30 de abril de 2009

Da Náusea

Para que o acontecimento mais banal se torne uma aventura, é preciso e é suficiente que alguém se ponha a contá-lo.

A aventura: um acontecimento que sai do ordinário, sem ser necessariamente extraordinário.

Não é preciso que eu pense que não quero pensar, porque é ainda um pensamento.

Tudo que existe nasce sem razão, dura por fraqueza e morre por acaso.

É admirável como se pode mentir colocando a razão do nosso lado.

Existir é estar aí simplesmente.... Tudo é gratuito, esse jardim, esta cidade e eu mesmo.


Sartre, extraído de A Náusea.

23 de abril de 2009

Cecílias, etc.

Tão lindos, amontoados ali no canto, na salinha da frente. Empoeirados também e roídos, pelo menos alguns. Caem a toda hora, disputando espaço. Cecília anda por essa estante, e despencou hoje para protestar. A 407 cheira a mofo e a papel velho. Inconfundível. Às vezes, também cheira a café recém passado, como hoje, feito na cafeteira nova, preta, bonita, moderna, adaptando-se ao convívio com os meus ácaros.

Cecília Meireles (1901 - 1964)

Cecília me emociona profundamente. Ela costumava dizer que, em toda a sua vida, nunca se esforçou por ganhar coisa alguma nem se espantou por perder. Ela conhecia o sentido profundo, doloroso às vezes, da transitoriedade. Hoje alguns de seus livros despencaram de uma estante, por isso essa postagem.

Despedida

Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranqüilo:
quero solidão.
Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? - me perguntarão.
- Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.
Que procuras? Tudo. Que desejas? - Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.
A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?
Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra...)
Quero solidão.

21 de abril de 2009

O Prazer em Perspectiva. A Esperança

A esperança é filha do desejo, mas não é o desejo. Ela constitui uma aptidão mental que nos faz acreditar na realização de um desejo. Pode-se desejar uma coisa sem esperá-la. Todo mundo deseja a fortuna, poucos a esperam. Os sábios desejam descobrir a causa primeira dos fenômenos, mas eles não têm nenhuma esperança de chegar a tanto.
O desejo aproxima-se às vezes da esperança a ponto de confundir-se com ela. Na roleta, desejo e espero ganhar.
A esperança é uma forma de prazer em expectativa que, em sua fase atual de espera, se constitui em uma satisfação frequentemente maior que aquela produzida pela realização.
A razão disso é evidente. O prazer realizado é limitado em quantidade e em duração, enquanto nada limita a grandeza do sonho criado pela esperança. O poder e o encanto da esperança é conter todas as possibilidades de prazer.
Ela se constitui em uma espécie de varinha mágica que transforma todas as coisas. Os reformadores não fazem outra coisa que não seja substituir uma esperança por outra.

LE BON, Gustave. Les Opinions et les Croyances, Flammarion, Paris, 1911, p. 23.

Razões psicológicas da formação das crenças ocultistas

Viu-se o papel da sugestão e do contágio mental nos fenômenos maravilhosos relacionados à magia e sua influência sobre os espíritos mais eminentes.
Mas esta interpretação não saberia ser suficiente. Para compreender a gênese das práticas que persistem entre tantos povos através dos tempos, e subsistem ainda, é preciso elevar-se a uma concepção mais geral, e não tentar explicar com a razão o que em nada depende dela.
A magia, sob todas as suas formas, deve ser considerada como uma manifestação desse espírito místico inseparável de nossa natureza e do qual mostramos a força.
Fundadores de religiões, feiticeiros, magos, adivinhos, propagadores de tantas ilusões que encantaram ou aterrorizaram nossos pais e que reaparecem sempre, são os sacerdotes de uma poderosa deusa dominando todas as outras e cujo culto parece eterno.
Consideremos por pensamento, através do tempo e espaço, os milhares de edifícios sagrados construídos desde há 8.000 anos acima das grandes cidades e tratemos de discernir quais forças misteriosas levaram a edificar sem trégua esses templos, esses pagodes, essas mesquitas, essas catedrais, onde as maravilhas da arte foram acumuladas.
Descobre-se procurando aí aquilo que pediam os homens aos deuses, de aspectos tão variáveis, que eles invocavam. Um sentimento idêntico os anima hoje visivelmente. Os povos de todas as raças adoram, sob nomes diversos, uma única divindade: a Esperança. Todos os seus Deuses não são senão que um único Deus.

LE BON, Gustave. Les Opinions et les Croyances, Flammarion, Paris, 1911, p. 291.

