24 de fevereiro de 2013
Interrupção
Às vezes acontece. A paisagem é interrompida por muros, cercas, telas e essas coisas assim, tão feias. É, sim. Acontece.
17 de fevereiro de 2013
13 de fevereiro de 2013
REVISTA VIDA BRASIL
EU, ELE, ELA E A INTERNET
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
Ela é completamente óbvia. Ainda assim parece que consegue prender a atenção do público masculino, ao menos de alguns. Bem, esta prendeu a atenção dele, ora! Eu jamais faria de conta que não morri de ciúme, mas também fiquei chocada com o fato de ela ser exatamente assim como eu acabo de dizer: uma mulher completamente óbvia. Por que, santo deus, uma criatura dessas consegue deixá-lo tão vulnerável? A ponto de se expor, publicamente, elaborando pomposos elogios às posições defendidas ela...
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
( CONFISSÕES DE UMA MULHER CIUMENTA )
A ponto de ele se expor, publicamente, elaborando pomposos elogios às posições defendidas pela moça em um desses muitos sítios virtuais onde pessoas colocam opiniões inteligentes, reciprocamente elogiadas. Opiniões essa moça tem de sobra. O que nunca entendi foi o que ele achou nisso de tão sensacional. Suspeito que o interesse dele, contudo, deva-se bem mais aos trinta e poucos anos dela, sem contar com aquela simpatia que se desprende das saudações entusiásticas de um pelo outro. Morri de ciúme quando encontrei a tal página na WEB e rastreei descaradamente nomes e diálogos, salvando frase por frase.
Sim, eu fiz isso. Não me proibi de satisfazer este impulso que acho que a maioria das pessoas tem. Mulheres? Sim. E homens também. A diferença é que não faço isso escondido nem me sinto culpada por fazer. Faço e confronto. E procuro fotos ainda! Naturalmente ele nunca elogia nenhuma mulher que seja feia, ou que tenha passado da idade dele, por exemplo.
Ah! Você, meu
leitor, está chocado? Eu sei que deveria me abster de dizer isso assim, sem mais nem menos. Mas creio que esse tipo de coisa deve ser colocada de maneira aberta, ainda que a custa de destruir essas propostas de mulher segura, independente, firme, etc. Se você é tudo isso de verdade, parabéns. Eu não sou. Eu me sinto insegura, sim, sempre que ele faz, a outras mulheres, comentários elogiosos, especialmente quando o que existe “a elogiar” é, na verdade, qualquer outra coisa menos o que parece. Ele? Impressionado com uma opinião enlatada, quando não descaradamente montada com frases feitas e expressões de uso comum? Conta outra!
É certo que experimento, com isso, muito ciúme e um profundo despeito. São sentimentos que fazem parte da minha humanidade e não tenho motivo algum para bancar a mulher superior, que se sente por cima, etc. Não me sinto por cima. Nem superior. Mas triste. Isso me afeta, me faz mal. Vê-lo dirigir-se a outra em termos elogiosos, vê-lo exibir-se diante dela, mesmo indiretamente, especialmente quando sabe, com toda certeza, que será notado e anotado por ela numa dessas investidas opiniáticas. Isso é namoro virtual. É cantada.
Faz tempo que me dispensei de muitos faz de conta. Faz tempo que expresso quase tudo o que sinto. Quase. Ainda finjo bastante às vezes, e disfarço muitos sentimentos nada edificantes. Mas só às vezes. Aprendi a lidar de perto com o que me dói, do mesmo jeito q
ue lido com o que me agrada, me entusiasma, me faz viver. É que, passado o primeiro choque da dor, a gente começa a olhar bem de perto o que magoa, e repara bem no que vê. Daí o despeito e o ciúmecomeçarem a dar lugar a um sentimento bem mais interessante, que consiste no olhar de ver. Olhar de ver é assim, coisa que gera escritas, que me inspira.
