22 de junho de 2018

Cinismo na benevolência

"Apesar de tudo, é ainda verdade que sinto quase todas
as cartas, que de há anos me são enviadas, como um cinismo: há
mais cinismo na benevolência para comigo do que em qualquer ódio..."

Friedrich Nietzsche

19 de junho de 2018

Por nada

Simplesmente ali, na porta, pousada.

16 de junho de 2018

Porque o frio voltou,

e as coisas cumprem seu ciclo.

13 de junho de 2018

Solenemente


20 de maio de 2018

Revista Vida Brasil

O Delegado Libertino

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Nesses tempos politicamente corretos em que vivemos, em breve não haverá mais lugar para os chamados mulherengos. O clássico conquistador está em franca extinção, seja porque mudaram as mulheres, seja porque mudou a política de gêneros, seja porque os homens estão, enfim, aprendendo a pensar com uma só cabeça e não com duas. Creio que eles nem mesmo se animam a relatar suas aventuras, que podem dar margem, atualmente, não só às piores interpretações como ainda atrair o opróbrio, o desprezo, talvez mesmo a prisão. Adeus, libertinagem! 

O Delegado Libertino




Mas houve um tempo em que existiram sobre este mundo homens mulherengos, conquistadores inatos, que assediavam, que elogiavam, que davam cantadas e que, simplesmente, não sabiam viver sem estarem envolvidos em alguma confusão, em alguma história complicada, e sempre por causa de uma mulher. Quando me lembro desses conquistadores, me lembro de um em particular, que conheci pessoalmente, e que, no seu tempo, foi um grande e simpático mulherengo. Falo do delegado César, que me contou esta história da qual ele próprio foi o malogrado protagonista.
A indicação para o cargo de delegado em uma pequena cidade de colonização italiana na serra gaúcha foi recebida com alegria pelo então jovem César. Casado há pouco mais de um ano, ele estava também no início de uma carreira que se anunciava como promissora, graças às notas altas e ao excelente aproveitamento na Escola Superior de Polícia. Romântico e metido a conquistador, César tinha um temperamento explosivo que era compensado, porém, pela simpatia pessoal e pela extrema facilidade de se comunicar. Também de origem italiana, revelada no sobrenome bem conhecido no Sul, ele dominava o talian, dialeto vêneto falado na serra gaúcha, e, de modo algum, era estranho aos costumes e à culinária locais.

