31 de agosto de 2010

Não sejas

Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens...
não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabes que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade.
És tu.

Cecília Meireles

28 de agosto de 2010

Diálogo

[1] Um dia, em que comecei a refletir acerca dos seres, e meu pensamento deixou-se planar nas alturas enquanto meus sentidos corporais estavam como que atados, como acontece àqueles atingidos por um sono pesado pelo excesso de alimentação ou de uma grande fatiga corporal, pareceu que se me delineava um ser de um talhe imenso, além de toda medida definível, que me chamou pelo meu nome e disse: "Que desejas ouvir e ver, e pelo pensamento aprender a conhecer?" [2] E eu lhe disse "Mas tu, quem és?". - "Eu", disse ele, "eu sou Poimandres, o Noús da Soberania absoluta. Eu sei o que queres e estou contigo em todo lugar". [3] E eu disse: "Quero ser instruído sobre os seres, compreender sua natureza, conhecer Deus. Oh! como desejo entender!" Respondeu-me ele por sua vez: "Mantém em teu intelecto tudo o que desejas aprender e eu te instruirei."
CORPUS HERMETICUM de Hermes Trismegisto

26 de agosto de 2010

Recorte

Inverti o recorte da imagem da cidade refletida no espelho d`'agua. A sensáção de irrealidade me agradou.

Todo mundo tem...

Fanatismo

Minhálma, de sonhar-te, anda perdida

Meus olhos andam cegos de te ver!

Não és se quer razão do meu viver,

Pois que tu és já toda a minha vida!


Não vejo nada assim enlouquecida...

Passo no mundo, meu amor, a ler

No misterioso livro do teu ser

A mesma história tantas vezes lida!


"Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."

Quando me dizem isto, toda a graça

Duma boca divina fala em mim!


E, olhos postos em ti, digo de rastros:

"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,

Que tu és como Deus: Princípio do Fim!..."
 
Florbela Espanca (1894-1930)

25 de agosto de 2010

Sentir

Sentir é criar. Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o universo não tem ideias.
Fernando Pessoa

22 de agosto de 2010

Hai-Kai de Outono


Uma borboleta amarela?
Ou uma folha seca
Que se desprendeu e não quis pousar?

Mário Quintana

21 de agosto de 2010

Panorama Além


Não sei que tempo faz, nem se é noite ou se é dia.
Não sinto onde é que estou, nem se estou. Não sei de nada.
Nem de ódio, nem amor. Tédio? Melancolia.
-Existência parada. Existência acabada.

Nem se pode saber do que outrora existia.
A cegueira no olhar. Toda a noite calada
no ouvido. Presa a voz. Gesto vão. Boca fria.
A alma, um deserto branco: -o luar triste na geada...

Silêncio. Eternidade. Infinito. Segredo.
Onde, as almas irmãs? Onde, Deus? Que degredo!
Ninguém.... O ermo atrás do ermo: - é a paisagem daqui.

Tudo opaco... E sem luz... E sem treva... O ar absorto...
Tudo em paz... Tudo só... Tudo irreal... Tudo morto...
Por que foi que eu morri? Quando foi que eu morri?
Cecília Meireles

19 de agosto de 2010

Coisas que esperam por você só em São Paulo

O que espera por você em São Paulo e que não consegue antever? Coisas simples, triviais, sem mistérios ou mesmo necessidade de revelações. Hospedagem em um hotel na Avenida Ipiranga, quase próximo à esquina com a Avenida São João, que fica perto do Edifício Itália, que fica em frente à Praça da República, a mesma onde se instala a Secretaria da Educação e Cultura, no mesmo prédio que um dia foi a Escola Normal de São Paulo, que anfitriou o laboratório de Pizzoli. Perto, também, da Biblioteca Pública Municipal, do Teatro Municipal, da Estação da Luz, da Pinacoteca do Estado, do Forum João Mendes, em torno do qual estão os sebos, e que dá início ao bairro da Liberdade, habitado pela colônia japonesa, onde se come sukiaki. Perto também da 25 de Março, que termina no Parque D. Pedro II, que é onde fica o Mercado Municipal, onde se come pastéis e se prova de tudo. Não muito longe do Bixiga, onde se come massas e se compra pão italiano na Casa Santo Domingos, que fica ao lado de vários teatros. Perto da Santa Ifigênia, que não é longe do Largo do Arouche, que fica ao lado da Estação República do Metro, de onde se pode ir para norte ou sul, do Tucuruvi ao Jabaquara, ou mesmo para a Estação Sé, que permite acesso a linha leste-oeste, podendo se ir da Barra Funda até Itaquera, ou até a Estação Paraíso, de onde se muda para a linha verde, que passa pela Avenida Paulista, onde está o Masp, bem ao lado da Estação Trianon, que fica em frente ao Parque Trianon, de onde se pode ir até a Rua Augusta, que descendo nos leva mais uma vez a Praça da República, de onde se atravessa o Viaduto do Chá, que passa por cima do Vale do Anhangabaú, e se chega ao sebo de seu Luis, que fica perto do Pátio do Colégio, onde tem aquele café que você gosta, ao lado do Mosteiro de São Bento. São coisas como essas que esperam por você...
RC

15 de agosto de 2010

Escravos e Livres

Todos os homens se dividem, como em todos os tempos até nossos dias, em escravos e livres; pois quem não tiver para si dois terços de seu dia é um escravo, seja ele, de resto, o que quiser: político, comerciante, funcionário, erudito.
Nietzsche

12 de agosto de 2010

Não digas

Não digas onde acaba o dia.
Onde começa a noite.
Não fales palavras vãs.
As palavras do mundo.
Não digas onde começa a Terra,
Onde termina o céu
Não digas até onde és tu.
Não digas desde onde és Deus.
Não fales palavras vãs.
Desfaze-te da vaidade triste de falar.
Pensa,completamente silencioso,
Até a glória de ficar silencioso,
Sem pensar.
Cecília Meireles

8 de agosto de 2010

Adeus

Nenhuma outra palavra aparece mais do que esta, seja no plural, seja no singular, escrita nas sepulturas.

7 de agosto de 2010

Positivismo

Túmulo de Júlio de Castilhos, no Cemitério da Santa Casa de Misericórdia, Porto Alegre, RS.

6 de agosto de 2010

É preciso falar...

para não dizer nada.