30 de setembro de 2012

Dia 30

E não é que o mês está por terminar? E eu nem senti o tempo passar, colocando distância entre o que fui e o que sou agora, depois desse agosto que já vai lá longe. Não que eu conte o tempo, mas queria que ele rendesse mais, para eu poder fazer o que faço, especialmente o que gosto, como isso que estou fazendo agora... e que nem sempre consigo fazer.

26 de setembro de 2012

Por aí mesmo


23 de setembro de 2012

REVISTA VIDA BRASIL (Réplica)

FOTOS, CÂMERAS, ARTISTAS
domingo, 23 de setembro de 2012
O melhor frango ensopado que comi em minha vida foi feito em um canteiro de obras, dentro de uma velha, amassada, e nada higiênica panela de pressão sem tampa, sobre o fogo de pedaços de pontaletes de eucalipto em desuso, e apoiada sobre dois blocos de cimento. Foi temperado inteiro, com sal, pimenta e cebola, e avermelhado com colorau, em meio à água retirada de uma caçamba. O “chef”? Aroldo, o pedreiro. Isso foi nos anos 70, e até hoje é inesquecível.
FOTOS, CÂMERAS, ARTISTAS, TÉCNICOS E APENAS USUÁRIOS

Réplica “Delícias da fotografia”, de Maristela Bleggi Tomasini.
O melhor frango ensopado que comi em minha vida foi feito em um canteiro de obras, dentro de uma velha, amassada, e nada higiênica panela de pressão sem tampa, sobre o fogo de pedaços de pontaletes de eucalipto em desuso, e apoiada sobre dois blocos de cimento. Foi temperado inteiro, com sal, pimenta e cebola, e avermelhado com colorau, em meio à água retirada de uma caçamba. O “chef”? Aroldo, o pedreiro. Isso foi nos anos 70, e até hoje é inesquecível.
Ah, poderá pensar o leitor, inesquecível pela situação sui generis. Não, asseguro. Realmente tinha um sabor inigualável.
Talvez fosse a única especialidade de Aroldo. Não sei. Sorte? É possível. O fato, porém, é que ao menos naquele dia, e naquele prato, Aroldo mostrou-se um mestre na arte culinária.
Maristela Bleggi Tomasini é assim com uma câmera fotográfica nas mãos. Ela não sabe o que fazer com minha objetiva Hasselblad Planar, como talvez Aroldo não soubesse o que fazer com o frango em um fogãohightec, uma vez que o talento de ambos não se expressa pelos recursos adotados, mas pela obra que realizam: Aroldo com sabores, e Maristela com imagens que captura.
Ambos têm técnicas, isto é, habilidades vertidas em resultados. Não podem, porém, ser replicados, reproduzidos, uma vez que donos dessas técnicas, poisconstrutores dessas habilidades.Ainda que cada qual a seu modo, talvez possam, ambos, merecer o nome de artistas. Eles - e não os utensílios - são os recursos que produzem as maravilhas.
Maristela não sabia que fotografava. No passado enviou-me uma foto anexada a e-mail. Era a cena de um campo, talvez de uma pastagemem meio a uma névoa. Bem composta, bem enquadrada, e dotada do que denomino de momento mágico do “clic”, com distribuição perfeita de cores, tons e semitons.
Perguntei que “equipamento” tinha utilizado e, demonstrando surpresa com a pergunta, disse-me que havia sido o telefone celular. Isso faz alguns anos, quando os celulares começavam a apresentar o recurso de captura de imagens. Viajamos para o Rio de Janeiro, depois, e Maristela continuou extraindo leite de pedras com o tal celular.
Ora, quem faz aquilo tudo com um celular, o que não faz com uma câmera? Comprou a sua primeira. Dessas pequenas e portáteis, comuns, econômicas, mas, de tanto me ouvir falar que os alemães são imbatíveis em lentes, optou por uma que tivesse uma objetiva Carl Zeiss, embora tudo o mais fosse made in japan.