Transferência acertada, a escolha da moradia não foi problema. Localizado em um bairro alto, o apartamento para onde o jovem casal se mudou era espaçoso, com lareira, inclusive, ― o clima frio da serra o exigia ―, e uma estratégica sacada com vista privilegiada, que se abria para a grande curva que a estrada fazia quando alguém chegava ou deixava a cidade. O trabalho não era cansativo. A delegacia tinha dois funcionários apenas, que davam conta do expediente. A esposa, muito religiosa e dedicada ao lar, mantinha-se convenientemente discreta. ― Digo a esposa, porque, do ponto de vista de homens como César, o universo feminino é composto, em primeiro lugar, por todas as mulheres com quem se pode namorar; depois, em segundo, vêm as amigas, com as quais não se namora; em terceiro e último, vem ela: a esposa, alguém que desempenha funções e que ocupa uma espécie de cargo na vida dos homens. ― É preciso acrescentar que corria então a década de 1970. A religiosidade, os vínculos ancestrais, a fidelidade aos costumes não estimulavam a criminalidade e explicavam a vida pacata do interior, que se desdobrava de segunda a sábado em meio aos sabores de uma culinária riquíssima. Com raros pobres e nenhuma miséria, a população, predominantemente tradicional e fiel à Igreja Católica Apostólica Romana, não se ocupava dos anos de chumbo que, ali, pouco pesavam. A missa matinal aos domingos, mais que uma obrigação, era um acontecimento social, que exigia dos homens o uso de terno e gravata, das mulheres, o véu, branco para solteiras, preto para casadas. Na saída, longe das mulheres, os homens se reuniam no café e, na hora do almoço, as famílias frequentavam os restaurantes, sempre acolhedores, ou se reuniam em casa, na reverenciada companhia de um nono e de uma nona, não raro italianos natos, que nunca se renderam à língua portuguesa e que continuavam a viver exatamente como se estivessem em sua velha e saudosa Itália.
Nesse ambiente, o jipe preto e branco da polícia, quando passava pelas ruas da cidade, era respeitado e temido por uma população italiana de duas ou três gerações que tinha em alta conta o prefeito, o padre e o delegado. A criminalidade local resumia-se ao jogo do bicho, um ou outro entrevero na alegre e comportada zona do meretrício e pequenos furtos, sempre ocasionais. Rixas e quebra-quebras em festas de igreja ou desentendimentos nas ruidosas partidas de mora ― “morra!” ― e no truco. De anotar o caso, que virou ocorrência policial, quando um italiano arrancou o dedo de outro durante uma disputa. As casas mantinham suas portas abertas da manhã à noite. Os carros podiam tranquilamente permanecer com a chave na ignição. Uma agradável rotina, quebrada eventualmente por acidentes nas perigosas estradas, se estabelecia assim para César que, todavia, teve sua atenção despertada por Rosa.
Rosa era jovem e bonita, de pele muito clara e olhos azuis que mantinha quase sempre baixos. Os cabelos eram longos e dourados. Um tanto cheia de corpo, ela não era propriamente gorda, e as roupas simples que usava não disfarçavam a fartura das ancas e dos peitos. Gringona saudável e apetitosa, como César a definiu, Rosa era muito católica e frequentava a igreja e o confessionário. Em suas idas e vindas, passava sempre muito devagar em frente à delegacia. Embora parecesse tímida e mesmo devota, nada disso impediu Rosa de lançar olhares compridos e provocantes ao delegado que imediatamente os retribuiu. Em sociedades onde a moralidade impera soberana, as aparências exigem que as relações sejam castas e respeitosas, o que só serve para tornar ainda mais intensos os gestos, os olhares em especial, na complexa semiologia dos jogos amorosos. E foi assim que Rosa e o delegado acertaram-se quase sem palavras. Queriam-se.
Só havia um pequeno problema. Rosa também era casada. Mas, se a esposa de César era tão discreta quanto indiferente às reiteradas puladas de cerca do marido, o esposo de Rosa era conhecido em toda cidade pela truculência. Caminhoneiro de maus bofes, alto e forte, tinha fama de violento, mas passava a maior parte do tempo viajando e mantinha poucos laços sociais na cidade. O encontro foi acertado para o dia da próxima viagem do marido de Rosa. César, chegada a data prevista para o encontro, agiu normalmente e, na sacada de seu apartamento, fingia distrair-se com um binóculo, observando a curva e a simples e pequena casa de madeira na qual vivia Rosa, também visível dali. E foi assim que ele observou o caminhão deixando a frente da moradia para depois desaparecer, bem devagar, contornando a curva. Era inverno e fazia um frio cortante.  A noite não tardou a cair sobre a cidade, e a desculpa para uma diligência noturna sem hora para voltar foi recebida pela esposa com a naturalidade e a indiferença de sempre.

