30 de setembro de 2008

JOSE INGENIEROS (1877-1925)

A honestidade é uma imitação; a virtude é uma originalidade. Somente os virtuosos possuem talento moral, e, qualquer ascensão na busca do mais perfeito é obra deles; o rebanho limita-se a seguir suas pegadas, incorporando na honestidade banal aquilo que foi, antes, virtude de poucos. E sempre rebaixando.
O conhecido autor de O Homem Medíocre, na realidade, o resumo de um curso para a Cátedra de Psicologia em Filosofia e Letras, uma obra à parte dentro da retórica de Ingenieros, e um marco em suas formas e intenções, onde ele aborda a psicologia da mediocridade exposta em um tratado que estigmatiza a rotina, a hipocrisia e o servilismo, retratando impiedosamente as características do homem inferior. Sua Criminologia também é notável, especialmente pela expressividade.
Principais Obras1. "Simulación de la locura en la lucha por la vida" (1903)
2. "Criminología" (1907)
3. "Sociología argentina" (1908)
4. "Principios de psicología genética" (1911), considerado o primeiro livro pedagógico da disciplina 5. "El hombre mediocre" (1913)
6. "Hacia una moral sin dogmas: lecciones sobre Emerson y el eticismo" (1917)
7."Proposiciones relativas al porvenir de la filosofía" (1918)
8. "La evolución de las ideas argentinas" (1918)
9. "Los tiempos nuevos" (1921)
10. "Las fuerzas morales" (1922)
11. "Archivos de Psiquiatria y Criminologia", vol. XII,(1902 a 1913)
12. Estudios clínicos sobre la histeria y la sugestión
13. La Psicopatologia en el Arte
14. La Simulacion de la Locura
15. Nueva classificación de los delincuentes
16. Patologia del lenguage musical

28 de setembro de 2008

Dicionários

Eu adoro dicionários, essas poderosas ferramentas que nos ajudam tanto. Faz alguns anos que consegui encontrar os seis pesados volumes desta obra que é bem o meu grande hipermercado de palavras francesas, fora referências breves a pessoas e lugares. Além deste, o meu Petit Larousse, surrado, que não tem mais capa, de 1947, comprado por meu avô Bleggi logo depois do fim da II Guerra, para ver como haviam ficado os mapas da Europa que vinham em anexo. Olhar um dicionário é sempre uma surpresa, uma maneira de distrair-se com as palavras, de encontrá-las e reencontrá-las quando elas estão descomprometidas de um sentido que não seja apenas o seu próprio. Gosto de dicionários, de folheá-los ao acaso, e dar com palavras tão estranhas que a gente se pergunta pra que servem. Outras conhecemos e empregamos, mas não é raro perceber-se, ao ler o seu sentido, que elas ainda podiam servir para definir outras coisas. Dicionários também nunca são demais. Grandes, pesados, desajeitados às vezes, com letras econômicas, estão sempre ali, prontos a esclarecer. Agora estão renovados com a virtualidade, o que abre vaga nas estantes. Aurélios, Houaiss e Michaelis já viraram CDs e são guardados em nossos computadores. Destino talvez de nossas bibliotecas será o de habitarem essas máquinas. Mesmo assim, nada substitui livros que a gente segura nas mãos, livros que a gente risca, anota, cheira, sublinha. Dicionários virtuais não se deixam abrir ao acaso, nem percorrer sem objetivo como gosto de fazer. São precisos e, não raro, sem a majestade e a imponência do meu Larousse Siècle XX aí da foto, resistindo às revoluções da tal pós-modernidade.

Serendipity

Embora estivessem certos, os sábios de Salamanca estavam errados; e Colombo, embora estivesse errado, perseguiu fielmente seu erro e provou estar certo, graças a Serendipity.
Umberto Eco

Pessimismo de 1917

AS CARTAS IV



Poema de Francisco para Maria escrito a 25 de julho de 1923.
Filosofia Sentimental
E insistes em querer dizer que és minha! E me olhas
fixamente, de um modo assim de quem espera
um gesto, um olhar... Mas eu não sei se és sincera,
se não são falsas as palavras que desfolhas...

E te moves num gesto, e neste gesto eu sinto
todo o mal e a dor que me faz essa incerteza.
— Sim, porque, às vezes, isso é simples gentileza
que toda mulher tem somente por instinto....

E eu sofro tanto com essa duvida, tanto!
Certas vezes, ensaio um olhar bem profundo,
agudo e longo, que te devassa a alma fundo,
e, ingenuamente, recuo, louco de espanto.

