28 de maio de 2025

PARADOXOS

Ela fala, eu escuto. Não por algum impulso de empatia forçada, mas porque estou ali, à mesa de um café qualquer, com a xícara esfriando e o vapor subindo como um detalhe irrelevante. É sobre um homem. Sobre ele: essa categoria que só as mulheres conhecem. Ele pode ser um projeto de futuro. Ele representa o amor, mas na verdade ele não passa de uma equação mal resolvida. Ouço a história repleta de indiferenças. Para cada falha dele, ela cria uma justificativa. Em último caso, a culpa recai sobre uma suposta outra, que sequer existe, mas que deve existir, com certeza, para o fechamento da equação, para o equilíbrio das coisas, para que o déficit não consuma, de uma só vez, todo estoque de esperança.

Penso em Eugénie Grandet, que gastava seus dias esperando ser vista por ele. Não há poesia nisso, só um padrão repetitivo: a espera como armadilha. Minha amiga não vive no século XIX, mas poderia. Ela constrói castelos que desmoronariam sob o peso da lógica. "Ele vai mudar", diz, como se o futuro dependesse do cumprimento de certas cláusulas de contrato que visam garantir sua felicidade. Eu não digo nada. Em vez disso, aponto o óbvio com um comentário cortante: "Esse cara? Ele acha que o mundo é um espelho dele mesmo." Ela ri, um riso breve, que não disfarça o vazio nos olhos dela. Não é um vazio metafórico, é concreto: a ausência de algo que preencha o tempo vivido além da espera.

Olho para mim e penso no empenho que faço em não depender dessa tal esperança. Talvez porque pense e calcule. Talvez porque tenha medo de parecer patética. Vejo o óbvio, mas posso fingir que ele não existe, porque sei como conferir uma nova versão às coisas, ao mundo, à vida. Faço isso quando misturo farinha, açúcar e suco de laranja numa tigela. Ralo gengibre, misturo canela e o calor do forno perfuma a casa com um cheiro que não explica nada, mas que ocupa todos os espaços. E quando não há farinha, eu escrevo, em cadernos que ninguém lê, frases e histórias que nem sempre publico. Houve um tempo em que plantava sementes em vasos e os colocava na janela, para observar as folhas que cresciam sem alarde. Depois desisti, pois o vento espalhava a terra e as pobres plantas insistiam em morrer, quando eu me esquecia de regá-las. Ou quando eu não fazia nem isso por elas, e as via definhar, pensando que a vida também não acontece por si, a não ser até certo ponto. Tudo porque a morte está sempre presente, à espreita. Mas minha amiga não sabe nada disso. Nem quer saber. Refém do sonho, não cozinha, não escreve, não planta e apenas ele germina em sua vida.

Tento explicar. Penso nos scripts culturais que moldam o que ela reconhece como amor. Regras antigas, papéis de gênero que a Modernidade ainda não apagou, mas que fatalmente apagará, quando daqui partir o último boomer. Mulheres devem ser estratégicas, dizem os ecos de romances baratos e até novelas clássicas. Devem calcular, seduzir, nunca se expor. A sinceridade, nesses scripts, é um erro de amador. Ela parece acreditar nisso, mesmo sem dizer. Ama em segredo, como se admitir o sentimento fosse uma confissão de derrota. Eu não comento. Não porque não me importe, mas porque não sei o que dizer. Desiludi-la seria apontar o óbvio: o amado é uma miragem.

Mas por que eu apagaria a miragem do deserto dela? Para que ela acolhesse e assumisse a rejeição? Rejeição não é mera abstração. É conta que não fecha porque depende do amanhã. Contingente e imponderável, o amanhã não pertence nem a ela, nem a ele, nem a mim. E, além disso, o amanhã dos esperançosos não chega nunca, porque pode ser adiado indefinidamente. E ela “sabe” que só será amanhã quando ele chegar. Penso nas pílulas que prometem felicidade, nos filtros que escondem rugas e verdades. Ela não usa nada disso. Não foge do luto nem da renúncia. Não tem um rosto voltado para o mundo. Ela apenas espera.

O que faço? Escuto, porque é o que posso fazer. Zombo do amado, porque é fácil e porque ela ri. Não digo que a espera é uma escolha nem que escolhas podem ser mudadas. Não porque acredite em grandes viradas, mas porque sei criar futuros. E faço isso quando coloco um novo bolo no forno, quando vejo a tinta desenhar palavras nos meus cadernos. Terra no vaso é promessa cumprida à semente. E depois, histórias bem contadas desafiam o tempo, o destino e a morte.