Blusão de lã, sobretudo, manta no pescoço, lá se foi César, sem desanimar, nem mesmo diante do frio e da cerração que esvaziavam as ruas da cidade. O carro particular foi estacionado a uma distância segura da casa de Rosa. As dobradiças enferrujadas do portão de madeira rangeram. A batida na porta nem foi necessária, pois ela se abriu rapidamente, mal César subira os três degraus do pequeno alpendre. As tábuas do assoalho cederam um pouco sob os passos apressados do delegado, quando este deslizou como uma sombra rumo ao interior da moradia. A pequena sala tinha apenas um sofá e duas poltronas forradas de courvin cor de mostarda. Os encostos do conjunto eram enfeitados com guardanapos de crochê, e os assentos, com almofadas muito coloridas, bordadas à mão. No centro, uma mesinha com tampo assimétrico de fórmica montada sobre três pés de palito acompanhava o mobiliário. Sobre ela, um arranjo de flores artificiais e um cinzeiro. O tapete de retalhos completava o conjunto. Tudo ali traía a domesticidade insuspeita de um lar. A cerimônia de recepção durou pouco tempo, o clássico cafezinho foi logo dispensado e, entre tórridos beijos e apalpações de estilo, o casal, já ofegante pelo desejo, foi direto para o único quarto da casa, tão ou mais simples que a sala. Cama com colcha de retalhos muito coloridos sobre a qual o crucifixo, pendurado da parede, dava fé, ao menos da existência de sérias intenções cristãs de, na medida do possível, evitar o pecado. Talvez aquela divina presença por ali, justamente naquela noite, servisse para lembrar que Deus, quando não joga, fiscaliza.
O frio entrava pela janela que dava para os fundos da casa. Rosa apressou-se em fechá-la, puxando os dois tampões de madeira sobre os quais abaixou a tramela. A simplicidade do ambiente não foi obstáculo para o clima de desejo e, rapidamente, César livrou-se da manta, despiu o sobretudo, o blusão, camisa, calça, meias e sapatos. Mas o diabo, quando faz a panela, esquece a tampa. Estava nosso delegado ainda de cuecas, quando um som cortou a noite e o clima de paixão. O inconfundível barulho do freio a ar de um caminhão Scania se fez ouvir bem de perto, vindo da frente da casa, cortando o silêncio da noite.  “É o meu marido”, disse Rosa baixinho, já tremendo e parecendo apavorada. Ela mal terminou a frase, e César já entrouxava os sapatos e as roupas no sobretudo, enrolando-o como um pacote. Rapidamente, abriu os tampões e pulou a janela, caindo nos fundos da casa, em meio à escuridão, a umidade e o frio inclemente da serra. Atento à conversa, agachado contra a parede, conseguiu ouvir que o caminhoneiro se esquecera do manifesto de carga, documento que viera buscar para logo seguir viagem novamente. Então, explicado o aparecimento repentino, César resolveu melhor ocultar-se na parte mais escura do pátio. Deu apenas alguns passos apressados, quando o chão cedeu sob os seus pés e ele se viu enterrado até a altura do peito em alguma coisa fria, húmida e gelatinosa. Percebeu então que estava metido em uma grande fossa mal coberta por uma fina camada de areia de construção. Sentiu uma dor violenta na sola do pé direito. Não foi difícil adivinhar onde estava. Um cheiro revelador e nauseabundo subiu pelas narinas do pobre delegado que se viu literalmente enfiado em um buraco transbordante de merda.
Explique-se. Casas simples do interior não dispõem de serviço de esgoto, de sorte que são construídas latrinas sobre fossas negras que, contudo, precisam ser trocadas de lugar. A “casinha” é assim deslocada para outra área do terreno, o antigo buraco devendo ser coberto de areia. Foi exatamente isso que aconteceu no pátio da casa de Rosa justo na tarde daquele dia. César caíra na fossa negra. Para piorar tudo ainda mais, sentiu que alguma coisa ferira gravemente o seu pé. Controlando a ânsia de vômito, ele tentou em vão sair do buraco. Quanto mais se mexia, mais se enterrava. Impedido de gritar, gelado de frio, sentindo dor, foi com alívio que ouviu o ruído do caminhão sinalizando a partida do indigitado marido quase traído. Temendo alertar a vizinhança, ele então chamou baixinho: “Rosa, Rosinha”. E nada de Rosa. “Rosa-a-a-a-a-a-a” ― repetia ele, quase cochichando, como se entoasse um mantra. Finalmente a porta dos fundos se abriu e Rosa apareceu, sem, contudo, atinar de onde vinha a voz que chamava por ela. Enfim ouviu: “Rosa-a-a-a, aqui! No buraco!”
O cenário era insólito. César não conseguiu sair da fossa negra mesmo com a ajuda de Rosa. Ela temia sujar-se com os excrementos. Tentaram usar a manta, depois o sobretudo, como se fossem corda. Rosa puxava de um lado, o delegado segurava do outro, mas ela não tinha forças para deslocar os mais de noventa quilos dele que, ferido, encontrava-se limitado em seus movimentos. Diante da inutilidade dos expedientes que tentaram improvisar, foi preciso pedir ajuda. Rosa, a pobre Rosa, teve de ir, o mais discretamente possível, até a casa de Cláudio, inspetor de polícia que morava perto dali, e tentar explicar que o delegado sofrera um acidente e precisava de ajuda.
Todavia, o resgate ainda precisou esperar até que o inspetor Cláudio, impactado com a cena, conseguisse deter o longo e incontrolável acesso de riso que o acometeu tão logo se deu conta do ridículo de toda aquela situação. Sem coragem de aproximar-se dos dejetos, foi com o auxílio de uma taquara de dois metros que ele arrastou seu chefe para fora do buraco. Este saiu dali de bruços, exausto, imundo, fedendo e sangrando. Para piorar, antes de ser conduzido ao pequeno hospital da cidade, foi preciso retirar pelo menos parte do cocô que cobria quase inteiramente o corpo do pobre pecador, o que foi feito por meio de um banho de água gelada, ali mesmo, com uso da mangueira do jardim. César chegou ao hospital enrolado em um cobertor e quase morto de frio. O ferimento era grave, obra de algum caco de vidro, provavelmente parte de uma garrafa quebrada, que penetrara fundo na carne. Foi necessário tratar a ferida dado o alto risco de infecção. O cheiro nauseabundo persistiu na pele mesmo passadas horas do acontecido. Foram três dias de hospital. A cidade inteira murmurava, indiscretamente, que o delegado se acidentara ao pular uma cerca, quando ao encalço de perigoso gatuno que, todavia, jamais foi capturado.
César, mulherengo e libertino convicto, — como todo bom cachorro comedor de ovelha que, como se diz no Sul, só matando —, não desanimou. No hospital, ele foi amparado pela IrmãAngélica, freira pequenina, gentil, jovem e muito bonita. Era ela a encarregada da troca de curativos e dos banhos de benzina aplicados sobre a pele do delegado, carinhosamente, com uso de pequenas e macias buchas de algodão. Mas essa é outra história.


