28 de outubro de 2025

A Lógica dos Afetos

Descobri hoje que o sinal “~” significa “aproximadamente”.
Matemáticos o usam para evitar certezas. Quando não é exatamente 5% de alguma coisa, por exemplo, mas quase, escreve-se ~5%.
Poetas, talvez, esses matemáticos que tanto se protegem das certezas. Então pensei: e se os sentimentos tivessem também seus símbolos de precisão e dúvida?
Se cada amor pudesse caber numa equação imperfeita?

~te amo     → amor com margem de erro. Ainda testando hipóteses.
≈te amo     → amor equivalente, reciprocidade confirmada.
>te amo     → te amo mais. Resultado crescente. Cada vez mais?
<te amo     → te amo menos hoje, mas é só instabilidade do sistema.Será?
∞te amo     → overflow emocional. O número não cabe na tela.

E há ainda os invisíveis:

·         ÷te amo — amor dividido entre o passado e agora.

·         Σte amo — soma de todos os afetos que já existiram em ti.

·         √te amo — amor depurado, depois das perdas e dos erros.

No fim, talvez todo “te amo” seja mesmo uma operação inacabada.
Algo entre o cálculo e o abismo.
Um sentimento aproximadamente eterno.

27 de outubro de 2025

Escrever

Escrevo para não desaparecer. Há quem viva a partir das ordens do mundo: seja gentil, sorria, trabalhe, repita. Obedeça. Vozes externas que se infiltram em nosso corpo, mente, espírito. Alma? ―Terei uma? ― Vozes insistentes. Para dizer como devo ser, o que devo sentir, o que é bom ou ruim. E eu me vejo obrigada a ser paciente, cortês, a conter a irritação diante da mesmice que só sabe ser óbvia. Gente que fala alto, que invade, que pergunta. Gente que existe apenas pelo reflexo do que o mundo aponta. São espelhos polidos: devolvem o vazio com brilho.

Assusta-me essa normalidade que tudo absorve. O risco de me tornar obediente, repetitiva, sem curiosidade. É o que me faz escrever. Resistir ao contágio que pretende ordenar o conforto que encontro no meu próprio caos. Meu delicioso caos feito de todas as impressões, sempre novas, a cada instante. Quando escrevo, algo se alinha, ainda que de modo precário. É o instante em que escolho o sentido que vou dar ao que for. O que for será. Eu decido o que será. O que farei do ruído da freada que vem lá de fora. Se eu abrir a janela. Não abro. Sigo aqui, pois o cursor do Word pulsa e seu pulsar é incessante. Um convite. Um convite novo e transformado. Porque antes era o atrito da ponta da caneta no papel. Mas isso antes de me fazer digital. Vida de quando eu era analógica.

Escrevo porque há infinitas impressões que demandam forma. E eu posso lhes conferir essa forma. Dar consistência ao cheiro de bolo. À freada de há pouco. A palavra prova o que for. Com ela se mente e se desmente. Mas, penso eu, deve obedecer à gramática. Não com tão estrita observância como dantes. Mas, soe que assim seja. Por vezes.

Palavra é código. Posso calar-me e permanecer ainda. Pouco me importa ser eu no mundo onde melhor não fosse. Posso calar, mas, se quiser, eu grito. Silenciosamente.


13 de outubro de 2025

Inacreditável


Não que eu me importe. Afinal, não é da minha conta. Com tanta coisa para ocupar meu tempo, tantas coisas mais importantes. Quem liga? Olhei pela janela e vi apenas o de sempre. O gosto do café também era o mesmo e a roupa de ontem serve para hoje. Os objetos ocupam seus lugares e não ousariam fazer diferente. O som do rádio na mesma estação ecoa as mesmas vozes. Provavelmente estão dizendo as mesmas coisas que disseram ontem. Não, extamente. Que ontem foi domingo. Domingos não contam. A inutilidade não conta.

É inacreditável, mas, para muita gente, isso faz todo sentido. Não para mim. Importa-me o dia. A segunda. E é da minha conta, sim, que a semana comece no dia do aniversário do Bruno. Ele não sabe mais que é seu aniversário. Porque ele morreu. Sei que isso acontece com todo mundo, mas faz toda a diferença, quando acontece com quem não é todo mundo. Absolutamente. E, além de ser segunda, também acordei sem nada que me doesse no corpo. E também não estou gorda. Certo que passei dos 50, mas permaneço abaixo dos 51, o que me libera o pão. E também a torta de maçã que sobrou de ontem. Olhei pela janela e vi sol. E isso importa, porque as toalhas de banho vão secar ao sol. E há ventos de primavera. Sim, faz diferença. O gosto do café não é o mesmo, apesar de ser o café de sempre. Só que poderia não ser, pois ontem ganhei um café especial que poderia passar no lugar do café de sempre. Mas, como não passei, o de sempre não é mais o de sempre, exatamente, porque poderia não ser. E, não, as coisas não são as mesmas de sempre, pois há flores na casa. Em presença de flores, a casa fica diferente. Há mais alguém nos cachepots. Os de prata agora portam flores. De quebra, trouxe hortelã para casa. A planta desmaiou, é verdade, mas agora animou-se e está lá na copa. Parece que percebe minha presença, pois me lança perfume. Como se me perguntasse quando vou tratar de fazer um quibe com ela. – Ah, preciso da cebola e do trigo. Do guisado também. ― Anoto mentalmente as compras. O rádio. Não são as mesmas coisas. O mundo mudou um pouco desde a semana passada. Parece que esta semana menos gente vai morrer. É uma semana nova. E começou no domingo, que para mim não foi inútil. De qualquer sorte, mesmo que fosse, para mim, até a inutilidade conta. Afinal, é nestas horas inúteis como a de agora mesmo que escrevo coisas assim. Só pra te contar que não esqueci do dia 13 de outubro. Não esqueci do teu aniversário. E continuo sabendo o que fazer com nada. Transformando coisas em coisa nenhuma. Porque o que é inútil, justamente por isso, pode ser qualquer coisa. E isso é muita coisa. Horas inúteis têm abundância. Mas isso não é para todo mundo. É para poucos. Muito poucos.