Procuro então descobrir nele o que viu nela. Observo atentamente as conversas virtuais. Leio bem as entrelinhas, descubro os jogos de sedução. Um faz de conta onde ele assume o papel de intelectual ativo; ela, passivamente, deixa-se impressionar. Elogia a sagacidade dele. A coisa funciona. Dá certo. Lá sai ele tecendo elogios sobre como ela sabe se colocar, de como dá mostras de firmeza, de segurança. Eu leio aquilo e fico pensando no quanto desconheço esses estados. No quanto sou infirme na senda das palavras, no quanto duvido de tudo que sei. Em compensação, sou firme no que sinto, tenho clareza de meus sentimentos, inclusive estes, mesquinhos e pequenos. Espiono a WEB e fico de pernas frouxas. Meu coração dispara. Procuro por ele na lista de amigos dela e vice-versa. Acesso a tal página onde eles escrevem. Salvo as postagens. Analiso. Leio tudo e fico completamente desconsertada. Pequ
ena mesmo. Como máquina quebrada.
Então me ocorre quanta gente já não amargurou o coração por conta dessas coisas de internet. Nem falo do tal Facebook, ainda que não passe às vezes de um “Fakebook”. Vejo que isso se passa mesmo em territórios que não são, assumidamente, páginas pessoais e, menos ainda, sítios de relacionamento. E penso que não há maior bobagem do que tentar fazer de conta que isso não tem o poder de afetar profundamente alguns de nós, ao menos se e enquanto estamos sensíveis e expostos a situações desse tipo.
No meu caso, o incômodo foi bem grande. Experimentei um desgosto profundo, uma decepção amarga ao ler o que ele escrevia para ela diretamente, ou para outros, não ignorando que ela leria, atentamente, cada palavra que ele escrevia, aparentemente, dirigindo-se a outros do mesmo grupo.
E ela? Pelo menos denotava algum talento? Certamente que sim. Ela sabe, como ninguém, inventar e reinventar a roda. Uma mulher óbvia. E ele ali, mostrando-se nas suas habilidades linguísticas, intentando acrobacias literárias, exagerando nos palavrões (há mulheres que adoram homens que dizem palavrões), abusando da expressividade. Eu o via completamente idiotizado com cada obviedade que ela escrevia, num discurso onde dava mostras de ser uma mulher independente, dona de si. Ela abusava da pontuação e dos marcadores tipo emotions. Faz bem tipo: mulher moderna com o lado infantil de menininha. A sonhadora pronta a dar uma chance ao romantismo. Ai, meu deus.... E ele se prestando para isso! Óbvia, pensei. Prosaica. Insipiente. E eu? Despeitada, ciumenta, insegura. Sim, tudo isso. Mas completa e inteiramente eu mesma, inclusive nestas falhas.
Reclamei. Fiz escândalo. Chorei. Ouvi Elis Regina me falando dos olhos que olhavam com olhar de adeus. Fui parar atrás da porta. Reclamei, e
apanhei, é claro. Levei uma dura, como se diz, sem falar na análise do meu comportamento adjetivado como patológico. Palavra bonita, cheia de significados. Bem, não deixa de ser. Porque o esperável, numa situação destas, é que a mulher “oficial” faça de conta que não vê, que não nota. Ou seja: tenho de contornar a situação e ainda sorrir, fazendo de conta que eu acredito que ele realmente nem sabe que aquela moça existe. E tenho ainda de achar natural o fato de ele bancar a figura paternal e tocante, dando de cavalheiro distinto que mal encobre o homem insinuante diante da outra! Óbvio! Apenas pessoas inteligentes, que sabem se colocar, e que têm muito a dizer é que se dispõem a manter diálogos de um brilhantismo bem peculiar. Ele está apenas se expressando pela internet! É nisso que eu “devo” acreditar para manter as aparências.
E eu, que creio em bruxas, mesmo sabendo que elas não existem, penso que esta é apenas mais uma forma esperta de dar início a relacionamentos que, mais cedo ou mais tarde, se explicitam. Postagem após postagem, o grau de intimidade aumenta, os pronomes de tratamento se flexibilizam, os nomes começam a ser escritos no diminutivo, os abraços, os beijos. Fora as colocações de ordem sexual, os palavrões que apimentam os discursos e aquela ironia, tida por tipicamente inteligente, que permeia os diálogos. Não demora muito para que um escreva para o outro em particular. A coisa é pública, naturalmente. Mas é jogo de sedução. E quem me garante que eles não trocam e-mails particulares, hem?