Continuou apresentando resultados dotados de imensa sensibilidade criativa, mas agora com uma qualidade bem superior no produto final. Com mais recursos, da objetiva, pode expandir os limites de sua imaginação, e partiu para os abstratos, os compostos, etc. O que Maristela não disse, em sua crônica, é que domina pinceis e tintas sobre telas. É pintora, e daquelas que aprendeu reproduzindo obras dos grandes clássicos, dos quais é profunda estudiosa. Nessa medida, não apenas seu olhar, mas também o olhar dos clássicos, com os quais aprendeu, tornam-se recursos subjetivos poderosos quando com uma câmara entre os dedos.
Mais tarde, ainda, e surgem novas câmeras. Como eu tinha duas, deixei que escolhesse uma delas. Escolheu com sabedoria. Ficou com a mais barata, menos consagrada, mas que tinha uma objetiva Leica. O que já era bom ficou ainda melhor, certamente. Não satisfeita, e adquiriu uma poderosa Nikon.
Não desdenho de sua Nikon, como afirma na crônica. O fato é que ela mesma fica mais a vontade – e melhores resultados – com a primeira maquininha (com lentes Karl Zeiss) e com a que escolheu como presente pelo fato de ter uma objetiva Leica (alemã).
Ela não sabe o que fazer com minhasHasselblad, Flektogon, Leica, Rollei, Pentacon e Carl Zeiss, pelo fato de serem todas utilizadas apenas no modo “manual”. Não é verdade que não aprenderia a lidar com tudo isso (aberturas, velocidades, campo focal, ISO, etc.). O fato é que esses preciosismos técnicos, para chegar a um resultado artístico, impedem Maristela de fazer o que melhorsabe: capturar a imagem que deseja, do modo que deseja, mas principalmente no momento que deseja. Teria que realizar uma série de cálculos mentais, e isso roubaria o que mais importa em suas fotos: o momento. Nessa medida, minhas objetivas estão para a Maristela como estaria um fogão elétrico – e dotado de termostato – para o Aroldo. São talentosos por inspiração, e não por transpiração física, mental e emocional.
Não sou artista. Dessa forma, compenso minha falta de competência nesse aspecto da vida fazendo uso de recursos materiais, e que funcionam como uma espécie de muleta. Faço fotos como a imensa maioria dos usuários de câmeras, e sobre essa maioria levo a vantagem de um resultado que impressiona pela qualidade de cores e detalhamentos, mas por obra e graça da qualidade das objetivas, enão minhas, na condição de quinto elemento, isto é, de quem realmente faz ou deveria fazer a diferença.
Eu e Maristela temos um conhecido comum, o Edson. Por conta da trajetória de vida, Edson não tem a formação intelectual e artística da Maristela, e talvez não tenha, também, minha formação técnica. Não domina a linguagemcult. Não tem familiaridade com sopinhas de letras. Tem, porém, como Maristela e Aroldo, uma imensa sensibilidade. Um pouco parecido comigo, Edson gosta de objetivas, mas, como Maristela, gosta de criar, e de expressar-se por meio de imagens. Nessa medida, também ele é um artista, pois “fala” conosco por meio de imagens.
Ah, Maristela oculta, também, em sua bela crônica, que seu atual sonho de consumo é uma Leica digital, totalmente made in germany, mas automática.
Como escrevo pouco, e falo pouco de mim, ela pensa que não sei disso tudo.
Coitada....
Imagens meramente ilustrativas;as duas últimas foram produzidas com uma Leica digital.
Autor: Rogério Centofanti

Em cima da árvore

Sei lá quem atirou uma peça de roupa para cima da árvore... Em todo caso, registrei. E bem, por sinal.

22 de setembro de 2012

DELÍCIAS DA FOTOGRAFIA


segunda-feira, 17 de setembro de 2012
Desde que descobri a fotografia, tornei-me viciada em fazer uso de câmeras. Comecei usando o celular que tenho até hoje, e a partir dele fui aprendendo a lidar com imagens. Hoje, além do celular, possuo outras três câmeras, nada de muito sofisticado, mas cada uma com a sua própria personalidade. Como sou compulsiva também em relação a fotos, acabei por me deixar encantar pela prática e, sempre que dá, ando por aí fotografando as coisas extraordinárias que descubro em meu cotidiano.

