20 de julho de 2026

Depende da perspectiva

Sim, relativizar conforme a perspectiva. Uma forma de atravessar certas coisas sem se deixar capturar inteiramente por elas. Alterar o foco. Inverter a ordem. Mudar a lente. Fazer a egípcia; ou abstrair e fingir demência, como dizem. Porque a percepção pode ser fugaz como um flash.

Relativizar é um modo de lidar com aquilo que nos chega com ares de absoluto. Porque, afinal, depende. Até o absoluto? Por que não? O absoluto também bem poderia depender desta chuva de agora, deste vento que sossegou, do foco da minha lente que busca o parapeito da sacada que flutua, não obstante os alicerces, não obstante a construção.

O absoluto, por mim, pode depender da lente, do lugar e do não lugar. De estar acima ou abaixo, por cima ou por baixo. De onde se olha e de como se olha.

Talvez tudo seja relativo à perspectiva. Ou quase tudo.

Porque há algo que insiste.

Esse meu estar aí, por exemplo, faz-se tão absolutamente relativo a ponto de simular o único absoluto possível ― aquele que mora no fundo de mim mesma, onde há mistérios e banalidades.

Eu.

Pura intuição.

16 de julho de 2026

Rapto e casamento

Em a noite de 16 para 17 do corrente Jacinto Paripou raptou a menor Julia Eneia Soares. Tendo a polícia denuncia por intermédio do progenitor da menor foram os fugitivos conduzidos à autoridade que depois das formalidades legaes uniram-se pelo casamento civil.

O Momento. Orgam do partido liberal. Caxias, 25 jan 1933, n. 3, Ano I. 

Encontro a notícia. Recorto. Penso que é um verdadeiro microconto naturalista que condensa toda uma estrutura social. Pensar em 1933 é evocar a Revolução 30, o Governo Provisório de Vargas. Uma imprensa local que funcionava como cronista da vida moral da cidade, amalgamando política, notas sociais, crimes, casamentos, disputas familiares. Enfim, a "vida pública".

Se o casamento civil consolidado já era uma realidade em 1933, nem por isso a linguagem deixa de recorrer às antigas categorias: "rapto", "menor", "progenitor", "fugitivos". É o léxico jurídico do século XIX chamado para descrever os fatos.

O casamento é solução administrativa dada ao crime. É o pai, porém, que aciona o Estado. O desfecho é fascinante. A polícia captura os "fugitivos", mas a resposta estatal não é separar o casal. Ao contrário: o Estado regulariza a situação pelo casamento civil.

Do ponto de vista sociológico, Durkheim talvez visse aí a reafirmação da ordem normativa. Foucault chamaria atenção para a maneira como o poder não apenas reprime, mas produz sujeitos que, de fugitivos, tornam-se marido e mulher. Bourdieu lembraria que o casamento é um ato de instituição, uma operação simbólica que altera o estatuto social das pessoas. Só Nélson Rodrigues veria aí a vida como ela é.

E eu aposto que ele se encantaria com esse recorte tão comprometedor, em que pese não intencionalmente. Tudo é perfeitamente banal, sem indignação nem celebração. Jacinto e Júlia fugiram por amor? Foi um rapto consensual? Teria havido coerção? Isso não importa mais. Afinal, o casamento não apenas salvou a reputação de Júlia como deu, à Sociedade, a justa satisfação, a respeitabilidade.

6 de julho de 2026

A Moça Lendo

Era mais ou menos assim. A imagem da moça lendo que decorava um calendário antigo. Alguém guardara. E sabendo que eu pintava, presenteou-me. Não fui muito fiel, mas gostei do resultado. Lembro que era uma tela 0,40 x 0,50. Nunca chegou a ser emoldurada. Dei o quadro, que chegou a enfeitar uma parede e a abrigar alguns olhares. Dele, sobrou-me apenas esta foto. Uma lembrança. E silêncio.

