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1 de janeiro de 2021
8 de janeiro de 2015
6 de janeiro de 2013
Cartas de Amor
Eis um exercício particularmente perigoso: exprimir
com estilo ao ser amado os desejos de seu coração. Encontrar a palavra justa,
usar de metáforas, diferenciar frases muitas vezes escritas e reescritas. O
autor de cartas de amor aspira tocar o inigualável. Célebres ou anônimos, os
apaixonados apressam-se em declarar seu ardor. O suporte epistolar autoriza as
confidências mais íntimas e as mais sensuais.
29 de março de 2012
20 de fevereiro de 2012
4 de janeiro de 2010
AS CARTAS XXVI
Quem frequenta este blog deve ter visto que, aproveitando os feriados, eu compilei as postagens referentes às cartas de 1923 a 1924. Fica mais fácil para quem acompanha. Há muitas cartas ainda na caixa que guardo comigo, separadas agora aquelas de 1925 e algumas sem data que também vou mostrar. A sensação que tenho ao mexer nesses papéis é muita intensa, pois é impossível não perceber a imensa carga emocional de que essas cartas dão testemunho.
1 de novembro de 2009
AS CARTAS XXV
Carta de Francisco para Maria de 15 de dezembro de 1924.
Maria,
Todo arremesso sentimental, por sorte ou infelicidade minha, possui, sobre mim, uma força única, poderosa, que tem seu reflexo num abatimento de nervos que me atira, por algum tempo, num estado de abstração indefinível.
Ontem, após aquela longa e torturante situação de dúvida “hamlética”, em face de um ato, cuja decorrência talvez receasses, tu me abandonaste à tristeza dolorosa do meu isolamento. Bem compreendes isso, como bem compreendi eu a tragédia emocional do teu espírito. A hesitação em último grau, enleiante, desfalecedora, se fixava em todos os teus gestos. A indecisão prendia, bárbara, sem piedade, o mecanismo dos teus movimentos naturais, impedindo, assim, uma firme e espontânea realização da tua vontade. Torturava-te um vago temor, com raízes, quem sabe, na consciência do amargo efeito que iria produzir em mim o teu procedimento.
E a resolução, afinal, aportou. Tu partiste. Fugiste do meu amor, da minha adoração pura, eterna, para a transitoriedade da admiração, por amor da pompa. Da gloria deste amor tão infeliz correste para o esplendor efêmero de uma exibição. Bem valeu, de certo, essa tua eleição, a tua preferência. Qualquer coisa esperavas. Ela veio... És mulher demais para te enganar...
O brilho, ainda que rápido e fugaz, de um salão embora pequenino de família, atraía-te. E tu foste para ele e para outras possibilidades...E depois, pobres de nós! O nosso amor está tão velho... Falta-lhe o encanto das revelações. Não lhe dá mais prestígio a novidade das primeiras emoções, que reside no segredo, no mistério. Nós já somos tão conhecidos um do outro. Tu sabes quem eu sou, eu sei quem tu és... Nós nos entendemos tanto...
Não sei até se era bom acabar com isso... Nem sei mesmo... O acaso decide tudo... O primeiro olhar... o primeiro contato... Depende disso, afinal, o amor...
E, demais, acabar com isso por meio de carta é tão banal já, tão repetido. Não tem nem o relevo dos lances dramáticos do terceiro ou do quarto ato... Acada tao fria, tão “ïmediatamente”. As paixões não se acendem, os diálogos, ardentes de comoção, não relampagueiam, e a “tragédia epistolar” não termina nunca com o clássico gesto romântico do enxugar das lágrimas derramadas.
Por isso eu não quero “acabar com isso” por carta. Em amor, eu sou ator trágico moderado...
Do
Francisco
15-XII-MCMXXIV
Maria,
Todo arremesso sentimental, por sorte ou infelicidade minha, possui, sobre mim, uma força única, poderosa, que tem seu reflexo num abatimento de nervos que me atira, por algum tempo, num estado de abstração indefinível.
Ontem, após aquela longa e torturante situação de dúvida “hamlética”, em face de um ato, cuja decorrência talvez receasses, tu me abandonaste à tristeza dolorosa do meu isolamento. Bem compreendes isso, como bem compreendi eu a tragédia emocional do teu espírito. A hesitação em último grau, enleiante, desfalecedora, se fixava em todos os teus gestos. A indecisão prendia, bárbara, sem piedade, o mecanismo dos teus movimentos naturais, impedindo, assim, uma firme e espontânea realização da tua vontade. Torturava-te um vago temor, com raízes, quem sabe, na consciência do amargo efeito que iria produzir em mim o teu procedimento.
E a resolução, afinal, aportou. Tu partiste. Fugiste do meu amor, da minha adoração pura, eterna, para a transitoriedade da admiração, por amor da pompa. Da gloria deste amor tão infeliz correste para o esplendor efêmero de uma exibição. Bem valeu, de certo, essa tua eleição, a tua preferência. Qualquer coisa esperavas. Ela veio... És mulher demais para te enganar...