Explico. A princípio, pensa-se que a fotografia deva ter, como a escrita, certa lógica, alguma coisa que permita, a quem olha a foto, reconhecer nela alguma coisa, algum possível, identificando-a. A maioria das pessoas permanece convicta de que uma imagem deve corresponder a alguma verdade, reproduzir algo real e, portanto, gozar de uma assertividade que a pintura ou o desenho, por exemplo, não possuem, salvo um realismo impositivo e arbitrário. Em passeios por cidades, então, nem se fala! É bem simples explicar o que acontece a partir dos tais cartões postais. Ali estão consignados os símbolos mais representativos de uma determinada cidade. Porto Alegre com Guaíba ou Paris com a Torre Eiffel, Rio com Corcovado, Bondinho, Cristo. E por aí vai. No máximo, o bom fotógrafo irá ― não sem algum esforço, além de considerável investimento em equipamento ― conseguir igualar, em qualidade e criatividade, um bom cartão postal entre tantos que já existem à venda, todos consagrando os tais ícones representativos de tal ou qual lugar.
Ah, sei que é meio humilhante dar-se conta disso, mas é a mais pura verdade. Andar por aí armado de uma boa câmera, a cata de uma excelente luminosidade e ainda de um ângulo feliz, tudo para fazer outra vez alguma coisa já feita centenas, senão milhares de vezes antes. Não digo que isso não pode ser divertido a princípio, mas certamente não demora a cansar. Salvo teimosias inauditas, como a minha em relação ao edifício do Banespa em São Paulo, que não me canso de contemplar através de diferentes lentes e ângulos. Na verdade, não cansei jamais de olhar para ele, como para o Edifício Copan, que me encanta desde criança. São para mim inesgotáveis símbolos de uma São Paulo que acredito pertencer-me inteiramente.
A partir dessa percepção, dei-me conta de que não era exatamente da cidade padrão que eu gostava. Não exatamente. Não se tratava de São Paulo, de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, para ficar nas mais pontuadas. Dei-me conta de que queria saber mesmo era de mim em tal ou qual cidade, impregnar-me do efeito que mergulhar em seu cenário me causava. É claro que os ícones representativos de determinados lugares são importantes e, obviamente, queremos ter deles algumas fotos, ainda que medíocres diante dos tais cartões institucionais que, afinal, são o que existe de mais identitário em relação às cidades. A partir de então, quase que sem sentir, fui atrás de uma cidade particular à minha percepção, ainda que ela nada tivesse a ver com a cidade social plasmada no imaginário de seus habitantes.
Minha Porto Alegre também tem Guaíba e Redenção, mas não fica só nisso. É composta de macros, de céus, de fragmentos, de recortes e, sobretudo, de reflexos. Acho que prefiro minha foto da chaminé da Usina do Gasômetro refletida em uma poça d’água que a melhor foto que já fiz daquele famoso símbolo. O mesmo com a torre do Memorial. Foi assim que começou meu desapego: com a percepção de mim mesma em dado espaço e tempo, o que vejo, o que sinto, a partir de quais elementos e até que ponto estes elementos são resgatáveis como memória fixada em suporte. Resultou daí uma grande surpresa: muitas das minhas fotos prediletas não passam de uma vista de vão de janela, ou mesmo de uma parede riscada, quando não se resumem a luzes abstratas tomadas ao movimento do carro, de passagem. O universo das imagens vai muito além dos limites que uma lógica limitadora nos impõe. Escapar ao modelo, todavia, não foi fácil.
Com muita resistência interna, autocensura, etc., decidi fotografar por fotografar. Dei adeus aos enquadramentos e às composições e comecei a usar, descaradamente, o modo automático, explorar os recursos mais simples das minhas câmeras e... brincar! Pronto, falei. Eu simplesmente deixei de tentar levar a sério a fotografia e passei a me divertir com ela, mais ou menos como me permito, às vezes, brincar com palavras e textos. Foi a melhor coisa que me aconteceu, até porque nem a mim mesma levo muito a sério.
Não apenas comecei a gostar mais das fotos que passei a tirar, como ainda acabei descobrindo que, intuitivamente, eu acabava produzindo um ótimo enquadramento, com bom equilíbrio entre os elementos da composição. De certa forma, por já haver desenhado e pintado muito, tenho boa percepção de espaço, e meus olhos, de algum modo, são felizes quando enxergam. Uma felicidade, contudo, que não se restringe a reconhecer o que já é sabido, mas que se faz quando descobre ou redescobre paisagens escondidas em toda parte. E assim, com a maior tranquilidade, passei a usar a câmera como um olho extra, que enxerga coisas inauditas, que fotografa o chão, por exemplo, cantinhos, janelas e, principalmente, pedaços de céu caídos na calçada, sempre que chove e que o sol brilha por sobre um resto de água empoçada no chão da rua. Descobri assim, não cidades, mas fragmentos de cidades, lembranças perdidas, bichos, e até cheiros, percepções das mais inesperadas que me ampliaram os sentidos e que me dão intenso prazer.
