8 de novembro de 2022

Encontro

 

Hoje, tempos em que se aprendeu a viver num agora que é para sempre, não temos mais a memória do tempo em que se dizia não quando se queria dizer sim, e vice-versa. Nada mais sabemos dos desejos velados, nem dos amores contrariados, obrigados a viver numa espécie de masmorra cordial. Somos, no presente, muito ricos dessas máquinas que semeiam letras perfeitas numa folha de papel eletrônica, à qual falta, no entanto, a aspereza do atrito, o cheiro da tinta, a marca da hesitação assinalada no tremor da escrita.

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Encontro meus pensamentos espalhados por aí e me reconheço por simpatia. Dez anos se foram desde o Diário de Francisco, e parece que a dinâmica do tempo que identifiquei apenas por convicção literária bem poderia ser filosófica, aliás, em boa parte. 

2 de novembro de 2022

Silêncios


Eu, meus livros e tua sempre presente ausência.

Palavras não ditas.

Silêncios.


O Artista

 

O artista romântico figura o porta-voz de uma verdade que ele é o único a poder transmitir. Sua valorização do sonho e do sobrenatural, seu gosto pelos grandes sentimentos e sua paixão pelo inútil opõem-se ao materialismo, ao positivismo e, sobretudo, ao utilitarismo social. Frequentemente incompreendido, marginal ou revoltado contra a antiga ordem, o artista romântico parece-se muito com o “eremita de Croisset”.

CASIN-PELLEGRINI, Catherine, Notas apud Flaubert, Gustave. Lettres à Louise Colet, Paris: Magnard, 2003, p. 161. (Tradução livre das autoras)


Notinha: O eremita de Croisset é Gustave Flaubert.

28 de outubro de 2022

Provérbio Irlandês

"Vassoura nova varre bem, mas vassoura velha conhece os cantos."

Seleções do Reader's Digest, out/1977,contracapa. 

21 de outubro de 2022

De passagem

 

Porque tenho coisas a fazer e por fazer. E porque os fazeres são múltiplos, mas os pensares, estes.... ah! esses são secretos, profundos, inconfessáveis.

13 de outubro de 2022

Apocalittici e Integrati


E pensar que Umberto Eco, em 1965, tinha uma visão tão exata do que a indústria cultural já prometia fazer. Impressiona. Acho que mais que isso: apaixona. Observar que a indústria cultural nasceu com Gutemberg é dizer tudo. Fora a arbitragem que dá título ao livro. Ele se desculpa, e explica bem esse título.  Contudo, verdade é que, cada vez mais, se acentua essa divisão entre apocalittici e integrati. Sábia divisão, ainda mais quando nos alerta para o fato de sermos todos movidos pela cultura de massa, querendo ou não, concordando ou não. Os apocalípticos são a turma que se preocupa com a velha decadência, sobre a qual teorizam, enquanto os integrados raramente teorizam, porque operam, produzem e se comunicam em todos os níveis. Obcecados pelo "apocalipse", imagem que projetam sobre a cultura de massa, os apocalípticos escrevem sobre ela, enquanto os integrados produzem textos da cultura de massa. Assim, muito embora tais facções contrárias disputem espaço e razão, são apenas as duas faces de um mesmo problema. E os textos apocalípticos, afinal, não representam eles o mais sofisticado produto que se oferece ao consumo de massa? A crítica popular da cultura popular termina por criar essa divisão que, mesmo oposta, só a reforça, porque, em última análise, fato é que apocalípticos e integrados nascem e se movem em função do que uns criticam e outros integram. O primeiro consola o leitor, mostrando-lhe que, no fundo da catástrofe, haveria uma comunidade de super-homens capazes de se erguer acima da banalidade da mass media: nós, unidos, não seremos massa, diriam esses super-homens. Trata-se de recusar a banalidade imperante, recusá-la em silêncio, evitando a integração. O segundo, ao contrário, se integra e, produz incansavelmente tudo o que pode popularizar seja o que for em termos de cultura. Grandes simplificações, resumos, massificação. Mas recusa e incremento se confundem, ainda mais que este não é o mundo do super-homem. Ele é o nosso mundo, que nasceu com a ascensão das classes subalternas ao patamar que lhes permite a fruição dos bens culturais, e conquistando ainda as condições de produzir esses bens industrialmente. O universo da comunicação de massa é o nosso: rádio, jornais, televisão, música reproduzida e reprodutível, nesse espaço de informações capaz de transmitir até mesmo os próprios protestos. 

O Midcult e seu in e out, a vanguarda de uma arte superior vedada ao homem médio, cidadão da civilização industrial contemporânea, irrecuperável. Mas atenção à diferença entre sensibilidade crítica e tic snobístico que é ínfima. A crítica da cultura de massa acaba por se tornar ela mesma um produto de massa, quando o bom e o mau gosto se tornam categorias flexíveis, que podem servir para definir a funcionalidade de uma mensagem que provavelmente se presta a outras funções, seja no contexto de um grupo, seja no de uma sociedade inteira. Enfim, dificilmente as coisas são redutíveis a definições de belo ou Kitch.

Eco não deixa sequer de entrar no tema complexo que é definir uma obra de arte. E o faz magistralmente, propondo que a obra de arte é uma narração que produz figuras capazes de se tornarem modelos de vida e emblemas substitutivos de juízos de nossa experiência. A obra de arte, portanto, é capaz de inspirar e de influir, de modificar a forma como experimentamos o estar no mundo.

Eis aí questões sobre as quais é preciso refletir. Mais que optar, escolher, ou definir-se, é preciso entender o contexto em que vivemos, não necessariamente apocalípticos nem necessariamente integrados. A perspectiva que Eco nos descortina nessa obra é bem mais ampla que a de simplesmente deixar-se levar pela sedução de uma ou outra possibilidade, no reducionismo simplista do contra ou a favor. Para tanto, basta pensar. Um pouco trabalhoso, é verdade, mas altamente compensador. Como a leitura de Eco, que, na década de 1960, já avaliava tão bem o impacto que o incremento da comunicação de massa, que apenas começava, teria em nossa sociedade 

Fonte: ECO, Umberto. Apocalittici e Integrati. Milano: Bompiani, 1965.

12 de outubro de 2022

Pensando bem


Certezas trazem em si uma boa dose de arrogância. Dúvidas são mais flexíveis. Mas tudo depende do tipo de certeza e do tipo de dúvida. Se for do tipo bem-me-quer, mal-me-quer... 

9 de outubro de 2022

Dominguices

 

Neologismo necessário. Faz parte.

14 de setembro de 2022

Encarar

 


Então, eu até cantaria wake me up when september ends, mas com insônia, não vai ter jeito.