O brilho, ainda que rápido e fugaz, de um salão embora pequenino de família, atraía-te. E tu foste para ele e para outras possibilidades...E depois, pobres de nós! O nosso amor está tão velho... Falta-lhe o encanto das revelações. Não lhe dá mais prestígio a novidade das primeiras emoções, que reside no segredo, no mistério. Nós já somos tão conhecidos um do outro. Tu sabes quem eu sou, eu sei quem tu és... Nós nos entendemos tanto...
Não sei até se era bom acabar com isso... Nem sei mesmo... O acaso decide tudo... O primeiro olhar... o primeiro contato... Depende disso, afinal, o amor...
E, demais, acabar com isso por meio de carta é tão banal já, tão repetido. Não tem nem o relevo dos lances dramáticos do terceiro ou do quarto ato... Acada tao fria, tão “ïmediatamente”. As paixões não se acendem, os diálogos, ardentes de comoção, não relampagueiam, e a “tragédia epistolar” não termina nunca com o clássico gesto romântico do enxugar das lágrimas derramadas.
Por isso eu não quero “acabar com isso” por carta. Em amor, eu sou ator trágico moderado...
Do
Francisco
15-XII-MCMXXIV
Observação: Esta é a última carta de 1924 que tenho. O ano termina, mas o romance entre Francisco e Maria prossegue. Há muito mais cartas. Na medida do possível, vou postás-la, pois cada vez mais me convenço de sua importância como amostra da capacidade de expressão profunda que elas demonstram da parte de Francisco que, muitas vezes, me parece vocacionado ao sofrimento, embora com isso não ignore que tortura sua Maria.
AS CARTAS XXIV
Carta de Francisco para Maria de 07 de novembro de 1924.
Maria,
Agora que a minha dor dói menos, eu posso escrever-te, tendo consciência do que sinto. O desvario, a que me arrastou o grande golpe d’alma de terça-feira, mudou-se em dolorosa resignação. Compreendo hoje, com toda a nitidez, o que apenas sentia antes, quando dominado, sem forças, pela divina loucura do amor.
Amar é sofrer. Sofrer, não tão só a dor, mas o prazer, a alegria, a vida! Sofrer a tortura que passou, a tortura que é, a tortura que virá. Sofrer a dor já adormecida no passado, pela memória; sofrer a dor que nos espera no futuro, pela imaginação. Sofrer o mistério de todas as coisas. Sofrer a ânsia de um ideal de arte, que se realiza pelo amor, máxima manifestação da vida. Sofrer a incompreensão do infinito. Sofrer a beleza que nos extasia. Sofrer a perfeição, que nos enleva e abate. Sofrer a fina melancolia dos crepúsculos, na hora em que se ouve pelos olhos... Sofrer o esplendor das madrugadas cor de sangue. Sofrer a alucinação do movimento turbilhonante, expressão característica da vida moderna. Sofrer a piedosa ilusão, dentro da enganosa aparência das coisas. Sofrer o incognoscível. Sofrer o inatingível. Sofrer o impersecutável. Sofrer a dor universal. Em suma, sofrer a vida. Sofrer... Assim é, para mim, a contemplação da beleza, a realização de um sonho de arte, toda revelação do amor, toda a manifestação da vida. Maravilhar-se diante da beleza, realizar um sonho de arte, emocionar-se ao contato do amor, comover-se diante da vida, sofrendo sempre a deliciosa e divina tortura do gozo.
Sofrer, mas bendizendo o sofrimento, pela sublimidade do motivo.
Assim eu amo, assim eu vivo.
Quanto ao nosso caso, acho que não devemos nos explicar. Que poderia eu dizer-te? Que me responderias tu? Se eu te explicasse, talvez rompêssemos. E tu mesma me disseste que, por este preço, não querias explicação... Lembra-te?
E, depois, para explicar, eu teria que recordar certos detalhes amargos do meu passado; certos pedaços dolorosos da minha vida... Seria sofrer, tão cedo, de novo, a mesma dor.
Foi um simples incidente de amor, nascido, somente, de meu demasiado amor por ti.
Esquece-o. E não me o relembres nunca.
Do teu
Francisco
Maria,
Agora que a minha dor dói menos, eu posso escrever-te, tendo consciência do que sinto. O desvario, a que me arrastou o grande golpe d’alma de terça-feira, mudou-se em dolorosa resignação. Compreendo hoje, com toda a nitidez, o que apenas sentia antes, quando dominado, sem forças, pela divina loucura do amor.
Amar é sofrer. Sofrer, não tão só a dor, mas o prazer, a alegria, a vida! Sofrer a tortura que passou, a tortura que é, a tortura que virá. Sofrer a dor já adormecida no passado, pela memória; sofrer a dor que nos espera no futuro, pela imaginação. Sofrer o mistério de todas as coisas. Sofrer a ânsia de um ideal de arte, que se realiza pelo amor, máxima manifestação da vida. Sofrer a incompreensão do infinito. Sofrer a beleza que nos extasia. Sofrer a perfeição, que nos enleva e abate. Sofrer a fina melancolia dos crepúsculos, na hora em que se ouve pelos olhos... Sofrer o esplendor das madrugadas cor de sangue. Sofrer a alucinação do movimento turbilhonante, expressão característica da vida moderna. Sofrer a piedosa ilusão, dentro da enganosa aparência das coisas. Sofrer o incognoscível. Sofrer o inatingível. Sofrer o impersecutável. Sofrer a dor universal. Em suma, sofrer a vida. Sofrer... Assim é, para mim, a contemplação da beleza, a realização de um sonho de arte, toda revelação do amor, toda a manifestação da vida. Maravilhar-se diante da beleza, realizar um sonho de arte, emocionar-se ao contato do amor, comover-se diante da vida, sofrendo sempre a deliciosa e divina tortura do gozo.