E isso, querida, só porque tenho receio
das profundezas que guardam certas verdades.
Muitas vezes, a flor das infelicidades,
perversamente, tem a verdade do seio!...

25 de julho de 1923

Observações:De todos os papéis, este é o único que foi amassado com força algum dia, e depois alisado novamente. São duas poesias, esta, do dia 25 e outra, do dia 27, ambas escritas numa mesma página e noticiando o que parece ser uma crise de dúvidas e incertezas que Francisco coloca em versos belos, bastante filosóficos. Eis a segunda poesia, da qual, entretanto, consta uma palavra cujo significado me escapa: store. Pelo contexto, parece-me ser um tipo de equipamento de iluminação utilizada nos anos 20, quem sabe, uma lanterna à base de acetileno, comum nesse tempo, segundo Dona Genny, minha mãe, a quem consultei a propósito desta dúvida.

Minueto de uma Noite de Chuva
Chove prata. Na sala, onde escrevo à luz de ouro
do store, há pelo ambiente um esgarçar de sedas...
e, no ar, cuido sentir, esvoaçando, ledas,
as asas de cetim de encantado besouro:

São versos que componho ao céu do teu olhar,
à sombra de teu vulto indolente, de pluma,
à luz de teu sorrir, feito todo de espuma,
ao som de tua voz cristalina, de luar.

São versos em que falo em minha dor fremente,
em tudo o que vivi, e que amei e perdi,
em tudo o que passou, em tudo o que sofri,
numa ronda sem fim, longa e perdidamente...
.......................................................................
Enquanto as horas vão caindo, silenciosas...
e eu penso em ti, em minha pobre alma dorida,
em nosso triste amor, em minha infeliz vida...

E as finas gotas de chuva rolam, chorosas...

27 de julho de 23.

AS CARTAS III



Poema de Francisco para Maria escrito no dia 25 de maio de 1923 e intitulado Cantique d'Amour.
Oh! Amar somente pela alegria de amar.
No entanto, é dolorosa essa alegria,
acerbo esse prazer que se goza num dia
no infinito volver do teu olhar.
Acerbo esse prazer
que brilha sempre no teu sorrido divino,
na tua linda voz de veludo, que é um hino
de faiança, que faz amar e padecer...

Amar — que encanto,
que sonho, que alegria deliciosa!
é minha vida...
E se um dia, querida,
tu me vires sorrindo, e nos olhos o pranto,
como um triste precito abandonado,
a cumprir pelo mundo o negro fado
por teus régios dedos traçado,
não me consoles, não. Ri, ri bastante
teu sorrido de luz, de prata, deslumbrante!...
E, após, deixa-me só, como um palhaço, amor,
dissimulando num sorriso a minha dor...

-XXV-V-MCMXXIII

Observações:Este poema aparece também em uma página escrita à máquina, precedido de uma citação em francês e ao final assinada por Francisco, com a observação outono de 1925. A versão da foto, escrita com lápis de cor azul, não está assinada.

26 de setembro de 2008

Desastre de Automóvel

Humor do princípio do século. É do Bertrand, 1917. Diz a legenda:
— Ora, aqui está um caso que até está dando vontade de rir àqueles cavalos!...

Pharmacia Formosinho

Está no Almanaque Bertrant de 1917. Propaganda de uma farmácia onde se poderia adquirir o Fermento de Uvas Formosinho que, segundo o anúncio, curava diabetes, furúnculos, dispepsia, eczemas, doenças de pele em geral. E ainda o milagroso UROL, o mais poderoso dissolvente do ácido úrico, que seria capaz de curar artritismo, cálculos, gota, obesidade, nevralgias, dispepsias, ciática, eczema, arterosclerose e areias.

Almanaque Bertrand

Adoro almanaques. Desses mesmos que a gente ganha em farmácias, e ainda os tais que se editam todos os anos, uns até tornados clássicos, como o Almanaque do Pensamento. Tenho alguns bastante antigos que até hoje me dão gosto de ler, seja pelos artigos, seja pelas piadas, charges, desenhos, seja mesmo pelos anúncios publicitários, especialmente de remédios. A foto acima é do Almaque Bertrand de 1917. A edição é linda, seguindo o estilo art-nouveau.

Claude Bernard (1813-1878)

Um dos maiores obstáculos que se encontra nessa marcha geral e livre dos conhecimentos humanos é a tendência que leva os diversos conhecimentos a se individualizarem em sistemas... Os sistemas tendem a sujeitar o espírito humano... É preciso procurar quebrar os entraves dos sistemas filosóficos e científicos... A filosofia e a ciência não devem ser sistemáticas.