Autor: Maristela Bleggi Tomasini

13 de maio de 2018

Intuição afetiva e intuição intelectual

"Les deux formes de l'intuition: L'intuition affective et l'intuition intellectuelle.

En voulant séparer l'intuition do l'intelligence et la faire dériver du sentiment pur, les philosophes intuitionnistes actuels commettent, je crois, une confusion qu'il semble nécessaire de dissiper. 
Ils opposent, on le sait, l'intuition à l'intelligence et le nom de philosophie anti-intellectualiste traduit cette tendance. Je ne trouve pas cette séparation justifiée. Sans doute le domaine do l'intelligence est distinct de celui du sentiment, mais l'intuition règne dans le premier comme dans le second. 
Il existe à mon sens deux formes d'intuition tout à fait différentes: 1° l'intuition intellectuelle; 2° l'intuition d'origine affective. 
L'intuition intellectuelle détermine la naissance de ces idées spontanées, parfois géniales, inères des grandes découvertes, qui illuminent à certaines heures la pensée du savant. Un Galilée, un Newton, un Poincaré, furent des intuitionnistes intellectuels. Ce dernier l'a lui-même proclamé. 
Les intuitions intellectuelles diffèrent des intuitions sentimentales et ce que les premières appartiennent au monde des idées et les secondes à celui des sentiments. L'intuition d'origine affective ou mystique se traduit par les impulsions inconscientes qui mènent la plupart des êtres et contre lesquelles, mémo chez les esprits supérieurs, la raison lutte avec tant do peine. Les enfants, les femmes, les primitifs, les sauvages, les foules ne sortent guère du domaine des intuitions inconscientes d'origine affective ou mystique. 
Les intuitions intellectuelles étant le privilège d'un petit nombre d'hommes alors que les intuitions d'origine affective ou mystique se rencontrent chez tous, on conçoit facilement pourquoi les philosophies à bases sentimentales sont toujours populaires. 
Chacun y voit la justification d'impulsions que l'antique raison et la vieille morale s'efforçaient de refréner. L'intuitionniste sentimental est souvent un de ces révoltés dont le nom varie suivant les époques. Le romantique de jadis s'inspira de la même philosophie instinctive que les syndicalistes révolutionnaires ou les nihilistes d'aujourd'hui. 
L'intuition sentimentale peut être utile quand elle ne dépasse pas certaines limites, mais une société qui n'aurait pas d'autre guide retournerait vite à la barbarie ancestrale. Si l'on envisage les conséquences du progrès de ces deux ordres d'intuition, affective et intellectuelle, on reconnaît vite que la marche ascensionnelle de la civilisation tient au développement de la dernière et à la diminution de la première. 
Le rôle de l'éducation est de favoriser le développement de l'intuition intellectuelle, celui des codes civils et religieux de refréner les intuitions d'origine affective, vestiges toujours vivants de l'animalité primitive. 
L'idéal serait de maintenir en équilibre ces deux formes d'intuition. « L'esprit a son ordre, dit Pascal, qui est par principe et démonstration, le coeur en a un autre. » Le court exposé qui précède ne pouvait évidemment prétendre refaire une histoire de la philosophie, mais marquer seulement l'évolution des idées qu'elle a laissées dans la pensée humaine et montrer brièvement comment fut conçue par les différents philosophes la notion de vérité." 

