24 de janeiro de 2010

Mata-Hari

Usando as roupas com as quais se apresentava para dançar "A Princesa e a Flor".

Estranheza


Quanto mais o tempo passa, e ele passa, inexoravelmente, mais eu desconheço o que já me pareceu tão íntimo. Vão se perdendo noções, direções, o sentido das coisas. Verdades que eram tão imutáveis foram se ajustando a uma realidade que jamais correspondeu àquela que fora, talvez, produto exclusivo de meus desejos, de minha vontade de acreditar. Ficou o que é interno, a verdade que eu mesma invento, e que é minha, afinal. Mas uma verdade minúscula, sem grandeza, que não vive mais do que já viveu. As coisas todas mudam neste mundo, e é desperdício o lamentar-se daquilo que se perdeu da pior das perdas: aquela que acontece, não quando se perde o que se teve um dia, mas aquela que nos tira o que pensávamos ter tido alguma vez. Como uma fotografia que vai perdendo as cores, desbotando, até que a gente não atina mais onde termina a forma e começa o fundo.

O Segredo do Poder

22 de janeiro de 2010

Impaciência

Ontem eu dizia, tentando me explicar, que há gente que me faz mal, uma mal físico, verdadeira repulsa que provoca náuseas, revira o estômago e embota os sentidos. Não mal de malvadeza, mas mal de estar perto, ainda que de longe. Gente que me faz precisar erguer barreiras, ficar na defensiva. Detesto ser importunada para que conheça gente que não tem nada a ver comigo. Eu escolho para onde olhar. Eu decido o que vejo e com quem compartilho os meus olhares. Não gosto sequer que me falem de quem não me importa saber coisa alguma. É que a melhor coisa da vida não é só viver, mas é poder andar por aí desavisada e distraída, ainda que passando pelos mesmos caminhos, mas sempre encontrando coisas novas, cores, sons, palavras, atalhos e desvios. Relendo um livro pela quinta vez sem desencantar. Não se pode fazer isso quando a gente está como que bloqueada por uma presença incômoda e redundante, que pretende se impor a nós, como quem tapa a paisagem, aparece sem convite, se introduz, sempre imaginando ter algo a dizer, gente que fecha janelas e portas que se abrem para a vida, porque neles só existe aquilo onde se reconhecem. Almas mesquinhas, esses estorvos têm a pretensão de saber da gente, quando não sabem nem de si. Tem sempre algo a dizer, consideram-se sábios, de uma sabedoria repleta de frases feitas e lugares comuns.
A solidão acaba sendo uma escolha, e uma companheira inestimável para quem não precisa saber de onde vem nem para onde vai. Importante é saber onde a gente está. E com quem.

Diálogo nos Infernos

"Sois um grande pensador, mas não conheceis a inesgotável covardia dos povos. Eu não digo daqueles de meu tempo, mas daqueles do vosso. Rastejantes diante da força, sem piedade diante da fraqueza, implacáveis para com as faltas, indulgentes para com os crimes, incapazes de suportar as contrariedades de um regime livre, e pacientes até o martírio para com todas as violências do despotismo audacioso, derrubando tronos nos momentos de cólera e se entregando a senhores a quem perdoam atentados, pelo menor dos quais teriam decapitado vinte reis constitucionais."
Joly, Maurice. Dialogue aux enfers entre Machiavel et Montesquieu.

17 de janeiro de 2010

Reclames de Antigamente

7 de janeiro de 2010

Vícios & Virtudes

Contra o vício de pedir há a virtude de não dar.

6 de janeiro de 2010

Moral da História

Para convencer, basta falar ao espírito; para persuadir, é preciso chegar ao coração.
D'Aguessau

Do risco de ser demasiado doce...

Quis se fazer mel, comeram-lhe as moscas.

