Não era
isso que eu procurava.
Estava na
Hemeroteca digital, mergulhada em outro assunto.
Queria
outra coisa. Do meu século XX, só que em suas primeiras décadas.
Varria a
página do jornal virtual, quando a notícia apareceu.
Pequena.
Uma coluna lateral, sem importância nenhuma para quem passasse os olhos por ali
rapidamente. Mas eu não passei depressa.
Detive-me.
Valise
achada
Um
policial encontrou ante-hontem, á tarde, numa barca da Cantareira, em viagem
para esta cidade, uma valise contendo várias peças de roupa branca para
senhora, 5 amuletos, 1 baralho de cartomante, 1 caderninho de notas, 1
"pince-nez" com aros de ouro, 1 grampo de tartaruga, grampos pretos,
1 escova de dentes, 1 medalha de prata, 1 atacador, 1 par de meias pretas, 1
nota de 2$000 e 1 cartão de visita pertencente a D. Maria Diniz Bezerra,
residente á rua S. José n. 169, no Fonseca. A valise ficou depositada no
gabinete do Chefe de agentes, na Policia Central, onde póde ser procurada.
Anoto a
referência: O Fluminense. Rio de Janeiro, Nyctheroy, 2 jul 1920, n. 11.356,
Anno 43. Releio a notícia. Agora devagar. Aos poucos. Um policial encontrou,
anteontem, à tarde, numa barca da Cantareira, em viagem para esta cidade, uma
valise contendo várias peças de roupa branca para senhora.
Parei
para saborear cada palavra. O policial. Figuro-me o homem surpreso com seu
achado. Depois imagino a mala sendo aberta, por certo, já no gabinete da
autoridade local.
Roupa
branca. Várias peças. E continuei lendo, porque havia mais — havia muito mais
dentro daquela pequena valise encontrada na barca que cruzou a Baía de
Guanabara em julho de 1920.
Um
tesouro. Um achado que prendeu toda minha atenção. Imaginei então 5 amuletos, 1
baralho de cartomante, 1 caderninho de notas, 1 pince-nez com aros de ouro, 1
grampo de tartaruga, grampos pretos, 1 escova de dentes, 1 medalha de prata, 1
atacador, 1 par de meias pretas, 1 nota de 2$000 e 1 cartão de visita
pertencente a D. Maria Diniz Bezerra, residente à rua S. José n. 169, no
Fonseca.
Esqueci o
que eu procurava no jornal. Afinal, encontrei uma valise. Precisava explorá-la,
como exploraria um dado da minha pesquisa.
A barca
da Cantareira fazia a travessia entre o Rio e Niterói. Em 1920 não havia ponte.
Havia a Baía, a barca e gente que ia de uma margem à outra. Havia a dona da
mala também.
Mas quem
era ela?
O cartão
de visita diz D. Maria Diniz Bezerra, Rua São José, 169, Fonseca. Fonseca onde?
Procurai e achareis. Bingo: o Fonseca é um bairro de Niterói, confirmei.
Explorei: vinte e poucos minutos a pé desde a barca.
Mas o
cartão não é necessariamente dela, a dona da valise. Um cartão guardado
dentro de uma bolsa pode ser de qualquer pessoa. Pode ser de uma cliente. Pode
ser o endereço de onde ela veio ou para onde ela ia. Pode ser nome de alguém
que deveria encontrar, ou evitar.
Enfeitiçar?
Como
saber?
Quanto
mais exploro e olho, menos sei.
Releio o
inventário.
Várias
peças de roupa branca para senhora. E escova de dentes, e grampos, e meias. Ela ia
pousar em algum lugar, ou já havia pousado. A valise estava na volta. Ela vinha
de Niterói para o Rio — ou era o contrário? O jornal diz em viagem para esta
cidade, e esta cidade que era Niterói. Então ela vinha do Rio.
Ela foi
ao Rio trabalhar? Ficou? Dormiu lá? Ou veio para dormir em Niterói, a valise
ficou na barca e ela seguiu distraída? Teria vindo a Niterói para ler a sorte
da titular do cartão?
