Então, eu até cantaria wake me up when september ends, mas com insônia, não vai ter jeito.
A expressão é esta: a mudinha "pegou". A gente diz bem assim, quando traz para casa uma planta qualquer que se quer por perto. Pois esta aí não apenas "pegou" como ainda floresceu. Uma semana ontem que aqui chegaram junto com as outras todas lá de Maristela. As amarelinhas foram arrancadas de um cômoro de areia, junto com uma "corda" de onze-horas extraídas com raiz e tudo, violentamente, obra de ogro que, vez por outra, resolve casos assim de foma definitiva. Primeira parada do bate-volta à praia, porque precisava ver o mar, apanhar pedras e olhar se havia flores. Havia, sim, onze horas rosadas e, mais adiante, perto de um banco feito de madeira e pedra, uma amarelinha toda colorida. Veio florida e murchou ao longo da semana, enquanto preparava o botão que abriu assim: completo, sorridente, absoluto.
A saber se os galhos de alecrim e mais a muda de hortelã vão se adaptar à mudança que, de um jardim, os relocou ao parapeito da pequena janela da salinha da TV, perto da cozinha: improvisos metropolitanos. Alecrim para dar sabor ao arroz; hortelã para fazer tabule qualquer hora. Todos em harmonia, ao lado do manjericão (sem ele não há molho vermelho que preste) e do tomilho (aquele gostinho de o que foi, mesmo?).
E assim o jardim vai ganhando novidades. Eu que me estranho, pois nunca fui muito de cuidar de plantas e, agora, me pego assim, observando essas criaturas. Ando até germinando sementes, tipo as macieiras que estão brotando lá na janela. Talvez eu tenha "pegado" o jeito. É um exercício de paciência observar mudanças tão sutis, silenciosas, que tornam essas formas de vida companhias discretíssimas. Plantas são sutis, mas sabem reagir na hora certa. Mostram sua satisfação ao gostarem de algo, e sabem como reclamar.Há tristezas também. Receio que meu bouganville não voltará nesta primavera. Secou e não vejo nenhum sinal verde em seus galhos secos e quebradiços. Meus gerânios encruaram. O rosa, que floresceu, acabei quebrando. Imperdoável gesto de apressada estupidez. O vermelho não dá sinais de floração. Quanto aos feijões mágicos, apenas duas vagens em preparação. A saber dos brincos-de-princesa, planta que minha avó, Dona Josephina, adorava. Depois de passarem por vários cômodos da casa, se deram bem na sacada, e pararam de perder folhas e botões, como fazem essas plantas, quando se estressam.
Convívio interessante. Plantas e pessoas têm seus traços inconfundíveis de personalidade, e exigem ser tratados cada um do seu jeito. Violetas, por exemplo, só querem paz. Quanto mais quietas, melhor. Não gostam de ser tocadas, principalmente quando florescem. São tímidas. As suculentas também não se prestam a intimidades. As espadas, todavia, parecem gostar muito daqui, porque crescem e se multiplicam em brotos cheios de vida. A coroa-de-cristo miniatura até cresceu um pouco, e parece haver se adaptado à vinhança de uma palmeira depressiva, que despenca as folhas e vive fragilizada, sempre insatisfeita. Os cactos são excêntricos e definitivamente exibicionistas. Na cozinha, uma curiosidade cheia de espinhos: supostamente comestível, dizem que é uma planta medicinal. Desde que chegou não para mais de crescer e, sempre que pode, me arranha. Parece-me bastante hostil. Em compensação, os trevinhos são pura alegria. Dormem à noite e se fecham em certas horas do dia. Em compensação, descobri que, sempre que chove, se enfeitam de diamantes e brilham olhando para rua. Minhas heras trepadeiras têm a serenidade dos estrategistas. Aos poucos, lentamente, vão tomando conta dos espaços, lançando guias para todo o lado, já alcançaram uma parede.
No meu jardim, não cultivo apenas plantas. Meu jardim é lugar de sabedoria e de aprendizado, porque, com as plantas, tenho aprendido a observar ações e reações cheias de sutileza: um exercício diário de paciência, já que o tempo do meu jardim tem outro ritmo e significação. Com tempo e paciência, aprende-se a esperar, dando ao tempo o seu próprio sentido que é o de oscilar, paradoxalmente, entre o sempre e o nunca.
Ah, sim. Tem sempre algo nas palavras. E agosto é palavra carregada dessa alguma coisa rimada, ritmada. Agosto. Parece sempre carregado de desgostos, embora tenha até gosto inserido. Agosto das mortes. Sabe-se lá por qual razão, visto que se morre o ano inteiro. Todavia, mortes de agosto são clássicas. Mais enlutadas que outras talvez. Agosto. Tem ainda os comentários cheios dessa sabedoria que se quer tão sábia, tipo passou agosto, então se salva. Bem, este se foi, ou quase. E nem lembrava de que havia 31 dias para viver. Esse um a mais que adia os boletos mas que também atrasa os pagamentos. Pois é. Vida, Vidinha. Traz gostos e desgostos, mas sabe a primaveras também.
Dia desses, eu me perguntava sobre o sentido da banalidade. Descobri que, em certos momentos da vida, simpatizo com ela. Espécie de refúgio, de zona neutra para onde posso fugir sempre que me afligem questões existenciais ao estilo xeque-mate: o meu tempo, a minha vida, as minhas escolhas. Que liberdade se tem frente ao tempo? Nossas preferências. Frente à vida? Nossos prazeres. Escolhas? A valer a frase batida que coloca coração versus razão, escolhas são e sempre serão paradoxais. É bem quando a banalidade faz, sim, todo sentido.
O pé não chegou às nuvens nem ao castelo onde mora o gigante que possui o tesouro. Acabou morrendo seco, não sem antes fornecer flores, que viraram vagens que abrigaram alguns feijões que me dei ao trabalho de guardar junto com pedras que junto por aí, mas que não atiro em ninguém, bom esclarecer.
Mas, enfim, voltando aos feijões, fato é que guardei as sementes aqui nascidas e, há alguns dias, replantei os feijões, creio que uns oito, em vasos de plantas aqui de casa. Nasceram todos. Uns fraquinhos, outros mais fortes. Esta é a primeira flor, descoberta na manhã de hoje. Sutil, delicada, complexa, timidamente voltada para baixo em sua simplicidade. Ainda assim, inspiradora, me deixando com vontade de escrever, de imaginar, de remoer ideias e presságios. Bem assim.
Sabor de tempo. Inexplicável, mas inconfundível. Fortuna que quanto mais se conta mais aumenta. Riqueza das riquezas és tu, tempo, tecido da vida, por vezes tão sutil que se pensa perdido; outras, tão denso; e outras ainda, como agora, com sabor de sábado à noite, embalado pelo silêncio e acariciado pela solidão. O escuro e as vozes distantes mapeiam as sombras. Aromas cruzados confundem o olfato que se apura pela imaginação: penso em café, e no estar em casa. Penso nessa imensidão que me pede para estar aqui, agora mesmo, atenta às palavras que aparecem sozinhas, enfileiradas, fazendo sentido que não decifro, mas que saberei ler logo ali, quando voltar a ser apenas eu.