Sofrer, mas bendizendo o sofrimento, pela sublimidade do motivo.
Assim eu amo, assim eu vivo.
Quanto ao nosso caso, acho que não devemos nos explicar. Que poderia eu dizer-te? Que me responderias tu? Se eu te explicasse, talvez rompêssemos. E tu mesma me disseste que, por este preço, não querias explicação... Lembra-te?
E, depois, para explicar, eu teria que recordar certos detalhes amargos do meu passado; certos pedaços dolorosos da minha vida... Seria sofrer, tão cedo, de novo, a mesma dor.
Foi um simples incidente de amor, nascido, somente, de meu demasiado amor por ti.
Esquece-o. E não me o relembres nunca.
Do teu
Francisco
2 de agosto de 2009
AS CARTAS XXIII
Essas cartas são um tesouro literário que ilustra não apenas uma verdadeira história de amor que teve lugar entre dois jovens, mas também como se passou esse amor nos anos 20 em Porto Alegre. Amor vivido por um homem culto, educado, refinado em sua estética e uma mulher que ele mesmo define de maneira adorável através de sua letra pequena, frágil, nervosa, como se fosse a imagem de tua sensibilidade, em extremo desperta, ao alarme das menores impressões.
Quem ainda não conhece o que vêm a ser AS CARTAS, basta procurar nas postagens mais antigas, a explicação disso. Querendo ver tudo, na barra superior, à esquerda, basta digitar na guia "pesquisar no blog" a expressão AS CARTAS e todas as postagens anteriores vão aparecer em ordem mais ou menos cronológica. Há mais cartas, muito mais. E na medida do possível eu vou mostrá-las a vocês aqui no Traças, Ácaros & Cia.
AS CARTAS XXII
Carta de Francisco para Maria de 30 de outubro de 1924.
Maria,
Há tanto tempo, há tanto! Que não me dás a alegria de ler qualquer cousa que mandas, através de tua letra pequenina, frágil, nervosa, tal se fosse a imagem da tua sensibilidade, em extremo desperta, sempre, ao alarme das menores impressões...
Por que não continuaste a escrever-me? Acaso terás o propósito de por, agora, o ponto final na nossa correspondência? Não sei de motivo algum para isso. Se os há, eles se ocultam tão fundo no interior de teu espírito, e nunca vêm à tona para a graça de uma revelação... Minha profunda amiga!...
Ouve: eu exijo uma explicação de teu silêncio. Sabes? Pensa na significação desta exigência. Porque, se não me explicares, eu... eu... implorar-te-ei,de joelhos, o favor acariciante de uma resposta, para o sossego de minha alma.
Do Francisco.
Maria,
Há tanto tempo, há tanto! Que não me dás a alegria de ler qualquer cousa que mandas, através de tua letra pequenina, frágil, nervosa, tal se fosse a imagem da tua sensibilidade, em extremo desperta, sempre, ao alarme das menores impressões...
Por que não continuaste a escrever-me? Acaso terás o propósito de por, agora, o ponto final na nossa correspondência? Não sei de motivo algum para isso. Se os há, eles se ocultam tão fundo no interior de teu espírito, e nunca vêm à tona para a graça de uma revelação... Minha profunda amiga!...
Ouve: eu exijo uma explicação de teu silêncio. Sabes? Pensa na significação desta exigência. Porque, se não me explicares, eu... eu... implorar-te-ei,de joelhos, o favor acariciante de uma resposta, para o sossego de minha alma.
Do Francisco.
27 de junho de 2009
AS CARTAS XXI
Carta de Francisco para Maria de 9 de outubro de 1924.
Minha alma em dor, timidamente, implora da tua bondade apenas um gesto, o maior de todos os gestos: o perdão. Um grande perdão estendido sobre mim por todas as coisas más que eu te fiz, por todas as tristezas que eu pus na tua vida, por todas as lágrimas que eu deitei nos teus olhos.
Eu sofro, também, porque te amo demais, amo com tortura, e tanto! Que te faço sofrer... Essa é a minha maior dor! E quando choras, sofro ainda por não poder chorar contigo. Nos grandes sofrimentos, a minha alma como que se diviniza e toma a serenidade das coisas grandes. E a minha ânsia, sublime, então, é de beijar esse pedaço de alma diluída que vem nas tuas lágrimas. Eu todo me espititualizo diante da tua angústia, e sinto a minha alma tocar a tua alma, numa misteriosa penetração. Nesse momento, nós vivemos um mundo irreal, longe das coisas deste mundo, longe dos homens, sentindo a eternidade do nosso amor, dentro de um sonho. E, nos nossos corações, tudo é doçura e bondade.
Por esse motivo, eu bendigo as tuas lágrimas, apesar da amargura, por essas horas de suprema sensação ideal, em que meu amor torna-se igual ao amor de Deus!