24 de junho de 2026

A Visita


Visita tão inesperada quanto honrosa. Estupenda. Em meio à cidade, ao frio, ao nada de verdes ou de flores, ela veio. Subversiva presença que desafiava a lógica desta manhã fria de inverno: détournement. Com a devida vênia ao galicismo. Em que pese imprevisível, chegou mansamente, exibindo suas cores, sua delicadeza, suas tantas e nem sei quantas perfeições. Nenhum estranhamento demonstrava. Eu? Parei com tudo o que fazia, só para desfrutar do luxo daquela presença. Desconcertada e tomada de espanto, deixe-me admirá-la. Toda feita de geometria e de contrastes. O veludo negro profundo, o corte vivo em vermelho-rubi e as delicadas faixas marfim nas asas. Com pressa, corri em busca da câmara. Não fosse isso, desmentir-me-iam os incrédulos. Por que um lepidóptero de tão rara e delicada beleza teria vindo até aqui? E teria se deixado ficar por tantos minutos comigo? Mas veio. Comprovo-o. Mostro. Exibo a foto como troféu. Porque, sim. Ela veio. Ainda que eu não tenha jardins nem flores, ainda que por aqui haja só cimento, ruído e frio. Ainda que. Apesar de. Não obstante. Ela veio. Depois partiu, mas não sem deixar por aqui um tanto de magia, um tanto de imponderável.

23 de junho de 2026

O Homem Absurdo


Exige-se sentido, unidade, explicação. E quando o mundo não responde a tanto ― porque esta é regra ― nasce o absurdo.

Fazer da vida uma narrativa coerente é a grande fantasia que desponta, luminosa, no horizonte das redes. Nos feeds costuram-se causalidades morais onde não há senão fatos descontínuos aos quais se impõem sentidos e significados vãos.

 Exigem-se explicações consoladoras de ordem religiosa, moral, psicológica. Nada, porém, é suficiente para transpor o abismo entre experiência e significado.

É preciso justificar-se. Dar à vida humana uma narrativa moralmente aceitável retrospectivamente. Mas não há narrativa capaz de organizar uma existência que é feita de fragmentos da experiência.

Jogar o jogo da produção de sentidos é obrigatório.

É preciso negar a existência do absurdo. 

Ou aprender a conviver com ele e viver como estrangeiro sem ceder ao conforto que nos proporcionam as mentiras consoladoras.

Não faço a menor ideia


 

18 de junho de 2026

Lenda Urbana


Se você é de Porto Alegre, conhece esse lugar tão exótico quanto misterioso, que fica Centro Histórico, bem onde a Fernando Machado encontra a Vasco Alves. Foi construído em 1948, por um político que, apaixonado por uma moça de 22 anos mais jovem, viveu ali uma estranha e escandalosa história de amor. Carlos Eurico Gomes, o político, e Nilza Linck, uma jovem então com 18 anos, foram os protagonistas assim dessa lenda urbana que ainda mexe com a imaginação de quem mora na capital gaúcha. A união durou quatro anos. Nilza fugiu, assustada com o ciúme e as ameaças de morte do parceiro. A casa ainda existe, contudo, dando lugar a atividades culturais e saraus literários. Coisas bem menos dramáticas, é verdade.

10 de junho de 2026

A Praia do Pássaros


 Dos pássaros. Poderia ser dos barcos. Dos pescadores. Na pressa, escrevi que era a praia dos pássaros, feitos de riscos, tipo bumerangues que cruzam o fundo azul que faz as vezes de céu. É tudo muito incerto no pequeno caderno montado às pressas. Mas nele cabe toda a exiguidade do tempo que não tenho e da paciência que me falta,. 

27 de maio de 2026

SABORES DA VIDA: SALADA CAESAR

 


Então, só porque este meu blog é metido a literário, tal não significa que não se possa falar de sabores por aqui. E como receitas são sempre alguma coisa que soma repertório, penso que falar de sabores não atrapalha em nada o prazer de ler.

