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21 de julho de 2026

A VALISE

Não era isso que eu procurava.

Estava na Hemeroteca digital, mergulhada em outro assunto.

Queria outra coisa.  Do meu século XX, só que em suas primeiras décadas.

Varria a página do jornal virtual, quando a notícia apareceu.

Pequena. Uma coluna lateral, sem importância nenhuma para quem passasse os olhos por ali rapidamente. Mas eu não passei depressa.

Detive-me.

Valise achada

Um policial encontrou ante-hontem, á tarde, numa barca da Cantareira, em viagem para esta cidade, uma valise contendo várias peças de roupa branca para senhora, 5 amuletos, 1 baralho de cartomante, 1 caderninho de notas, 1 "pince-nez" com aros de ouro, 1 grampo de tartaruga, grampos pretos, 1 escova de dentes, 1 medalha de prata, 1 atacador, 1 par de meias pretas, 1 nota de 2$000 e 1 cartão de visita pertencente a D. Maria Diniz Bezerra, residente á rua S. José n. 169, no Fonseca. A valise ficou depositada no gabinete do Chefe de agentes, na Policia Central, onde póde ser procurada.


Anoto a referência: O Fluminense. Rio de Janeiro, Nyctheroy, 2 jul 1920, n. 11.356, Anno 43. Releio a notícia. Agora devagar. Aos poucos. Um policial encontrou, anteontem, à tarde, numa barca da Cantareira, em viagem para esta cidade, uma valise contendo várias peças de roupa branca para senhora.

Parei para saborear cada palavra. O policial. Figuro-me o homem surpreso com seu achado. Depois imagino a mala sendo aberta, por certo, já no gabinete da autoridade local.

Roupa branca. Várias peças. E continuei lendo, porque havia mais — havia muito mais dentro daquela pequena valise encontrada na barca que cruzou a Baía de Guanabara em julho de 1920.

Um tesouro. Um achado que prendeu toda minha atenção. Imaginei então 5 amuletos, 1 baralho de cartomante, 1 caderninho de notas, 1 pince-nez com aros de ouro, 1 grampo de tartaruga, grampos pretos, 1 escova de dentes, 1 medalha de prata, 1 atacador, 1 par de meias pretas, 1 nota de 2$000 e 1 cartão de visita pertencente a D. Maria Diniz Bezerra, residente à rua S. José n. 169, no Fonseca.

Esqueci o que eu procurava no jornal. Afinal, encontrei uma valise. Precisava explorá-la, como exploraria um dado da minha pesquisa.

A barca da Cantareira fazia a travessia entre o Rio e Niterói. Em 1920 não havia ponte. Havia a Baía, a barca e gente que ia de uma margem à outra. Havia a dona da mala também.

Mas quem era ela?

O cartão de visita diz D. Maria Diniz Bezerra, Rua São José, 169, Fonseca. Fonseca onde? Procurai e achareis. Bingo: o Fonseca é um bairro de Niterói, confirmei. Explorei: vinte e poucos minutos a pé desde a barca.

Mas o cartão não é necessariamente dela, a dona da valise. Um cartão guardado dentro de uma bolsa pode ser de qualquer pessoa. Pode ser de uma cliente. Pode ser o endereço de onde ela veio ou para onde ela ia. Pode ser nome de alguém que deveria encontrar, ou evitar.

Enfeitiçar?

Como saber?

Quanto mais exploro e olho, menos sei.

Releio o inventário.

Várias peças de roupa branca para senhora. E escova de dentes, e grampos, e meias. Ela ia pousar em algum lugar, ou já havia pousado. A valise estava na volta. Ela vinha de Niterói para o Rio — ou era o contrário? O jornal diz em viagem para esta cidade, e esta cidade que era Niterói. Então ela vinha do Rio.

Ela foi ao Rio trabalhar? Ficou? Dormiu lá? Ou veio para dormir em Niterói, a valise ficou na barca e ela seguiu distraída? Teria vindo a Niterói para ler a sorte da titular do cartão?

Busco respostas no conteúdo da valise.

Cinco amuletos. Não um — cinco. Cada qual com sua função, imagino: proteção, prosperidade, amor, saúde, viagem. Um arsenal. Objetos apotropaicos — linda palavra, apotropaico, que designa objeto que afasta o mal — não afastaram o suficiente. Deixaram-se perder. Ironia silenciosa que o jornal não percebeu. Os cinco amuletos de proteção, esquecidos numa barca, entregues à polícia, listados numa nota de rodapé de O Fluminense.