Eu sofro também! E o meu sofrimento é eterno, porque é o reflexo do meu amor. O meu amor é grande e doloroso. E é infeliz da sua própria grandeza. Ah! Se eu pudesse amar menos um pouco!...
O teu perdão! ...Bem sei que me perdoas... Bem sei também que sabes perdoar: esquecendo...
Meu grande amor!
Do teu Francisco
24-X-MCMXXIV
1 de maio de 2009
AS CARTAS XIX
Carta de Francisco para Maria de 9 de outubro de 1924.
Maria,
Hoje direi de um pequeno desgosto que eu guardo. Não sei se tenho razão. Entanto, dir-te-ei, de primeiro, que tu sabes amar bem à moderna, que tu me amas com sabedoria e com elegância bem feminina.
Não sei se no que digo vai um excesso de engano. Assim acontecesse! Para meu sossego e felicidade. Talvez seja uma simples impressão sem correspondência de verdade no fundo. Talvez seja uma ilusória sensação, aliás não boa, que minta pela sua força de realidade, na aparência. Bem pode ser. Tenho esta esperança, que me dá conforto.
Porque, no fim de duas de tuas cartas, “forget me not”, “Mon plus grand doux suvenir”? Na frieza dessas expressões estrangeiras não sinto o reflexo da tua alma. Bem vês que na petulância (perdoa-me o dito um pouco literária desses termos não pode caber a sinceridade de um coração que ama cegamente. E o amor, quando não é cego, não é verdadeiro. Nele entra o cálculo, o equilíbrio das conveniências.
Como antes disse, eu quero crer: eu não tenho razão. E é justamente por isso que eu te perdôo. Eu te se inocente desse pequeno “crime” que me magoou. Desse pequenino crime que me fez tão infeliz, uns dias, que foi a tortura sentimental do teu
Francisco.
9-X-MCMXXIV
Maria,
Hoje direi de um pequeno desgosto que eu guardo. Não sei se tenho razão. Entanto, dir-te-ei, de primeiro, que tu sabes amar bem à moderna, que tu me amas com sabedoria e com elegância bem feminina.
Não sei se no que digo vai um excesso de engano. Assim acontecesse! Para meu sossego e felicidade. Talvez seja uma simples impressão sem correspondência de verdade no fundo. Talvez seja uma ilusória sensação, aliás não boa, que minta pela sua força de realidade, na aparência. Bem pode ser. Tenho esta esperança, que me dá conforto.
Porque, no fim de duas de tuas cartas, “forget me not”, “Mon plus grand doux suvenir”? Na frieza dessas expressões estrangeiras não sinto o reflexo da tua alma. Bem vês que na petulância (perdoa-me o dito um pouco literária desses termos não pode caber a sinceridade de um coração que ama cegamente. E o amor, quando não é cego, não é verdadeiro. Nele entra o cálculo, o equilíbrio das conveniências.
Como antes disse, eu quero crer: eu não tenho razão. E é justamente por isso que eu te perdôo. Eu te se inocente desse pequeno “crime” que me magoou. Desse pequenino crime que me fez tão infeliz, uns dias, que foi a tortura sentimental do teu
Francisco.
9-X-MCMXXIV
8 de março de 2009
AS CARTAS XVIII
Carta de Francisco para Maria de 05 de outubro de 1924.
Maria,
Deu-me vontade de dizer-te qualquer coisa em verso, e aí vai, então, nada quase na velha forma do soneto.
Acordei criança hoje. Ao abrir os olhos ao esplendor da manhã, comoveu-me a sua beleza. Quase chorei de alegria. Ri, depois. Ri perdidamente, sem saber por que. Ri, porque o sol ria, porque a manhã ria, porque a natureza toda ria, na divina alegria do despertar. Os pássaros, nos ramos, cantavam a glória da alvorada. E o pouco de criança que nós trazemos n’alma sempre vibrou em mim com a intensidade e a pureza dos seus primeiros anos. Quisera ser sempre assim, toda vida! Rir, feliz, de tudo. Eterna criança a encontrar um motivo de prazer em tudo. Mas os anos vão avançando. Da criança descuidada que era, surge o homem com a fisionomia ensombrada pelos dissabores. A fatalidade da beleza, na forma da mulher, e as misérias humanas se lhe deparam com toda a sua força de ação consciente ou inconsciente. E a tristeza, então, lhe enruga a alma. E a alegria já lhe é mais esquiva. E, homem, aos golpes das desilusões, põe-se a descrer. Torna-se céptico. A vida é assim.
Grande saudade do teu
Francisco
V-X-MCMXXIV
Contradições
Queres que eu creia em ti? Pois bem, querida, eu creio.
E esta dúvida má, que me arrasta, e assassina
toda a minha alegria efêmera e divina,
eu matarei na fonte donde ela proveio.
Sei que me amas. Bem sei também que tens no seio
a luminosa flor de uma amizade fina
que faz minha ventura, e, entanto, me alucina,
pois de tanto em ti crer, eu já quase descreio.
Porém, mesmo escondendo o mal entre as raízes,
tu és o único bem da minha mocidade,
pois me tornaste o ser do mundo o mais feliz.
E eu creio em teu amor e creio no que dizes,
mas creio mais em tudo o que, por ser verdade,
por isso mesmo, a tua boca nunca diz...
