25 de fevereiro de 2026

Uma Pomba no Telhado

Assim, por nada, o olhar bate no telhado. A chaminé de sempre. As telhas como sempre. E a pomba. Fiquei imóvel. Ela se ajeitava, talvez porque chovesse. Uma chuva fina, discreta, cinzenta. Chuva de verão. E a pomba continuava ali. Eu também. Com receio de arredar-me. Teria de sair dali, achar o celular, bater a foto. Mas talvez perdesse o instante. Que instante? Aquele. A chaminé de sempre. O telhado de sempre. Mas com cores novas, um cinzento quente, o brilho da chuva passando verniz nas velhas telhas. E a pomba, prestes a partir. Será que ela me espera? Esperou. Aquietou-se para o foco impreciso das minhas mãos trêmulas. Desde quando estão assim, tão trêmulas? Não sei. Tentei três vezes. Pacientemente, a pomba aguardou. A foto não traiu as cores. E as formas permaneceram alinhadas. Depois o instante desapareceu, absorvido no ontem para ressurgir agora como isso. Apenas isso. Uma pomba no telhado. Ontem.