21 de abril de 2018

Reflexo

Pura ilusão, sim. Mas é real.

20 de abril de 2018

REVISTA VIDA BRASIL

O diagnóstico de Cervantes

sábado, 14 de abril de 2018

O diagnóstico de Cervantes “Encheu-se-lhe a fantasia de tudo que achava nos livros, assim de encantamentos, como pendências, batalhas, desafios, feridas, requebros, amores, tormentas, e disparates impossíveis; e assentou-se-lhe de tal modo na imaginação ser verdade toda aquela máquina de sonhadas invenções que lia, que para ele não havia história mais certa no mundo.”

O diagnóstico de Cervantes

 
Miguel de Cervantes, falando de seu Dom Quixote.

Era uma vez um quando em que as coisas eram tão singelas que a gente simplesmente escrevia. Do outro lado, alguém nos encontrava. Não nos estranhávamos. Nem eu à minha escrita, nem o leitor ao que lia. Antes nos reconhecíamos.
Mas esse quando passou, ou desapareceu, ou não está mais ao alcance da minha consciência. Foi substituído por este presente incerto, instável, onde as coisas não são o que parecem ser. Nem as pessoas. Estas se me afiguram tão irresgatáveis quanto as palavras, aquelas que então livremente seguiam escrita afora, sem medo algum de serem distorcidas. Com prodigalidade, apareciam enfileiradas atrás do cursor ou da ponta do grafite macio que gosto de usar na lapiseira deslizante sobre o papel. Esse detalhe importa ao leitor? Acredito que sim. Explico. Cervantes encerra seu Dom Quixote assumindo o herói que nascia dele, para praticar as ações que ele escrevia com uma pena de avestruz que nos é descrita como grosseira e mal aparada. E isso então não prova que se escreve mais pela escrita em si do que pelas ideias? Eis uma tese não mais esdrúxula do que muitas que nos cercam.
Falo, enfim, de um quando nostálgico: eu nem sabia o que ia escrever, e a escrita acontecia. Não era necessário ser calculista. Não era necessário ser metódico, nem dizer precisamente alguma coisa comprometida com um sentido qualquer. Porque quem confere sentido ao que lê é o leitor. Tampouco era preciso anunciar de antemão exatamente do que se ia falar nem como se ia falar desse quê, para, finalmente, concluir alguma coisa.
O leitor sempre me adivinhava. Reconhecia aquelas pistas secretas escondidas entre pontos, vírgulas e travessões. Hoje duvido do que reconheço nesse real proteiforme. Porque me assustam as mudanças de humor quixotescas nas quais se precipita uma gente que, até bem pouco, me parecia tão normal. É. Normal. Tipo assim: previsível, ponderada, receptiva às linhas que minha escrita deixava atrás de si. Mas não. Deparo-me com gente que ataca ideias com o mesmo ímpeto do herói de Cervantes, quando ele investia contra moinhos de vento.

A outra opção seria a minha anormalidade e não a dos outros. Será? Longe de mim descartá-la. Mas não. Aliás, faz tempo que eu não surto. Vai ver são os hormônios repostos que impedem as terríveis oscilações onde calor e frio se alternam com sorrisos e lágrimas. Até que sou estável. Então, resta-me desconfiar do resto do mundo, que não se deixa resgatar de quando algum.
Confesso que tenho experimentado uma brutal falta de referências para me relacionar em um ambiente que se bipolariza. Mesmo vivendo em um estado da federação onde as coisas são muito coloradas ou muito gremistas, onde a identidade não é um conceito, mas uma prática cotidiana que se evidencia no sotaque, no mate, no vestuário. Posso conviver sem maiores estranhamentos com tais hábitos, ainda que com eles não me identifique. Sou tolerante. Só que ultimamente...
Talvez nem devesse escrever isso. Mas como o leitor é sempre uma referência querida, fico a imaginar que talvez haja mais gente que às vezes se sinta à parte do resto do mundo. Afinal, por que devo estar posicionada estrategicamente aqui ou lá? Alienada não sou. Jamais me alienaria de minhas contradições, renunciando a qualquer coisa ou a qualquer afeto meu em nome de uma coerência que me fosse estranha, de uma natureza que não fosse a minha. Podemos experimentar ideias e palavras, tanto quanto podemos, ― talvez mesmo devamos ―, exercitar a alteridade. Ser um pouco o outro e descobri-lo como a um personagem. Eu até tento. Mas a obviedade que tenho descoberto por aí me desanima profundamente, porque moldada sobre uma lógica meramente ideológica, que não dá lugar aos pesos e às medidas ditadas por nossos afetos. Uma lógica pobre, que investe pesadamente em um arsenal demagógico e vazio. Há ideologias alienantes por si próprias, uma vez que continuamente nos posicionam frente a um inimigo. Porque — diz-se — toda política requer um inimigo, um adversário, algo a combater.
Claro, aí penso em Dom Quixote, em cuja história, todavia, eu não me encaixo. Careço de donzelice para ser Dulcineia. Para Sancho Pança, falta-me o jumento, a pinta de patriarca, a expectativa de governar uma ilha. Sobra-me, então, Rocinante? O eterno companheiro de todos os caminhos e carreiras percorridos pelo romântico, mas obtuso herói, que recomendou expressamente jamais fosse este seu cavalo esquecido por nenhum cronista de sua história. Toda essa comparação me ocorre porque Dom Quixote é um personagem anacrônico. Em plena Renascença ele vivia uma fantasia medieval, imerso em um doce romantismo de cavalaria, idealizando o mundo e a mulher amada. Inofensivo, no caso dele. Mas iludido. Sinto o resto do mundo que me cerca um pouco assim. Singularmente irracional, crédulo, presa fácil de frases de efeito, não raramente reducionistas e pretensiosas. Nem sempre, porém, inofensivas. Talvez sejam ainda os encantamentos, as pendências, as batalhas, os desafios, as feridas, os requebros, os amores, as tormentas e, enfim, ― por que não? ―, os tais disparates impossíveis.