De ruim minha incompetência e preguiça em buscar aprender mais sobre fotografia. Por mais que eu cultive este espírito libertário, jamais desdenhei do saber teórico e técnico, até porque acredito que a melhor prática, sem uma boa teoria, acaba caindo na mediocridade. Fico um pouco constrangida em dizer isso, mas o que faço é por acaso mesmo. Acho que, se tentasse fazer uma boa foto, tecnicamente falando, me atrapalharia tanto com abertura e velocidade quando me atrapalho com esquerda e direita até hoje, quando preciso parar para pensar, afinal, de que lado estão falando. Tem horas que, vaidosa de algum bom resultado, morro de vontade de dizer que fiz aquilo porque entendia do riscado. Confesso que tenho inveja de quem consegue assimilar esses comandos todos que eu, só com o manual do lado, consigo fazer de conta que entendo. Da última vez que tentei mexer no tal ISO, travei uma de minhas câmeras e quase precisei recorrer à assistência técnica para voltar ao padrão dito normal, o tal modo P ou A... Sei lá! Só olhando o manual, coisa a que às vezes me obrigo, como quem se impõe uma lição de casa.
Em todo caso, para não dizer que sou metade burrice, metade estupidez, descobri um jeito de me comunicar com as minhas câmeras. Não sei como funciona isso, mas de tanto insistir com elas, acabei percebendo, no premir do botão, um tempo entre foco e disparo que muito me agrada, pois consigo, de algum modo, deslocar o foco e ressaltar vários planos. Claro que muita gente até pensa que isso é obra de minha Inteligência, mas é simplesmente resultado da minha proverbial teimosia.
Com o tempo, ― e por que não dizer, ― sob a pressão (inspiração?) de Rogério Centofanti, passei a dominar alguns termos, descobrindo que o que funciona em fotografia não são os tais pixels nem a tal da resolução. O grande segredo são as lentes. Quanto mais alemãs e menos japonesas, melhores, segundo Rogério, que chega ao cúmulo de possuir, assim como que casualmente, uma tal de Hasselblad, ou seja, nada menos do que a melhor objetiva do mundo. Nas minhas mãos, infelizmente, a Hasselblad faz fotos piores que a pobre câmera de meu velho celular. Confesso meu despeito e frustração. A imagem obtida é de pura luz ou de pura escuridão. Não sai mais nada. Simplesmente também não consigo fotografar com nenhuma das outras maravilhosas objetivas do Rogério, que faz pouco, abertamente, da minha Nikon D5000, metida a profissional, embora elogie bastante a Leica da Panasonic que era dele, e da qual eu descaradamente me apropriei. Tudo culpa do poderoso zoom que me permitiu fazer um notável close da cabeça de uma tartaruga que descansava no meio do lago do Parque da Redenção, a muitos metros de distância da gente. Uma foto inacreditável. Quem vê, diz até que é coisa de profissional.
Seja como for, Rogério é o grande entendedor de lentes, abertura, velocidade, ISO, etc. e isso desde os tempos da fotografia analógica. Só sei que nada sei, e me limito a premir o botão do disparador, não sem certo cerimonial de toques que pressinto e intuo bem mais do que compreendo. De bom é que tanto ele quanto eu nos entregamos a esse divertimento, que ele francamente leva mais a sério. Resulta disso uma boa série complementar de imagens de excelente qualidade. Ele foca no que interessa; eu, em qualquer coisa que me atraia. Como resultado, sempre que nos encontramos, a fotografia se torna fundamental, de sorte que temos praticamente cinco anos de imagens arquivadas em nossos respectivos computadores.
Creio que essa coletânea, notadamente fixada em imagens, acabou por refinar nossa percepção, a ponto de superarmos vários modelos. Não fotografamos mais como fotografávamos há alguns anos atrás. Olhando as pastas, comparado as datas, creio que atravessamos fases bem marcadas. Hoje eu, particularmente, ando me permitindo compor imagens e textos bastante casuais, fragmentados, mas associados. Fotografo qualquer coisa, literalmente qualquer coisa, não necessariamente concreta, e crio uma escrita para aquilo. Um pequeno texto, que componho na hora, sem compromisso algum com qualquer fato historicamente concreto.  Com isso, me sinto mais rica, e minha percepção dos lugares que eventualmente visito ou que frequento tornou-se mais atilada, ampliando em muito, não apenas a paisagem dada, a cidade memorável propriamente dita, mas a minha própria percepção desses lugares, intuída e elaborada com toda a subjetividade. Com a fotografia, posso dizer, não são lugares o que conheço melhor, mas a mim mesma, autorreferenciada em cada imagem, em cada fração de segundo eternizada como memória. 
Depois da escrita, talvez seja a fotografia aquilo a que me entrego mais livremente.