Maria,
Deu-me vontade de dizer-te qualquer coisa em verso, e aí vai, então, nada quase na velha forma do soneto.
Acordei criança hoje. Ao abrir os olhos ao esplendor da manhã, comoveu-me a sua beleza. Quase chorei de alegria. Ri, depois. Ri perdidamente, sem saber por que. Ri, porque o sol ria, porque a manhã ria, porque a natureza toda ria, na divina alegria do despertar. Os pássaros, nos ramos, cantavam a glória da alvorada. E o pouco de criança que nós trazemos n’alma sempre vibrou em mim com a intensidade e a pureza dos seus primeiros anos. Quisera ser sempre assim, toda vida! Rir, feliz, de tudo. Eterna criança a encontrar um motivo de prazer em tudo. Mas os anos vão avançando. Da criança descuidada que era, surge o homem com a fisionomia ensombrada pelos dissabores. A fatalidade da beleza, na forma da mulher, e as misérias humanas se lhe deparam com toda a sua força de ação consciente ou inconsciente. E a tristeza, então, lhe enruga a alma. E a alegria já lhe é mais esquiva. E, homem, aos golpes das desilusões, põe-se a descrer. Torna-se céptico. A vida é assim.
Grande saudade do teu
Francisco
V-X-MCMXXIV
Contradições
Queres que eu creia em ti? Pois bem, querida, eu creio.
E esta dúvida má, que me arrasta, e assassina
toda a minha alegria efêmera e divina,
eu matarei na fonte donde ela proveio.
Sei que me amas. Bem sei também que tens no seio
a luminosa flor de uma amizade fina
que faz minha ventura, e, entanto, me alucina,
pois de tanto em ti crer, eu já quase descreio.
Porém, mesmo escondendo o mal entre as raízes,
tu és o único bem da minha mocidade,
pois me tornaste o ser do mundo o mais feliz.
E eu creio em teu amor e creio no que dizes,
mas creio mais em tudo o que, por ser verdade,
por isso mesmo, a tua boca nunca diz...
9 de fevereiro de 2009
AS CARTAS XVI

Carta de Francisco para Maria de 25 de setembro de 1924.
Maria,
A tua carta, fosse ela “medicinal”, e eu estaria curado do meu mal orgânico, como por ela estou de um mal sentimental... Interrogas... Direi: “Não é nada...” Dirás: “São os nervos...” Que sejam... O que importa é que eu o esqueça. E isto é fácil, na fuga vertiginosa do tempo, que sepulta depressa as nossas emoções as mais vivas. Tudo passa na vida... E isso é um bem, que, não raro, esconde uma tristeza: a tristeza do fim... Falas na minha enfermidade. Culpas-te, injustamente, da minha recaída. Nada mais falso. Se há culpado, o único sou eu. E nem sei se eu ou a moléstia mesma, por sua rebeldia. Entretanto, estou resignado. Demais, quase já tenho como natural esta posição, na cama, nada natural. É um estado anormal que se normaliza. Mas que Deus não permita que ela se efetive! E que ele não ouça também tanta doidice. Tenho que, no tempo de quinze dias, estarei restabelecido, usando, como usarei, com um rigor religioso, os teus conselhos. “Tudo pela minha dama!” A vida, ou a morte! E, em amor, querida, o morrer é viver eternamente por ele.
E me advertes, com filosofia, que “a saúde é a maior riqueza”. Por isso mesmo que a desprezo e maltrato. Eu sou liberal... Ah!... Perdoa-me, meu amor. Perdoa-me a ironia. Ela me atraiçoou, e fugiu pela pena. Não foi por querer.
Quando cheguei ao fim da tua carta, não fiz “cara feia”, mas sorri. E do meu sorriso caiu um beijo que envolveu o teu nome, e vai vestida de amor a mão que o escreveu, a mão que tem o meu sonho,
o sonho do teu
Francisco
25 de janeiro de 2009
AS CARTAS XV
Carta de Francisco para Maria de 31 de agosto de 1924.
Maria,
As violetas... As lindas e melancólicas violetas... Muito devo-te por elas. As flores fazem tanto bem a um doente! Eu sou feliz... Dessa felicidade que nunca teve Leopardi, o grande e mísero doente que não encontrou, na vida, o amor de uma mulher. Elas estão sobre a minha mesa de cabeceira ao lado de minha cama. Olho-as quase sempre. E delas, assim unidas em ramalhete, parece que sempre começa um crepúsculo longo, longo, como meu sonho...
Pelas violetas, mando-te um beijo.
.....
E o livro, muito t'o agradeço. Como que adivinhaste a minha profunda simpatia intelectual e de alma por este patriota e bom Sílvio martire della prigionia borbonica, che, appena ricuperata la libertà sua, si ricaccia nella lotta per la libertà della patria.Como merece, ele vai para a minha coleção de encadernações de luxo, já se vê, de obras notáveis.
Pelo livro, mando-te um abraço.
.....
E o teu retrato, minha pluma. Não te zangues: sinto não poder tê-lo sobre a minha mesa de estudo e mostrá-lo, orgulhoso, a toda gente... E também aquela imagem, a tua imagem evoca a imagem de um tempo tão doloroso para mim... Lembra-te?