Não falo apenas do que vemos hoje mais perto de nós. O mundo inteiro parece estar polarizado moralmente, como se todos reagissem a ameaças potencialmente identificadas com outro que, em tese, é diferente, ou hostil, ou por qualquer razão nos parece como tal. Armagedom: entre o bem e o mal. O tempo como referência desaparece. Porque ele não empresta mais aos fatos um sentido, uma coerência interna, sistemática. Falo de quando havia o antes e o depois. Hoje vivemos uma realidade que materializa o que foi uma vez a asserção metafísica que afirmava que são os efeitos que criam as suas próprias causas, e não o inverso. Porque as coisas podem, finalmente, ser exatamente o que queremos que elas sejam, e motivadas por elementos que nos damos ao luxo de escolher. Inventamos uma nova razão que se parece demais àquela que enfeitava a nossa infância narcísica, quando então tudo e todos conspiravam para que não nos frustrássemos. Heróis desse agora com cavalos que falam uma língua que não é necessário aprender, porque ela sempre nos diz aquilo que desejamos ouvir.
Percebo-me como alguém fora do tempo, como habitante de um planeta onde a até espacialidade já sucumbiu. Tudo acontece aí simultaneamente, mas não consigo mais encontrar o conforto de algum outro que não me venha cheio das novidades de um amanhã que acontece agora. Não encontro mais em ninguém — nem em você talvez — aquele distanciamento filosófico mágico que pode situar a dialética em polos que não precisam, necessariamente, nos polarizar também, absorvendo-nos, a nós e à nossa liberdade que pode, sim, não ser senão renúncia.
Queria mesmo era poder conversar sobre essas coisas sem que elas signifiquem coisas minhas ou suas. Apenas almejo a liberdade de primeiro contemplar e depois, quem sabe, entender não causas e consequências lineares, mas todo esse imenso processo que nos transforma em delicados que alguém divide, alistando-nos uns de um lado, outros de outro, designando ódios recíprocos, temperados com rancores amargos, desenterrados de memórias imprecisas, obedientes a interesses.
Penso sempre que o que se perde nesse desgaste é irrecuperável, porque não se trata de literatura, de idealidades. Porque nos leva pessoas, nos subtrai amigos, nos força a conviver com gente que nos estranha e que estranha inclusive a si mesma. O diagnóstico de Cervantes é apenas metáfora. E não há o que fazer, porque a realidade não pode competir com sonhos e fantasias. Ela recua, humildemente, por vezes não encontrando sequer um aonde ir ou ficar, buscando enfim esse quando do qual me perdi um dia. 




Autor: Maristela Bleggi Tomasini

19 de abril de 2018

Coisa de vitrine, etc.


18 de abril de 2018

Palavras


Amado da minha saudade.
Eternamente. 
Porque minha vida será para sempre antes e depois de ti.
Tua perda irreparável me entristeceu, mas meu amor continua existindo, e é dessa existência que se alimenta a saudade imensa que tenho de ti, e na qual eu queria me consolar.
Mas tua morte é sem remédio.
É sem consolo.
Para ela, apenas palavras, que estas eu ainda as tenho.