Autor: Maristela Bleggi Tomasini

21 de setembro de 2012

Passado


20 de setembro de 2012

Para o bom entendedor...


17 de setembro de 2012

Verde & Rosa

Em meio ao verde, meu olhos deram com uma mancha rosa, lá longe. Eu olhava pelas vidraças, aguardando a vez. Levava comigo olhos extras e, com todo cuidado, o zoom aproximou de mim estas flores que quebravam a monotonia de tantos tons de verde, nem sei quantos. E a foto não saiu ruim, apesar da distância, apesar de minhas mãos um tanto trêmulas, apesar das circunstâncias. Acho que até apesar de mim mesma.

16 de setembro de 2012

Reconhece?

Pois é mesmo de Joan Mirò. Fragmento de uma carta endereçada a Jacques Prévert em 14/11/1970, decorada com desenhos feitos com crayons e caneta.

15 de setembro de 2012

Memória


11 de setembro de 2012

407

Não precisa legenda. Precisa?

9 de setembro de 2012

Terrorismo Poético


Batizados e de Moralidade Notória...


Instituto de Pesquisa em Memória Social

O Instituto de Pesquisa em Memória Social  é uma organização civil de interesse público (OCIP) que, em atendimento à Lei 9.790/99, se estabelece sem fins lucrativos, trabalhando estritamente pelo interesse social.

Acreditamos que:

Pessoas e Organizações só existem se são lembradas a partir dos benefícios que oferecem à sociedade sob a forma de produtos ou serviços.

A História, a Memória, os Valores formam a Identidade das Comunidades, muitas vezes incompreendida, até pelo conjunto das pessoas que nelas vivem.

Só permanecem no imaginário popular pessoas e organizações efetivamente vinculadas às comunidades onde atuam.
Este conjunto complexo de significados e de percepções,  positivas ou negativas, denomina-se Memória Social. Ela não ocorre por acaso, e pode ser reconstruída e preservada pela ação de técnicos especializados.

Esta é nossa Missão.

7 de setembro de 2012

Santos Casa

E todos fazendo milagres.

6 de setembro de 2012

Zorba


3 de setembro de 2012

O Famoso

Pois é. Este é o tal do impostômetro. Como estava armada, fotografei. Depois fiquei pensando se postava ou não, porque não há muito a dizer sobre isso, afinal. 

