13 de julho de 2026

A VALISE


Não era isso que eu procurava.

Estava na Hemeroteca digital, mergulhada em outro assunto.

Queria outra coisa.  Do meu século XX, só que em suas primeiras décadas.

Varria a página do jornal virtual, quando a notícia apareceu.

Pequena. Uma coluna lateral, sem importância nenhuma para quem passasse os olhos por ali rapidamente. Mas eu não passei depressa.

Detive-me.

Valise achada

Um policial encontrou ante-hontem, á tarde, numa barca da Cantareira, em viagem para esta cidade, uma valise contendo várias peças de roupa branca para senhora, 5 amuletos, 1 baralho de cartomante, 1 caderninho de notas, 1 "pince-nez" com aros de ouro, 1 grampo de tartaruga, grampos pretos, 1 escova de dentes, 1 medalha de prata, 1 atacador, 1 par de meias pretas, 1 nota de 2$000 e 1 cartão de visita pertencente a D. Maria Diniz Bezerra, residente á rua S. José n. 169, no Fonseca. A valise ficou depositada no gabinete do Chefe de agentes, na Policia Central, onde póde ser procurada.

Anoto a referência: O Fluminense. Rio de Janeiro, Nyctheroy, 2 jul 1920, n. 11.356, Anno 43. Releio a notícia. Agora devagar. Aos poucos. Um policial encontrou, anteontem, à tarde, numa barca da Cantareira, em viagem para esta cidade, uma valise contendo várias peças de roupa branca para senhora.

Parei para saborear cada palavra. O policial. Figuro-me o homem surpreso com seu achado. Depois imagino a mala sendo aberta, por certo, já no gabinete da autoridade local.

Roupa branca. Várias peças. E continuei lendo, porque havia mais — havia muito mais dentro daquela pequena valise encontrada na barca que cruzou a Baía de Guanabara em julho de 1920.

Um tesouro. Um achado que prendeu toda minha atenção. Imaginei então 5 amuletos, 1 baralho de cartomante, 1 caderninho de notas, 1 pince-nez com aros de ouro, 1 grampo de tartaruga, grampos pretos, 1 escova de dentes, 1 medalha de prata, 1 atacador, 1 par de meias pretas, 1 nota de 2$000 e 1 cartão de visita pertencente a D. Maria Diniz Bezerra, residente à rua S. José n. 169, no Fonseca.

Esqueci o que eu procurava no jornal. Afinal, encontrei uma valise. Precisava explorá-la, como exploraria um dado da minha pesquisa.

A barca da Cantareira fazia a travessia entre o Rio e Niterói. Em 1920 não havia ponte. Havia a Baía, a barca e gente que ia de uma margem à outra. Havia a dona da mala também.

Mas quem era ela?

O cartão de visita diz D. Maria Diniz Bezerra, Rua São José, 169, Fonseca. Fonseca onde? Procurai e achareis. Bingo: o Fonseca é um bairro de Niterói, confirmei. Explorei: vinte e poucos minutos a pé desde a barca.

Mas o cartão não é necessariamente dela, a dona da valise. Um cartão guardado dentro de uma bolsa pode ser de qualquer pessoa. Pode ser de uma cliente. Pode ser o endereço de onde ela veio ou para onde ela ia. Pode ser nome de alguém que deveria encontrar, ou evitar.

Enfeitiçar?

Como saber?

Quanto mais exploro e olho, menos sei.

Releio o inventário.

Várias peças de roupa branca para senhora. E escova de dentes, e grampos, e meias. Ela ia pousar em algum lugar, ou já havia pousado. A valise estava na volta. Ela vinha de Niterói para o Rio — ou era o contrário? O jornal diz em viagem para esta cidade, e esta cidade que era Niterói. Então ela vinha do Rio.

Ela foi ao Rio trabalhar? Ficou? Dormiu lá? Ou veio para dormir em Niterói, a valise ficou na barca e ela seguiu distraída? Teria vindo a Niterói para ler a sorte da titular do cartão?

