1 de maio de 2009

AS CARTAS XX

Documento.
De Francisco para Maria, em 9 de novembro de 1923.

Diagnóstico Preciso

AS CARTAS XIX


Carta de Francisco para Maria de 9 de outubro de 1924.
Maria,
Hoje direi de um pequeno desgosto que eu guardo. Não sei se tenho razão. Entanto, dir-te-ei, de primeiro, que tu sabes amar bem à moderna, que tu me amas com sabedoria e com elegância bem feminina.
Não sei se no que digo vai um excesso de engano. Assim acontecesse! Para meu sossego e felicidade. Talvez seja uma simples impressão sem correspondência de verdade no fundo. Talvez seja uma ilusória sensação, aliás não boa, que minta pela sua força de realidade, na aparência. Bem pode ser. Tenho esta esperança, que me dá conforto.
Porque, no fim de duas de tuas cartas, “forget me not”, “Mon plus grand doux suvenir”? Na frieza dessas expressões estrangeiras não sinto o reflexo da tua alma. Bem vês que na petulância (perdoa-me o dito um pouco literária desses termos não pode caber a sinceridade de um coração que ama cegamente. E o amor, quando não é cego, não é verdadeiro. Nele entra o cálculo, o equilíbrio das conveniências.
Como antes disse, eu quero crer: eu não tenho razão. E é justamente por isso que eu te perdôo. Eu te se inocente desse pequeno “crime” que me magoou. Desse pequenino crime que me fez tão infeliz, uns dias, que foi a tortura sentimental do teu
Francisco.
9-X-MCMXXIV

30 de abril de 2009

Da Náusea

Para que o acontecimento mais banal se torne uma aventura, é preciso e é suficiente que alguém se ponha a contá-lo.

A aventura: um acontecimento que sai do ordinário, sem ser necessariamente extraordinário.

Não é preciso que eu pense que não quero pensar, porque é ainda um pensamento.

Tudo que existe nasce sem razão, dura por fraqueza e morre por acaso.

É admirável como se pode mentir colocando a razão do nosso lado.

Existir é estar aí simplesmente.... Tudo é gratuito, esse jardim, esta cidade e eu mesmo.


Sartre, extraído de A Náusea.

23 de abril de 2009

Cecílias, etc.

Tão lindos, amontoados ali no canto, na salinha da frente. Empoeirados também e roídos, pelo menos alguns. Caem a toda hora, disputando espaço. Cecília anda por essa estante, e despencou hoje para protestar. A 407 cheira a mofo e a papel velho. Inconfundível. Às vezes, também cheira a café recém passado, como hoje, feito na cafeteira nova, preta, bonita, moderna, adaptando-se ao convívio com os meus ácaros.

Cecília Meireles (1901 - 1964)

Cecília me emociona profundamente. Ela costumava dizer que, em toda a sua vida, nunca se esforçou por ganhar coisa alguma nem se espantou por perder. Ela conhecia o sentido profundo, doloroso às vezes, da transitoriedade. Hoje alguns de seus livros despencaram de uma estante, por isso essa postagem.

Despedida

Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranqüilo:
quero solidão.
Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? - me perguntarão.
- Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.
Que procuras? Tudo. Que desejas? - Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.
A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?
Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra...)
Quero solidão.

21 de abril de 2009

O Prazer em Perspectiva. A Esperança

A esperança é filha do desejo, mas não é o desejo. Ela constitui uma aptidão mental que nos faz acreditar na realização de um desejo. Pode-se desejar uma coisa sem esperá-la. Todo mundo deseja a fortuna, poucos a esperam. Os sábios desejam descobrir a causa primeira dos fenômenos, mas eles não têm nenhuma esperança de chegar a tanto.
O desejo aproxima-se às vezes da esperança a ponto de confundir-se com ela. Na roleta, desejo e espero ganhar.
A esperança é uma forma de prazer em expectativa que, em sua fase atual de espera, se constitui em uma satisfação frequentemente maior que aquela produzida pela realização.
A razão disso é evidente. O prazer realizado é limitado em quantidade e em duração, enquanto nada limita a grandeza do sonho criado pela esperança. O poder e o encanto da esperança é conter todas as possibilidades de prazer.
Ela se constitui em uma espécie de varinha mágica que transforma todas as coisas. Os reformadores não fazem outra coisa que não seja substituir uma esperança por outra.

LE BON, Gustave. Les Opinions et les Croyances, Flammarion, Paris, 1911, p. 23.

Razões psicológicas da formação das crenças ocultistas

Viu-se o papel da sugestão e do contágio mental nos fenômenos maravilhosos relacionados à magia e sua influência sobre os espíritos mais eminentes.
Mas esta interpretação não saberia ser suficiente. Para compreender a gênese das práticas que persistem entre tantos povos através dos tempos, e subsistem ainda, é preciso elevar-se a uma concepção mais geral, e não tentar explicar com a razão o que em nada depende dela.
A magia, sob todas as suas formas, deve ser considerada como uma manifestação desse espírito místico inseparável de nossa natureza e do qual mostramos a força.
Fundadores de religiões, feiticeiros, magos, adivinhos, propagadores de tantas ilusões que encantaram ou aterrorizaram nossos pais e que reaparecem sempre, são os sacerdotes de uma poderosa deusa dominando todas as outras e cujo culto parece eterno.
Consideremos por pensamento, através do tempo e espaço, os milhares de edifícios sagrados construídos desde há 8.000 anos acima das grandes cidades e tratemos de discernir quais forças misteriosas levaram a edificar sem trégua esses templos, esses pagodes, essas mesquitas, essas catedrais, onde as maravilhas da arte foram acumuladas.
Descobre-se procurando aí aquilo que pediam os homens aos deuses, de aspectos tão variáveis, que eles invocavam. Um sentimento idêntico os anima hoje visivelmente. Os povos de todas as raças adoram, sob nomes diversos, uma única divindade: a Esperança. Todos os seus Deuses não são senão que um único Deus.

LE BON, Gustave. Les Opinions et les Croyances, Flammarion, Paris, 1911, p. 291.

Em Casa

Em primeiro plano, dois Le Bon. O maior, presente do Rogério, encontrado num sebo paulista, O Homem e as sociedades, edição francesa de 1881. O menor, encontrado por mim aqui em Porto Alegre, ed. de 1911 das Opiniões e das crenças.