2 de setembro de 2012

REVISTA VIDA BRASIL

A VIDA PODE ESPERAR
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
Empilhando papéis e anotando coisas que ficaram para o dia seguinte, Marcos Silas sentiu que não tinha fome. Pediu água gelada que tomou devagar. Olhava a rua, pessoas indo e vindo, casais de namorados. Anoitecia devagar. Final de tarde luminoso, sem aquele calor sufocante que castigava. O comércio continuaria aberto até mais tarde. Semana de compras, início de mês. Sorriu ao ver a fila junto à carrocinha de pipocas. Gente com fome, que comia qualquer coisa. Alguém chamou sua atenção.


Estava na fila, pacientemente aguardando a vez de comprar as tais pipocas. Marcos observou com cuidado. A noite vinha chegando, mas o vulto ainda era perceptível. Elegante, a mulher usava um conjunto preto, casaco e calças compridas, de onde sobressaia um lenço discretamente colorido. Comprou as pipocas e sorriu para o pipoqueiro que, respeitoso, cumprimentou-a curvando o corpo, e levando a mão até junto à testa, como quem presta uma continência. — É Rebeca! Só pode ser! Está ficando escuro, mas...
Marcos Silas aproximou-se da janela a tempo de ver Rebeca afastar-se dali, muito devagar, distraída com as pipocas. — Onde será que ela vai? — perguntou-se, atento à direção tomada pela namorada de Klaus, um dos melhores clientes do banco. Decidido, arrumou a gravata, vestiu o paletó, empurrou alguns papéis para dentro da pasta, fechando-a de qualquer jeito. Saiu como um tufão, alegando urgência e encarregando o subgerente do fechamento.
Fora do banco, Marcos Silas precisou tomar fôlego. Seu coração batia depressa demais. Acalmar a respiração, pensar no que estava fazendo. — Por que saí assim? Por que quero ir atrás dela? Para onde ela foi? — pensava, enquanto seguia na direção que vira Rebeca tomar depois de comprar as pipocas. Caminhou pela praça movimentada, mas não conseguiu encontrar o que procurava. Fez mais uma volta, olhando para dentro das lojas, dos cafés. Nada. Buscava com os olhos a imagem de uma mulher de preto. Várias silhuetas poderiam enquadrar o modelo, mas eram desmentidas logo depois. Pessoas iam a vinham. Marcos detinha-se naquelas que poderiam, de longe, dar a impressão de serem Rebecas.
Parado no meio da praça, viu-se como um tolo. Algumas pessoas, irritadas, passavam por ele depressa, empurrando-o como fariam com alguma coisa que entravasse o seu caminho. Marcos Silas continuou parado. Não sabia para onde ir. Desistiu de procurar Rebeca, mas não quis voltar para o banco. — Paciência! Bobagem minha tentar encontrá-la “por acaso”, — pensou. Resolveu seguir a esmo, devagar, em direção a um prédio que lhe pareceu bonito. Era o museu de arte. Nunca entrara ali. — Que vergonha, — pensou, — trabalhando tão perto. — Consultou o relógio. Ainda era cedo. Quando viu, estava lá dentro. Estranhou que não cobrassem ingresso. O porteiro foi gentil ao esclarecer o detalhe, mas não se mostrou surpreso com a ignorância de Marcos Silas. Na certa, havia muitas pessoas como ele, que moravam ou trabalhavam na cidade, mas que nunca entraram naquele museu.
Marcos foi percorrendo as salas uma a uma. Olhava para tudo sem entender, mas olhava assim mesmo. De alguns quadros ele gostou; de outros, não. Não havia muita coisa. Um segurança, atencioso, alertou-o para que não ultrapasse a faixa amarela no chão, que limitava a meio metro a distância entre o espectador e a obra. Envergonhado, ele recuou. O mesmo homem observou que havia mais obras no segundo andar. Poucas pessoas circulavam, falando baixinho, como se estivessem dentro de um templo. Resolveu subir mais um lance de escadas. O prédio, por dentro, também era bonito, e não se podia dizer que não estivesse bem cuidado. Foi percorrendo os quadros um a um, distraído com o efeito que as pinturas lhe causavam. — O que é que eu estou fazendo aqui? Com tanta coisa que fazer, com tanta coisa importante para decidir... — pensou Marcos Silas, sorrindo de si mesmo. — Vamos lá, agora vou ver tudo mesmo, — concluiu, usando de permissividade para consigo mesmo.
Caminhando devagar, sentiu que seu coração batia tranquilo agora. Entretinha-se com as paisagens, intrigava-se com os rostos, divertia-se imaginando quem eram, o que pensavam. Parou em frente a um quadro onde aparecia menino pobre, cego de um olho, mas sentiu-se mal com a cena, afastando-se dali, com medo da emoção que a obra lhe provocara. Não tinha qualquer razão para agir como agiu, saindo do banco daquela maneira, procurando encontrar Rebeca “por acaso”. Nada o ligava àquelas imagens, àqueles quadros, àquele ambiente e àquelas pessoas desconhecidas que caminhavam por ali, certamente, sabendo por que estavam ali. Ele não sabia.  À revelia disso, sem sentir, continuava a percorrer o prédio, que lembrava um labirinto, com recintos diferentes uns dos outros. Até uma sala escura havia, iluminada de maneira a permitir apenas a visão das obras colocadas sobre paredes negras e felpudas, absorventes, como se nada mais importasse ou existisse além das imagens, o que lhe provocou uma sensação de irrealidade. Saiu dali.