LE BON, Gustave. La vie des vérités. Paris: Flammarion, 1914, p.207-2018.
Imagem: Docteur Gustave Le Bom (portrait) / [photographie de presse] / Agence Meurisse, BNF.

11 de maio de 2018

Coisas de Porto Alegre


9 de maio de 2018

Casanova


"— Não aprecio aqueles que compram a nobreza, — disse o imperador José II, dirigindo-se a Casanova, que lhe respondeu:
— E aqueles que a vendem, Sire?"

Fonte: Laforgue, Jean, and M. Charles Samaran. "JEAN LAFORGUE, « ARRANGEUR » FRANÇAIS DES MÉMOIRES DE CASANOVA (Marciac 1782-Dresde 1852)." Annuaire-Bulletin De La Société De L'histoire De France, 1970, 75-86. 

.................................
"Os leitores instruídos adivinharão os nomes de todas as mulheres e homens que eu mascaro, de quem o mundo inteiro não conhece as perfídias, e, minha indiscrição ferindo-os na alma, todos eles gritarão contra mim."

.....................
"A língua francesa, — disse ele em um prefácio , permaneceu manuscrita, de suas Memórias, é a irmã bem amada da minha; eu a visto frequentemente à italiana; eu olho para ela, ela me parece mais bela, ela me agrada mais, ela me faz contente. Seguro na gramática e certo de que nenhum leitor vai me achar obscuro, proibi meu editor de adotar as correções que algum purista constipado se arriscaria a introduzir meu manuscrito "(Livre, 1887, p. 44). Inútil proibição! Jamais um texto literário chegou ao público mais desfigurado do que o Memoirs of Casanova, organizado em francês por Laforgue e em alemão por W. von Schûtz, cada um usando à sua maneira o manuscrito original. Sem dúvida, o francês natural, fluente, gracioso do Professor Laforgue contribuiu grandemente para com a popularidade da obra, mas quanto aquele de Casanova teria sido mais saboroso, em sua falta de jeito e mesmo em sua incorreção! Nosso veneziano, de resto, não escrevia tão mal em francês: poder-se-ia citar, seja em suas outras obras, seja em sua correspondência, páginas irrepreensíveis ou quase.

Fonte: SAMARAN, Jacques. Jacques Casanova vénitien y une vie d'aventurier au xviiie siècle. Paris: Calmann-Lévy, 1914, p. I.

Imagem: Retrato de Casanova aos 63 anos, do frontispício do Isocameron (1788). Fonte: Wikimedia commons.
Tradução livre da autora.