Era carnaval... Eu sofria a tortura de não te ver e a tortura, ainda maior, da minha imaginação, cujos olhos viam-te sempre embriagada ao perfume dos galanteios... E o teu olhar, para os outros... O teu sorrido, para os outros... Os gestos do teu corpo, para os outros... E para mim, apenas a dor... E essa dor eu quase esquecia à sombra do teu amor... Mas foste perversa, talvez sem o querer, e me mandaste o teu retrato, aquele retrato que é, para mim, a memória despiedosa da minha dor daquele tempo...
Pelo retrato, mando-te uma lágrima
Do teu
Francisco
Maria,
As violetas... As lindas e melancólicas violetas... Muito devo-te por elas. As flores fazem tanto bem a um doente! Eu sou feliz... Dessa felicidade que nunca teve Leopardi, o grande e mísero doente que não encontrou, na vida, o amor de uma mulher. Elas estão sobre a minha mesa de cabeceira ao lado de minha cama. Olho-as quase sempre. E delas, assim unidas em ramalhete, parece que sempre começa um crepúsculo longo, longo, como meu sonho...
Pelas violetas, mando-te um beijo.
.....
E o livro, muito t'o agradeço. Como que adivinhaste a minha profunda simpatia intelectual e de alma por este patriota e bom Sílvio martire della prigionia borbonica, che, appena ricuperata la libertà sua, si ricaccia nella lotta per la libertà della patria.Como merece, ele vai para a minha coleção de encadernações de luxo, já se vê, de obras notáveis.
Pelo livro, mando-te um abraço.
.....
E o teu retrato, minha pluma. Não te zangues: sinto não poder tê-lo sobre a minha mesa de estudo e mostrá-lo, orgulhoso, a toda gente... E também aquela imagem, a tua imagem evoca a imagem de um tempo tão doloroso para mim... Lembra-te?
Era carnaval... Eu sofria a tortura de não te ver e a tortura, ainda maior, da minha imaginação, cujos olhos viam-te sempre embriagada ao perfume dos galanteios... E o teu olhar, para os outros... O teu sorrido, para os outros... Os gestos do teu corpo, para os outros... E para mim, apenas a dor... E essa dor eu quase esquecia à sombra do teu amor... Mas foste perversa, talvez sem o querer, e me mandaste o teu retrato, aquele retrato que é, para mim, a memória despiedosa da minha dor daquele tempo...
Pelo retrato, mando-te uma lágrima
Do teu
Francisco
11 de janeiro de 2009
AS CARTAS XIV
Carta de Francisco para Maria de 17 de agosto de 1924.
Maria,
Vim de ti há pouco... E trouxe comigo a tua voz, única em harmonia, a ecoar, em ondas de doçura, aos meus ouvidos. Ela será a música das minhas últimas horas deste dia, até o sono, que me será divino, caindo, como cairá do céu, a tua voz.
E veio o teu perfume, também, como um longo veu, envolveu-me o corpo todo. Encerrei-me, com langor, dentro dele. Será o meu cofre imaterial, onde o meu corpo repousará esta noite, desmaiado à embriaguez do seu seio.
De vez em vez, correm-me pela superfície da epiderme arrepios de volúpia, ao ferir de toques invisíveis. São reflexos de teu contato. Ele desperta a minha sensibilidade pela amorosa pressão que foi, que já não é, e que acorda, momento que outro, ao reviver de meu insopitável desejo.
Som, perfume, contato... Na conjunção desses três termos, trouxe-te inteira, toda carícias, de forma espiritual.
E trouxe um mundo também, porque te trouxe. E trouxe tudo o que é meu, tudo o que faz a minha vida, dizendo-te, a ti, que és a minha vida, o meu único bem, que me dá tanto mal, às vezes... mas, na vida, tudo é assim... Ao lado da melhor felicidade caminha, sempre, a amargura... Esta é o seu preço. Não se pode gozar de um bem, sem punição. Nem aquele teria valor como tal, sem a existência desta. É lei da vida. E a melhor felicidade consiste, sem dúvida, em se pensar que se é feliz. Ou, com mais sabedoria, em não se pensar nela, nem desejá-la. Ela foge, sorrindo, com piedosa ironia, da mão que a quer apanhar...
Mas, eu te amo... E não sei donde nasceu este amor, não sei donde ele veio... Sei apenas que te amo, e muito. Será por seres mulher, e por ser eu homem? Mas, se fosses homem, não serias meu amigo? Eu, por certo, se fosse mulher, seria tua amiga, tua amiga exclusivista, que te não permitiria a graça de um namorado... Viveria contigo e contigo morreria... Que loucura, Santo Deus! Que ninguém saiba dessas coisas! Apaga, por favor, os últimos períodos. Mulher, eu? Que blasfêmia! Perdoa-me, meu amor!
Perdoa
ao teu
Francisco
Maria,
Vim de ti há pouco... E trouxe comigo a tua voz, única em harmonia, a ecoar, em ondas de doçura, aos meus ouvidos. Ela será a música das minhas últimas horas deste dia, até o sono, que me será divino, caindo, como cairá do céu, a tua voz.
