23 de janeiro de 2026

TRAGO SEU AMOR DE VOLTA EM ATÉ CINCO DIAS

 

A placa na porta não era promessa, mas garantia. Estava lá, em caixa alta: “TRAGO SEU AMOR DE VOLTA EM ATÉ CINCO DIAS”. Abaixo, em letras menores: “Trabalhos Garantidos ― Amor ― Prosperidade ― Saúde – Consulta com Hora Marcada”. Mas, se o retorno do amor era garantido, a prosperidade passava longe da casinha simples que não reclamava apenas uma boa demão de tinta. As telhas de barro visíveis no beiral ondulado pediam reparo imediato. A única janela visível na fachada tinha uma das venezianas desprendida em parte. A porta de madeira simples abria para uma pequena varanda acessível por meio de dois degraus invadidos pela grama e pelo mato. Aquilo que já fora um jardim parecia agora reservado ao cultivo de vicejantes espadas-de-são-jorge, touceiras de arruda, alecrim, camomila e hortelã.

Um cenário como este exige uma protagonista. E, se o título desta crônica estimulou o leitor a ponto de ultrapassar o primeiro parágrafo e chegar até aqui, ele conhecerá ninguém menos que Valquíria. Vamos a ela.
Valquíria apresenta-se como maga. Entre outras habilidades, diz ser terapeuta holística, xamã e especialista no uso de terapias alternativas, que incluem fisiologia fluídica, cristais e florais. Estudiosa de homologia cósmica, dedica-se à astrologia cármica, à magia natural, pragmática, ritual e cerimonial. Cria sigilos mágicos, talismãs e patuás. Declara profundos conhecimentos dos cultos egípcios, babilônios e atlantes. É taróloga, pratica a geomancia e radiestesia, trabalha com ondas escalares e radiônica. É ligada à Grande Loja Branca do Universo e participa ativamente do movimento Wicca.
Exagero? Não, absolutamente ― dizem seus clientes. Bem, o universo místico é hiperbólico em todos os sentidos, porque ele existe para fazer frente à nossa imaginação. E depois, olhando para Valquíria, não se pode duvidar de suas qualificações. Se você a visse, acredito que compreenderia tudo na mesma hora. Neste dia, ela usava botas pretas de saltos altíssimos que iam até acima dos joelhos. Uma saia preta, de pontas assimétricas, cinto de couro também preto cheio de penduricalhos e fechado por uma grande fivela de metal. A blusa preta de malha muito justa mal continha, do lado de dentro, seios redondos e exageradamente grandes, um deles tatuado ao alto com o desenho de uma estrela de cinco pontas. Os cabelos compridos e vermelhos caíam em cascata pelas costas e ombros, em ondas aqui e ali interrompidas por um tom mais claro e mais chamativo. Eram abundantes e crespos. Faziam desconfiar de um implante camuflado. Não se poderia saber a sua idade. O excesso de maquiagem, a imobilidade do rosto, a espessura dos lábios pintados de vermelho, cílios postiços, sobrancelhas muito altas e finas, desenhadas a compasso, davam ao conjunto um aspecto, no mínimo, marcante.
Valquíria, com suas idiossincrasias, é a resultante lógica do somatório de todos os clichês que repousam, bem escondidos, lá no fundo do poço dos nossos desejos mais ocultos. E, depois de uma decepção amorosa ― eu poderia ter escrito “depois de um pé na bunda” ―, quem não desejaria se afastar da insípida e decepcionante realidade?