 

Ela não parece uma amadora.

E o baralho de cartomante? Em 1920, o Rio ― que João do Rio já havia descrito como um “caldeirão espiritual” ― era um lugar onde o catolicismo das novenas se misturava ao espiritismo, aos terreiros, ao ocultismo europeu que chegava de navio. O baralho encontrado na valise bem poderia ser o de Madame Lenormand. Talvez importado da França, com suas trinta e seis cartas já abrasileiradas pelas mãos e gestos de quem as lia. Ou talvez fosse um daqueles baralhos espanhóis, de naipes latinos, lido à moda popular. Penso que a dona da valise bem poderia ser uma cartomante experiente.

O pince-nez de ouro e o grampo de tartaruga dizem que ela não era uma cartomante de esquina. Grampos pretos. Cabelo comprido. Gosto de imaginar que havia certo requinte nessa mulher. Escova de dentes. Autocuidado.

Mas, e o caderninho de notas? Aqui a curiosidade me tortura. O que havia ali? Receitas? Simpatias? Endereços de clientes? Nomes que não deveriam estar escritos em lugar nenhum? Os segredos de outras pessoas, guardados dentro da valise, cruzando a Baía numa tarde de julho e depois depositados no gabinete do Chefe de agentes, na Polícia Central, onde podiam ser procurados. Por qualquer um.

A medalha de prata. O jornal não diz o santo. Detalhe julgado irrelevante. Nossa Senhora? São Jorge? Algum sincretismo que o repórter de 1920 não soube nomear? Os amuletos e a medalha coexistindo na mesma valise dizem algo sobre um Brasil espiritual cuja fé não escolhia entre o sagrado e o profano, entre o altar e o baralho.

O atacador. Um. Só um cadarço, solto na valise. É o detalhe mais humano de toda a lista. Banal.

A nota de 2$000. Dinheiro de passagem, de emergência. O troco que sobrou. Não era pagamento — era o que restava depois de tudo.

De que serve o amuleto que não protege a si mesmo?

Ela esqueceu a valise.

Deve ter sido a pressa.

Talvez chegando ao cais.

Talvez distraída com algum pensamento que ocupava mais espaço do que a valise.

Ela desembarcou.

A barca seguiu.

E depois ― quando já não havia mais como voltar ― percebeu que havia deixado tudo para trás.

Tudo? Bem, talvez só a roupa branca, amuletos, baralho, caderninho, pince-nez, grampo de tartaruga, grampos e meias pretas, medalha, atacador, dois mil réis e o cartão de D. Maria Diniz Bezerra, única revelação perdida nesse emaranhado de suposições.

As circunstâncias, porém, não foram inventariadas.

Elas desapareceram.

A valise ficou depositada no gabinete do Chefe de agentes, na Polícia Central, onde podia ser procurada.

Ela foi procurar?

Não sei. O jornal não voltou ao assunto.

Se voltou, eu não encontrei.

Salvei o recorte que nada tinha a ver com a minha pesquisa.

Fiz um post no blog em agosto de 2015.

Esqueci de tudo isso até hoje. Tantos anos depois, o algoritmo do blogger me avisou de uma visita àquela postagem.

Reli.

Como quem encontra um bilhete perdido no fundo da memória.

O mistério da lista continua sem resposta.

Eu continuo curiosa.

Quisera decifrar a lista. Desvendar todo o sucedido.

Quisera saber por que eu não consigo deixar de me intrigar com essas banalidades.

REVISTA VIDA BRASIL 

23 de janeiro de 2026

TRAGO SEU AMOR DE VOLTA EM ATÉ CINCO DIAS

 

A placa na porta não era promessa, mas garantia. Estava lá, em caixa alta: “TRAGO SEU AMOR DE VOLTA EM ATÉ CINCO DIAS”. Abaixo, em letras menores: “Trabalhos Garantidos ― Amor ― Prosperidade ― Saúde – Consulta com Hora Marcada”. Mas, se o retorno do amor era garantido, a prosperidade passava longe da casinha simples que não reclamava apenas uma boa demão de tinta. As telhas de barro visíveis no beiral ondulado pediam reparo imediato. A única janela visível na fachada tinha uma das venezianas desprendida em parte. A porta de madeira simples abria para uma pequena varanda acessível por meio de dois degraus invadidos pela grama e pelo mato. Aquilo que já fora um jardim parecia agora reservado ao cultivo de vicejantes espadas-de-são-jorge, touceiras de arruda, alecrim, camomila e hortelã.