Não me orgulho de ser ciumenta. Tenho, sim, vergonha de ter armado barracos, chorado, feito horrores por causa de ciúme. Mas fazer de conta que não ligo? Não quero isso para mim, mesmo não tendo explicação ou justificativa plausível para esses sentimentos que me amesquinham, que me apequenam diante dessas “outras” tão cheias de glamour. O que não dá mesmo, de verdade, é viver em função de uma imagem tipo que corresponda a comportamentos tidos como adequados, principalmente no campo do afeto.
Não sou politicamente correta no amor. Não mesmo! Sou possessiva,
ciumenta, desconfiada. Tudo isso que qualquer mulher sente, eu sinto. Nunca negaria, entretanto, que somos desestimuladas de assumir o que sentimos. Antes nos ensinam muito bem a repressão, o fingimento, a simulação. Gostamos de dizer, contudo, que eles, homens, são ciumentos, porque isso nos valoriza como mulheres. Verdade ou não, pelo menos este é um sinal exterior tido pelos outros como indicador de afeto.
E o contrário? É possível? Viver amores sem ciúme, sem possessividade? Deve ser, para gente normal. Deve ser. Daí penso em uma paixão morna, que se arrasta pela vida, sem tensões, sem dúvidas, confiante, vivida por adultos, maduros, que sabem quem são, de onde vêm, para onde vão. Bem assim! Gente que caminha para um futuro do tipo que ilustra propaganda de plano de saúde. Penso em amores que calçam pantufas e que acendem lareiras, porque o fogo desse tipo de amor, só na base da lenha. E muita lenha. Querem mais no cenário? Os remédios. Para pressão alta, com certeza. Para dormir também. Este é o preço de se viver uma vida pré-formatada, com pessoas que se comportam dentro de padrões. Eu passo. Como se diz, “tô fora”.
Já bastam os muitos e muitos padrões impostos pela sociedade para quase todas as coisas inerentes ao plano social! Queremos ainda padronizar as formas de expressão de afeto? — Passe uma cantada logo, eu digo para ele! Mas não namore de forma disfarçada, brincando de esconde-esconde que não esconde nada. Ou faça logo um anúncio e diga o que quer, o que procura, mas de maneira aberta, inclusive para detalhes anatômicos e faixa etária. Duro não é aturar uma traição explícita. Duro é ter de conformar-se a estes comportamentos indiretos, que são, no fundo, muito mais explícitos pelo que não declaram do que pelo que literalmente expressam.
Por isso faço questão de escrever aqui com to
das as letras: prefiro armar barracos e quebrar os pratos, prefiro mesmo oconfronto direto aos fingimentos, ao faz de conta que não vejo, faz de conta que não sei, faz de conta que não ligo. Na pior das hipóteses ele me troca por ela, ou por qualquer outra dessas outras, bem óbvias. Na pior das hipóteses, mando ambos para o fim do mundo. Sofro um pouquinho. Na verdade sofro um bocado, mas passa. De quebra, ainda por cima, me inspiro e escrevo outros desses textos que são, afinal, muito meus, daí porque assino embaixo. Coisa de mulher ciumenta. Confessadamente.
Autor: Maristela Bleggi Tomasini
31 de janeiro de 2013
Reclames de Antigamente
Recém Chegados
Eles vêm, os livros. Eles me acontecem, simplesmente. Seja porque sabem de minha simpatia por eles todos (ou por quase todos, talvez); seja porque não têm mais para onde ir e precisam exilar-se; seja porque, como estes, envelheceram, e agora hospedam poeira e traças, geração espontânea que a sabedoria produz; seja porque, velhos assim, são sem utilidade num mundo que reverencia beleza, juventude, técnica, praticidade... Então eu os acolho. Estes vieram de longe. Na origem, de bem longe. Migraram até a 407. Aqui, certamente, já se sentem em casa, bem à vontade.
