24 de junho de 2026

A Visita


Visita tão inesperada quanto honrosa. Estupenda. Em meio à cidade, ao frio, ao nada de verdes ou de flores, ela veio. Subversiva presença que desafiava a lógica desta manhã fria de inverno: détournement. Com a devida vênia ao galicismo. Em que pese imprevisível, chegou mansamente, exibindo suas cores, sua delicadeza, suas tantas e nem sei quantas perfeições. Nenhum estranhamento demonstrava. Eu? Parei com tudo o que fazia, só para desfrutar do luxo daquela presença. Desconcertada e tomada de espanto, deixe-me admirá-la. Toda feita de geometria e de contrastes. O veludo negro profundo, o corte vivo em vermelho-rubi e as delicadas faixas marfim nas asas. Com pressa, corri em busca da câmara. Não fosse isso, desmentir-me-iam os incrédulos. Por que um lepidóptero de tão rara e delicada beleza teria vindo até aqui? E teria se deixado ficar por tantos minutos comigo? Mas veio. Comprovo-o. Mostro. Exibo a foto como troféu. Porque, sim. Ela veio. Ainda que eu não tenha jardins nem flores, ainda que por aqui haja só cimento, ruído e frio. Ainda que. Apesar de. Não obstante. Ela veio. Depois partiu, mas não sem deixar por aqui um tanto de magia, um tanto de imponderável.