Um cenário como este exige uma protagonista. E, se o título desta crônica estimulou o leitor a ponto de ultrapassar o primeiro parágrafo e chegar até aqui, ele conhecerá ninguém menos que Valquíria. Vamos a ela.
Valquíria apresenta-se como maga. Entre outras habilidades, diz ser terapeuta holística, xamã e especialista no uso de terapias alternativas, que incluem fisiologia fluídica, cristais e florais. Estudiosa de homologia cósmica, dedica-se à astrologia cármica, à magia natural, pragmática, ritual e cerimonial. Cria sigilos mágicos, talismãs e patuás. Declara profundos conhecimentos dos cultos egípcios, babilônios e atlantes. É taróloga, pratica a geomancia e radiestesia, trabalha com ondas escalares e radiônica. É ligada à Grande Loja Branca do Universo e participa ativamente do movimento Wicca.
Exagero? Não, absolutamente ― dizem seus clientes. Bem, o universo místico é hiperbólico em todos os sentidos, porque ele existe para fazer frente à nossa imaginação. E depois, olhando para Valquíria, não se pode duvidar de suas qualificações. Se você a visse, acredito que compreenderia tudo na mesma hora. Neste dia, ela usava botas pretas de saltos altíssimos que iam até acima dos joelhos. Uma saia preta, de pontas assimétricas, cinto de couro também preto cheio de penduricalhos e fechado por uma grande fivela de metal. A blusa preta de malha muito justa mal continha, do lado de dentro, seios redondos e exageradamente grandes, um deles tatuado ao alto com o desenho de uma estrela de cinco pontas. Os cabelos compridos e vermelhos caíam em cascata pelas costas e ombros, em ondas aqui e ali interrompidas por um tom mais claro e mais chamativo. Eram abundantes e crespos. Faziam desconfiar de um implante camuflado. Não se poderia saber a sua idade. O excesso de maquiagem, a imobilidade do rosto, a espessura dos lábios pintados de vermelho, cílios postiços, sobrancelhas muito altas e finas, desenhadas a compasso, davam ao conjunto um aspecto, no mínimo, marcante.
Valquíria, com suas idiossincrasias, é a resultante lógica do somatório de todos os clichês que repousam, bem escondidos, lá no fundo do poço dos nossos desejos mais ocultos. E, depois de uma decepção amorosa ― eu poderia ter escrito “depois de um pé na bunda” ―, quem não desejaria se afastar da insípida e decepcionante realidade?

Em momentos como este, o “TRAGO SEU AMOR DE VOLTA EM ATÉ CINCO DIAS” até que não parece assim tão absurdo. Pronto! Isso é o bastante para que nossa boa e velha racionalidade entre em “modo racionalizante” e dê início a um processo fatorial que vai de “e se” em “e se” até chegar ao “e se” eu entrasse ali e fizesse uma consulta? Ora, se você entrasse ali e fizesse uma consulta, não ficaria menos decepcionado com o interior da casa simples que já lhe mostrei por fora.
Ao entrar, a primeira coisa que você vê são mandalas. Afinal, elas são guardiãs e filtros. Distribuídas por todas as paredes da salinha de espera, ajudam a mascarar a pintura lascada. Mandalas grandes e pequenas, coladas nas paredes com fita crepe, dão um colorido especial ao ambiente. Você pode se sentar no sofá de dois lugares ou escolher uma das pequenas poltronas. Só tenha cuidado para não tropeçar no prato lascado cheio de sal grosso com sete pimentas vermelhas espetadas. Sim, você já viu isso antes, é claro. A exuberância do arsenal simbólico é indiscutível. No chão, além das pimentas, há um tapete gasto. Graças à janela fechada, o cheiro e a fumaça de incenso são marcantes. Mas os clientes podem se servir de café. Há uma garrafa térmica, copinhos descartáveis, açúcar, adoçante e guardanapos de papel. Na mesma mesinha do café, um calendário de mesa e o valor da consulta: R$ 100,00, com a observação “pagamento adiantado”.
Bem, você já chegou até aqui e seu “modo racionalizante” vai seguir fatorando o preço da consulta, para saber “se” você deve investir ou não em Valquíria. Mas você já entrou. Já escolheu o sofá. Não teve coragem de se servir do café, mas fez o PIX, pensando que todo mundo, uma vez ou outra, paga para ver. E depois, há um detalhe importante. Não se trata mais daquelas cartomantes de antigamente. Não. A pós-modernidade não nos oferece menos do que Valquírias. Logo ― brilhante conclusão dos algoritmos que informam o seu “modo racionalizante” ―, pago o preço ou realizado o PIX, você pode finalmente passar à sala de atendimento, atravessando uma cortina de contas coloridas.
Pronto, você completou mais um estágio.

