Visita tão inesperada quanto honrosa. Estupenda. Em meio à cidade, ao frio, ao nada de verdes ou de flores, ela veio. Subversiva presença que desafiava a lógica desta manhã fria de inverno: détournement. Com a devida vênia ao galicismo. Em que pese imprevisível, chegou mansamente, exibindo suas cores, sua delicadeza, suas tantas e nem sei quantas perfeições. Nenhum estranhamento demonstrava. Eu? Parei com tudo o que fazia, só para desfrutar do luxo daquela presença. Desconcertada e tomada de espanto, deixe-me admirá-la. Toda feita de geometria e de contrastes. O veludo negro profundo, o corte vivo em vermelho-rubi e as delicadas faixas marfim nas asas. Com pressa, corri em busca da câmara. Não fosse isso, desmentir-me-iam os incrédulos. Por que um lepidóptero de tão rara e delicada beleza teria vindo até aqui? E teria se deixado ficar por tantos minutos comigo? Mas veio. Comprovo-o. Mostro. Exibo a foto como troféu. Porque, sim. Ela veio. Ainda que eu não tenha jardins nem flores, ainda que por aqui haja só cimento, ruído e frio. Ainda que. Apesar de. Não obstante. Ela veio. Depois partiu, mas não sem deixar por aqui um tanto de magia, um tanto de imponderável.
24 de junho de 2026
23 de junho de 2026
O Homem Absurdo
Exige-se sentido, unidade, explicação. E quando o mundo não responde a tanto ― porque esta é regra ― nasce o absurdo.
Fazer da vida uma narrativa coerente é a grande fantasia que desponta, luminosa, no horizonte das redes. Nos feeds costuram-se causalidades morais onde não há senão fatos descontínuos aos quais se impõem sentidos e significados vãos.
Exigem-se explicações consoladoras de ordem religiosa, moral, psicológica. Nada, porém, é suficiente para transpor o abismo entre experiência e significado.
É preciso justificar-se. Dar à vida humana uma narrativa moralmente aceitável retrospectivamente. Mas não há narrativa capaz de organizar uma existência que é feita de fragmentos da experiência.
Jogar o jogo da produção de sentidos é obrigatório.
É preciso negar a existência do absurdo.
Ou aprender conviver com ele e viver como estrangeiro sem ceder ao conforto que nos proporcionam as mentiras consoladoras.
18 de junho de 2026
Lenda Urbana
Se você é de Porto Alegre, conhece esse lugar tão exótico quanto misterioso, que fica Centro Histórico, bem onde a Fernando Machado encontra a Vasco Alves. Foi construído em 1948, por um político que, apaixonado por uma moça de 22 anos mais jovem, viveu ali uma estranha e escandalosa história de amor. Carlos Eurico Gomes, o político, e Nilza Linck, uma jovem então com 18 anos, foram os protagonistas assim dessa lenda urbana que ainda mexe com a imaginação de quem mora na capital gaúcha. A união durou quatro anos. Nilza fugiu, assustada com o ciúme e as ameaças de morte do parceiro. A casa ainda existe, contudo, dando lugar a atividades culturais e saraus literários. Coisas bem menos dramáticas, é verdade.
10 de junho de 2026
A Praia do Pássaros
Dos pássaros. Poderia ser dos barcos. Dos pescadores. Na pressa, escrevi que era a praia dos pássaros, feitos de riscos, tipo bumerangues que cruzam o fundo azul que faz as vezes de céu. É tudo muito incerto no pequeno caderno montado às pressas. Mas nele cabe toda a exiguidade do tempo que não tenho e da paciência que me falta,.





