24 de outubro de 2008

Florbela Espanca (1894-1930)


Poetisa portuguesa de imensa capacidade dramática. Estudou letras e cursou direito.
Casou-se por três vezes e sempre deu sinais de desequilíbrio, o que em nada comprometeu a qualidade de sua poesia, sempre intimista e arrebatadora, forte, erótica, intensa e, ao menos para mim, de uma beleza particularmente tocante.
Florbela suicidou-se no dia em que completaria 36 anos.
A MINHA TRAGÉDIA
Tenho ódio à luz e raiva à claridade
Do sol, alegre, quente, na subida.
Parece que a minh'alma é perseguida
Por um carrasco cheio de maldade!
Ó minha vã, inútil mocidade,
Trazes-me embriagada, entontecida!...
Duns beijos que me deste noutra vida,
Trago em meus lábios roxos, a saudade!...
Eu não gosto do sol, eu tenho medo
Que me leiam nos olhos o segredo
De não amar ninguém, de ser assim!
Gosto da Noite imensa, triste, preta,
Como esta estranha e doida borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim!...
PIOR VELHICE
Sou velha e triste. Nunca o alvorecer
Dum riso são andou na minha boca!
Gritando que me acudam, em voz rouca,
Eu, náufraga da Vida, ando a morrer!
A Vida, que ao nascer, enfeita e touca
De alvas rosas a fronte da mulher,
Na minha fronte mística de louca
Martírios só poisou a emurchecer!
E dizem que sou nova... A mocidade
Estará só, então, na nossa idade,
Ou está em nós e em nosso peito mora?!
Tenho a pior velhice, a que é mais triste,
Aquela onde nem sequer existe
Lembrança de ter sido nova... outrora...
PARA QUÊ?!
Tudo é vaidade neste mundo vão...
Tudo é tristeza, tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!
Até o amor nos mente, essa canção
Que o nosso peito ri à gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam pelo chão!...
Beijos de amor! Pra quê?!... Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!
Só neles acredita quem é louca!
Beijos de amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta!...

23 de outubro de 2008

Herbert Spencer (1820-1903)

A grande superstição da política de outrora era o direito divino dos reis. A grande superstição da política de hoje é o direito divino dos parlamentos. O óleo de unção, parece, sem que se tome cuidado, desliza de uma única cabeça sobre aquelas de um grande número, consagrando a eles e aos seus decretos (p. 59)”.

Spencer, H. (1885), L'individu contre l'État (J. Gerschet, trad). Paris, Alcan, 1885, disponível na coleção Les Classisques de Sciences Sociales, sob a direção do Prof. Jean-Marie Tremblay, sociólogo, arquivo “.doc” com 85 pág.

18 de outubro de 2008

Fiodor Dostoievski

A intensidade da paixão e a complexidade dos temas e enredos deste escritor russo vêm fascinando gerações de leitores em todo mundo. Nascido em Moscou em 1821, era filho de um médico do Hospital dos Pobres. Cresce nesse ambiente até 1831, quando a família se muda para Tula, perto de Moscou. Em 1834 Fiodor e seu irmão mais velho vão para o Liceu e, três anos mais tarde, perdem a mãe. Dostoievski cursa daí a Escola de Engenharia Militar. Em 1839, seu pai é assassinado por servos, fato que causa forte comoção àquele que, em seguida, começa a projetar-se nos meios culturais e a freqüentar um círculo de socialistas.

Preso em 1849, Dostoievski viu-se condenado ao fuzilamento e, já sob a tensão dos preparativos, teve a pena comutada pelo czar. Lembranças desse episódio aparecem em sua obra. A sentença fora transformada em exílio na Sibéria, com trabalhos forçados, e Dostoievski termina preso na fortaleza de Omsk por quatro anos. Sofre então o primeiro ataque de epilepsia, doença que o persegue por anos e anos. Libertado em 1854, retoma a atividade literária.

Casa-se em 1857, pela primeira vez, com Maria Dmitrievna Issaiev, e depois com Anna Grigorievna Snitkina, a quem, premido pelas dívidas acumuladas, ele dita, o romance Igrok (O jogador), em 1866, obra de fundo autobiográfico escrita em apenas 26 dias para saldar dívidas com um editor.