Hoje ela vai esperar por ele mais uma vez, trocando a vida pelo sonho. E eu, contando essa história, só penso em você que, lendo isso, pensará que não faz sentido. Não importa. Eu só queria mesmo era lembrar você do sabor daquele bolo de laranja. Só não se esqueça do gengibre. Nem da canela. E coma depressa, enquanto seu café não esfria.

REVISTA VIDA BRASIL 

23 de maio de 2025

Sermão da Primeira Sexta-feira da Quaresma

“Um amor naturalmente chama por outro. E não há coração nem tão surdo, que se é chamado não ouça, nem tão mudo, que se ouviu não responda. Até as penhas dos desertos respondem às vozes, e o mesmo eco, que parece que é repulsa, é correspondência. A correspondência não é outra coisa que a reflexão do mesmo amor, que torna dobrado para donde veio. E assim como não há mármore nem bronze tão duro que, ferido do raio do sol, não responda ao mesmo sol com a reflexão do seu raio, assim não há coração tão de mármore na dureza, e tão de bronze na resistência, que, prevenido no amor, o não redobre e corresponda com outro.”

VIEIRA, Antônio. Textos literários em meio eletrônico Sermão da Primeira Sexta-Feira da Quaresma (1644). Texto Fonte: Editoração eletrônica: Verônica Ribas Cúrcio. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16392

O Sermão da Primeira Sexta-Feira da Quaresma, pregado por Padre Antônio Vieira em 1644 na Capela Real de Lisboa, é uma das suas obras mais emblemáticas. Proferido durante a Quaresma, período de penitência e reflexão cristã, o sermão tem como objetivo despertar a consciência para a fé, o arrependimento e a preparação espiritual para a Páscoa. Com uma estrutura densa e estilo marcante, Vieira entrelaça teologia, retórica e exemplos vívidos para abordar temas como pecado, morte, fé e salvação. A obra é um marco da oratória sacra e da literatura portuguesa, com uma mensagem atemporal que continua a inspirar espiritualidade e introspecção.

17 de maio de 2025

Ractio et Auctoritas

Ratio et Auctoritas é meu novo blog. Demorou, mas finalmente resolvi criar um espaço dedicado à reflexão sobre temas ligados ao Direito. O nome expressa a relação entre a razão — entendida como reflexão crítica — e a autoridade, como força normativa que estrutura o ordenamento jurídico. O objetivo do blog é apresentar matérias sobre diversas áreas jurídicas, promovendo a reflexão sobre questões que nos tocam de forma direta e cotidiana. Ratio et Auctoritas: Suum cuique tribuere et blogare cum claritas.





24 de abril de 2025

ESPLENDORES E MISÉRIAS DO AMOR OCIDENTAL: Entre a Ordem, o Caos, Cartas de Amor e Literatura

