-PELLEGRINI, Catherine, Notas apud Flaubert, Gustave. Lettres à Louise Colet, Paris: Magnard, 2003, p. 161. (Tradução livre das autoras)


Notinha: O eremita de Croisset é Gustave Flaubert.

28 de outubro de 2022

Provérbio Irlandês

"Vassoura nova varre bem, mas vassoura velha conhece os cantos."

Seleções do Reader's Digest, out/1977,contracapa. 

31 de agosto de 2021

Das tiranias

 

"Há uma tirania do progresso e um dogmatismo que, sob a bandeira da livre investigação, navega pelo mar do conhecimento. Toda réplica da tripulação é qualificada de rebeldia e castigada com a morte científica..."

STEKEL, Wilhelm. El querido ego. Buenos Aires:Imán, s.d.

30 de julho de 2021

Da conversação

 "A conversação é mãe da polidez. Ela o é mesmo quando a polidez consiste em não conversar. Nada parece mais singular, mais contra natureza a um provinciano repentinamente chegado a Paris, que ver aí os ônibus cheios de pessoas que se abstêm, com cuidado, de falar entre si. O silêncio entre desconhecidos que se encontram parece, naturalmente, uma inconveniência, como o silêncio, entre pessoas que se conhecem, é um sinal de desarmonia. Todo camponês bem educado sente-se no dever de “fazer companhia” àqueles com quem ele caminha. Na realidade, não é que a necessidade da conversação seja mais forte nas pequenas cidades ou nos campos que nas grandes. Ao contrário, ela parece crescer na razão direta da densidade da população e do grau de civilização. Mas é precisamente por causa de sua intensidade nas grandes cidades que se estabeleceram aí diques contra o perigo de ser submerso sob ondas de palavras indiscretas."

Gabriel Tarde

9 de maio de 2021

Poesia

 Como me sinto? Como se colocassem dois olhos sobre uma mesa e dissessem a mim, a mim que sou cego: isso é aquilo que vê, essa é a matéria que vê. Toco os dois olhos sobre a mesa, lisos, tépidos ainda, arrancaram há pouco, gelatinosos, mas não vejo o que vê. É assim o que sinto tentando materializar na narrativa a convulsão do meu espírito, desbocado e cruel, manchado de tinta, essas pardas escuras do não saber dizer, tento amputado conhecer o passo, cego conhecer a luz, ausente de braços tento te abraçar.

Hilda Hilst

8 de maio de 2021

Poesia

Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errônea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia. 


Fernando Pessoa

22 de novembro de 2020

Desespero


"Desespero quieto às vezes é o melhor remédio que há. Que 
alarga o mundo e põe a criatura solta. Medo agarra a gente é pelo enraizado. Fui indo. De repente, de repente, tomei em mim o gole de um pensamento – estralo de ouro: pedrinha de ouro. E conheci o que é socorro."

GUIMARÃES ROSA, João. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 210
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O Homem Virtual

"O homem virtual, imóvel diante de seu computador, faz amor pela tela e dá seus cursos por teleconferência. Torna-se um paralítico físico, mas, sem dúvida, também cerebral. Só assim consegue ser operacional. Da mesma maneira que se pode prever que os óculos ou as lentes de contato um dia se tornarão próteses integradas de uma espécie na qual o olhar terá desaparecido, também se pode temer que a inteligência artificial e seus suportes técnicos se tornem a prótese de uma espécie na qual o pensamento terá desaparecido."

BAUDRILLARD, Jean. La transparencia del mal. Ensayo sobre los fenómenos extremos. Tradução de Joaquín Jordá. Barcelona: Anagrama, 1991, p. 173-4. 


12 de novembro de 2020

Grande Sertão: Veredas

 

“Hoje, eu penso, o senhor sabe: acho que o sentir da gente volteia, mas em certos modos, rodando em si mas por regras. O prazer muito vira medo, o medo vai vira ódio, o ódio vira esses desesperos? – desespero é bom que vire a maior tristeza, constante então para o um amor – quanta saudade... ; aí, outra esperança já vem... Mas, a brasinha de tudo, é só o mesmo carvão só. Invenção minha, que tiro por tino. Ah, o que eu prezava de ter era essa instrução do senhor, que dá rumo para se estudar dessas matérias...”

GUIMARÃES ROSA, João. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 323.