6 de maio de 2018

Casanova e o amor

"O que é, pois, o amor? Malgrado haver lido tudo que pretensos sábios escreveram sobre sua natureza, e malgrado aí filósofos, em envelhecendo é que não admitirei jamais seja ele bagatela ou vaidade. É uma espécie de loucura, sim, mas sobre a qual a filosofia não tem qualquer poder, uma doença à qual o homem está sujeito em todas as idades, e que é incurável, se ela o atinge na velhice. Amor indefinível! Deus da natureza! Amargura da qual vem o mais doce, da qual vem o mais amargo. Monstro divino que não se pode definir senão por paradoxos."


Fonte: Casanova, Giovanni Giacomo (1725-1798). Fonds Casanova. Casanova, Giacomo Girolamo. Histoire de ma vie. Livre II. Imagem: Fragmento da página 100.

29 de abril de 2018

O sétimo dia

Domingos. Deveria haver um jeito de transformar os domingos em dias menos inúteis. Há sempre um clima de desperdício que é preciso exorcizar, varrer para bem longe. Tudo parado para esperar uma segunda que chega, não raramente, antes da hora. 
Talvez eu devesse ir à missa.
Mas vou ao cinema.

26 de abril de 2018

Altos e baixos da cidade


Tempo

Tempo é um luxo.

21 de abril de 2018

Reflexo

Pura ilusão, sim. Mas é real.

20 de abril de 2018

REVISTA VIDA BRASIL

O diagnóstico de Cervantes

sábado, 14 de abril de 2018

O diagnóstico de Cervantes “Encheu-se-lhe a fantasia de tudo que achava nos livros, assim de encantamentos, como pendências, batalhas, desafios, feridas, requebros, amores, tormentas, e disparates impossíveis; e assentou-se-lhe de tal modo na imaginação ser verdade toda aquela máquina de sonhadas invenções que lia, que para ele não havia história mais certa no mundo.”

O diagnóstico de Cervantes

 
Miguel de Cervantes, falando de seu Dom Quixote.

Era uma vez um quando em que as coisas eram tão singelas que a gente simplesmente escrevia. Do outro lado, alguém nos encontrava. Não nos estranhávamos. Nem eu à minha escrita, nem o leitor ao que lia. Antes nos reconhecíamos.
Mas esse quando passou, ou desapareceu, ou não está mais ao alcance da minha consciência. Foi substituído por este presente incerto, instável, onde as coisas não são o que parecem ser. Nem as pessoas. Estas se me afiguram tão irresgatáveis quanto as palavras, aquelas que então livremente seguiam escrita afora, sem medo algum de serem distorcidas. Com prodigalidade, apareciam enfileiradas atrás do cursor ou da ponta do grafite macio que gosto de usar na lapiseira deslizante sobre o papel. Esse detalhe importa ao leitor? Acredito que sim. Explico. Cervantes encerra seu Dom Quixote assumindo o herói que nascia dele, para praticar as ações que ele escrevia com uma pena de avestruz que nos é descrita como grosseira e mal aparada. E isso então não prova que se escreve mais pela escrita em si do que pelas ideias? Eis uma tese não mais esdrúxula do que muitas que nos cercam.
Falo, enfim, de um quando nostálgico: eu nem sabia o que ia escrever, e a escrita acontecia. Não era necessário ser calculista. Não era necessário ser metódico, nem dizer precisamente alguma coisa comprometida com um sentido qualquer. Porque quem confere sentido ao que lê é o leitor. Tampouco era preciso anunciar de antemão exatamente do que se ia falar nem como se ia falar desse quê, para, finalmente, concluir alguma coisa.
O leitor sempre me adivinhava. Reconhecia aquelas pistas secretas escondidas entre pontos, vírgulas e travessões. Hoje duvido do que reconheço nesse real proteiforme. Porque me assustam as mudanças de humor quixotescas nas quais se precipita uma gente que, até bem pouco, me parecia tão normal. É. Normal. Tipo assim: previsível, ponderada, receptiva às linhas que minha escrita deixava atrás de si. Mas não. Deparo-me com gente que ataca ideias com o mesmo ímpeto do herói de Cervantes, quando ele investia contra moinhos de vento.