Seus temas versam sobre denúncia social, exposição dos dramas humanos e dilemas existências de seus personagens, enfatizando sempre a angústia e as inquietudes que afligem personagens construídos com densidade e descritos pormenorizadamente em sua psicologia. Em 1855 já começara a reunir notas para as Zapiski iz mertvogo doma (1861, Recordações da casa dos mortos), magnífica obra que causa enorme repercussão, pois vem retratada ali a sua vida no presídio, contada em forma de romance, onde encontramos a culpa, o castigo, o crime, o mal em si, e os limites do ser humano submetido a um regime prisional assustador. Enrico Ferri disse dele que foi, para o romance psicológico, o que Dante foi para a poesia e Shakespeare, para o drama humano. O mesmo jurista, da obra Recordações da Casa dos Mortos, comentou que:

A própria forma da obra, o seu estilo, o lento evoluir da narração, as repetições, as digressões freqüentes atestam a sinceridade absoluta e a exatidão do narrador. Detido entre os forçados, condenados por delitos de direito comum, o grande artista sobrepôs-se pouco a pouco aos seus desgostos de homem refinado e idealista, venceu a desconfiança dos seus camaradas e pôde descrever a estranha gente que o rodeava com uma fidelidade e uma precisão de linhas admiráveis. Alguém que estudou os criminosos na prisão, após haver-se provido de suficientes noções de psicologia e de psicopatologia pode tornar a encontrar no livro de Dostoievski personagens já vistas.
E ainda:

Não se limita, todavia, a notar, com uma rara penetração, os sintomas da psicologia criminal. Sabe perscrutar todos os cantos do coração humano e como (já eu demonstrei essa verdade) no criminoso sobrevivem muitos traços e sentimentos normais ao naufrágio ou à atrofia congênita do sentido social, Dostoievski sabe definir esses traços e pô-los à luz.

Depois vem Prestuplenie i nakazanie (1866; Crime e castigo), cujo relato impactante impressiona até mesmo Tolstoi, fascinado com o destino de Raskolnikov, homicida perseguido pela memória de seu crime. O estudante paupérrimo resolve matar uma miserável e usurária que considerava inútil, visando com isso apossar-se de seus bens para salvar a si e a sua família. O ato criminoso, contudo, leva-o a outro assassinato de um inocente e Raskolnikov termina sem poder roubar nada, devorado pela dúvida e com os nervos destruídos em razão de conversas que tem com um comissário de polícia. Finalmente, acaba confessando o crime a uma prostituta que o converte, pregando-lhe o Evangelho e indicando-lhe o caminho do arrependimento e da redenção. Analisando em profundidade esta obra, Enrico Ferri observa:

Romance terrível e pungente, na anatomia da gangrena moral em Raskolnikov, tipo de criminoso louco, por obsessão homicida, e em Sonia, a doce jovem que a fome levou à prostituição, chega o escritor, por um artifício visível, por um declive muito natural, à crítica social, tanto mais ousada, tanto mais eloqüente quanto é subentendida. Deixa-nos, ao final de seu livro, a esperança de um renascimento moral em Raskolnikov, condenado, depois de sua confissão de assassinato, a sete anos de Sibéria, onde Sonia o acompanhou e onde, pela primeira vez, confessaram seu amor e sentiram-se regenerados por seu mútuo afeto, porque o coração de cada um deles continha uma inesgotável fonte de vida para o coração do outro.
Neste mesmo ano de 1866, Dostoievski escreveu O jogador, onde fala de sua paixão pelo jogo. Dois anos depois, aparece O idiota, outra obra impressionante que provoca perplexidade geral nos meios intelectuais. Michkin, o príncipe que encarna o idiota, é uma espécie de Dom Quixote do cristianismo que sente como puro ideal, verdadeira antítese de Raskolnikov. Se este acha que pode tudo, o príncipe é a vítima das circunstâncias, vencido pelas forças maléficas desencadeadas a seu redor.

Dostoievski morre em São Petersburgo, em 1881.