10 de abril de 2018

Azul!


Reclames de Antigamente

A Cigarra, São Paulo, 15 jul 1914, n. 6, ano I.

8 de abril de 2018

Como se pode ser pagão?


Eu escrevi este livro, como de hábito, para todos e para ninguém. Para aqueles, sobretudo, que não conhecerei jamais. Uma nostalgia aí se exprime: é uma nostalgia do futuro. O tempo de interpretação do mito, infelizmente, é também aquele do desaparecimento dos deuses. Em uma época neoprimitiva pelo próprio fato de sua atualidade, em uma época profundamente vazia a par de sua plenitude, em uma época onde tudo é simulacro e experiência forclose, onde tudo é espetáculo, mas onde não há mais olhos para ver, em uma sociedade onde surgem novas formas de totalitarismo e de exclusão, sociedade sempre sussurrante de ódios recozidos, sussurrante do inautêntico e do não essencial, em uma sociedade onde morre a beleza, sociedade do fim da historia, sociedade do último homem onde tudo se afunda no Ocidente ― no Oeste absoluto, transatlântico, de uma história que foi grande ― este livro quer lembrar a possibilidade de uma paisagem, a possibilidade de uma representação espiritual consonante com a beleza de um quadro, de um rosto, de um acordo com a fé de um povo de um povo sustentado pela esperança e pela vontade de um viver um novo começo.
Está aí, compreenda-se, um livro de desejos, de lembranças, de dúvidas e de paixões.

Alain de Benoist

BENOIST, Alain. Comment peut-on être païen?. Paris: Éditions Albin Michel, 1981, p. 12-13. Tradução minha.



5 de abril de 2018

Entendeu? Ou quer que desenhe?


31 de março de 2018

Reclames de Antigamente

A Cigarra, São Paulo, 15 jul 1914, n. 6, ano I.

30 de março de 2018

Arte e Verdade

A arte não tem a verdade como seu objeto. Nós devemos pedir a verdade às ciências, porque a verdade é objeto delas; não se deve pedi-la à literatura, que não a tem e que não pode ter como objeto senão o belo.

Anatole France
Le Jardin d'Epicure

28 de março de 2018

Onde estarás?

Tanto tempo depois de te encontrar e fotografar, onde estarás? Pelas ruas de uma cidade sempre envolta em nevoeiros, numa escala de cinzas e agora de saudades, revejo esta imagem e me perco no teu olhar, que oscila entre a meiguice, a curiosidade e o receio. Nunca te esqueci. Em que pese a brevidade do nosso encontro, do instante fugidio da fotografia, sempre serás o meu cachorro preto de Paranapiacaba, hoje tão distante, tão nunca mais. Só posso esperar que tenhas encontrado em teu caminho um tanto dessa generosidade que os humanos, às vezes, são capazes de dispensar e da qual, tu e os teus, são tão ricos e tão pródigos.


27 de março de 2018

Todos os cães do mundo

Este, e todos os outros cães do mundo, me fazem lembrar de ti, meu querido e inesquecível Alex. Através da tua memória, amo todos e cada um dos teus irmãos, cada qual a seu modo. Porque teu amor me transformou. Busco nessa minha saudade sem fim o teu olhar em todos os olhares doces e meigos que encontro. E mesmo sabendo que nada te trará de volta, porque a morte é inexorável como o destino e o tempo, revivo, nesta minha dor sem fim, toda a esperança que eu não tenho.



24 de março de 2018

Andando por aí

nas calçadas sobre as quais se abrem esses infinitos.

23 de março de 2018

Ingredientes do Urbano

Quando se olha para lugar nenhum, pode-se ver tudo aquilo pelo que não se esperava. Esses planos, essas perspectivas inesperadas, onde coqueiros, pedestres e bicicletas se misturam na cidade como ingredientes do urbano.