A sala de atendimento é curiosa. Uma das paredes exibe prateleiras de alto a baixo. Estão lotadas de cristais e pedras. Há também miniaturas de budas gordos, elefantes de gesso com a tromba voltada para cima ― dizem que atrai prosperidade ― e algumas curiosas miniaturas de Ganesha, cujas barrigas servem de suporte a varinhas de incenso. Há anjinhos com asas de glitter, pirâmides de plástico, de pedra e de orgonite. Estas últimas são infalíveis para neutralização de energias negativas. Há também pequenos quadrinhos dos mestres ascensionados e pôsteres de outros personagens New Age que, supostamente, exploram as galáxias vizinhas. Nesta sala maior,
o cheiro de incenso mistura-se com o cheiro das velas coloridas acesas numa bandeja. Uma mesinha auxiliar reúne garrafas com rótulos variados. Há banhos de “descarrego”, de “atração”, de “prosperidade”. A informação é tanta que você nem nota que Valquíria, de pé, sorrindo, lhe oferece uma cadeira.
Pronto. Você nem sentiu, mas já está sentado à mesa coberta com um pano branco e, na sua frente, Valquíria. Ela não está mais sorrindo. Ela olha para você e não diz nada, absolutamente nada. Você, então, presta atenção à mesa e vê baralhos, figas, patuás, um pequeno sino, mais incenso queimando e um copo de vidro embaçado cheio do que deve ser água. Valquíria continua quieta. Você percebe que sua boca está seca. ― E agora, o que vou dizer para esta mulher? ― Valquíria continua quieta. Ela olha para você e, agora, embaralha as cartas. Enfim, algo aconteceu.
Enquanto ela embaralha, você escuta o barulho das pulseiras cheias de bugigangas. Olha para as unhas dela, repara no tamanho das mãos e percebe o esmalte preto lascado. O anel prateado de caveira, usado no indicador da mão direita, faz par com o anel do indicador da mão esquerda, onde aparecem dois ossinhos prateados cruzados em “x”, que acumulam sujeira e resquícios de alguma substância desconhecida. Finalmente, o barulho das pulseiras cessa. Ela coloca as cartas amontoadas bem na sua frente. Só então ela se dirige a você:
― Separe as cartas em cinco montes.
Você escuta. Repara que a voz é firme, áspera e grave.
Você olha para as cartas e vai “cortar” com a mão direita, quando Valquíria lhe interrompe:
― Corte com a mão esquerda!
Você recua então, mas percebe que o processo de separar os montes com a mão esquerda mostra toda a sua insegurança. Com gestos incertos e trêmulos, você consegue separar as cartas em cinco montinhos. Ah! Você também está morrendo de curiosidade e já acha que os cem reais foram pouco, afinal, Valquíria está lhe dando toda atenção. Ela continua econômica nas palavras. Olha para você, depois pega o sininho da mesa, fecha os olhos e toca com força sobre o primeiro dos cinco montes. Você conta: um, dois, três, quatro, cinco, seis… o sininho não para de tocar. Você para de contar. Quando o sino sossega, ela abre a primeira carta para a qual não olha. Sim! Ela não olha para a carta, mas para você:
― Ah! Então você é descrente. Sim, eu posso ver que você é descrente. Mas aqui isso não importa. O tempo é o senhor da razão e os caminhos do destino só podem ser desvendados pelos escolhidos. Mas vejo que você tem uma boa proteção, ou não teria vindo aqui. O que lhe angustia, porém, não é o que você pensa.
― Como assim?
― O que você deseja vai acontecer antes do que você espera. Você se engana e pensa saber o que não sabe. Esta carta mostra o Sol. Diz que você é racional e que acredita somente no
que pode tocar. Você só entende o que sabe explicar. Quando tudo sai diferente, porém, quando os “fatos” não se mostram obedientes àquilo que você supõe, você experimenta a incerteza. E não lida nada bem com ela. E é por isso que está aqui.
Nesse momento você já acha que Valquíria, afinal, não é assim tão bizarra. Ela fala corretamente. É fluente. Talvez essa estranheza seja fruto de seus preconceitos. Afinal, essas coisas todas são kitsch. Conceituais. Simples assim! Pensando bem, ela acertou. Muita gente já ficou magoada com você por conta de seu sarcasmo e ironia.