Sim, eu poderia escrever algo que começasse com grãos de mostarda, falar disso como a clássica referência do tamanho de nossa fé — e é que a temos. Mas guardemos as mostardas e as metáforas bíblicas para outra ocasião. A hora agora é de frescor arquitetônico, antes que chegue o inverno de verdade. Devo, todavia, falar dos filés de frango, mas bem longe, de mim distante, da turma vegana que talvez preferisse filés de uma boa e brilhante berinjela. Ah, meu caro vegano, quisera que eu que você esquecesse desse juramento... Só desta vez, porque hoje a heresia é galinácea.

Ah, o azeite não é opcional! Porque outros óleos devem ser vistos anátema!

Para inaugurar estes Sabores da Vida, minha devoção vai hoje para a Salada César, ou Caesar. Quando bem executada, é uma pequena obra-prima que contrasta a neutralidade crocante de tenras folhas de alface-romana expostas ao calor do frango grelhado e à untuosa complexidade de um molho rico em texturas. Tudo isso abençoado com lascas de queijo parmesão e os croutons, com sua geometria tostada pelo fogo.

Se a literatura nos alimenta o espírito em silêncio, que a cozinha nos convoque o corpo com a mesma entrega. Segue a receita deste clássico.

Ah! A inspiração de hoje chegou-me nesta manhã, pelo WhatsApp, pois tem alguém que lembra de mim como uma glutona, que ama comida e sabores. Quando vi, lá estava mais uma edição da Maxi Cuisine, nº 189, deste mês de junho. A receita que escolhi para hoje foi traduzida e adaptada para uma porção dupla. Se você tiver com quem dividir, ótimo! Senão, faça como eu, e devore tudo sozinho.

Salada César para Dois

Preparo: 15 minutos | Cozimento: 10 minutos

Ingredientes

Para a salada:

·         2 filés (escalopes) de frango

·         1/2 pé de alface-romana (ou um pé pequeno)

·         1 ovo cozido (cortado em quartos para decorar)

·         25 g de queijo parmesão em lascas

·         15 g de manteiga (cerca de 1 colher de sopa rasa)

·         2 fatias de pão rústico (de campo)

·         1 e 1/2 colher de sopa de azeite de oliva

·         Sal e pimenta-do-reino a gosto

Para o molho (o segredo da alquimia):

·         1/4 de dente de alho (apenas um toque para não dominar)

·         1 ovo cozido inteiro (aqui está a nossa solução: usamos apenas o cozido, omitindo o cru, e equilibramos com o iogurte)

·         60 g de iogurte grego (cerca de 3 colheres de sopa cheias)

·         25 g de queijo parmesão ralado finamente

·         1 colher de sopa de azeite de oliva

·         1/2 colher de sopa de suco de limão

·         1/2 colher de sopa de mostarda

·         1/2 colher de chá de vinagre de maçã

·         1/2 colher de chá de molho inglês

·         Sal e pimenta-do-reino a gosto

Modo de Preparo

1.      O Molho: No copo do liquidificador ou usando um mixer, coloque o ovo cozido inteiro, o iogurte grego, o parmesão ralado, o azeite, o limão, a mostarda, o vinagre, o molho inglês e o quarto de dente de alho. Tempere com uma pitada de sal e pimenta. Bata até obter um creme liso, denso e homogêneo. Reserve.

2.      Os Croutons: Corte as fatias de pão em cubos. Em uma frigideira, aqueça 1 colher de sopa de azeite em fogo alto e salteie os cubos de pão por 3 minutos até que a sua geometria esteja devidamente tostada pelo fogo. Retire e reserve.

3.      O Frango: Na mesma frigideira, coloque o restante do azeite e a manteiga. Deixe aquecer e grelhe os filés de frango por 3 a 4 minutos de cada lado. Retire, deixe descansar por um minuto e corte em tiras.

4.      A Montagem: Em uma saladeira, acomode as folhas de alface-romana rasgadas. Distribua as tiras de frango mornas, os croutons e o outro ovo cozido cortado em quatro. Regue generosamente com o molho e finalize a heresia galinácea com as lascas de parmesão e um toque final de pimenta moída na hora.

Imagem gerada no Gemini.