A outra opção seria a minha anormalidade e não a dos outros. Será? Longe de mim descartá-la. Mas não. Aliás, faz tempo que eu não surto. Vai ver são os hormônios repostos que impedem as terríveis oscilações onde calor e frio se alternam com sorrisos e lágrimas. Até que sou estável. Então, resta-me desconfiar do resto do mundo, que não se deixa resgatar de quando algum.
Confesso que tenho experimentado uma brutal falta de referências para me relacionar em um ambiente que se bipolariza. Mesmo vivendo em um estado da federação onde as coisas são muito coloradas ou muito gremistas, onde a identidade não é um conceito, mas uma prática cotidiana que se evidencia no sotaque, no mate, no vestuário. Posso conviver sem maiores estranhamentos com tais hábitos, ainda que com eles não me identifique. Sou tolerante. Só que ultimamente...
Talvez nem devesse escrever isso. Mas como o leitor é sempre uma referência querida, fico a imaginar que talvez haja mais gente que às vezes se sinta à parte do resto do mundo. Afinal, por que devo estar posicionada estrategicamente aqui ou lá? Alienada não sou. Jamais me alienaria de minhas contradições, renunciando a qualquer coisa ou a qualquer afeto meu em nome de uma coerência que me fosse estranha, de uma natureza que não fosse a minha. Podemos experimentar ideias e palavras, tanto quanto podemos, ― talvez mesmo devamos ―, exercitar a alteridade. Ser um pouco o outro e descobri-lo como a um personagem. Eu até tento. Mas a obviedade que tenho descoberto por aí me desanima profundamente, porque moldada sobre uma lógica meramente ideológica, que não dá lugar aos pesos e às medidas ditadas por nossos afetos. Uma lógica pobre, que investe pesadamente em um arsenal demagógico e vazio. Há ideologias alienantes por si próprias, uma vez que continuamente nos posicionam frente a um inimigo. Porque — diz-se — toda política requer um inimigo, um adversário, algo a combater.
Claro, aí penso em Dom Quixote, em cuja história, todavia, eu não me encaixo. Careço de donzelice para ser Dulcineia. Para Sancho Pança, falta-me o jumento, a pinta de patriarca, a expectativa de governar uma ilha. Sobra-me, então, Rocinante? O eterno companheiro de todos os caminhos e carreiras percorridos pelo romântico, mas obtuso herói, que recomendou expressamente jamais fosse este seu cavalo esquecido por nenhum cronista de sua história. Toda essa comparação me ocorre porque Dom Quixote é um personagem anacrônico. Em plena Renascença ele vivia uma fantasia medieval, imerso em um doce romantismo de cavalaria, idealizando o mundo e a mulher amada. Inofensivo, no caso dele. Mas iludido. Sinto o resto do mundo que me cerca um pouco assim. Singularmente irracional, crédulo, presa fácil de frases de efeito, não raramente reducionistas e pretensiosas. Nem sempre, porém, inofensivas. Talvez sejam ainda os encantamentos, as pendências, as batalhas, os desafios, as feridas, os requebros, os amores, as tormentas e, enfim, ― por que não? ―, os tais disparates impossíveis.