Súbito, uma surpresa, quase um susto. Viu-se diante da entrada de mais uma sala, mas ali havia alguma coisa especial. Seus olhos encontraram um quadro grande que — francamente, aquilo sim, era alguma coisa! — pensou. Estava frente a uma mulher vestida de branco, apoiada numa sombrinha, de chapéu, sorrindo para o mundo. Marcos Silas, sem saber por que, sorriu para o quadro e começou a sentir alguma coisa especial. Era como se a mulher estivesse viva, saída de outros tempos. Era luminosa. A roupa branca, pintada com maestria, revelava discretamente um corpo bem feito. O rosto não era bonito, mas havia tanta harmonia ali, tanta vida.
Marcos Silas pensou, brincando, que a mulher fosse descer do quadro, caminhar pelo museu. Imaginou o ruído do pano, o barulho dos saltos dos sapatos, imaginou-a abrindo a sombrinha, cujo cabo devia girar em seus dedos, causando um estranho e inesperado efeito, feliz com alguma coisa. — E se ela descesse da parede e caminhasse por aqui? Meu Deus! Será que isso é arte? Eu nunca me dei conta... mas é tão... Tão óbvio! — Marcos Silas sorria, experimentava algo que não podia e, na verdade, sequer desejava identificar. Era como se aquele quadro estivesse ali especialmente para ele. Começou a buscar algo no rosto da personagem que não era bonito. Deteve-se nas mãos, na elegância dos gestos, no movimento que podia sentir, sem ver. Vontade de cumprimentá-la. Ousou. Estava só naquela sala, e não resistiu à tentação de dizer em voz baixa, porém audível:
— É um grande prazer conhecê-la, madame!
Divertido com a própria ousadia, continuou a fitar a desconhecida, que não se dignara a apresentar-se a ele ou a responder ao seu cumprimento. Entretanto — coisa estranha — deu-se conta de que havia um leve perfume por ali. Fechou os olhos e concentrou-se na sensação. Voltou a abri-los. A dama de branco continuava no mesmo lugar. O perfume persistia, agora, numa nota mais densa. Era capaz de percebê-lo nitidamente. Já o sentira antes, mas não lembrava aonde. Muito suave, tinha uma nota que lembrava vivamente o perfume de rosas. Impossível que a pintura tivesse cheiro! Mas estava sentindo, sentindo. Havia mais alguém ali, além dele e da mulher do quadro. Virou-se devagar.
— Vejo que o senhor acaba de conhecer a misteriosa dama de branco, senhor Marcos Silas. Boa noite! É um prazer e uma surpresa encontrá-lo aqui, — disse Rebeca, sorrindo e estendo a mão.
— Rebeca! — disse ele, retribuindo o gesto, — que coincidência!
Marcos sentiu o coração bater mais forte. Estava feliz em vê-la, mas não quis demonstrar o quanto a presença de Rebeca o afetava.
— Não esperava encontrá-lo em um museu! Espero não tê-lo perturbado, mas cometi a indiscrição de observar o encontro entre vocês dois. Não é sempre que se vê alguém capaz de entregar-se sinceramente à emoção — disse Rebeca, que parecia mesmo surpresa e até satisfeita com o encontro.
— Será que foi isso o que eu fiz? — pilheriou Marcos Silas, tentando parecer à vontade diante da namorada de Klaus.
— Certamente, nossa dama de branco também sentiu “prazer em conhecê-lo, cavalheiro”, — disse ela sorrindo.
— Você ouviu? Que vergonha, Rebeca! Você me flagrou falando sozinho! Mas eu não resisti. E falei baixinho! — riu ele.
— Jamais sinta vergonha de uma emoção verdadeira. Emoções verdadeiras só nos valorizam, jamais nos diminuem, — disse Rebeca casualmente, admirando o quadro.
Marcos quis continuar. Pensou um pouco sobre o que acabara de ouvir:
— Mas como posso saber se uma emoção é verdadeira? — perguntou, sem olhar para ela, fixando o quadro.
— Não sei... Penso que não há fórmulas para isso. Mas a emoção verdadeira não costuma partir do cálculo nem da imitação.
— Como assim, Rebeca?
— Eu diria que o senhor encontrou algo que não procurava, deixou-se experimentar um momento único, abrindo-se para a emoção. Se algum dia voltar aqui, para vê-la novamente, vai encontrá-la com outro olhar.
— Você também já sentiu isso? Sabe o que é, Rebeca?
— Sim, eu sei. Este quadro é o meu favorito do museu. Também gosto de outros, mas este é especial.
— O que é que esse quadro tem afinal? O que você viu nele que a deixou impressionada? — perguntou Marcos Silas, agora curioso.