Toda literatura do século XX sofreu algo de sua influência, que se estende até mesmo a Nietzsche e de Freud. Lombroso referiu-se expressamente à obra Recordações da Casa dos Mortos, de onde extraio a descrição de Gazin:

Gazin era uma criatura terrível, causando em todos uma impressão apavorante. Acho impossível existir alguém mais hediondo e selvagem, apesar de haver visto Tobolsk o criminoso Kameniev, célebre por seus morticínios, e de haver visto mais tarde Sokolov, desertor do exército, tenebroso assassino. Nenhum deles me causou a impressão repugnante que me deu Gazin. Sempre que o vi, posteriormente, foi como se deparasse com uma aranha descomunal do tamanho de um homem. Era oriundo da Tartária e incrivelmente forte, o presidiário mais robusto de toda a prisão. Não muito alto, mas dum arcabouço de Hércules com uma cabeça desproporcionada, horripilante; caminhava meio vergado e olhava de baixo para cima, como o touro que vai marrar, com uns olhos esbugalhados.

Esplendores e Misérias das Cortesãs

A magistral capacidade descritiva deste autor me impressionou sempre, daí eu sentir vontade de compartilhar com os leitores passagens que considerei marcantes, em especial, quando ele retrata a delinqüência, seus autores e vítimas. Além de numerosos personagens do mundo criminal, no romance Esplendores e Misérias das Cortesãs, vol. IX, Balzac nos descreve o carro no qual eram transportados os prisioneiros:


Essa ignóbil carruagem de caixa amarela, montada sobre duas rodas e chapeada de ferro, é dividida em dois compartimentos. Há na frente um banquinho forrado de couro. É a parte livre do cesto de salada, destinada a um oficial de diligências e a um gendarme. Uma sólida grade de ferro separa, em toda a altura e largura do carro, essa espécie de cabriolé do segundo compartimento onde estão dois bancos de pau dispostos, como nos ônibus, aos lados da caixa e nos quais os presos vão sentados; eles são introduzidos aí por meio de um estribo e por uma portinhola sem postigo no fundo da carruagem. Para mais segurança, na previsão de algum acidente, a carruagem é seguida por um gendarme a cavalo, principalmente se conduz prisioneiros condenados à morte. Assim sendo, a evasão torna-se impossível.
Do mesmo romance, outra mulher extraída do mundo do crime, que se disfarçara de vendedora ambulante, é assim descrita:

Era uma vendedeira de hortaliça tão genuína que, se ao tempo houvesse fiscais, haviam de deixá-la circular sem lhe pedirem a licença, apesar da fisionomia sinistra que tresandava a crime. A cabeça, coberta com um lenço ordinário de algodão quadriculado em farrapos, eriçava-se de madeixas rebeldes que denunciavam uns cabelos semelhantes a cerdas de javali. O pescoço vermelho e engelhado causava horror, e o fichu não dissimulava inteiramente a pele curtida pelo sol, pela poeira e pela lama. O vestido parecia uma tapeçaria. Os sapatos faziam cada careta que pareciam estar troçando da cara tão rota como o vestido. E que corpete! Um emplastro não seria tão imundo... A dez passos, aquele trapo ambulante havia de bulir com o olfato das pessoas delicadas. As mãos nunca em sua vida tinham visto água. Aquela mulher ou vinha de alguma assembléia noturna de bruxas ou de algum asilo de mendicidade. Mas que olhar, que inteligência ousada, que vida reprimida quando os raios magnéticos de seus olhos e os de Jacques Collin se encontraram para trocar uma idéia!

Não é só isso. Balzac nos testemunha ainda o pensamento da época em que se aproximavam os conceitos do criminoso e do louco. Do mesmo romance:

O crime e a loucura têm suas parecenças. Ver os presos da Conciergerie no pátio ou ver doidos no jardim de uma casa de saúde é a mesma coisa. Presos e doidos passeiam evitando-se. Lançando uns aos outros olhares estranhos ou atrozes, conforme seus pensamentos, nunca sérios nem alegres; porque se conhecem ou se temem. A expectativa de uma condenação, os remorsos, as ansiedades, dão aos passeantes do pátio o ar inquieto e esgazeado dos doidos. Só os criminosos consumados têm um aprumo que semelha a tranqüilidade de uma vida honesta, a sinceridade de uma consciência pura.