Em Casa

Em primeiro plano, dois Le Bon. O maior, presente do Rogério, encontrado num sebo paulista, O Homem e as sociedades, edição francesa de 1881. O menor, encontrado por mim aqui em Porto Alegre, ed. de 1911 das Opiniões e das crenças.

Novos Ácaros


Esta é uma das obras mais conhecidas de Le Bon. A edição é linda, francesa, de 1911. Encontrei numa livraria muito bonita, aqui em Porto Alegre, que fica na Jerônimo Coelho, 377, Livraria Érico Veríssimo. O atendimento é nota dez, com direito a toda simpatia da Denise.

Gustave Le Bon (1841-1931)


Definitivamente o simpático Dr. Le Bon que aparece aí na foto, na atualidade, passa por reacionário e decadente, o que não impede em nada que, pelo menos eu e alguns outros raros fãs, apreciemos sinceramente a sua irreverência e franqueza. Oficial da Legião de Honra, ele alcançou pleno sucesso no domínio da psicologia social. Dizem que influenciou grandes ditadores, mas isso não parece provado. Sou uma catadora de suas obras, embora existam arquivos digitais de todas elas disponíveis na internet. Seja como for, nada substitui o papel. É dele a célebre frase, tão óbvia quanto brilhante, que afirma que crer não é saber. E não é mesmo. Aliás, tem outra dele : para agir não é preciso saber. Le Bon é assim : escreve com força, sem rodeios e sem aquele hermetismo tedioso dos acadêmicos que a pós-modernidade produz com rara obstinação.

A Esposa

Estritamente falando...


ORTEGA Y GASSET, José. Estudos sbre o amor, Livro Ibero-Americano Ltda, Rio de Janeiro, 1960.

Estritamente falando, não há ninguém que veja as coisas em sua nua realidade. O dia que isto aconteça será o último dia do mundo, a jornada da grande revelação. No entanto, consideramos adequada a percepção do real que, em meio à sua névoa fantástica, nos deixa prender, quem sabe, o esqueleto do mundo em suas grandes linhas tectônicas. Muitos, a maioria, não chegam nem a isso: vivem de palavras e sugestões; avançam pela existência sonambulicamente, trotando dentro de seu delírio. O que chamamos de gênio não é senão o poder magnífico que alguns homens têm de distender um pouco esta névoa imaginativa e descobrir, por seu intermédio, tiritando de puro nu, um novo pedaço autêntico de realidade (pg. 95).
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O "namoro" é, antes de tudo, um fenômeno da atenção (pg. 100).
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Onde queira que a "namorada" esteja, qualquer que seja sua aparente ocupação, sua atenção gravitará pelo próprio peso para aquele homem. E, vice-versa, custar-lhe-á uma grande violência tirá-la um momento dessa direção e orientá-la para as urgências da vida. Santo Agostinho viu sagazmente esse ponderar espontâneo para um objeto que é característico do amor. Amor meus, pondus meum: ilo feror, quocumque feror: meu amor é meu peso: por ele vou a toda parte que vou (pg. 103).

20 de abril de 2009

Romantismo em tempos de crise...


19 de abril de 2009

Políticos, ora.


14 de abril de 2009

Mais de Lombroso

Surpresa com o retorno, resolvi disponibilizar agora o prefácio da obra O HOMEM DELINQUENTE. Integral e com notas, para quem quiser, aqui no blog, ali nas Minhas Coisas.
É só baixar do Scribd.

12 de abril de 2009

O Tempo Passa


10 de abril de 2009

O Livro que Mudou o Direito Penal

Existem pessoas que nascem predestinadas ao crime?
E esses indivíduos, trariam eles estigmas denunciadores dessa condição, de forma a nos permitir descobri-los entre as pessoas ditas honestas?
Existe o criminoso nato?
Pode-se reconhecê-lo mesmo antes que pratique seus crimes?
O Homem Delinquente, o livro de Lombroso que mudou o Direito Penal, tem lá a sua história. Notas sobre isso estão agora aqui no Blog, lá nas Minhas Coisas. É só baixar do Scribd.

Assim Falava Zaratustra


Torna-te aquilo que és!

Não se deve querer ser o médico dos incuráveis.

De tudo o que está escrito, não leio senão o que alguém escreve com seu sangue. Escreve com teu sangue: e verás que o sangue é espírito.

Desconfia dos bons e dos justos. Eles gostam de crucificar aqueles que inventam sua própria virtude. Eles odeiam o solitário.

A certos homens tu não deves dar a mão, mas somente a pata: e eu quero que a tua pata tenha também garras.