― Ora, senhor Marcos Silas, veja por si mesmo. Ela acabou de seduzi-lo! É tão simples! O senhor admirou este quadro exatamente por isso. Eu, por outro lado, desde que o vi pela primeira vez, quis saber como seria ser assim. Eu quis ser como ela, desfrutar dessa espécie de poder. Um poder, na realidade, tentador. Uma mulher que, mesmo não sendo uma deusa, é capaz de seduzir apenas através de sua imagem. Estranho, mas não temos a impressão de conhecê-la? Eu acho que eu a invejo...
Ambos continuavam ali, olhando o quadro, lado a lado, em silêncio. Marcos pensou no que acabara de ouvir. Olhou para Rebeca. Era dela que vinha o perfume de rosas. Notou o lenço de seda que sobressaia na roupa preta. Ela era pequena, mas elegante. Educada, mostrava-se quase sempre reservada e discreta. Marcos Silas começou a achá-la bonita. Pensou em convidá-la para jantar, mas imaginou que ela poderia pensar que se tratasse de uma cantada. — E se ela pensasse que era uma cantada e topasse? Não, nada disso. E se... Se Klaus descobrisse que eu saí com Rebeca? Que confusão! — pensou. — Rebeca é tão... Ela faz com que eu me sinta assim... — Marcos não sabia explicar. Era uma sensação indefinível. Sabia, contudo, que gostava de estar perto dela.
— O senhor aceitaria acompanhar-me num café? — perguntou Rebeca com simplicidade.
Marcos Silas assustou-se com a pergunta. Pensou em dar uma desculpa, em sair dali correndo. Pensou na mulher, em Klaus. Mas deu-se conta de que, por alguma estranha manobra do destino, naquele instante, ele estava livre de todas as coisas que o atormentavam. Era como se ela pudesse fazer com que ele fosse outra pessoa.
Sem dizer nada, Rebeca sorriu para ele e tomou a direção porta. Marcos simplesmente a seguiu. Naquele momento, iria com ela onde quer que fosse, e depois pensaria em Klaus, na mulher, na casa, no banco, no filho, nas contas... A vida, afinal, podia esperar.


Autor: Maristela Bleggi Tomasini