Você então se atreve a falar.
― Bem, eu não lhe disse que espero alguma coisa.
― E precisa? Você está aqui, não está? E veio à procura de alguma coisa que acha que perdeu. Você abriu com o Sol. Você está saudável e sua vida é próspera. O que lhe falta é confiança. Por isso você duvida, sistematicamente, de tudo e de todos. Veja isso!
Neste instante ela vira para cima a segunda carta.
Mais uma vez não olha para a mesa ao apontar as Nuvens.
― Veja bem. Nuvens. Elas são passageiras. O Sol continua a brilhar atrás delas.
― E as outras cartas? Há mais três.
― Sim, mas elas não respondem por você. Quer ver?
Ela então abre a terceira carta. E lá está o Coração…
― Seu amor é correspondido. A incompreensão que trouxe você até aqui resulta das Nuvens. Perturbações passageiras e desencontros. Agora vou ver o que as outras cartas te mostram.
A quarta carta é aberta. É um Navio. Valquíria segue segura:
― Quem você espera estava longe, mas já voltou. O mar traz de volta todas as emoções, porque a distância é o que fortalece tudo aquilo que vem para ficar.
A essa altura, você já está retomando o controle. Já sente que o cheiro e a fumaça estão demais e sente alívio porque está na hora de abrir a última carta. Mas ela não abre. Volta a tocar o sininho. Concentra-se, murmura algumas palavras incompreensíveis e só depois abre a carta. É a Casa. Ela bate na mesa com o dedo indicador da mão direita, e a caveirinha parece maior ainda, assim como a unha comprida e as lascas do esmalte preto.
― Alguém está à sua espera. Vá para casa!
― Como assim?
― Não é “como assim”! É “bem assim”! Vá para casa. Para sua casa. Não precisa nem voltar aqui para dizer que eu acertei tudo. Vou dar a você alguns cartões com meu telefone. Sei que você conhece mais gente que precisa de mim, dos meus serviços. Agora saia e diga ao próximo cliente que pode entrar.
Está anoitecendo. Você sai de lá e não vê a hora de voltar para casa. Precisa de um banho, porque o cheiro de incenso continua nos seus cabelos e roupas. Finalmente, uma ida ao supermercado e, garantido o jantar, nada como estar de volta. Todavia, com a chave na mão, à porta do prédio, você ouve seu nome e, logo depois:

― Oi, amor! Saudades! Estou te esperando aqui há horas! Desculpa não te avisar! Tive de voltar correndo para a praia, pois o celular ficou lá e…
Daí você não pensa em mais nada.
Nem precisa.
Depressa, examina o bolso do seu casaco e fica contente por não ter jogado no lixo os cartõezinhos de Valquíria, nos quais se lê: “TRAGO SEU AMOR DE VOLTA EM ATÉ CINCO DIAS”.

REVISTA VIDA BRASIL

28 de maio de 2025

PARADOXOS

Ela fala, eu escuto. Não por algum impulso de empatia forçada, mas porque estou ali, à mesa de um café qualquer, com a xícara esfriando e o vapor subindo como um detalhe irrelevante. É sobre um homem. Sobre ele: essa categoria que só as mulheres conhecem. Ele pode ser um projeto de futuro. Ele representa o amor, mas na verdade ele não passa de uma equação mal resolvida. Ouço a história repleta de indiferenças. Para cada falha dele, ela cria uma justificativa. Em último caso, a culpa recai sobre uma suposta outra, que sequer existe, mas que deve existir, com certeza, para o fechamento da equação, para o equilíbrio das coisas, para que o déficit não consuma, de uma só vez, todo estoque de esperança.

