22 de julho de 2026

Sabores da Casa

Olhei para fora rapidamente. Fui estender toalhas ao abrigo da chuva. Pensei apenas que estava sem prazos. Razoavelmente tranquila. Razoavelmente consciente. Pensei que havia o que preparar na geladeira. E que poderia cozinhar. Não. Poderia apurar sabores. Investiguei o armário pobre de panelas. A que não guarda mais pressão, mas que ainda funcionava. Primeiras ações, cortes e recortes, fogo ligado e o resultado foi aquela mistura de aromas que tomava conta da cozinha, com pretensões à sala. Eu poderia escrever um tratado sobre o perfume que se desprende do salsão. -- Logo dele, uma verdura que parece tão tosca, tão ciente do grau aumentativo que ostenta. Mas é a ele que se deve o efeito caldo, essa alquimia que transforma água em sabor: a carne da qual os ossos se desprendem, a cebola, a cenoura. Não mais que sal, duas folhas de louro, um dente de alho, o veludo de algumas folhas de sálvia que encontrei. Não mais que a complexa simplicidade que o rito exige. Sem performances. Sem espetáculo. Executado o concerto dos sons, apitos e gemidos, evacuada a pressão, destampa-se a panela e lá está a panaceia que poderá dar sabor aos mais insossos e medíocres ingredientes. Claro, os sabores e os aromas da casa. Da minha casa. Lugar onde tudo recende à gula, à comida, aos sentidos. Não faltou sequer o pãozinho, minha fórmula tão simples que hoje alterei, para acrescentar um gole de leite e uma colherada de tapioca, em final de pacote. Deu certo. O pãozinho cresceu e criou um miolo meio corado, levemente borrachudo, que lembra muito um bom pão de queijo. Ainda quente recebeu a generosa dose de manteiga, a última porção da embalagem dourada que estava enrolada num canto da geladeira. E havia o café, naturalmente.  Deliciosas rotinas que não dependem de muita coisa. Nem por isso, são coisas que se possa comprar. Porque requerem mais dos sentidos que do bolso, da percepção que da renda, da extensão do ser que do poder de ter. 

21 de julho de 2026

A VALISE

Não era isso que eu procurava.

Estava na Hemeroteca digital, mergulhada em outro assunto.

Queria outra coisa.  Do meu século XX, só que em suas primeiras décadas.

Varria a página do jornal virtual, quando a notícia apareceu.

Pequena. Uma coluna lateral, sem importância nenhuma para quem passasse os olhos por ali rapidamente. Mas eu não passei depressa.

Detive-me.

Valise achada

Um policial encontrou ante-hontem, á tarde, numa barca da Cantareira, em viagem para esta cidade, uma valise contendo várias peças de roupa branca para senhora, 5 amuletos, 1 baralho de cartomante, 1 caderninho de notas, 1 "pince-nez" com aros de ouro, 1 grampo de tartaruga, grampos pretos, 1 escova de dentes, 1 medalha de prata, 1 atacador, 1 par de meias pretas, 1 nota de 2$000 e 1 cartão de visita pertencente a D. Maria Diniz Bezerra, residente á rua S. José n. 169, no Fonseca. A valise ficou depositada no gabinete do Chefe de agentes, na Policia Central, onde póde ser procurada.


Anoto a referência: O Fluminense. Rio de Janeiro, Nyctheroy, 2 jul 1920, n. 11.356, Anno 43. Releio a notícia. Agora devagar. Aos poucos. Um policial encontrou, anteontem, à tarde, numa barca da Cantareira, em viagem para esta cidade, uma valise contendo várias peças de roupa branca para senhora.

Parei para saborear cada palavra. O policial. Figuro-me o homem surpreso com seu achado. Depois imagino a mala sendo aberta, por certo, já no gabinete da autoridade local.

Roupa branca. Várias peças. E continuei lendo, porque havia mais — havia muito mais dentro daquela pequena valise encontrada na barca que cruzou a Baía de Guanabara em julho de 1920.

Um tesouro. Um achado que prendeu toda minha atenção. Imaginei então 5 amuletos, 1 baralho de cartomante, 1 caderninho de notas, 1 pince-nez com aros de ouro, 1 grampo de tartaruga, grampos pretos, 1 escova de dentes, 1 medalha de prata, 1 atacador, 1 par de meias pretas, 1 nota de 2$000 e 1 cartão de visita pertencente a D. Maria Diniz Bezerra, residente à rua S. José n. 169, no Fonseca.

Esqueci o que eu procurava no jornal. Afinal, encontrei uma valise. Precisava explorá-la, como exploraria um dado da minha pesquisa.

A barca da Cantareira fazia a travessia entre o Rio e Niterói. Em 1920 não havia ponte. Havia a Baía, a barca e gente que ia de uma margem à outra. Havia a dona da mala também.

Mas quem era ela?

O cartão de visita diz D. Maria Diniz Bezerra, Rua São José, 169, Fonseca. Fonseca onde? Procurai e achareis. Bingo: o Fonseca é um bairro de Niterói, confirmei. Explorei: vinte e poucos minutos a pé desde a barca.

Mas o cartão não é necessariamente dela, a dona da valise. Um cartão guardado dentro de uma bolsa pode ser de qualquer pessoa. Pode ser de uma cliente. Pode ser o endereço de onde ela veio ou para onde ela ia. Pode ser nome de alguém que deveria encontrar, ou evitar.

Enfeitiçar?

Como saber?

Quanto mais exploro e olho, menos sei.

Releio o inventário.