22 de março de 2018

Sensibilidades


"As sensibilidades seriam, pois, as formas pelas quais indivíduos e grupos se dão a perceber, comparecendo como um reduto de representação da realidade através das emoções e dos sentidos. Nesta medida, as sensibilidades não só comparecem no cerne do processo de representação do mundo, como correspondem, para o historiador da cultura, àquele objeto a capturar no passado, à própria energia da vida. Sensibilidades se exprimem em atos, em ritos, em palavras e imagens, em objetos da vida material, em materialidades do espaço construído. Falam, por sua vez, do real e do não real, do sabido e do desconhecido, do intuído ou pressentido ou do inventado. Sensibilidades remetem ao mundo do imaginário, da cultura e seu conjunto de significações construído sobre o mundo. Mesmo que tais representações sensíveis se refiram a algo que não tenha existência real ou comprovada, o que se coloca na pauta de análise é a realidade representação. Sonhos e medos, por exemplo, são realidades enquanto sentimento, mesmo que suas razões ou motivações, no caso, não tenham consistência real".[1]




[1] PESAVENTO, Sandra Jatahy. História e história cultural. Belo Horizonte: Autêntica, 2003, p. 58, in WEBER SANTOS, Nádia Maria, A sensibilidade na vida e obr da historiadora Sandra Pesavento. A questão da interdisciplinaridade, postura crítica e a História Cultural. Fenix, Revista de História e Estudos Culturais, Vol V6, ano VI, n. 3, http://www.revistafenix.pro.br/vol20nadia.php, acesso em 24/07/2011.

21 de março de 2018

A vida como ela é

ÚLTIMA HORA, 06 de abril de 1960, Rio de Janeiro.

20 de março de 2018

Saudade sem fim

Tantos dias já que partiste, Alex, e a minha saudade só faz aumentar. Por mais que eu tente imaginar que tua morte faz parte do curso natural da vida, tua ausência permanece como um estado de dor. Por mais que eu tenha doado todas as coisas que cercavam a tua existência, elas permanecem comigo,existindo aqui e ali, nos cantos onde a tua água não podia faltar, no armário onde todos os teus remédios eram armazenados em ordem, na geladeira onde os potinhos da tua comida, que eu fazia com tanto amor, eram enfileirados. Teu perfume invade o meu olfato inesperadamente, quando menos espero. Imagino que poderia ser a tua alminha tentando consolar-me. Mas não me dou ao luxo de crer, e o além permanece distante do meu pouco entendimento. Só queria é não ter te perdido. Só queria que pudesses ter ficado mais um pouco comigo. Só não me conformo é que nossa história tenha chegado ao fim. Quanta saudade, Alex. Quanta falta fazes ao meu lado, meu guia, meu guardião, meu amado companheiro nessa vida que agora me parece tão sem propósito. Por que não me ensinaste a viver sem a tua companhia? Eu, que sei tantas coisas, me vejo aqui, nesses desencontro, doendo a tua saudade sem fim.

19 de março de 2018

Tem que ter reflexo

Se sou amado,
quanto mais amado
mais correspondo ao amor.

Se sou esquecido,
devo esquecer também,
Pois amor é feito espelho:
-tem que ter reflexo.
Pablo NerudaFonte: O Pensador

Coisas do anoitecer


18 de março de 2018

Revista Vida Brasil

Dai à história o que é da história e à memória o que ela escolher

sexta-feira, 16 de março de 2018

Por que se importar com o cotidiano de gente comum que vive a cidade? Uma cidade. Qualquer cidade. O que fazer dessas memórias de um dia a dia que não é história? Fragmentos da vida de gente simples, humilde, que ocupa calçadas com cadeiras e conversa enquanto a Avenida Paulista dá passagem às massas? Que importa?Muito talvez.

Dai à história o que é da história e à memória o que ela escolher



Porque cidades são únicas, por mais que se assemelhem. Únicas, em toda extensão desse termo. Porque é no que se diferenciam que reside muito justamente o ethos que elas, ― cada qual a seu modo ―, conferem a seus cidadãos citadinos. Por isso, falar de cidades é falar de suas idiossincrasias. Assim o nevoeiro místico de Paranapiacaba ou o doce balanço das bandeirinhas em festa nas ruas de Mogi das Cruzes, para sempre louvadas pelo pincel de Volpi.
Nossas cidades nos identificam talvez mais ainda que as nações. Todavia, essa maior ou menor importância conferida às cidades tem parte com a história às vezes; outras, com a memória. Algumas a história, a grande história, perpetuou. Outras têm de seu apenas a memória e o culto citadino e cotidiano das vidas nelas vividas por sua gente. Por isso talvez se possa bem dizer que cidades vivem entre a memória e a história, e que saber um pouco sobre isso pode ter lá a sua importância.
E tem. 