Em momentos como este, o “TRAGO SEU AMOR DE VOLTA EM ATÉ CINCO DIAS” até que não parece assim tão absurdo. Pronto! Isso é o bastante para que nossa boa e velha racionalidade entre em “modo racionalizante” e dê início a um processo fatorial que vai de “e se” em “e se” até chegar ao “e se” eu entrasse ali e fizesse uma consulta? Ora, se você entrasse ali e fizesse uma consulta, não ficaria menos decepcionado com o interior da casa simples que já lhe mostrei por fora.
Ao entrar, a primeira coisa que você vê são mandalas. Afinal, elas são guardiãs e filtros. Distribuídas por todas as paredes da salinha de espera, ajudam a mascarar a pintura lascada. Mandalas grandes e pequenas, coladas nas paredes com fita crepe, dão um colorido especial ao ambiente. Você pode se sentar no sofá de dois lugares ou escolher uma das pequenas poltronas. Só tenha cuidado para não tropeçar no prato lascado cheio de sal grosso com sete pimentas vermelhas espetadas. Sim, você já viu isso antes, é claro. A exuberância do arsenal simbólico é indiscutível. No chão, além das pimentas, há um tapete gasto. Graças à janela fechada, o cheiro e a fumaça de incenso são marcantes. Mas os clientes podem se servir de café. Há uma garrafa térmica, copinhos descartáveis, açúcar, adoçante e guardanapos de papel. Na mesma mesinha do café, um calendário de mesa e o valor da consulta: R$ 100,00, com a observação “pagamento adiantado”.
Bem, você já chegou até aqui e seu “modo racionalizante” vai seguir fatorando o preço da consulta, para saber “se” você deve investir ou não em Valquíria. Mas você já entrou. Já escolheu o sofá. Não teve coragem de se servir do café, mas fez o PIX, pensando que todo mundo, uma vez ou outra, paga para ver. E depois, há um detalhe importante. Não se trata mais daquelas cartomantes de antigamente. Não. A pós-modernidade não nos oferece menos do que Valquírias. Logo ― brilhante conclusão dos algoritmos que informam o seu “modo racionalizante” ―, pago o preço ou realizado o PIX, você pode finalmente passar à sala de atendimento, atravessando uma cortina de contas coloridas.
Pronto, você completou mais um estágio.

A sala de atendimento é curiosa. Uma das paredes exibe prateleiras de alto a baixo. Estão lotadas de cristais e pedras. Há também miniaturas de budas gordos, elefantes de gesso com a tromba voltada para cima ― dizem que atrai prosperidade ― e algumas curiosas miniaturas de Ganesha, cujas barrigas servem de suporte a varinhas de incenso. Há anjinhos com asas de glitter, pirâmides de plástico, de pedra e de orgonite. Estas últimas são infalíveis para neutralização de energias negativas. Há também pequenos quadrinhos dos mestres ascensionados e pôsteres de outros personagens New Age que, supostamente, exploram as galáxias vizinhas. Nesta sala maior,
o cheiro de incenso mistura-se com o cheiro das velas coloridas acesas numa bandeja. Uma mesinha auxiliar reúne garrafas com rótulos variados. Há banhos de “descarrego”, de “atração”, de “prosperidade”. A informação é tanta que você nem nota que Valquíria, de pé, sorrindo, lhe oferece uma cadeira.
Pronto. Você nem sentiu, mas já está sentado à mesa coberta com um pano branco e, na sua frente, Valquíria. Ela não está mais sorrindo. Ela olha para você e não diz nada, absolutamente nada. Você, então, presta atenção à mesa e vê baralhos, figas, patuás, um pequeno sino, mais incenso queimando e um copo de vidro embaçado cheio do que deve ser água. Valquíria continua quieta. Você percebe que sua boca está seca. ― E agora, o que vou dizer para esta mulher? ― Valquíria continua quieta. Ela olha para você e, agora, embaralha as cartas. Enfim, algo aconteceu.
Enquanto ela embaralha, você escuta o barulho das pulseiras cheias de bugigangas. Olha para as unhas dela, repara no tamanho das mãos e percebe o esmalte preto lascado. O anel prateado de caveira, usado no indicador da mão direita, faz par com o anel do indicador da mão esquerda, onde aparecem dois ossinhos prateados cruzados em “x”, que acumulam sujeira e resquícios de alguma substância desconhecida. Finalmente, o barulho das pulseiras cessa. Ela coloca as cartas amontoadas bem na sua frente. Só então ela se dirige a você:
― Separe as cartas em cinco montes.
Você escuta. Repara que a voz é firme, áspera e grave.
Você olha para as cartas e vai “cortar” com a mão direita, quando Valquíria lhe interrompe:
― Corte com a mão esquerda!
Você recua então, mas percebe que o processo de separar os montes com a mão esquerda mostra toda a sua insegurança. Com gestos incertos e trêmulos, você consegue separar as cartas em cinco montinhos. Ah! Você também está morrendo de curiosidade e já acha que os cem reais foram pouco, afinal, Valquíria está lhe dando toda atenção. Ela continua econômica nas palavras. Olha para você, depois pega o sininho da mesa, fecha os olhos e toca com força sobre o primeiro dos cinco montes. Você conta: um, dois, três, quatro, cinco, seis… o sininho não para de tocar. Você para de contar. Quando o sino sossega, ela abre a primeira carta para a qual não olha. Sim! Ela não olha para a carta, mas para você:
― Ah! Então você é descrente. Sim, eu posso ver que você é descrente. Mas aqui isso não importa. O tempo é o senhor da razão e os caminhos do destino só podem ser desvendados pelos escolhidos. Mas vejo que você tem uma boa proteção, ou não teria vindo aqui. O que lhe angustia, porém, não é o que você pensa.
― Como assim?
― O que você deseja vai acontecer antes do que você espera. Você se engana e pensa saber o que não sabe. Esta carta mostra o Sol. Diz que você é racional e que acredita somente no
que pode tocar. Você só entende o que sabe explicar. Quando tudo sai diferente, porém, quando os “fatos” não se mostram obedientes àquilo que você supõe, você experimenta a incerteza. E não lida nada bem com ela. E é por isso que está aqui.
Nesse momento você já acha que Valquíria, afinal, não é assim tão bizarra. Ela fala corretamente. É fluente. Talvez essa estranheza seja fruto de seus preconceitos. Afinal, essas coisas todas são kitsch. Conceituais. Simples assim! Pensando bem, ela acertou. Muita gente já ficou magoada com você por conta de seu sarcasmo e ironia.