A Filosofia de Claude Bernard. BERGSON, Henri. La pensée et le mouvant. Essais et conférences. Presses Universitaires de France, 27ª edição, 1950, pág. 229-237.
Tradução: Maristela Bleggi Tomasini. Disponível neste blog.

William James

Nós inventamos a verdade para utilizar a realidade, como nós criamos dispositivos mecânicos para utilizar as forças da natureza. Poder-se-ia, parece-me, resumir todo o essencial da concepção pragmatista da verdade em uma fórmula tal como esta: enquanto para as outras doutrinas uma verdade nova é uma descoberta, para o pragmatismo ela é uma invençãoBERGSON, Henri. La pensée et le mouvant. Essais et conférences. Presses Universitaires de France, 27ª edição, 1950, pág. 239-251.
Minha tradução deste artigo de Bergson sobre William James (1842-1910) já está disponível neste blog.

25 de setembro de 2008

AS CARTAS II

Carta de Francisco para Maria de 03/10/1924.
Maria
Pensei ter coragem bastante para suportar tão longo tempo sem ver-te. No entanto, eu sofro. Minhas penas, a gemer dentro do meu peito, cantam a canção da dor. Vivo os meus dias a pensar em ti. E só a memória trabalha. Nosso pe
queno passado desenrola-se aos meus olhos. E a memória põe-se então a alumiar os quadros mais vivos da minha história romântica de rapaz simples e sentimental. E ela começa a dizer a legenda de cada um. Foi um olhar... foi um gesto... foi uma promessa... Naquela manhã, no passeio de um jardim...as nossas mãos enlaçadas...Depois numa noite, uma rusga...uma lágrima...um perdão... E uma chusma de coisas mais que eu só poderei dizer de viva voz, explicadas pela expressão dos olhos e dos movimentos...
Amo-te muito, e mando-te todo o meu amor, toda a minha saudade, todos os meus desejos eternos.
Nada temas da Revolução. Os revolucionários, segundo notícias dos jornais, estão acampados na fronteira de Mato Grosso com o Paraguai, e as forças legais estacionaram no Paraná para evitar a sua passagem para o sul.
Manda dizer a hora da missa em que vais fazer a primeira comunhão. Escrevo-te à pressa. Cláudio está à espera desta carta para colocá-la no Correio.
do teu
Francisco
3-10-924


Observações:Atualizei a ortografia. Há cartas anteriores a esta data, o que indica que o romance começou antes. De 1923 existem diversas poesias escritas a lápis. Papéis dobrados que indicam que essas poesias escritas entre julho e agosto de 23 não eram remetidas via correio. Muitas das cartas, por sua vez, as quais possuo com os respectivos envelopes selados, eram dirigidas a outra pessoa, ou seja, não eram remetidas diretamente à Maria. O romance tinha pelo menos uma cúmplice.
Curiosa com a menção a um movimento revolucionário. Desconfio que fosse reflexo do tenentismo, que data de julho de 1924. Todavia, só um historiador bem versado nas coisas da Velha República poderia explicar com certeza esta referência de Francisco, não é mesmo Professor?