11 de junho de 2020

Balzac, absolutamente


"As mulheres possuem um instinto que lhes permite adivinharem os homens que as amam pelo simples fato de usarem saias, que se sentem felizes junto delas e que nunca pensam em lhes pedir tolamente os juros de suas amabilidades. Têm, a esse repeito, o faro de um cão que, num grupo, vai diretamente ao homem para quem os animais são sagrados."
BALZAC, Honoré. A Solteirona. Trad. de Lia Correa Dutra, A Comédia Humana, v. VI. Porto Alegre: Editora Globo, 1951. [p. 448]

31 de outubro de 2018

Não basta

"Não basta ver para ver, é necessário olhar para o que se vê."
Vieira

21 de outubro de 2018

Esposa

"Ela tomara um ar superior, um ar de matrona gorda, de matrona inabordável, couraçada de princípios, blindada de virtudes."

Guy de Maupassant

19 de outubro de 2018

Altas inclinações

"J'étais née avec les plus hautes inclinations; mais rien ne déprave comme de ne pas être aimée."

Théophile Gautier

12 de outubro de 2018

A Senhora Samoris, por Maupassant

"A Senhora Samoris é uma mulher da alta sociedade, e tem uma filha sem que saiba quem é o pai. Em todo caso, se não teve marido, tem amantes bastante discretamente, pois é recebida numa certa sociedade tolerante ou cega. 
Frequenta a igreja, recebe os sacramentos recolhidamente, mas de forma a que os outros saibam, e jamais se compromete. Espera que sua filha faça um bom casamento. É isso?
― É, mas eu completo o seus dados: é uma mulher experimentada, que se faz respeitar por seus amantes mais do que se não dormisse com eles. É um mérito raro, porque dessa forma se obtém o que se quiser de um homem. Aquele que ela escolhe, sem que ele saiba, faz-lhe a corte durante muito tempo, deseja-a com temor, solicita-a com pudor, obtém-na com assombro e a possui com consideração. Nem percebe que a paga, tal o tato que ela usa; e de dignidade, de decência, que, saindo de sua cama, ele esbofetearia o homem capaz de suspeitar da virtude de sua amante. E isso com a maior boa fé do mundo."

MAUPASSANT, Guy de. Obras de Guy de Maupassant. A Baronesa. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1953, XI v., p. 62/63.
....................

Ando relendo Maupassant e, como sempre, reler é redescobrir sutilezas. Sua obra nos presenteia com retratos de uma precisão que impressiona, ainda mais quando nos damos conta de que são generalizáveis, a ponto de termos todos a impressão de que conhecemos a Senhora Samoris, quando não, no que ela tem de sonsa. Porque só uma verdadeira sonsa pode inspirar temor no desejo, pudor na súplica, assombro na conquista e consideração na posse. E, se aquele que é admitido em sua intimidade nem percebe que a paga, eis que temos aí revelado, em poucas palavras, o poder de manipulação que permeia questões de gênero que, para serem bem analisadas, requerem muito mais do que a boçalidade do senso comum.
 . 

19 de setembro de 2018

Do poder

"[...] aquele que torna outrem poderoso arruína-se a si próprio, pois esse poderio é causado pela astúcia ou pela força, e uma e outra são suspeitas a quem se tornou poderoso."

Maquiavel
Imagem: Santi di Tito, retrato de Niccolò Machiavelli

Retalho da vidinha provinciana, por Maupassant

"Dificilmente o teria reconhecido. Aparentava pelo menos 45 anos e, num segundo, reconheci os sinais da vida provinciana, que engorda, brutaliza e envelhece. Com um rápido pensamento, mais rápido do que meu gesto ao estender-lhe a mão, conheci sua existência, sua maneira de ser, seu gênero de espírito e suas teorias sobre o mundo. Adivinhei as refeições demoradas que lhe tinham arredondado o ventre, as sonolências depois do almoço, o torpor de uma digestão pesada regada a conhaque e os vagos olhares atirados sobre os doentes, com pensamento na galinha assada girando no espeto. Suas conversas sobre a cozinha, sobre o conhaque, a aguardente e o vinho, sobre a maneira de fazer certos pratos e de bem ligar certos molhos me foram reveladas apenas ao olhar para as suas faces vermelhas e empastadas, a grossura de seus lábios, o brilho morno dos seus olhos."
MAUPASSANT, Guy de. Obras de Guy de Maupassant. O vestal da Senhora Husson. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1953, XI v., p. 12. 

10 de setembro de 2018

Amor

"L'amour est una chose qui meurt. Une fois mort, il pourrit, mais peut servir d'hummus à un novel amour. L'amour defunt continue à vivre d'une vie secrete dan le nouveau, de sorte qu'en réalité l'amour est immortel."

LAGERKVIST, Pär. Le nain. Paris: Stock, 1946, p. 27.

22 de junho de 2018

Cinismo na benevolência

"Apesar de tudo, é ainda verdade que sinto quase todas
as cartas, que de há anos me são enviadas, como um cinismo: há
mais cinismo na benevolência para comigo do que em qualquer ódio..."

Friedrich Nietzsche