Busco respostas no conteúdo da valise.

Cinco amuletos. Não um — cinco. Cada qual com sua função, imagino: proteção, prosperidade, amor, saúde, viagem. Um arsenal. Objetos apotropaicos — linda palavra, apotropaico, que designa objeto que afasta o mal — não afastaram o suficiente. Deixaram-se perder. Ironia silenciosa que o jornal não percebeu. Os cinco amuletos de proteção, esquecidos numa barca, entregues à polícia, listados numa nota de rodapé de O Fluminense.

 

Ela não parece uma amadora.

E o baralho de cartomante? Em 1920, o Rio ― que João do Rio já havia descrito como um “caldeirão espiritual” ― era um lugar onde o catolicismo das novenas se misturava ao espiritismo, aos terreiros, ao ocultismo europeu que chegava de navio. O baralho encontrado na valise bem poderia ser o de Madame Lenormand. Talvez importado da França, com suas trinta e seis cartas já abrasileiradas pelas mãos e gestos de quem as lia. Ou talvez fosse um daqueles baralhos espanhóis, de naipes latinos, lido à moda popular. Penso que a dona da valise bem poderia ser uma cartomante experiente.

O pince-nez de ouro e o grampo de tartaruga dizem que ela não era uma cartomante de esquina. Grampos pretos. Cabelo comprido. Gosto de imaginar que havia certo requinte nessa mulher. Escova de dentes. Autocuidado.

Mas, e o caderninho de notas? Aqui a curiosidade me tortura. O que havia ali? Receitas? Simpatias? Endereços de clientes? Nomes que não deveriam estar escritos em lugar nenhum? Os segredos de outras pessoas, guardados dentro da valise, cruzando a Baía numa tarde de julho e depois depositados no gabinete do Chefe de agentes, na Polícia Central, onde podiam ser procurados. Por qualquer um.

A medalha de prata. O jornal não diz o santo. Detalhe julgado irrelevante. Nossa Senhora? São Jorge? Algum sincretismo que o repórter de 1920 não soube nomear? Os amuletos e a medalha coexistindo na mesma valise dizem algo sobre um Brasil espiritual cuja fé não escolhia entre o sagrado e o profano, entre o altar e o baralho.

O atacador. Um. Só um cadarço, solto na valise. É o detalhe mais humano de toda a lista. Banal.

A nota de 2$000. Dinheiro de passagem, de emergência. O troco que sobrou. Não era pagamento — era o que restava depois de tudo.

De que serve o amuleto que não protege a si mesmo?

Ela esqueceu a valise.

Deve ter sido a pressa.

Talvez chegando ao cais.

Talvez distraída com algum pensamento que ocupava mais espaço do que a valise.

Ela desembarcou.

A barca seguiu.

E depois ― quando já não havia mais como voltar ― percebeu que havia deixado tudo para trás.

Tudo? Bem, talvez só a roupa branca, amuletos, baralho, caderninho, pince-nez, grampo de tartaruga, grampos e meias pretas, medalha, atacador, dois mil réis e o cartão de D. Maria Diniz Bezerra, única revelação perdida nesse emaranhado de suposições.

As circunstâncias, porém, não foram inventariadas.

Elas desapareceram.

A valise ficou depositada no gabinete do Chefe de agentes, na Polícia Central, onde podia ser procurada.

Ela foi procurar?

Não sei. O jornal não voltou ao assunto.

Se voltou, eu não encontrei.

Salvei o recorte que nada tinha a ver com a minha pesquisa.

Fiz um post no blog em agosto de 2015.

Esqueci de tudo isso até hoje. Tantos anos depois, o algoritmo do blogger me avisou de uma visita àquela postagem.

Reli.

Como quem encontra um bilhete perdido no fundo da memória.

O mistério da lista continua sem resposta.

Eu continuo curiosa.

Quisera decifrar a lista. Desvendar todo o sucedido.

Quisera saber por que eu não consigo deixar de me intrigar com essas banalidades.