AS CARTAS I


Esta será a primeira de várias postagens que eu vou chamar de AS CARTAS. Será uma história epistolar que vou colocar aqui aos poucos, sempre com um número romano indicando a ordem dos arquivos enviados. Com o tempo, quem quiser ver tudo e ler tudo o que estiver publicado aqui, vai na ferramenta que está na barra superior (pesquisar blog) e chama por elas: AS CARTAS. Creio que as postagens vão aparecer em ordem cronológica, e os leitores vão poder saber do caso, embora não os dados precisos das pessoas envolvidas, todas mortas. É a correspondência de Francisco dirigida a Maria, a mulher por quem ele se apaixonou ainda muito jovem. As primeiras cartas são dos anos 20. Eles ficaram noivos só em 1932, porque se tratou de um romance aparentemente contrariado.
Todos os papéis que dão testemunho destes fatos acabariam no lixo, não fosse um querido amigo meu, o Beto, guardá-los por muito tempo. Ele possuia um brique aonde eu ia quase todos os dias, pois ficava pertinho da minha casa. Nos tornamos grandes amigos nesta época, há muitos anos. Ele trabalhava com antiguidades, porcelanas, cristais, livros e todas as tralhas que, em geral, vão parar nessas lojas. Um dia, quando estava por se mudar dali, ele me chamou: "Maristela, vem cá que tenho uma coisa pra ti", disse ele, muito sério. Fomos até a parte dos fundos da loja e ele, então, entregou-me uma sacola plástica, empoeirada e amarrada, dizendo que ali havia coisas que ele não queria mais guardar, mas que achava que estariam melhor se ficasssem nas minhas mãos. Foi um presente dado com muito carinho. Não explicou mais nada na hora, mas sorriu pra mim com certa cumplicidade. Em casa, mais tarde, abri a sacola com cuidado, curiosa para saber o que era aquilo. Descobri então que eram cartas, cartas de amor e, entre surpresa e emocionada, fui lendo e me encantando com uma história verdadeira, que aconteceu aqui em Porto Alegre. Impressionante constatar ainda o imenso talento deste Francisco como escritor e poeta, e o amor profundo que devotou à sua Maria durante tantos e tantos anos.
Foi a minha vez de guardar os papéis. Arrumei lugar para tudo, e tenho comigo as tais cartas há muitos anos, e mais recortes, fotos, cartões, santinhos, telegramas, fitas e demais objetos que estavam na tal sacola, coisas que me inspiram um profundo respeito pelo que significaram um dia àqueles a quem pertenceram. Esta semana abri a caixa e selecionei as cartas, colocando-as em ordem cronológica por décadas. São dos anos 20 e 30. E há as dos anos 40 e 50 também, que envolvem pessoas próximas do casal. Um cartão de Natal de 1961 dá contas de que Francisco e Maria se casaram.
Agora que disponho deste espaço não vejo razão para manter tudo isso sepultado juntamente com seus personagens que, não importa quem tenham sido, viveram uma vida única e irrepetível, e tiveram uma história da qual seremos eu e vocês, leitores, os herdeiros e as testemunhas.

As Leis Sociais

TARDE, Gabriel. Les Lois Sociales, esquisse d'une sociologie, 7ª edição, Alcan, Paris, 1913, 166 pág. A foto ao lado mostra a edição que ganhei de presente do Rogério no dia em que o conheci pessoalmente, depois de quase três anos de comunicação exclusivamente virtual, falando de traças, ácaros e outras coisas menos republicanas. Confesso que eu tinha a maior vontade de pedir o livro, depois de saber que ele tinha uma edição francesa desta obra em casa. Devo ter feito muitos comentários diretos e indiretos a respeito... Bom, acabei ganhando o livro, que Tarde mesmo considerava sua obra fundamental, para ser lida por quem quisesse compreender a base de todo o seu sistema. Eu a estou traduzindo aos poucos, sempre que me sobra tempo para isso. Sem prejuízo, porém, de algum dia vir a disponibilizar integralmente o trabalho de mais esta tradução, aqui vai o prefácio da obra e, em breve, em outra postagem, a sua conclusão.


PREFÁCIO


Nesse pequeno volume, que encerra a substância de muitas conferências feitas no Collège libre des sciences sociales em outubro de 1897, tentei fornecer, não apenas nem precisamente o resumo ou a quintessência de minhas três principais obras de Sociologia Geral — Lois de l'Imitation, l'Opposition universelle e Logique sociale, — mas ainda e, sobretudo, o liame íntimo que as une. Esta conexão — que bem pôde escapar ao leitor desses livros — é aqui trazida à luz por considerações de ordem mais geral. Elas permitem, se me parece, abranger, em um mesmo ponto de vista, esses três pedaços separadamente publicados de um mesmo pensamento, membra disjecta de um mesmo corpo de idéias. Talvez, dir-se-á, eu teria feito melhor em primeiramente apresentar num todo sistemático aquilo que reparti em três publicações. Mas, além de que as obras em muitos tomos espantam, com alguma razão, o leitor contemporâneo, de que serve nos fatigarmos com essas grandes construções unitárias, esses edifícios completos? Aqueles que nos seguem não têm pressa senão de demolir essas construções, para delas utilizarem os materiais ou para se apropriarem de um pavilhão destacado, de modo que vale a pena poupar-lhes esse trabalho de demolição, e não lhes entregar seu pensamento senão em fragmentos. Todavia, para o uso dos espíritos singulares que se divertem com reconstruir aquilo que se lhes oferece em estado fragmentar, como outros, em quebrar o que se lhe presenteia acabado, não é inútil, talvez, acrescentar às partes esparsas de sua obra um desenho, um esboço, indicando o plano que se teria gostado de executar, se não se houvesse sentido dele a força e a audácia. Eis toda a razão de ser desta fina brochura.

G. T.
Abril, 1898.

Monumento a Gabriel Tarde (1843-1904)

Foi especialmente para a inauguração deste monumento esculpido em mármore em Sarlat, cidade natal de G.T., em 12 de setembro de 1909, que Bergson escreveu a carta traduzida na postagem anterior.