Especialmente nesse tempo em que vivemos, nesse quando presente para nós, pacatos cidadãos, para quem a grande história não mais importa tanto quanto outrora, naqueles tempos em que não éramos nem poderíamos ser dela os protagonistas. É que o homem comum tem vencido essa luta e, por memoráveis caminhos, vem adquirindo lá o seu protagonismo, que só faz aumentar. Verdade que isso se deve bem mais ao fato de ele movimentar o mercado do que ao reconhecimento de sua cidadania e dignidade como pessoa humana no mundo. Todavia, aqui importa dizer que o comum dos homens tornou-se protagonista da história há pouco mais de um século para cá. Desde então o grande vem cedendo lugar ao pequeno, e isso se fez marcar por um retorno quase que obsessivo à memória.
Lembrar importa cada vez mais.
Mas como dar à história o que é da história e à memória o que é dela ou, na verdade, tão nosso afinal? Porque frequentemente se vê uma disputa entre memória e história, em que pese sejam ambas muito diferentes. Há uma forma clara de se perceber essa diferença. A história é de ordem cognitiva e tem o tempo como sua matéria prima. É inteligível na medida em que podemos compreender a passagem do tempo na inexorável separação entre o ontem e o hoje. Ela, história, consiste em um saber ou, no mínimo, tem pretensões a tanto, ao buscar uma universalidade propícia a generalizações, em que pese o fato de eventos passados não poderem ser replicados. Comprometida com a verdade, se esta última se torna inapreensível ou quase metafísica, ela, história, não se contenta com menos do que a verossimilhança. Já a memória é de ordem ideológica, portanto, é franca e assumidamente seletiva. Sua matéria prima é a emoção, e podemos compreender a memória à medida que seus apelos encontram resposta na reciprocidade do outro em nós, na alteridade, portanto. Escolhe-se o que se quer lembrar e o que se deseja esquecer.  Na ordem do cotidiano de gente comum, a memória se perde, caso não seja registrada de algum modo. Basta ver quantas histórias contadas em cartas, quantos fatos gravados em agendas, quantos segredos confidenciados a diários, fora rascunhos, anotações, cartões, lembranças, convites, listas de compras. E isso apenas no âmbito privado da memória, das pertinências que tem com o íntimo de cada um. Haveria ainda o dia a dia sociabilizado nas práticas festivas, nas pequenas publicações, na imensa pluralidade de construções que a imprensa permite, nas notícias perdidas em um rodapé de página, nos convites para enterro, nas participações de noivados, núpcias e nascimentos. Tantas coisas que aparecem no mundo, muitas insuspeitas da importância que a corrida arquivística, todavia, só faz revelar. Tudo porque esse tipo de documento tem merecido atribuição crescente de valor, especialmente nas últimas décadas.
Mas como relacionar história e memória?

Tudo depende muito do que se busca encontrar. Quando a história se vale da memória, quando interroga um documento, um suporte memorável, tem por dever, em uma primeira abordagem, identificar o objeto, sua origem, seu tempo e as circunstâncias todas que cercaram o seu aparecimento no mundo. Portanto, diante de memórias, desde o seu suporte material até o seu conteúdo ideológico, tudo isso merece um exame cuidadoso da parte do historiador, que deve fazê-lo muito antes de tratar da história propriamente dita.  Muitos poderão argumentar que também a memória se posiciona dessa forma, mas a resposta é que não, nem sempre. Sobre o operador de memórias essa regra não pesa de forma tão decisiva. Basta ver que é possível registrar memória de fatos míticos, e ainda de fatos nunca provados em termos históricos. Há museus de seres imaginários e mesmo de extraterrestres. Podem-se coletar lembranças de uma comunidade perpassada de mitos e lendas, onde sacis e boitatás ganham existência real. Tudo o que representa o ideário humano pode ser apropriado livremente pela memória. Não se trata, para o operador da memória, do valor informativo daquele registro, mas de seu potencial de representatividade imediato, compartilhável entre presentes, algo que também informa, naturalmente, mas em outra esfera do saber. Memória não é passado, mas um presente vivenciado na esfera das sensibilidades, dos sentires, das emoções. A memória prescinde de qualquer neutralidade.
Assim é que, quando se deseja operar na ordem das memórias, quase nunca se busca o valor informativo real e generalizável, a qualidade altamente verossímil de um dado documento, tanto do ponto de vista de sua materialidade quando do ponto de vista de seu conteúdo ideológico, sempre coerente, sempre relacionável ao tempo a que pertence quanto às circunstâncias que cercaram o seu aparecimento no mundo. Esse mister pertence ao historiador, que dele não se pode, aliás, não deve, se afastar. À memória, não é o dado universal que interessa, e, não raramente,  o dado altamente verossímil que se extrai de umdocumento. O que orienta e determina a construção da memória não é necessariamente a verdade, pois a memória conforta bem a possibilidade de um uso político, por exemplo. Porque, a ação de monumentalizar memórias, — memórias compostas, aliás, predominantemente, de fragmentos, como podem ser aquelas pertinentes ao homem comum —, é uma ação que congela versões quase sempre totalizantes e totalizadoras. Escolhe-se aquilo que conforta a versão que se pretende praticar. É o velho uso político do passado que descobre, muito facilmente, nos fragmentos cotidianos, um material cuja maleabilidade é flagrante.