REVISTA VIDA BRASIL
PARALELO 30
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
Em Porto Alegre, o prédio que abriga a administração municipal fica em frente à Praça Montevidéu. Ali existe um bonito chafariz, enfeitado com azulejos artesanais. Este gracioso monumento, a Fonte Talavera, presente do povo espanhol para a gente de Porto Alegre, além de servir de referência às pombas, marca com precisão o exato local por onde passa o paralelo 30 aqui no hemisfério sul, e consiste no marco zero da capital gaúcha.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
Dizem os místicos que isso mostra o quanto Porto Alegre está destinada a ser um importante centro iniciático.
Porque — segundo eles, os místicos — o contraponto de Porto Alegre, o paralelo 30 do hemisfério norte, passaria pelo Egito, em meio às grandes pirâmides. Confesso que jamais me preocupei em abrir um atlas e conferir a afirmação, pois há muito tempo já aprendi que computadores, místicos e mulheres a gente não contraria. Além disso, é muito interessante levar visitantes — paulistas em especial — e apontar-lhes o marco exato do paralelo, confidenciando-lhes que o “outro” paralelo 30 passa pelas pirâmides, naturalmente, um portal geográfico de onde devem emanar, com toda certeza, estranhas vibrações. É a lógica gaúcha. Ora, se isso vale para as pirâmides...
Pois bem. O paço municipal aqui de Porto Alegre é um prédio bonito. Um pequeno palácio gracioso e repleto de elementos arquitetônicos bastante ecléticos que não são sem elegância. Escadarias de mármore têm por guardas quatro leões deliciosamente fotogênicos, adorados por crianças, pombos e até mesmo por alguns adultos. Os leões são parte da cidade e, além disso, folclóricos. Há muitos anos atrás um jornalista brincalhão divertiu-se ao noticiar que um estranho fenômeno tinha lugar na Praça Montevidéu, pois, a certa hora do dia, alguma influência misteriosa provocava um inexplicável aquecimento no corpo dos leões do
palácio.
No dia seguinte à publicação, ficou de guarda, controlando quem passava pelo centro. Nem preciso dizer que não foram poucos os que paravam na escadaria, olhavam a paisagem e, discretamente, alisavam os leões. O jornalista e alguns amigos, assim, divertiram-se a valer. Bem, eram velhos tempos em que brincadeiras deste tipo nem em sonho seriam interpretadas como contrárias à ética ou como capazes de gerar danos morais. Outros tempos.
Contudo, seja realmente à vista das misteriosas vibrações que se concentram na Praça Montevidéu, por força de sua situação geográfica, seja por qualquer outra razão que me escapa por completo, fato é que somos todos muito estranhos aqui no sul, ao menos do ponto de vista dos forasteiros que vem ter por aqui. A maioria ainda se surpreende com o chimarrão. Como pode essa gente cultivar o hábito de chupar água fervendo com gosto amargo por uma bomba de metal que passa de boca em boca? E essa história de só haver dois times de futebol? Todo gaúcho é bipolar, dizem. Politicamente, ou amam o PT, ou o odeiam. Em matéria de futebol, ou são gremistas ou são colorados. E quem torce para um desses times seca o outro, de sorte que a regra é torcer para o Inter e também para qualquer outro time que jogue contra o Grêmio, naturalmente.
Não, nós não queremos títulos nacionais ou internacionais, a não ser que o time agraciado seja o nosso. Se não for assim, prefere-se perder os tais títulos nacionais para outros estados. O que importa é ser campeão gaúcho. Depois vem o resto. Antes assim do que escutar a flauta “deles”. Dia de Grenal, é como se fosse o Arma
gedom. No estádio, um lado azul e outro vermelho. Inimigos que se encaram, exceto quando se ouvem os primeiros acordes do Hino do Rio Grande do Sul. Exatamente. Colorados e Gremistas cantam então, em coro, o hino rio-grandense, pois a letra é conhecida de qualquer gaúcho, que festeja o 20 de setembro desde pequeno.