22 de setembro de 2008

Homenagem de Henri Bergson a Gabriel Tarde

Uma carta comovente. Tanto que, não obstante seja desaconselhável postar textos longos em bloggers, assim mesmo vou reproduzi-la integralmente, não sem antes explicar algumas coisas. É que há dois textos de Bergson concernentes a Gabriel Tarde. O primeiro a ser publicado até hoje é o texto do Prefácio dado por Bergson à obra dos filhos de G. Tarde intitulada Tarde (Michaud, 1909). Pode-se encontrá-lo na coletânea constituída pela Sra. Mossé-Bastide, Henri Bergson, écrits et paroles, P.U.F., vol. II, pp. 332 à 334. O segundo, ― que traduzo a seguir, ― permaneceu ignorado. Foi publicado numa coletânea de fraca tiragem editada aos cuidados do Comitê de Inauguração do Monumento de Tarde em Sarlat (1909). Eis a referência exata: Gabriel Tarde. Discursos pronunciados a 12 de setembro de 1909 em Sarlat, quando da inauguração de seu monumento. Sarlat. Michelet, Imprimeur, rue de la Charité. 1909. A referência ao lado, da Biblioteca Nacional, é: 8° Ln27.58174. Eu encontrei este material no anexo à edição virtual de As Transformações do Direito, disponível no site Les Classiques des Sciences Sociales. A carta de Bergson, ― que não pudera estar presente e que havia remetido o texto desta carta para fosse lida quando da inauguração do monumento, ― figura nas páginas 94 e seguintes da citada coletânea de discursos.

Carta de Bergson, do Instituto, Professor de Filosofia no Collège de France.
A história da filosofia ensina-nos a distinguir dois gêneros de pensadores. Existem aí aqueles que escolhem sua direção e que caminham metodicamente rumo ao seu objetivo, elevando-se de grau em grau até uma síntese querida e premeditada. Existem outros que vão, sem método aparente, aonde sua fantasia os conduz, mas cujo espírito é tão bem afinado ao uníssono das coisas que todas as suas idéias se harmonizam naturalmente entre elas. Sua reflexão, partindo de não importa onde e engajando-se em não importa que caminho, arranja-se para conduzi-las sempre ao mesmo ponto. Suas intuições, que nada têm de sistemático, organizam-se delas mesmas em síntese. Eles são filósofos sem haver procurado sê-lo, sem haver pensado nisso.
À raça desses últimos pertence Gabriel Tarde. Aquilo que primeiro surpreende nele é o imprevisto de uma fantasia que multiplica os apanhados rápidos, as visões originais e brilhantes. Mas, logo, a unidade e a profundidade de doutrina revelam-se. Um grande pensamento sustenta a obra e imprime-lhe sua direção.
Ele nos conduz, por mil caminhos diferentes, a ver, nas iniciativas individuais e na irradiação dessas iniciativas em torno delas, a verdadeira causa daquilo que se faz em uma sociedade e, mesmo, daquilo que se passa no mundo. Seduzidos pelos belos sucessos das ciências físicas, nós somos muito levados a construir as ciências sociais sobre o mesmo modelo, a colocar como princípio que a evolução das sociedades deve obedecer a leis inelutáveis, a representar-nos os eventos históricos como os resultados necessários de forças cegas, impessoais, que se comporiam entre si mecanicamente. Contra esta tendência tornada natural ao nosso espírito, toda a filosofia de Tarde protesta. Sem dúvida, as sociedades humanas são atravessadas por correntes; mas, na origem de cada corrente, existe um impulso, e o impulso vem de um homem. Sem dúvida, a evolução das sociedades é regrada por leis; mas essas leis são da mesma natureza daquelas que presidem a formação e o desenvolvimento de nosso caráter individual. Como a história de cada um de nós se explica pelas iniciativas e pelos hábitos contraídos, assim a vida das sociedades é feita de invenções que surgem aqui e ali e de modificações duráveis a que essas invenções conduzem em se fazendo adotar. Como cada um de nós — uma vez o hábito adotado — se repete e se copia a si mesmo, assim, em uma sociedade, todos os homens se imitam indefinidamente uns aos outros. A imitação é, pois, a verdadeira lei, tão universal no mundo dos espíritos quanto a gravitação o é no mundo dos corpos. Mas, diferentemente da lei da gravitação, é uma lei suave e flexível, como tudo aquilo que é humano.
Grande e importante idéia! Tarde deduziu-a de certas visões metafísicas profundas sobre a natureza do universo, elementos que o compõem e ações que esses elementos exercem uns sobre os outros. E ele aí relacionava mil considerações engenhosas sobre a estrutura de nosso espírito e sobre o funcionamento das sociedades. Mas, desta obra, onde o sociólogo, o psicólogo, o moralista, o economista e o jurista encontrarão tanto a aprender, uma lição se destaca, que se endereça a todo mundo. Mostrando-nos como a menor de nossas iniciativas pode abrir-se em conseqüências incalculáveis, como um simples gesto individual, caindo no meio social como uma pedra na água de um lago, movimenta-o inteiramente por ondas imitativas que se vão ampliando sempre, ela nos dá um sentimento agudo de nossa responsabilidade. Revelando-nos tudo aquilo que devemos a outrem, inventores em certos momentos, mas imitadores durante nossa vida inteira, ela esclarece, ela fortifica em nós o sentimento da solidariedade. Relacionando ao costume muitas coisas que se põem comumente na conta da natureza; fazendo remontar aos pensamentos individuais, às vontades individuais, a origem das transformações profundas da sociedade e da humanidade, ela nos desabitua de crer nas fatalidades históricas; ela nos convida a agir, a ter confiança em nós, a jamais desesperar do presente, a considerar tranqüilamente o amanhã. Do outro lado da inteligência à qual ela fala, está a vontade que ela atinge, estimula e fortalece.
Saudemos em Tarde o filósofo de pensamento penetrante, imaginação ousada que nos abre tantos horizontes; mas saibamo-lo contente, sobretudo, por haver realizado a mais alta ambição da filosofia, que é a de nos tornar melhores e mais fortes.