4 de janeiro de 2010

Em Seleçoes, novembro de 1968

AS CARTAS XXVI


Depois das últimas cartas de 1924, o Ano Novo começa para Francisco e Maria. O cartão é significativo, pois contém poucas palavras, de certa forma, frias, considerada a intensidade do romance que já existia entre os dois. Na mesma caixa, encontrei também esta entrada para um recital aprazado para 05 de janeiro de 1925.
Quem frequenta este blog deve ter visto que, aproveitando os feriados, eu compilei as postagens referentes às cartas de 1923 a 1924. Fica mais fácil para quem acompanha. Há muitas cartas ainda na caixa que guardo comigo, separadas agora aquelas de 1925 e algumas sem data que também vou mostrar. A sensação que tenho ao mexer nesses papéis é muita intensa, pois é impossível não perceber a imensa carga emocional de que essas cartas dão testemunho.

3 de janeiro de 2010

Esperança

Quem espera desespera.

Tempo

Os anos não fazem sábios. Fazem velhos.

Reclames de Antigamente

Essas profundas nulidades...


"Não se encontram muitos homens, cuja profunda nulidade é um segredo para a maior parte das pessoas que os conhecem? Uma posição elevada, um nascimento ilustre, atribuiçoes importantes, certo verniz de polidez, grande reserva no procedimento ou o prestígio da fortuna são para eles como guardas que impedem os críticos de penetrar na sua existência íntima. Essa gente parece-se com os reis, cuja verdadeira estrutura, caráter e costumes nunca podem ser bem conhecidos, nem justamente apreciados, porque são vistos de muito longe ou de muito perto. Essas personagens de merecimento fictício interrogam em vez de falar, possuem a arte de dispor os outros em cena, fazê-los mover com destreza, cada um segundo as suas paixões ou os seus interesses, e zombam assim de homens que lhe são realmente superiores, fazem deles uns fantoches e julgam-nos pequenos porque os rebaixam até suas pessoas. Obtêm então o triunfo natural de um pensamento mesquinho, porém fixo, sobre a mobilidade dos grandes pensamentos. De sorte que, para apreciar esses cérebros ocos, e pesar-lhe o valor negativo, o observador deve possuir um espírito mais sutil do que superior, mas paciência do que alcance de vista, mais finura e tato do que elevação e grandeza de idéias. Não obstante, por maior habilidade que empreguem esses usurpadores em defender os seus pontos fracos, é-lhes bem difícil enganar as esposas, as mães, os filhos ou os amigos da casa. Esses, porém, guardam quase sempre o segredo sobre um assunto que, de algum modo, toca à honra comum; e muitas vezes até os ajudam a imporem-se à sociedade."
Balzac, p. 41/42.

2 de janeiro de 2010

Ingenieros e o Amor


Há algum tempo, mexendo em arquivos informatizados, encontrei uma pasta do tempo em que trabalhava com edição de livros. Ela continha diversas coisas sobre Ingenieros, de quem se estava por relançar a “Criminologia”. Dentre esses textos virtuais, todavia, que abrangem sua vida e obra, deparei-me com arquivos que traziam anotações sobre uma obra muito interessante intitulada ESTUDOS SOBRE O AMOR (Tratado del Amor).
São passagens que, acredito, vão surpreender, pelo contraste de comportamentos que variam de uma época para outra e, também, por observações que não mais permanecem válidas. Desde já aviso que a referência que aparece é INGENIEROS, José. ESTUDOS SOBRE O AMOR ― “Tratado del amor”, Ed. Cultura Moderna. São Paulo, sem data.
Não tive como conferir a digitação e sei que há erros. No entanto, como ilustração de estilo e pensamento de época, o texto é notável, porque ilustra os preconceitos vigentes há não muito tempo, preconceitos que deram origem a correntes radicais que não mais se sustentam pelo pressuposto de exclusão que conferiam às idéias vigentes, hoje completamente superadas. Ao final, acrescentei um breve estudo biográfico e algumas citações de Ingenieros.
A obra, sem dúvida, envelheceu e não mais corresponde a qualquer pensamento sustentável. Nem por isso, contudo, perde interesse para o estudioso, quanto mais quando se trata de evitar erros históricos que o tempo, felizmente, não consagrou.
O arquivo está no meu Scribd.