Isso, contudo, não acontece apenas em estádios de futebol. Nas cerimônias oficiais, quem vem de outros estados do Brasil dificilmente entende o que acontece por aqui, quando toca o nosso hino e todos se levantam, colocam a mão direita sobre o coração e cantam com força. A maioria dos brasileiros conhece apenas o hino nacional, e ignora o hino do próprio estado. Aqui isso não acontece. O hino do Rio Grande do Sul é cantado e decorado por quase todos os gaúchos. Parece que de Porto Alegre ― paralelo 30 ― irradia-se assim alguma coisa que nos faz, por aqui, realmente muito estranhos.
E a fala? Só depois de conviver com outros sotaques, especialmente o paulistano, que é praticamente sem modulação, é que percebi o quanto somos expressivos. Um simples “mas bah” falado em diferentes entonações pode significar mil coisas. É claro que isso só é compreensível entre nós, nativos e iniciados nesse falar do sul, repleto de sutis diferenças. Temos o portoalegrês, um sotaque da capital, que alonga a pronúncia da vogal tônica e fala mais devagar. É de Porto Alegre o trilegal. Existe o falar da região serrana, carregado pelo sotaque dos imigrantes italianos e alemães e ainda o falar da fronteira, que é bem uma mistura de português com espanhol, o portunhol, que nos identifica muito, em termos culturais, com uruguaios e argentinos. Fora isso, o gauchês típico, tradicionalista, que possui não apenas um sotaque próprio, como ainda é composto de um conjunto de ditados populares muito característicos. E, por falar em linguagem, em qualquer lugar do Rio Grande do Sul se entende muito bem o espanhol, de modo que argentinos e uruguaios não precisam ― e dificilmente aprendem ― a falar português.
Recentemente descobri que somos um estado que gosta de consumir produtos fabricados aqui mesmo, enquanto outros estados do Brasil não fazem assim. Grandes supermercados sabem disso, e seu setor de compras é montado de outra forma, quando o assunto é comprar para a filial do Rio Grande do Sul, normalmente existente em Porto Alegre.
E a mania de grandeza também não é exagero. Acostumamo-nos a acreditar que nosso pôr do sol é o mais lindo do mundo. Nada se compararia ao nosso Guaíba, que se estende
por quilômetros e quilômetros de orla na cidade. Esta nossa mania de grandeza tem ainda a seu favor vários argumentos: os melhores políticos do Brasil teriam saído daqui, o melhor jogador de futebol do mundo, a maior lagoa do mundo e também a mais famosa modelo do mundo, cujo nome é ― já disse um de seus muitos fãs gaúchos ― o mesmo da sua motocicleta, de uma marca muito vendida na região da serra: XL. Não há um repórter gaúcho que não pronuncie com solenidade o nome do Aeroporto Internacional Salgado Filho, caprichando no internacional.
E a roupa de gaúcho? Bem, aqui é lei estadual (Lei 8.813/89): a pilcha gaúcha ― bombacha, bota, lenço, vestido de prenda, etc. ― não é fantasia nem traje folclórico. É traje oficial, de honra. Detalhe: “Será considerada ‘Pilcha Gaúcha’ somente aquela que, com autenticidade, reproduza com elegância, a sobriedade da nossa indumentária histórica, conforme os ditames e as diretrizes traçadas pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho.” Isso, somado ao fato de todos saberem cantar o hino do Rio Grande do Sul, festejando o 20 de setembro como se fosse feriado nacional, no mínimo, acentua muito nossa identidade cultural, ou nosso bairrismo, conforme preferem alguns. Não há quem não conheça as piadas de gaúcho contadas em todo Brasil. Dificilmente a gente escapa de algum comentário irônico, normalmente, levado na brincadeira. A crítica, parece-me, reforça ainda mais nossos hábitos, ou nossas manias, regionais.