Você então se atreve a falar.
― Bem, eu não lhe disse que espero alguma coisa.
― E precisa? Você está aqui, não está? E veio à procura de alguma coisa que acha que perdeu. Você abriu com o Sol. Você está saudável e sua vida é próspera. O que lhe falta é confiança. Por isso você duvida, sistematicamente, de tudo e de todos. Veja isso!
Neste instante ela vira para cima a segunda carta.
Mais uma vez não olha para a mesa ao apontar as Nuvens.
― Veja bem. Nuvens. Elas são passageiras. O Sol continua a brilhar atrás delas.
― E as outras cartas? Há mais três.
― Sim, mas elas não respondem por você. Quer ver?
Ela então abre a terceira carta. E lá está o Coração…
― Seu amor é correspondido. A incompreensão que trouxe você até aqui resulta das Nuvens. Perturbações passageiras e desencontros. Agora vou ver o que as outras cartas te mostram.
A quarta carta é aberta. É um Navio. Valquíria segue segura:
― Quem você espera estava longe, mas já voltou. O mar traz de volta todas as emoções, porque a distância é o que fortalece tudo aquilo que vem para ficar.
A essa altura, você já está retomando o controle. Já sente que o cheiro e a fumaça estão demais e sente alívio porque está na hora de abrir a última carta. Mas ela não abre. Volta a tocar o sininho. Concentra-se, murmura algumas palavras incompreensíveis e só depois abre a carta. É a Casa. Ela bate na mesa com o dedo indicador da mão direita, e a caveirinha parece maior ainda, assim como a unha comprida e as lascas do esmalte preto.
― Alguém está à sua espera. Vá para casa!
― Como assim?
― Não é “como assim”! É “bem assim”! Vá para casa. Para sua casa. Não precisa nem voltar aqui para dizer que eu acertei tudo. Vou dar a você alguns cartões com meu telefone. Sei que você conhece mais gente que precisa de mim, dos meus serviços. Agora saia e diga ao próximo cliente que pode entrar.
Está anoitecendo. Você sai de lá e não vê a hora de voltar para casa. Precisa de um banho, porque o cheiro de incenso continua nos seus cabelos e roupas. Finalmente, uma ida ao supermercado e, garantido o jantar, nada como estar de volta. Todavia, com a chave na mão, à porta do prédio, você ouve seu nome e, logo depois:

― Oi, amor! Saudades! Estou te esperando aqui há horas! Desculpa não te avisar! Tive de voltar correndo para a praia, pois o celular ficou lá e…
Daí você não pensa em mais nada.
Nem precisa.
Depressa, examina o bolso do seu casaco e fica contente por não ter jogado no lixo os cartõezinhos de Valquíria, nos quais se lê: “TRAGO SEU AMOR DE VOLTA EM ATÉ CINCO DIAS”.

REVISTA VIDA BRASIL