Penso em Eugénie Grandet, que gastava seus dias esperando ser vista por ele. Não há poesia nisso, só um padrão repetitivo: a espera como armadilha. Minha amiga não vive no século XIX, mas poderia. Ela constrói castelos que desmoronariam sob o peso da lógica. "Ele vai mudar", diz, como se o futuro dependesse do cumprimento de certas cláusulas de contrato que visam garantir sua felicidade. Eu não digo nada. Em vez disso, aponto o óbvio com um comentário cortante: "Esse cara? Ele acha que o mundo é um espelho dele mesmo." Ela ri, um riso breve, que não disfarça o vazio nos olhos dela. Não é um vazio metafórico, é concreto: a ausência de algo que preencha o tempo vivido além da espera.

Olho para mim e penso no empenho que faço em não depender dessa tal esperança. Talvez porque pense e calcule. Talvez porque tenha medo de parecer patética. Vejo o óbvio, mas posso fingir que ele não existe, porque sei como conferir uma nova versão às coisas, ao mundo, à vida. Faço isso quando misturo farinha, açúcar e suco de laranja numa tigela. Ralo gengibre, misturo canela e o calor do forno perfuma a casa com um cheiro que não explica nada, mas que ocupa todos os espaços. E quando não há farinha, eu escrevo, em cadernos que ninguém lê, frases e histórias que nem sempre publico. Houve um tempo em que plantava sementes em vasos e os colocava na janela, para observar as folhas que cresciam sem alarde. Depois desisti, pois o vento espalhava a terra e as pobres plantas insistiam em morrer, quando eu me esquecia de regá-las. Ou quando eu não fazia nem isso por elas, e as via definhar, pensando que a vida também não acontece por si, a não ser até certo ponto. Tudo porque a morte está sempre presente, à espreita. Mas minha amiga não sabe nada disso. Nem quer saber. Refém do sonho, não cozinha, não escreve, não planta e apenas ele germina em sua vida.

Tento explicar. Penso nos scripts culturais que moldam o que ela reconhece como amor. Regras antigas, papéis de gênero que a Modernidade ainda não apagou, mas que fatalmente apagará, quando daqui partir o último boomer. Mulheres devem ser estratégicas, dizem os ecos de romances baratos e até novelas clássicas. Devem calcular, seduzir, nunca se expor. A sinceridade, nesses scripts, é um erro de amador. Ela parece acreditar nisso, mesmo sem dizer. Ama em segredo, como se admitir o sentimento fosse uma confissão de derrota. Eu não comento. Não porque não me importe, mas porque não sei o que dizer. Desiludi-la seria apontar o óbvio: o amado é uma miragem.

Mas por que eu apagaria a miragem do deserto dela? Para que ela acolhesse e assumisse a rejeição? Rejeição não é mera abstração. É conta que não fecha porque depende do amanhã. Contingente e imponderável, o amanhã não pertence nem a ela, nem a ele, nem a mim. E, além disso, o amanhã dos esperançosos não chega nunca, porque pode ser adiado indefinidamente. E ela “sabe” que só será amanhã quando ele chegar. Penso nas pílulas que prometem felicidade, nos filtros que escondem rugas e verdades. Ela não usa nada disso. Não foge do luto nem da renúncia. Não tem um rosto voltado para o mundo. Ela apenas espera.

O que faço? Escuto, porque é o que posso fazer. Zombo do amado, porque é fácil e porque ela ri. Não digo que a espera é uma escolha nem que escolhas podem ser mudadas. Não porque acredite em grandes viradas, mas porque sei criar futuros. E faço isso quando coloco um novo bolo no forno, quando vejo a tinta desenhar palavras nos meus cadernos. Terra no vaso é promessa cumprida à semente. E depois, histórias bem contadas desafiam o tempo, o destino e a morte.

Hoje ela vai esperar por ele mais uma vez, trocando a vida pelo sonho. E eu, contando essa história, só penso em você que, lendo isso, pensará que não faz sentido. Não importa. Eu só queria mesmo era lembrar você do sabor daquele bolo de laranja. Só não se esqueça do gengibre. Nem da canela. E coma depressa, enquanto seu café não esfria.

REVISTA VIDA BRASIL