17 de outubro de 2008

A Velha Malvada

Quem não conhece, nem que seja por fotografia, alguém que faça lembrar bastante esta figura? É como se já a tivéssemos em nosso imaginário e, ao ler, integrássemos sua imagem, que cria dimensão, forma, eu arriscaria a dizer, cria vida. Como exemplo do tipo de descrição literária em Balzac, temos, no romance A Prima Bette, vol. X da Comédia Humana, a passagem que segue:
Vitorino sentiu um íntimo terror, por assim dizer, ao defrontar-se com a horrorosa velha. Embora ricamente vestida, ela causava medo com os sinais de fria maldade que apresentava a sua cara chata, horrivelmente enrugada, branca e musculosa. Marat, se fosse mulher e estivesse naquela idade, teria sido, como a Sra. de Saint-Estève, uma imagem viva do terror. A velha sinistra refletia nos pequenos olhos claros a cupidez sanguinária dos tigres. Seu nariz esborrachado, cujas narinas enormes, de buracos ovais, sopravam o fogo do inferno, lembrava o bico das piores aves de rapina. Os longos pelos de barba, crescidos ao acaso em todos os buracos do rosto, denunciavam a virilidade de seus projetos. Quem quer que visse essa mulher pensaria que todos os pintores teriam errado na cara de Mefistófeles.

Balzac

Nunca vou esquecer do dia em que, finalmente, consegui adquirir a minha Comédia Humana, na edição antiga, anotada, traduzida com propriedade e lindamente encadernada. Hoje até me arrisco a ler algumas das novelas no original, o que só me leva a reafirmar a qualidade das traduções que aparecem nessa edição da saudosa Editora Globo.
Honoré de Balzac não é apenas o maior dos romancistas, mas ainda um verdadeiro historiador de costumes, documentando minuciosamente a sociedade e uma infinidade de tipos sociais retratados em mais de dois mil personagens. Nascido em Tours em 20 de maio de 1799, após estudos no colégio, resolve, em Paris, por volta de 1818, dedicar-se apenas à literatura, felizmente contrariando o desejo da família, que queria vê-lo advogado. No início de sua carreira publicou, sob os pseudônimos de Lord R'Hoone e de Horace de Saint-Aubin, uma série de romances menores, à moda dos folhetins. Depois, suas obras iriam suceder-se em velocidade espantosa num período de vinte anos. Paralelamente teve lá sua vida mundana, freqüentando salões, viajando bastante e procurando sempre, ainda que inutilmente, um meio de enriquecer.
Balzac conheceu o êxito, ainda que nunca a fortuna. Destacaram-se La Peau de chagrin (1831; A pele de onagro), Le Chef-d'oeuvre inconnu (1832; A obra-prima desconhecida), La Recherche de l'absolu (1832; A busca do absoluto), Eugénie Grandet (1833) e, sobretudo, Le Père Goriot (1834; O pai Goriot), onde começam a reaparecer personagens de livros anteriores, ou seja, Balzac visou conferir à sua obra uma unidade encadeada, que lhe dá caráter global, verdadeiro espelho da sociedade francesa da primeira metade do século XIX, antes, durante e depois da Revolução, o que explica o constante interesse do romancista pela burguesia nascente e pela aristocracia em franca decadência, descrevendo estruturas e instituições que servem de pano de fundo aos seus romances.
Obsessivo nos detalhes, seus personagens vivem e encarnam seres de carne e osso que nos são mostrados por dentro e por fora, em detalhes.
A monumental Comédia Humana, título escolhido por Balzac em 1842, começou a ser publicada em 17 volumes. Em 1845, para a segunda edição, foi adotado o plano que agrupou as obras em: (I) Estudos de costumes no século XIX: (a) cenas da vida privada; (b) cenas da vida de província; (c) cenas da vida parisiense; (d) cenas da vida política; (e) cenas da vida militar; (f) cenas da vida rural. (2) Estudos filosóficos. (3) Estudos analíticos.
Em 1850, já gravemente enfermo, Balzac se casou com Éveline Hanska, uma condessa russa, e, em 18 de agosto desse mesmo ano, morre em Paris. A edição definitiva da Comédia humana, que saiu postumamente entre 1869 e 1876, constava de 137 romances, cinqüenta dos quais tinham ficado incompletos.