Todavia, o que se encontra de mais fascinante e valioso no microuniverso da cotidianidade vivida por gente comum é que o registro dessas vivências, seus suportes materiais tão variáveis e tão surpreendentes às vezes, é aquilo que eles significam do ponto de vista das sensibilidades e das sociabilidades. O historiador, por sua vez, pode neles encontrar sinais altamente denunciadores do efeito que os grandes acontecimentos imprimem ou não às pessoas comuns. A comprovação indireta do grau de repercussão de um fato histórico em dado tempo e lugar. Um poder que pode ser usado em dupla via. Porque, não raramente, esses pequenos fragmentos do comum podem, como reagentes, desmentir grandes verdades, impactando momentaneamente um acontecimento. Para tanto, seriam como que poções mágicas que fariam desaparecer, com um simples abracadabra, o atributo de grandeza do herói ou a vilania do criminoso.  A memória tem esse poder ainda que nem sempreperdurável. Vê-se isso constantemente. A força dos potins, que já foi a ruína de muitas reputações, força esta consagrada pelas velhas mexeriqueiras de antigamente, hoje se propaga em tempo real, revigorada pelas redes sociais. E se volta, quase que naturalmente, contra tudo aquilo que adquire notoriedade. Não é corriqueiro que baste alguém desfrutar de cinco minutos de celebridade para sofrer, quase que instantaneamente, o bombardeio das mídias? Aprofunda-se a memória no diz-que-diz, e a informação se fabrica sob medida, assim como as memórias se ajustam e reajustam, ― retocadas ―, ao compasso das disputas ideológicas que por aí tem lugar.
Uma sugestão para quem pretendesse visitar a cotidianidade citadina? Seria preciso relativizar o dado axiológico inerente a documentos pertinentes à esfera privada, íntima ou institucional. Porque se tratam quase sempre de valores que não residem apenas no que são esses documentos por si mesmos, isoladamente, mas da qualidade das informações que muitos deles oferecem, quando contextualizados, capazes, inclusive, de servir de indicadores face aos grandes acontecimentos a cuja sombra vive o comum dos homens. Não se deve crer no grande quando nele não se encontra o reflexo do pequeno. Essa máxima alquímica, que deve ser entendida em dupla via, indica que nada é tão simples. A carta do soldado escrita à namorada em tempos de guerra representa esta última muito mais intensamente do que o livro do historiador. O grandioso, como o absoluto, é opaco. No pequeno, porém, essa opacidade é varrida pela transparência e pela espontaneidade dos fragmentos que o comum dos homens deixa atrás de si, graças à memória esboçada pela poesia das conversas de calçadas, pelos sabores, cores e cheiros que traduzem tão fielmente o universo sensível de tudo o que a razão é incapaz de apreender.

Diante desse cenário, na consciência do pacato cidadão que habita a cidade e que por ela se movimenta por dias e dias, pouca diferença faz a relação entre emprego e renda, assim como em que mãos se concentram os meios de produção. A ele, certamente, na dimensão de sua humanidade, importam mais as ruas pelas quais deve passar, as lendas urbanas das quais ouviu falar, os hábitos que se fixam pelo ir e vir, as cores e os cheiros que sente, os lugares aonde vai trabalhar, divertir-se, rezar ou chorar.
Berçário e asilo dos homens, as cidades podem ter sua história, tão certa quanto neutra na exata medida fornecida pelos números, mas é por suas memórias quvai se diferenciar de tantas e tantas outras que também a ela se assemelham na ordem das quantificações. O homem providencial e seu destino histórico agonizam sob o descrédito de uma Providência desmentida pelas estatísticas. Mas, em que pese anônimo, cada pequeno homem pode vir a ser um pequeno príncipe, capaz de assimilar e de conferir sentidos a cada uma das rosas que desabrocham nos jardins e praças de sua cidade.


Autor: Maristela Bleggi Tomasini