Várias peças de roupa branca para senhora. E escova de dentes, e grampos, e meias. Ela ia pousar em algum lugar, ou já havia pousado. A valise estava na volta. Ela vinha de Niterói para o Rio — ou era o contrário? O jornal diz em viagem para esta cidade, e esta cidade que era Niterói. Então ela vinha do Rio.

Ela foi ao Rio trabalhar? Ficou? Dormiu lá? Ou veio para dormir em Niterói, a valise ficou na barca e ela seguiu distraída? Teria vindo a Niterói para ler a sorte da titular do cartão?

Busco respostas no conteúdo da valise.

Cinco amuletos. Não um — cinco. Cada qual com sua função, imagino: proteção, prosperidade, amor, saúde, viagem. Um arsenal. Objetos apotropaicos — linda palavra, apotropaico, que designa objeto que afasta o mal — não afastaram o suficiente. Deixaram-se perder. Ironia silenciosa que o jornal não percebeu. Os cinco amuletos de proteção, esquecidos numa barca, entregues à polícia, listados numa nota de rodapé de O Fluminense.

 

Ela não parece uma amadora.

E o baralho de cartomante? Em 1920, o Rio ― que João do Rio já havia descrito como um “caldeirão espiritual” ― era um lugar onde o catolicismo das novenas se misturava ao espiritismo, aos terreiros, ao ocultismo europeu que chegava de navio. O baralho encontrado na valise bem poderia ser o de Madame Lenormand. Talvez importado da França, com suas trinta e seis cartas já abrasileiradas pelas mãos e gestos de quem as lia. Ou talvez fosse um daqueles baralhos espanhóis, de naipes latinos, lido à moda popular. Penso que a dona da valise bem poderia ser uma cartomante experiente.

O pince-nez de ouro e o grampo de tartaruga dizem que ela não era uma cartomante de esquina. Grampos pretos. Cabelo comprido. Gosto de imaginar que havia certo requinte nessa mulher. Escova de dentes. Autocuidado.

Mas, e o caderninho de notas? Aqui a curiosidade me tortura. O que havia ali? Receitas? Simpatias? Endereços de clientes? Nomes que não deveriam estar escritos em lugar nenhum? Os segredos de outras pessoas, guardados dentro da valise, cruzando a Baía numa tarde de julho e depois depositados no gabinete do Chefe de agentes, na Polícia Central, onde podiam ser procurados. Por qualquer um.

A medalha de prata. O jornal não diz o santo. Detalhe julgado irrelevante. Nossa Senhora? São Jorge? Algum sincretismo que o repórter de 1920 não soube nomear? Os amuletos e a medalha coexistindo na mesma valise dizem algo sobre um Brasil espiritual cuja fé não escolhia entre o sagrado e o profano, entre o altar e o baralho.

O atacador. Um. Só um cadarço, solto na valise. É o detalhe mais humano de toda a lista. Banal.

A nota de 2$000. Dinheiro de passagem, de emergência. O troco que sobrou. Não era pagamento — era o que restava depois de tudo.

De que serve o amuleto que não protege a si mesmo?

Ela esqueceu a valise.

Deve ter sido a pressa.

Talvez chegando ao cais.

Talvez distraída com algum pensamento que ocupava mais espaço do que a valise.

Ela desembarcou.

A barca seguiu.

E depois ― quando já não havia mais como voltar ― percebeu que havia deixado tudo para trás.

Tudo? Bem, talvez só a roupa branca, amuletos, baralho, caderninho, pince-nez, grampo de tartaruga, grampos e meias pretas, medalha, atacador, dois mil réis e o cartão de D. Maria Diniz Bezerra, única revelação perdida nesse emaranhado de suposições.

As circunstâncias, porém, não foram inventariadas.

Elas desapareceram.

A valise ficou depositada no gabinete do Chefe de agentes, na Polícia Central, onde podia ser procurada.

Ela foi procurar?

Não sei. O jornal não voltou ao assunto.

Se voltou, eu não encontrei.

Salvei o recorte que nada tinha a ver com a minha pesquisa.

Fiz um post no blog em agosto de 2015.

Esqueci de tudo isso até hoje. Tantos anos depois, o algoritmo do blogger me avisou de uma visita àquela postagem.

Reli.

Como quem encontra um bilhete perdido no fundo da memória.

O mistério da lista continua sem resposta.

Eu continuo curiosa.

Quisera decifrar a lista. Desvendar todo o sucedido.

Quisera saber por que eu não consigo deixar de me intrigar com essas banalidades.

REVISTA VIDA BRASIL 

20 de julho de 2026

Depende da perspectiva

Sim, relativizar conforme a perspectiva. Uma forma de atravessar certas coisas sem se deixar capturar inteiramente por elas. Alterar o foco. Inverter a ordem. Mudar a lente. Fazer a egípcia; ou abstrair e fingir demência, como dizem. Porque a percepção pode ser fugaz como um flash.

Relativizar é um modo de lidar com aquilo que nos chega com ares de absoluto. Porque, afinal, depende. Até o absoluto? Por que não? O absoluto também bem poderia depender desta chuva de agora, deste vento que sossegou, do foco da minha lente que busca o parapeito da sacada que flutua, não obstante os alicerces, não obstante a construção.

O absoluto, por mim, pode depender da lente, do lugar e do não lugar. De estar acima ou abaixo, por cima ou por baixo. De onde se olha e de como se olha.

Talvez tudo seja relativo à perspectiva. Ou quase tudo.

Porque há algo que insiste.

Esse meu estar aí, por exemplo, faz-se tão absolutamente relativo a ponto de simular o único absoluto possível ― aquele que mora no fundo de mim mesma, onde há mistérios e banalidades.

Eu.

Pura intuição.