E veio o teu perfume, também, como um longo veu, envolveu-me o corpo todo. Encerrei-me, com langor, dentro dele. Será o meu cofre imaterial, onde o meu corpo repousará esta noite, desmaiado à embriaguez do seu seio.
De vez em vez, correm-me pela superfície da epiderme arrepios de volúpia, ao ferir de toques invisíveis. São reflexos de teu contato. Ele desperta a minha sensibilidade pela amorosa pressão que foi, que já não é, e que acorda, momento que outro, ao reviver de meu insopitável desejo.
Som, perfume, contato... Na conjunção desses três termos, trouxe-te inteira, toda carícias, de forma espiritual.
E trouxe um mundo também, porque te trouxe. E trouxe tudo o que é meu, tudo o que faz a minha vida, dizendo-te, a ti, que és a minha vida, o meu único bem, que me dá tanto mal, às vezes... mas, na vida, tudo é assim... Ao lado da melhor felicidade caminha, sempre, a amargura... Esta é o seu preço. Não se pode gozar de um bem, sem punição. Nem aquele teria valor como tal, sem a existência desta. É lei da vida. E a melhor felicidade consiste, sem dúvida, em se pensar que se é feliz. Ou, com mais sabedoria, em não se pensar nela, nem desejá-la. Ela foge, sorrindo, com piedosa ironia, da mão que a quer apanhar...
Mas, eu te amo... E não sei donde nasceu este amor, não sei donde ele veio... Sei apenas que te amo, e muito. Será por seres mulher, e por ser eu homem? Mas, se fosses homem, não serias meu amigo? Eu, por certo, se fosse mulher, seria tua amiga, tua amiga exclusivista, que te não permitiria a graça de um namorado... Viveria contigo e contigo morreria... Que loucura, Santo Deus! Que ninguém saiba dessas coisas! Apaga, por favor, os últimos períodos. Mulher, eu? Que blasfêmia! Perdoa-me, meu amor!
Perdoa
ao teu
Francisco
28 de dezembro de 2008
AS CARTAS XIII
Carta de Francisco para Maria de algum dia de agosto de 1924.
Maria,
Penso que foi para a sensação de receber flores que eu adoeci, tanto elas me satisfizeram. E nem tenho já quase vontade de restabelecer-me!... As primeiras violetas, as outras... Elas tomam quase sempre a forma das tuas carícias, quando as toco e quando as olho, e sinto-as com pura volúpia... Mas é um gozo triste, um gozo com sabor amargo de lágrimas, porque as violetas são tristes, e são tristes os seus longos olhos de melancólicas pupilas. São tristes como a morte...
Talvez, infelizmente, elas me ofereçam um símbolo... No destino de cada criatura, para seu sofrer eterno ou para sua eterna alegria, existe uma lágrima, a última, a que não nos é dado conhecer, que já se abeira do túmulo, e dele nos traz a amável sensação de alívio. E são certas flores as portadoras da forma visível desse fim, provocando, assim, nas criaturas, determinadas emoções reveladoras da sua proximidade. E, eu creio, a violeta é uma dessas flores predestinadas.
Mas, não filosofemos. Sejamos mais sábios. Falemos um pouco de ti. Que tens feito? E a minha ausência? Pouco te faz sofrer, não é? Ainda bem. Eu, entretanto, longe de ti, não sinto a vida. Trago, a queimar-me o peito, uma grande saudade do meu amor. É que eu te amo mais que a mim próprio. Coloquei o universo dentro do teu ser, e só por ele vivo e palpito. Encontrei, no mundo, a minha “pedra luminosa”... Na extinção da sua luz está a extinção da minha vida. E és tu a guardadora dessa minha pedra... Está nas tuas mãos, pois, a minha vida, a vida do teu,
para o sempre,
Francisco
Maria,
Penso que foi para a sensação de receber flores que eu adoeci, tanto elas me satisfizeram. E nem tenho já quase vontade de restabelecer-me!... As primeiras violetas, as outras... Elas tomam quase sempre a forma das tuas carícias, quando as toco e quando as olho, e sinto-as com pura volúpia... Mas é um gozo triste, um gozo com sabor amargo de lágrimas, porque as violetas são tristes, e são tristes os seus longos olhos de melancólicas pupilas. São tristes como a morte...
Talvez, infelizmente, elas me ofereçam um símbolo... No destino de cada criatura, para seu sofrer eterno ou para sua eterna alegria, existe uma lágrima, a última, a que não nos é dado conhecer, que já se abeira do túmulo, e dele nos traz a amável sensação de alívio. E são certas flores as portadoras da forma visível desse fim, provocando, assim, nas criaturas, determinadas emoções reveladoras da sua proximidade. E, eu creio, a violeta é uma dessas flores predestinadas.
Mas, não filosofemos. Sejamos mais sábios. Falemos um pouco de ti. Que tens feito? E a minha ausência? Pouco te faz sofrer, não é? Ainda bem. Eu, entretanto, longe de ti, não sinto a vida. Trago, a queimar-me o peito, uma grande saudade do meu amor. É que eu te amo mais que a mim próprio. Coloquei o universo dentro do teu ser, e só por ele vivo e palpito. Encontrei, no mundo, a minha “pedra luminosa”... Na extinção da sua luz está a extinção da minha vida. E és tu a guardadora dessa minha pedra... Está nas tuas mãos, pois, a minha vida, a vida do teu,
para o sempre,
Francisco
25 de dezembro de 2008
AS CARTAS XII
Carta de Francisco para Maria de 1º de agosto de 1924.