Henri Bergson

Das Diferenças


Existir é diferir. Nossas semelhanças, que o sábio estuda, nossas mútuas imitações, não são senão um meio de pôr em relevo nossa diferença essencial, delícias de artista, única razão de ser de nosso ser. Eis aí aquilo que pertence ao filósofo demonstrar, se ele quiser cumprir sua missão inteiramente, que não é apenas a de sublimar a ciência e destilar a arte, mas combinar, em suas fórmulas, todo o suco de uma com a essência da outra.

Gabriel Tarde.
As Transformações do Direito

Gabriel Tarde

Mas quem de nós não inventa e não inova em algum grau e não é iniciador obscuro, de algum modo, ao mesmo tempo que imitador em todo o resto de sua conduta? Quem não deixa atrás de si, num círculo mais ou menos amplo ou restrito, um hábito novo no que lhe toca, uma modificação despercebida de linguagem, de maneiras, de idéias, de sentimentos? Nada está perdido de tudo aquilo que jorrou de nosso coração um dia, e cuja misteriosa fonte, escondida nas profundezas de nossa originalidade irredutível, escapa à sonda do psicólogo.


Trecho extraído de As Transformações do Direito.

Scipio Sighele


Scipio Sighele (Brescia, 1868- Florença, 1913). Laureado em Jurisprudência em Roma no ano de 1890, juntamente com o não menos conhecido Enrico Ferri, Sighele chegou à notoriedade com a obra La folla delinquente (1891), logo traduzida para o francês. Foi quando deu início às suas reflexões sobre Psicologia Coletiva da qual é um dos pioneiros.
A propósito dos comentários aparecidos na postagem “Morada de Rossi”, sobre a rivalidade com Le Bon, a observação abaixo consta do Prefácio de La foule criminelle. Essai de psychologie collective. Paris. Félix Alcan, Éditeur, 1901, 300 pág., 2ª edição, traduzida do italiano por Paul Vigny. Bibliothèque de philosophie contemporaine.

"Meu reconhecimento é muito grande, não apenas em relação a todos aqueles que, como Gabriel Tarde e o lamentado Victor Cherbuliez, longa e lealmente discutiram minha teoria, mas também em relação àqueles que, como Gustave Le Bon, utilizaram minhas observações sobre a psicologia das multidões sem me citar. E não há ironia naquilo que escrevo. Penso que, quando se adotam nossas idéias sem nos citar, é o gênero de elogio menos suspeito que nos pode ser endereçado."
Sighele, essa figura simpática, foi um dos maiores autores que mais se dedicou à chamada Psicologia das Multidões, sem prejuízo de Gustav Le Bon, que nos deixou textos fascinantes em todos os aspectos.

21 de setembro de 2008

As Transformações do Direito

Todo livro, seja ele um poema ou um romance, é um Catecismo ou um Código em projeto. Não há livro, sobre não importa que assunto, que não aspire a regrar a conduta ou o pensamento dos homens, a ensinar-lhes alguma verdade ou a fazer-lhes algum bem.
Gabriel Tarde
A traduçao é grátis. Está neste blog, ali em baixo, nos LIVROS.