Vistos por gente de fora, parecemos muito diferentes. Há algumas semanas conheci um jovem colega advogado que veio da Bahia para cá há mais ou menos quatro anos. Perguntei como se sentia em relação ao sul, e ele disse que gosta daqui, embora ainda não entenda bem muitos de nossos hábito
s, especialmente quando envolvem o comportamento de homens e mulheres. Como assim? ― perguntei. Ele me explicou então que ficou muito surpreso ao descobrir que, em lugares onde se namora e dança, as mulheres, todas muito enfeitadas, ficam de um lado do salão e conversam entre elas, apenas olhando para os homens. Estes últimos, todos do lado oposto, bebem e conversam entre eles, também apenas olhando para as mulheres. Entre os grupos fica um espaço vazio. A coisa toda, para meu colega, é de difícil interpretação, pois não há conversas, apenas olhares. Os homens olham para as mulheres; as mulheres olham para os homens. Cuidam-se de longe até que um ou outro deles, os homens ― por alguma razão que foge por completo ao entendimento de meu colega ― destaca-se do grupo, atravessa o salão e dirige-se a uma das mulheres. Então vão dançar. Para ele, alegre, comunicativo, nascido e criado na Bahia, essa forma de “curtir uma balada” só acontece aqui.
Outro hábito absolutamente típico é o de possuir e de presentear pessoas amigas com facas. Gaúcho adora facas! Quanto mais enfeitadas, com cabo de prata, brilhantes e afiadas, mais eles gostam. E também se usa andar cada um com sua própria faca por aí afora, afinal, nunca se sabe quando sai um churrasco, e a lasquinha de carne que se tira da picanha, é tirada com a própria faca, momento em que os gaúchos (e as gaúchas também, evidentemente) podem exibir a beleza de suas respectivas facas. Nem pensar no que isso dá em São Paulo! Não adianta argumentar com paulistas que faca é arma branca e não
arma de fogo, porque eles se sentem melindrados com essa diferença. Mais uma razão para eu nunca levar nenhuma de minhas lindas a facas para São Paulo, quando vou para lá... Paciência! Em Roma, afinal, deve-se fazer como os romanos.
Autor: Maristela Bleggi Tomasini
28 de janeiro de 2013
27 de janeiro de 2013
Por aí
É singular que essas imagens sejam reveladas apenas pela fotografia. São a própria subjetividade que emerge através da lente. Um vaso de plantas perdido no parque da Redenção. O macro, os ajustes, a cabeça, a expressão: o contexto passa a ser outro, e a imagem contará outra história, inspirada no objeto, mas sem nada a ver com ele, sua história ou sua utilidade. Fotografar é apropriar-se da luz, e fazer dela a matéria prima com que se constrói o imaginário.
20 de janeiro de 2013
Aborto
"O crescimento excessivo da população comparativamente aos meios naturais de subsistência é, na vida selvagem, um perigo contínuo. Isto nos explica a maior parte dos homicídios que, entre os povos primitivos, não apenas se cometem com impunidade, mas ainda são ordenados segundo a moral e a religião, fornecendo um título de glória. O aborto premeditado, que não ocorre entre os animais, é comum entre os selvagens. É preciso ir até o Zend-Avesta, para encontrar as primeiras proibições sobre este assunto. Entre os tasmanianos, as mulheres não consentem em se tornarem mães antes de muitos anos de casamento. Para conservarem seu frescor, elas tentam ou provocam o aborto, batendo no ventre com golpes redobrados. Ocorre o mesmo na Nova Caledônia. O aborto é bastante comum na América, na baía de Hudson e na baía do Orenoco. No Prata, os paiaguás fazem abortar suas mulheres depois que têm o segundo filho; assim fazem também os mbayas, seus vizinhos. Entre os papuas, as mulheres morrem jovens, pelo hábito geral de provocarem o aborto depois do primeiro ou segundo filho. Mas é, sobretudo, nas ilhas, onde encontramos menos recursos, que o homicídio e o aborto são permitidos. Em Formosa, onde a barbárie é menor, o aborto é comandado pela utilidade e moral públicas. As mulheres não podem ser mães antes de atingirem a idade de trinta e seis anos. Há sacerdotisas encarregadas fazê-las abortar, no caso de engravidarem antes dessa época."
Fonte: LOMBROSO, César. O Homem Delinqüente, Ricardo Lenz, Porto Alegre, 2001, p. 79/80.
Fonte: LOMBROSO, César. O Homem Delinqüente, Ricardo Lenz, Porto Alegre, 2001, p. 79/80.
19 de janeiro de 2013
Notre Dame de Paris: 850 anos
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