Multidões Místicas e Delinqüentes


Este pequeno volume de apenas 64 páginas foi escrito por Ingenieros. Edições America Latina, Buenos Aires, sem data, Bibliotheca Scientifico Philosophica. Trata-se de uma análise dos tipos psicológicos na novela naturalista e como esse gênero literário teria sido fiel, em suas descrições, à psicologia das multidões. Ali é citado, em especial, um romance intitulado Hacia la Justicia, de autoria de um médico, cujo nome Ingenieros se recusa a declinar. Um dos personagens se chama Germano e trata-se de um meneur, um lider que vai encarnar no enredo um papel de repercussão social. Chama a atençao a confiança depositada no atavismo, na hereditariedade, e ainda a condenação do "amor ilegal", supostamente, aquele vivido fora do casamento.
Observe-se:
Germano, como encarnação do "meneur", é um típo psicológico acertado. Um indivíduo é a resultante de sua hereditariedade psicológica e das sugestões que recebe constantemente do meio em que vive, da sua educação, a hereditariedade de Germano é matriz perfeita para engendrar a rebeldia. Seu pai é Valverde, sujeito sem senso moral, que vive resvalando a cada passo no pântano dos delitos. Sua mãe? Mistério. O terrorista deveria ser filho de um amor ilegal, senão de um capricho fugaz, em alguma orgia de prostíbulo. Sobre esta matéria prima vem a educação funesta. Inicia-se ao acaso, como grão de areia que o destino desprende do pico nevado de um cimo; e assim roda pela falda esfarpada da vida, entre a educação de um colégio de jesuítas, que lhe dá repugnâncias, vendo infâmias, sugestionando-se com leituras que fanatizam, até que recebe o testamento de seu pai, que precipita a sua mente por caminhos de indignaçao e vingança. E vai rodando costa abaixo, adquirindo contornos de avalanche, que arraza, ao passar, os sentimentos de solidariedade social, e engendra um anarquismo que não é piedade pelo humilde, senão rancor contra o poderoso; que não é lamento e sim alarido, precursor de uma derrubada apocalíptica.

Sentença de 1833

Seria esta a reprodução supostamente autêntica de uma sentença prolatada em 1833, no dia 15 de outubro, pelo MM. Juiz Manoel Fernandes dos Santos, em Vila de Porto da Folha, Sergipe. A peça já andou pela internet e me lembro de tê-la visto reproduzida em um jornal do qual tinha o recorte guardado numa agenda. Seja como for...

SENTENÇA JUDICIAL
O adjunto de promotor público, representando contra o cabra Manoel Duda, porque no dia 11 do mês de Nossa Senhora Sant'Ana quando a mulher do Xico Bento ia para a fonte, já perto dela, o supracitado cabra que estava de tocaia em uma moita de mato , sahiu della de supetão e fez proposta a dita mulher, por quem queria para coisa que não se pode trazer a lume, e como ella se recuzasse, o dito cabra abrafolou-se dela, deitou-a no chão, deixando as encomendas della de fora e ao Deus dará. Elle não conseguiu matrimônio porque ella gritou e veio em assucare della Nocreto Correia e Norberto Barbosa, que prenderam o cujo em flagrante. Dizem as leises que duas testemunhas que assistam a qualquer naufrágio do sucesso faz prova.
CONSIDERO que o cabra Manoel Duda agrediu a mulher de Xico Bento para conxambrar com ella e fazer chumbregâncias, coisas que só marido della competia conxambrar, porque casados pelo regime da Santa Igreja Cathólica Romana; que o cabra Manoel Duda é um suplicante deboxado que nunca soube respeitar as famílias de suas vizinhas, tanto que quiz também fazer conxambranas com a Quitéria e Clarinha, moças donzellas; que Manoel duda é um sujetio perigoso e que não tiver uma cousa que atenue a perigança dele, amanhan está metendo medo até nos homens.
CONDENO o cabra Manoel Duda, pelo malifício que fez à mulher do Xico Bento, a ser CAPADO, capadura que deverá ser feita a MACETE.
A execução desta peça deverá ser feita na cadeia desta Villa. Nomeio carrasco o carcereiro. Cumpra-se e apregue-se editais nos lugares públicos.
Manoel Fernandes dos Santos
Juiz de Direito Vila de Porto da Folha (Sergipe) 15 de outubro de 1833