20 de setembro de 2008

Morada de Rossi

O segundo livro da esquerda para direita. Entre Gustave Le Bon e Scípio Sighele.

Pascal Rossi

Coincidência. Justo quando fiz um carinho nesse livro de Pascal Rossi, Os sugestionadores e as multidões, pela manhã... Mais tarde, ao espiar o que havia escrito o nosso vizinho de blog, Rogério, vi que ele postou um texto onde se refere a massas e ao amorfismo. Na hora, ao ler o título, lembrei-me de que Rossi, citando Ribot, nos presenteia com uma descrição literária dos tipos amorfos e ainda de sua antítese, os tipos instáveis. Não resisti e traduzi este trecho que aparece nas páginas 7-8 em ROSSI, Pascal, Les Suggesteurs et la Foule, 9ª edição, A. Michalon, Paris, 1907, tradução do italiano pelo Prof. Cundari, Prefácio de Henri Morselli, 222 páginas. A referência à citação está em nota: RIBOT. La psychologie des sentiments, pages 386-87, Paris, Alcan, 1899. Dou as referências caso alguém se interesse pela citação.

Ribot escreve: “Os amorfos são legião. Entendo por isso aqueles que não têm forma que lhes seja própria; são caracteres adquiridos. Neles, nada de inato; nada que se pareça a uma vocação; a natureza os fez plásticos ao excesso. Eles são integralmente o produto das circunstâncias, de seu meio e da educação que receberam dos homens e das coisas. Um outro ou, na falta deste outro, o meio social, quer por eles e age por eles. Não são uma voz, mas um eco, são isto ou aquilo ao sabor das circunstâncias. O acaso decide de sua profissão, de seu casamento e do resto: uma vez presos na engrenagem, eles fazem como todo mundo.” E mais adiante Ribot acrescenta: “Os instáveis são os dejetos e a escória da civilização, e pode-se acusá-la, a justo título, de multiplicá-los. Eles são a antítese completa de nossa definição, não tendo nem unidade, nem permanência. Caprichosos, cambiantes de um instante ao outro, ora inertes, ora explosivos; incertos e desproporcionais em suas reações, agem da mesma maneira em circunstâncias diferentes e diferentemente em circunstâncias idênticas. Eles são a indeterminação absoluta. Formas mórbidas, em graus diversos, que exprimem a impossibilidade das tendências e dos desejos em atingir a coesão, a divergência, a unidade.”

Bem, gosto da frase que diz que, visto de perto, ninguém é normal. Divertido a gente se identificar nessas descrições tão realistas. Brincadeiras à parte, é um livro escrito com vigor, maestria, delicioso de ler, seja pela qualidade do texto, seja porque é cheio de informações e detalhes sobre personagens históricos, aí analisados do ponto de vista do desempenho de seu papel frente às multidões, coisa que vai de Sarah Bernhardt a Napoleão Bonaparte.

Ah, não posso omitir que este livro, uma verdadeira raridade, foi mais um dos muitos presentes que ganhei do Rogério. Desconfio muito de que ele conhece bem o meu fraco por ácaros e traças, especialmente os franceses.

17 de setembro de 2008

Gina Lombroso Ferrero

Os livros se encontram, parece que chamam uns pelos outros. Uma biblioteca qualquer, por simples que seja, coleciona histórias e sincronicidades, coincidências e acasos. Assim foi que, numa manhã para mim marcante, o editor para o qual eu trabalhava mandou me entregar aqui na 407 a edição argentina de El Alma de la Mujer, Emecé, Buenos Aires, 1945, 3ª edição, tradução de Eduardo Blanco Amor. É uma obra escrita com muito sentimento, critério e, estou certa, com toda honestidade intelectual de sua autora, que aborda a condição feminina. Gina, vale lembrar, destacou-se por seus dotes intelectuais, e também nos deixou a biografia de seu pai. Há muitas passagens interessantes que marquei para mim mesma quando li. Agora mostro a vocês algumas delas:

A capacidade da mulher para influir sobre as emoções dos outros faz com que o homem a considere, conforme o caso, com horror ou com admiração, como algo que está acima do natural (pág. 27).
Em quase todos os "diários" e "memórias" que nos ficaram das aristocratas francesas emigradas por causa da Revolução existe alusão à surpreendente satisfação que encontraram, após tantos anos de vida ociosa, nos mais humildes misteres da vida; satisfação que, na maioria das vezes, não haviam encontrado em suas antigas ocupações mundanas (pág. 111).
Um pensamento pode-se ruminar sozinha. Uma intuição precisa ser compartilhada (pág. 112).
Quando uma mulher visita uma exposição, freqüenta um curso ou lê um livro, vai achá-los magníficos ou detestáveis; sentir-se-á levada ao sétimo céu da admiração ou ao quinto dos infernos do desagrado; achará que a idéia desenvolvida ou representada lhe recorda isso ou aquilo; que o livro revela delicadeza de seu autor, grosseria ou malícia; que o quadro revela um certo romantismo; que a mulher do profesor deve sentir-se orgulhosa de ter um marido tão inteligente... Afirmações ou suposições que, em seu caráter de meras hipóteses, podem aproximar-se do real, mas que, sem dúvida alguma, nada tem a ver com a objetividade do quadro, do livro, do curso (pág. 117).
Gina tenta nos revelar o que pensa ser a essência do feminino, em especial, no que existe aí de diferente do masculino. É um livro para mulheres, mas também dirigido aos homens, com passagens que certamente envelheceram, mas que nem assim perdem em interesse. Li faz tempo, e ainda hoje tenho certo carinho pela Gina, talvez piedade, pois ela me inspira algo relacionado ao sacrifício que a condição feminina impunha às mulheres no tempo em que ela viveu e no tempo em que muitas ainda vivem hoje.
Certo é que a natureza não deu a mulher mais que dois meios para reter ao seu lado o homem que ama: ou ser-lhe útil, ou seja, dedicar-lhe toda sua atividade, ou embriagá-lo pelos sentidos. O primeiro deles corresponde à mulher normal; o segundo, à mulher anormal, ou, mais exatamente, à mulher perdida (pág. 146).
Parece que sempre seremos ou santas ou prostitutas. Destino de Maria Imaculada ou de Lilith amaldiçoada e lançada ao abismo, seja marginalizadas pela religião ou, no caso, pela própria ciência que normaliza a condição feminina também, limitando-a. Dá pra entender por que tantas histéricas refugiaram-se na religião e encontraram conforto até na penitência, no sacrifício, na busca desesperada pela salvação, no famoso padecer no paraíso. Pior: dá para entender como se sente um homem colocado assim diante de um ser que pode apenas negar-se ou entregar-se docilmente, sem qualquer opção intermediária, a não ser as já previamente assinadas por uma natureza tida então por atávica. Normal ou perversa. E, se lembrarmos que homens foram e são educados por mães assim, torna-se claro que a humanidade cria para si mesma culpas e delitos tão originais quanto o pecado de Adão e Eva.
A gratuidade de alguns sofrimentos chega a ser prosaica.

Mascote

Encontrei estas coisas numa lojinha de R$1,99. O mundo, que é um apontador, e o velho, um bonequinho de pano e louça, que freqüentemente cai e perde a cabeça que sai rolando cada vez que alguém bate na estante. El alma de la mujer, livro que aparece na foto, foi escrito por Gina Lombroso, filha do famoso César Lombroso, aquele dos criminosos, lembram? Pois ela foi escritora. Mais acima na estante tem outro livro da família Lombroso, escrito pela Paola, outra filha do médico e antropólogo criminal.

407

Era uma vez uma sala que deveria servir para escritório de advocacia. No entanto, nunca consegui deixar isso com jeito de escritório, porque acabou por se tornar o lugar para onde trouxe meus livros, revistas, arquivos, coisas e mais coisas que fui colecionando ao longo da vida. Tem quadros, papéis, originais de poesias que nunca mostrei a ninguém, fotografias de todos os falecidos da família, quadros pintados por mim, relógios parados, pratos de parede que foram de minha avó Josephina Mazzalli Bleggi, fora a poeira, os ácaros, as traças e, naturalmente, habitantes misteriosos, duendes acho, que às vezes escondem livros ou os misturam, trocando-os de lugar nas prateleiras. Fora os fantasmas dos escritores. Todos vivendo aqui, onde encontram repouso e muito afeto, carinho e atenção. Tem livros dos quais quase ninguém mais se lembra e ainda almanaques antigos, tudo com papéis por dentro, listas de compras, santinhos, bilhetes, recortes e margens anotadas, palavras sublinhadas, textos marcados por mim ou por outros aos quais eles já pertenceram. É a 407. Misteriosa, diz quem passa pelo corredor do prédio comercial e espia aqui para dentro, observando os quadros, os móveis velhos, as estantes repletas de livros já em fila dupla. Perguntam se aqui se vê a sorte, se sou cartomante, se vendo quadros, se compro livros... Enfim, a 407 é mesmo o lar das Traças, Ácaros & Cia.
Bem-vindos, leitores.