Este livro nasce de uma antiga inquietação acerca da natureza do amor, e propõe uma reflexão que atravessa tempos, culturas e gêneros literários, para revelar as contradições e complexidades desse sentimento tão universal quanto singular.
O primeiro capítulo, "Uma Questão de Estilo", parte da tipologia dos estilos amorosos de John Alan Lee, revisitada por Alain de Benoist, para explorar seis formas distintas de amar — Eros, Ludus, Storge, Mania, Pragma e Ágape —, relacionando-as a traços psicológicos e estruturas culturais. O texto amplia a discussão sobre gênero e propõe o amor como uma linguagem viva e fluida, que escapa a definições fixas, comparando-o a um jazz ou a zonas autônomas de afeto.
Em "
O Amor na Era de Anteros", o livro mergulha na análise do amor obsessivo, inspirado na mitologia grega e nas reflexões de Hakim Bey. O amor romanesco, nascido da tensão entre desejo e castidade, é problematizado em sua transformação moderna, marcada pela repressão, consumo e idealizações superficiais. O autor propõe uma visão libertadora, onde o amor é uma experiência radical, livre de moralismos e sistemas de controle.
"
O Amor Está Morto?" traz uma perspectiva trágica, inspirada em Aleksandr Dugin e Denis de Rougemont, que anunciam o fim do amor ocidental tradicional. O capítulo desafia essa visão apocalíptica, destacando formas alternativas como o amor igualitário e o poliamor, e refletindo sobre a pluralidade e resistência do amor diante das mudanças culturais.
No ensaio "
As Adúlteras: Desejo e Traição na Literatura do Século XIX", a obra analisa o adultério feminino em romances realistas e naturalistas, revelando como heroínas como Emma Bovary e Capitu desafiam a moral burguesa e expõem tensões entre indivíduo e sociedade. O texto evidencia o desejo como forma de resistência e a hipocrisia das construções sociais sobre o amor.
A partir daí, o livro adota um tom mais íntimo e experimental. "
O Que É Uma Carta de Amor?" celebra a carta como matriz do discurso amoroso, um relicário afetivo que resiste ao tempo, enquanto "Que Cartas São Essas?" revisita correspondências históricas, revelando paixões proibidas e o poder do íntimo epistolar.
O conto "
O Diário de Francisco" entrelaça registros líricos de um diário dos anos 1920 com as reflexões de uma narradora contemporânea, expondo sentimentos em tempos diversos e celebrando a multifacetada natureza do amor.
Por fim, a crônica "
Amor à Primeira Vista" narra um caso real de um romance secreto e duradouro, desafiando visões idealizadas e mostrando que o amor pode surgir em lugares inesperados, longe dos padrões convencionais.
Este livro não oferece respostas definitivas, mas convida o leitor a dialogar e refletir sobre as múltiplas faces do amor, suas misérias e esplendores, e a possibilidade de reinventá-lo sempre que necessário.
Disponível na Amazon

14 de abril de 2025

Da Vulgaridade

“A vulgaridade nunca decai, porquanto jamais se eleva.”
— Barão de Alhures, em Fragmentos de uma Elegância Perdida.

10 de abril de 2025

Figuras figurativas figurações


 Que seria feito das palavras se a pontuação fosse abolida por uma revolução provavelmente a mesma coisa que sucederia às coisas na abolição da gravidade pois a pontuação é a gravidade das palavras mas não custa nada deixar que elas flutuem nesses espaços mas prometo que só será desta vez

1 de abril de 2025

Isaac Asimov: Eu, Robô

 Leis da Robótica — Primeira Lei: "Um robô não pode ferir um humano ou permitir que um humano sofra algum mal";  Segunda Lei: "Os robôs devem obedecer às ordens dos humanos, exceto quando conflitarem com a Primeira Lei"; Terceira Lei: "Um robô deve proteger sua própria existência, desde que não entre em conflito com as anteriores"

Essas Leis ― no contexto de Eu, Robô, de Isaac Asimov, 1950 ― são realmente um marco. Elas tentam criar um equilíbrio entre tecnologia e humanidade. Asimov foi genial ao explorar como algo tão "simples" podia gerar situações tão complexas. Susan Calvin? Ela é mesmo fascinante! Uma mulher que, num mundo dominado por humanos querendo explorar os robôs, escolhe entendê-los, quase como se fosse uma ponte entre duas espécies. Ela não só aceita a inteligência positrônica como também mergulha na mente deles. E o mais louco do livro é que os robôs acabam sendo mais éticos que os humanos em muitos momentos, justamente por seguirem essas leis à risca — ou, às vezes, interpretando-as de formas que os humanos nem imaginavam.

Eu era apaixonada por Isaac Asimov. E não apenas por Eu, Robô. Como cientista, suas especulações literárias eram baseadas em suposições concretas. Além disso, seus livros, além de muito interessantes, eram sempre uma aula de ciência. Veja só! Um cientista que transformava especulações em histórias tão sólidas que pareciam aulas disfarçadas de ficção. Essa mistura de ciência e narrativa é o que faz os livros dele tão especiais. Outro personagem curioso era um velhinho fóbico e genial: Wendell Urth, um extraterrologista excêntrico que aparece em alguns contos, como os da coletânea Asimov's Mysteries. Ele era um gênio sedentário que desvendava mistérios interplanetários só com a cabeça — tipo provar que alguém esteve na Lua porque o cara não se ajustava mais à gravidade terrestre. Um detalhe sutil, mas brilhante, que só um cientista como Asimov pensaria! Algo da física cotidiana é transformado em prova irrefutável, solução de caso policial. Mas, voltando a Eu, Robô, segue o spoiler: as máquinas assumem o comando do planeta, porque acham que é o melhor para a humanidade. Bem, à época, era para ser um final assustador. E agora?