Busco
respostas no conteúdo da valise.
Cinco
amuletos. Não um — cinco. Cada qual com sua função, imagino: proteção,
prosperidade, amor, saúde, viagem. Um arsenal. Objetos apotropaicos — linda
palavra, apotropaico, que designa objeto que afasta o mal — não afastaram o
suficiente. Deixaram-se perder. Ironia silenciosa que o jornal não percebeu. Os
cinco amuletos de proteção, esquecidos numa barca, entregues à polícia,
listados numa nota de rodapé de O Fluminense.
Ela não
parece uma amadora.
E o
baralho de cartomante? Em 1920, o Rio ― que João do Rio já havia descrito como
um “caldeirão espiritual” ― era um lugar onde o catolicismo das novenas se
misturava ao espiritismo, aos terreiros, ao ocultismo europeu que chegava de
navio. O baralho encontrado na valise bem poderia ser o de Madame Lenormand.
Talvez importado da França, com suas trinta e seis cartas já abrasileiradas
pelas mãos e gestos de quem as lia. Ou talvez fosse um daqueles baralhos
espanhóis, de naipes latinos, lido à moda popular. Penso que a dona da valise
bem poderia ser uma cartomante experiente.
O
pince-nez de ouro e o grampo de tartaruga dizem que ela não era uma cartomante
de esquina. Grampos pretos. Cabelo comprido. Gosto de imaginar que havia certo
requinte nessa mulher. Escova de dentes. Autocuidado.
Mas, e o
caderninho de notas? Aqui a curiosidade me tortura. O que havia ali? Receitas?
Simpatias? Endereços de clientes? Nomes que não deveriam estar escritos em
lugar nenhum? Os segredos de outras pessoas, guardados dentro da valise,
cruzando a Baía numa tarde de julho e depois depositados no gabinete do Chefe
de agentes, na Polícia Central, onde podiam ser procurados. Por qualquer um.
A medalha
de prata. O jornal não diz o santo. Detalhe julgado irrelevante. Nossa
Senhora? São Jorge? Algum sincretismo que o repórter de 1920 não soube nomear?
Os amuletos e a medalha coexistindo na mesma valise dizem algo sobre um Brasil
espiritual cuja fé não escolhia entre o sagrado e o profano, entre o altar e o
baralho.
O
atacador. Um. Só um cadarço, solto na valise. É o detalhe mais humano de toda a
lista. Banal.
A nota de
2$000. Dinheiro de passagem, de emergência. O troco que sobrou. Não era
pagamento — era o que restava depois de tudo.
De que
serve o amuleto que não protege a si mesmo?
Ela
esqueceu a valise.
Deve ter
sido a pressa.
Talvez
chegando ao cais.
Talvez
distraída com algum pensamento que ocupava mais espaço do que a valise.
Ela
desembarcou.
A barca
seguiu.
E depois
― quando já não havia mais como voltar ― percebeu que havia deixado tudo para
trás.
Tudo?
Bem, talvez só a roupa branca, amuletos, baralho, caderninho, pince-nez, grampo
de tartaruga, grampos e meias pretas, medalha, atacador, dois mil réis e o
cartão de D. Maria Diniz Bezerra, única revelação perdida nesse emaranhado de
suposições.
As
circunstâncias, porém, não foram inventariadas.
Elas
desapareceram.
A valise
ficou depositada no gabinete do Chefe de agentes, na Polícia Central, onde
podia ser procurada.
Ela foi
procurar?
Não sei.
O jornal não voltou ao assunto.
Se
voltou, eu não encontrei.
Salvei o
recorte que nada tinha a ver com a minha pesquisa.
Fiz um
post no blog em agosto de 2015.
Esqueci
de tudo isso até hoje. Tantos anos depois, o algoritmo do blogger me avisou de
uma visita àquela postagem.
Reli.
Como quem
encontra um bilhete perdido no fundo da memória.
O
mistério da lista continua sem resposta.
Eu
continuo curiosa.
Quisera
decifrar a lista. Desvendar todo o sucedido.
Quisera
saber por que eu não consigo deixar de me intrigar com essas banalidades.