Não falo apenas do que vemos hoje mais perto de nós. O mundo inteiro parece estar polarizado moralmente, como se todos reagissem a ameaças potencialmente identificadas com outro que, em tese, é diferente, ou hostil, ou por qualquer razão nos parece como tal. Armagedom: entre o bem e o mal. O tempo como referência desaparece. Porque ele não empresta mais aos fatos um sentido, uma coerência interna, sistemática. Falo de quando havia o antes e o depois. Hoje vivemos uma realidade que materializa o que foi uma vez a asserção metafísica que afirmava que são os efeitos que criam as suas próprias causas, e não o inverso. Porque as coisas podem, finalmente, ser exatamente o que queremos que elas sejam, e motivadas por elementos que nos damos ao luxo de escolher. Inventamos uma nova razão que se parece demais àquela que enfeitava a nossa infância narcísica, quando então tudo e todos conspiravam para que não nos frustrássemos. Heróis desse agora com cavalos que falam uma língua que não é necessário aprender, porque ela sempre nos diz aquilo que desejamos ouvir.
Percebo-me como alguém fora do tempo, como habitante de um planeta onde a até espacialidade já sucumbiu. Tudo acontece aí simultaneamente, mas não consigo mais encontrar o conforto de algum outro que não me venha cheio das novidades de um amanhã que acontece agora. Não encontro mais em ninguém — nem em você talvez — aquele distanciamento filosófico mágico que pode situar a dialética em polos que não precisam, necessariamente, nos polarizar também, absorvendo-nos, a nós e à nossa liberdade que pode, sim, não ser senão renúncia.
Queria mesmo era poder conversar sobre essas coisas sem que elas signifiquem coisas minhas ou suas. Apenas almejo a liberdade de primeiro contemplar e depois, quem sabe, entender não causas e consequências lineares, mas todo esse imenso processo que nos transforma em delicados que alguém divide, alistando-nos uns de um lado, outros de outro, designando ódios recíprocos, temperados com rancores amargos, desenterrados de memórias imprecisas, obedientes a interesses.
Penso sempre que o que se perde nesse desgaste é irrecuperável, porque não se trata de literatura, de idealidades. Porque nos leva pessoas, nos subtrai amigos, nos força a conviver com gente que nos estranha e que estranha inclusive a si mesma. O diagnóstico de Cervantes é apenas metáfora. E não há o que fazer, porque a realidade não pode competir com sonhos e fantasias. Ela recua, humildemente, por vezes não encontrando sequer um aonde ir ou ficar, buscando enfim esse quando do qual me perdi um dia. 




Autor: Maristela Bleggi Tomasini

19 de abril de 2018

Coisa de vitrine, etc.


18 de abril de 2018

Palavras


Amado da minha saudade.
Eternamente. 
Porque minha vida será para sempre antes e depois de ti.
Tua perda irreparável me entristeceu, mas meu amor continua existindo, e é dessa existência que se alimenta a saudade imensa que tenho de ti, e na qual eu queria me consolar.
Mas tua morte é sem remédio.
É sem consolo.
Para ela, apenas palavras, que estas eu ainda as tenho.

10 de abril de 2018

Azul!


Reclames de Antigamente

A Cigarra, São Paulo, 15 jul 1914, n. 6, ano I.

8 de abril de 2018

Como se pode ser pagão?


Eu escrevi este livro, como de hábito, para todos e para ninguém. Para aqueles, sobretudo, que não conhecerei jamais. Uma nostalgia aí se exprime: é uma nostalgia do futuro. O tempo de interpretação do mito, infelizmente, é também aquele do desaparecimento dos deuses. Em uma época neoprimitiva pelo próprio fato de sua atualidade, em uma época profundamente vazia a par de sua plenitude, em uma época onde tudo é simulacro e experiência forclose, onde tudo é espetáculo, mas onde não há mais olhos para ver, em uma sociedade onde surgem novas formas de totalitarismo e de exclusão, sociedade sempre sussurrante de ódios recozidos, sussurrante do inautêntico e do não essencial, em uma sociedade onde morre a beleza, sociedade do fim da historia, sociedade do último homem onde tudo se afunda no Ocidente ― no Oeste absoluto, transatlântico, de uma história que foi grande ― este livro quer lembrar a possibilidade de uma paisagem, a possibilidade de uma representação espiritual consonante com a beleza de um quadro, de um rosto, de um acordo com a fé de um povo de um povo sustentado pela esperança e pela vontade de um viver um novo começo.
Está aí, compreenda-se, um livro de desejos, de lembranças, de dúvidas e de paixões.

Alain de Benoist

BENOIST, Alain. Comment peut-on être païen?. Paris: Éditions Albin Michel, 1981, p. 12-13. Tradução minha.



5 de abril de 2018

Entendeu? Ou quer que desenhe?