14 de outubro de 2008

Ainda as Ilusões

"Nem o sol nem a morte, diz La Rochefoucauld, podem ser olhados de frente. Dir-se-ia que é o mesmo com a verdade, — como o sol e a morte, — e que sua fascinação não poderia ser afrontada sem perigo social, senão sempre sem perigo individual. Dir-se-ia que há uma certa quantidade de ilusões, – variável conforme tempos e lugares, – que é necessária a uma sociedade para manter-se em seu estado normal, e que deve ser, custe o que custar, sustentada nela por uma emissão constante de predicações, de argumentações, de artigos de jornais, de lições, de asserções de todo gênero, quer sejam corajosamente mentirosas, quer sejam simplesmente errôneas (e, neste último caso, provindas em parte de imposturas anteriores, o que é, talvez, o caso das religiões)".

Observações:Este trecho integra a obra A Criminalidade Comparada, e nele há uma nota de rodapé do autor vinculada à palavra “ilusões”. Quando traduzi, levei algum tempo refletindo sobre as revelações de cunho íntimo, ali ponderadas por G. Tarde. Guardei bem a passagem e constantemente volto a ela, leio, releio, examino se traduzi corretamente, tudo porque me parece instigante ver, com tanta clareza, esse traço solitário do autor. Diz assim a nota, a propósitos da tais ilusões essenciais à manutenção da sociedade em seu estado normal:

"Em toda parte e sempre, a vitória é dos otimistas, dos povos ou dos indivíduos que acreditam a priori que a verdade é bela e que a vida é boa. Toda a Antigüidade clássica teve deuses sorridentes; o próprio Egito, a mais grave das nações antigas, teve fé no triunfo final da luz sobre as trevas e no reino do bem. Ora, para assegurar-se de que o otimismo é um erro, é suficiente, parece-me, imaginar a duração infinita dos tempos passados. A vida universal é uma busca impaciente. Mas o que é um objetivo sempre perseguido e jamais alcançado, após quase uma eternidade de tentativas, senão uma quimera? E o que é uma perseguição sem objetivo, a não ser a pior das maldições? A própria duração do universo atesta, pois, a impossibilidade de seu feliz desfecho. Dizer que o mundo é um grupo imenso e uma eterna série de evoluções seguidas, invariavelmente, de dissoluções é dizer que tudo não é, em toda existência, senão esperança e decepção, fluxo incessante de esperança seguido de um inevitável refluxo. E é muito tarde para supor que surgisse jamais, enfim, em meio a tudo isso, algum esforço vitorioso, algum elã não enganoso, alguma vontade não decepcionante!"

12 de outubro de 2008

As Bases da Autoridade

Há um minimum de prestígio que um governo não pode se dispensar, e que se fundamenta, primeiro, sobre superstições e lendas populares, iluminuras do direito divino, erro fundamental um dia e vital das sociedades. Quando ele se desvanece, é preciso procurar outras bases para a autoridade, mas são sempre ficções, apenas mais artificiais, ou seja, mais racionais, e mais conscientemente fabricadas. São necessários historiógrafos oficiais para acomodar a História, são necessários jornalistas para desnaturar os fatos atuais, são necessários múltiplos atores para representar com sucesso a vasta comédia do sufrágio, seja restrito, seja universal, e fazer-se dar, através da opinião, as ordens ou os elogios que se lhes são ditados. 
Gabriel Tarde 
Observação: Destaquei esta passagem como citação de abertura da tradução de A Criminalidade Comparada. A parte final do livro é dedicada a um estudo do autor sobre a necessidade de ilusão nas sociedades, ilusão que ele diferencia bem da mentira, esta última, nociva e estimulante da criminalidade.