Maria,
Perdoa-me os versos que hoje te mando. Eu vivi contigo dentro da tua velha casa. Tu partiste; eu fiquei. Ficaram comigo a tua imagem e a saudade, que acorda dentro de mim a imagem da vida que lá vivemos.
A nossa velha casa... Ela era grande, mas para mim se resumia, apenas, no aposento onde tu pensavas no teu amor, sozinha com ele, perfumando-o de carícias.
O teu aposento era pequenino e lindo. Tinha um ar estranho de mistério e sensualidade. Evocava-me, não sei por que, em originais e suaves mutações, cenas febris do Oriente e a vida límpida e pacífica dos santos.
A um canto, sobre um tapete persa, repousava um divã cor de trevo. Era esse o teu recanto predileto.
− É o templo da preguiça e dos sonhos, tu me dizias, sorrindo.
E o teu sorriso, de súbito, abria um reflexo de luz na sala toda e alumiava a minha alma.
O piano, ao longo da parede, punha uma nota solene na melancolia do aposento.
À noite, depois do chá, mal acabavam de soar, no relógio da Igreja, as badaladas das dez horas, tu te sentavas ao piano. E logo, os primeiros acordes da Cathedral Engloutie começavam espaçados, sonolentos, envoltos em sombra, a arrancar pedaços de alma...
Bem me lembro de tudo isso... Eras muito religiosa também. Junto a uma janela, colocaste um oratório, com a imagem de Santa Teresa do Menino Jesus, e uma chama de amor e de fé, a crepitar.
Tinhas uma devoção especial por essa Santa. Recordo que, uma vez, eu fui te encontrar de joelhos em frente dela, numa atitude de êxtase, e uma imploração no olhar. Sorriste, confusa, ao ver-me. E depois, cheia de pudor, a cabeça deitada no meu ombro, confessaste-me o teu pedido: a graça de não acontecer uma coisa que temias... Depois, choraste muito, e eu chorei também... Ficamos os dois, longo tempo, a chorar, ingenuamente, sem saber por que, quase sem querer...
Tudo isso na velha casa... Como eu me lembro!... E como é bom lembrar!... como é bom evocar o tempo que passou, o nosso tempo, aquele tempo... Recordar, ressentir o que ficou lá longe, perdido... Velhas sensações que nos despertam novas... Frangalhos de nós mesmos deixados ao longo do tempo... O passado... Bastante razão tem Henri Bataille: o passado é um segundo coração que bate em nós...
Um grande pensamento
do teu
Francisco
Maria,
Perdoa-me os versos que hoje te mando. Eu vivi contigo dentro da tua velha casa. Tu partiste; eu fiquei. Ficaram comigo a tua imagem e a saudade, que acorda dentro de mim a imagem da vida que lá vivemos.
A nossa velha casa... Ela era grande, mas para mim se resumia, apenas, no aposento onde tu pensavas no teu amor, sozinha com ele, perfumando-o de carícias.
O teu aposento era pequenino e lindo. Tinha um ar estranho de mistério e sensualidade. Evocava-me, não sei por que, em originais e suaves mutações, cenas febris do Oriente e a vida límpida e pacífica dos santos.
A um canto, sobre um tapete persa, repousava um divã cor de trevo. Era esse o teu recanto predileto.
− É o templo da preguiça e dos sonhos, tu me dizias, sorrindo.
E o teu sorriso, de súbito, abria um reflexo de luz na sala toda e alumiava a minha alma.
O piano, ao longo da parede, punha uma nota solene na melancolia do aposento.
À noite, depois do chá, mal acabavam de soar, no relógio da Igreja, as badaladas das dez horas, tu te sentavas ao piano. E logo, os primeiros acordes da Cathedral Engloutie começavam espaçados, sonolentos, envoltos em sombra, a arrancar pedaços de alma...
Bem me lembro de tudo isso... Eras muito religiosa também. Junto a uma janela, colocaste um oratório, com a imagem de Santa Teresa do Menino Jesus, e uma chama de amor e de fé, a crepitar.
Tinhas uma devoção especial por essa Santa. Recordo que, uma vez, eu fui te encontrar de joelhos em frente dela, numa atitude de êxtase, e uma imploração no olhar. Sorriste, confusa, ao ver-me. E depois, cheia de pudor, a cabeça deitada no meu ombro, confessaste-me o teu pedido: a graça de não acontecer uma coisa que temias... Depois, choraste muito, e eu chorei também... Ficamos os dois, longo tempo, a chorar, ingenuamente, sem saber por que, quase sem querer...
Tudo isso na velha casa... Como eu me lembro!... E como é bom lembrar!... como é bom evocar o tempo que passou, o nosso tempo, aquele tempo... Recordar, ressentir o que ficou lá longe, perdido... Velhas sensações que nos despertam novas... Frangalhos de nós mesmos deixados ao longo do tempo... O passado... Bastante razão tem Henri Bataille: o passado é um segundo coração que bate em nós...
Um grande pensamento
do teu
Francisco
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