13 de outubro de 2010

Crer na ciência

A primeira condição que deve preencher um sábio que se entregue à investigação dos fenômenos naturais é a de conservar uma inteira liberdade de espírito assentada sobre a dúvida filosófica. Não é preciso, todavia, ser cético; é preciso crer na ciência, ou seja, no determinismo, em relação ao absoluto e necessário das coisas, tanto quanto nos fenômenos próprios aos seres vivos quanto a todos os outros; mas é preciso, ao mesmo tempo, estar muito convencido de que nós não temos essa relação senão que de uma maneira mais ou menos aproximativa, e que as teorias que nós possuímos estão longe de representar verdades imutáveis. Quando nós fazemos uma teoria, geral em nossas ciências, a única coisa da qual nós estamos certos é de que todas essas teorias são falsas absolutamente falando. Elas não são senão verdades parciais e provisórias que nos são necessárias, como graus sobre os quais nós repousamos para avançar na investigação; elas não representam senão que o estado atual de nossos conhecimentos, e, por conseqüência, elas deverão se modificar com o crescimento da ciência, e tanto mais freqüentemente quanto as ciências estejam menos avançadas em sua evolução. De um outro lado, nossas idéias, assim como dissemos, nos vêm à vista de fatos que foram previamente observados e que nós interpretamos a seguir. Ora, causas de inúmeros erros podem introduzir-se em nossas observações, e malgrado toda nossa atenção e nossa sagacidade, não estamos jamais seguros de haver visto tudo, porque freqüentemente os meios de constatação nos faltam ou são muito imperfeitos. De tudo isso resulta, pois, que, se o raciocínio nos guia na ciência experimental, ele não nos impõe necessariamente suas conseqüências. Nosso espírito pode sempre permanecer livre para aceita-las ou discuti-las. Se uma idéia se apresenta a nós, não devemos repeli-la unicamente porque ela não esta de acordo com as conseqüências lógicas de uma teoria reinante. Podemos seguir nosso sentimento e nossa idéia, dar curso a nossa imaginação, visto que todas as nossas idéias não são sejam senão pretextos para instituir novas experiências que possam nos fornecer fatos probantes ou inesperados e fecundos.
Claude Bernard