Quem anda por
aqui já se encontrou com Hakin Bey, citado há algum tempo neste texto:
L’émergence
du capitalisme produit un étrange effet sur l’amour romanesque. Je ne puis
mieux l’exprimer qu’avec une image absurde: c’est comme si l’Etre Aimé était
devenu le produit parfait, toujours désiré, toujours payé mais jamais vraiment
consommé. L’auto-négation de l’amour romanesque s’harmonise parfaitement avec
l’auto-négation du capitalisme. Loin de se contenter de moralité ou de
chasteté, le capital exige la pénurie, pénurie de la production et du plaisir
érotique. La religion, en interdisant la sexualité, a conféré une aura de
prestige à l’abstinence. Le capitalisme occulte la sexualité et l’infuse de
désespoir. L' Amour-obsession . Hakim Bey
Particularmente,
achei muito provocante falar do amor nesse contexto. Numa tradução livre, ele nos
diz que a emergência do capitalismo produz um estranho efeito sobre o amor
romanesco. Só posso me exprimir, diz ele, com uma imagem absurda: como se o Ser
Amado houvesse se tornado um produto perfeito, sempre desejado, sempre pago,
mas jamais verdadeiramente consumido. A autonegação do amor romanesco se harmoniza
perfeitamente bem com a autonegação do capitalismo. Longe de se contentar com a
moralidade ou com a castidade, o capital exige a penúria, penúria da produção e
do prazer erótico. A religião, proibindo a sexualidade, confere uma aura de
prestigio à abstinência. O capitalismo oculta a sexualidade e a impregna de
desespero. Então, não parece que precisamos mesmo repensar a maneira como
entendemos o amor, buscando formas alternativas de expressão emocional que
resistam às pressões da sociedade? De notar que ele fala em amor romanesco: expressão que tem pejorativo
em relação ao amor romântico. Na primeira
forma, corrompida, terminaria na autonegação implicada na busca do que é
inatingível e idealizado. O amor romântico, por sua vez, permitiria a
intimidade emocional, igualdade e liberdade entre os parceiros.
Mas de
quem estamos falando mesmo? De Hakim Bey, pseudônimo de Peter Lamborn Wilson,
um escritor, ensaísta e poeta americano que nasceu em 1945. Os temas de que se
ocupa: anarquismo, teoria política e cultura marginal. Em 1990, destacou-se com
o livro "Taz: Zona Autônoma Temporária", obra muito conhecida, que
propõe a criação de espaços temporários de liberdade e autonomia fora do controle
do Estado e do capitalismo. Vamos experimentar:
Of course, the Temporary Autonomous Zone appears not just as an
historical moment, but also a psychospiritual state or even existential
condition. Humans seem to need the "peak experience" of autonomy shared
by cohesive groups - "free freedom" as Rimbaud says - not only in
imagination, but in real space I time, in order to give value and meaning to
the social. Now that we live in a world where (in the words of Lady Margaret
Baroness Thatcher) "There is no such thing as 'society'," the TAZ
seems more relevant than ever. Things may look different in other faraway lands,
but from the point of view of the Beast's Belly it sometimes appears that the
TAZ is the last and only means of creating an Outside or true space of
resistance to the totality. BEY, Hakin. T. A. Z. The Temporary Autonomous Zone, Ontological Anarchy, Poetic
Terrorism. New York: Automedia, 2003, p. X.
Em
tradução livre, ele diz que é claro que a Zona Autónoma Temporária aparece não apenas
como um momento histórico, mas também um estado psico espiritual ou mesmo como condição existencial. Os seres humanos parecem
precisar de uma experiência de pico em termos de autonomia compartilhada por
grupos coesos - "livre liberdade" como diz Rimbaud — não apenas na imaginação,
mas no espaço real do eu no tempo, para conferir valor e significado ao social.
Agora que vivemos em um mundo onde (nas palavras de Lady Margaret Baroness
Thatcher) "Não existe essa coisa de 'sociedade',
o TAZ parece mais relevante do que nunca. As coisas podem parecer diferente em terras
distantes, mas, do ponto de vista da barriga da Besta, às vezes parece que a
TAZ é o última e único meio de criar um outside,
um espaço exterior, ou verdadeiro espaço
de resistência à totalidade.
Bey
também é conhecido por cunhar o termo "ontologia do caos", que se
refere à filosofia de que a realidade é sempre fluida e em constante mudança. Bey
também é um defensor da teoria da "pirataria", que envolve a
subversão da propriedade intelectual e da cultura mainstream, pregando o livre compartilhamento de informações e a criação
de obras artísticas que desafiam as normas culturais dominantes. É também poeta
e defensor das tradições espirituais do Oriente, principalmente o sufismo.
Enfim,
me agrada a ideia de uma Zona Autônoma ainda que Temporária, com liberdade
total para amar e para pensar, verbos nem sempre fáceis de conjugar, ao menos
na prática.