31 de dezembro de 2008

Meus Durant

Desconfiem sempre de uma biblioteca bem arrumada repleta de livros bem cuidados. Desconfie de quem não risca livros, não sublinha, não escreve nas suas margens nem os dobra e mesmo os mancha com um dedo engordurado de quem lê na cozinha, enquanto come alguma coisa pelas madrugadas. Meus livros, pelo menos os mais queridos e aqueles aos quais eu devoto um maior apego, estão todos marcados, usados e com partes destacadas. É evidente que uma biblioteca bem cuidada e cheia de livros novos pode ser bonita e até decorativa. Eu, porém, prefiro aquelas que têm ácaros, traças, riscos, livros surrados, marcados e que se amontoam ao meu redor, transmitindo a certeza de uma presença constante que forma pontes no tempo e no espaço, sem que seja preciso mais que o gesto de folhear uma página.

29 de dezembro de 2008

Will Durant (1885-1981)


Conquista da minha bibliteca poder contar com todos os volumes da monumental A História da Civilização, obra escrita em co-autoria com Ariel Durant, sua mulher. Durant não é, todavia, muito bem visto junto aos acadêmicos, uma vez que ousou escrever com simplicidade sobre história e sobre filosofia, mas, diga-se, não sem profundidade. De seu texto, colhe-se o respeito e o entusiasmo que contagiam, conferindo ao leitor uma visão geral bastante sintética de todos os povos nas respectivas épocas.

Uma Descarada Admiração por Heróis

Dos muitos ideais que na juventude deram à vida um sentido e um brilho que faltam às perspectivas arrepiantes da meia-idade, pelo menos um permeneceu comigo tão luminoso e satisfatório como sempre fora -- a admiração descarada dos heróis. Numa era que a tudo nivelaria e a nada adoraria, eu me ponho ao lado do Carlyle vitoriano, e acendo minhas velas, como Mirandola diante da imagem de Platão, no santuário dos grandes homens.Eu digo "descarada", porque sei o quão fora de moda é, agora, reconhecer na vida ou na história qualquer gênio mais sublime que o nosso. Nosso dogma democrático pôs num mesmo patamar não somente todos os votantes, mas também todos os líderes; deliciamo-nos em mostrar que os gênios que vivem são apenas medíocres, e que os já mortos são mitos.Se pudermos acreditar em Mr. Wells, Cesar era um imbecil e Napoleão um idiota. E já que é contrário às boas maneiras exaltarmos a nós mesmos, chegamos ao mesmo resultado por meio da indicação maliciosa de o quão inferiores são os grandes homens da terra. Em alguns de nós, talvez, trata-se de um nobre e cruel ascetismo, que arrancaria de nossos corações o último vestígio de admiração e adoração, receando que os velhos deuses voltassem para nos aterrorizar mais uma vez.De minha parte, eu me agarro a esta religião final, e descubro nela um conteúdo e um estímulo mais duradouro do que aquele que vinha dos êxtases devocionais da juventude. Quão natural parecia cumprimentar Rabindranath Tagore por aquele título que por tanto tempo lhe foi dado por seus compatriotas, Gurudeva -- "Mestre Reverenciado". Pois por que razão deveríamos nos colocar em veneração diante de cachoeiras e topos de montanha, ou uma lua estival sobre um mar tranqüilo, e não diante do maior de todos os milagres -- um homem que é ao mesmo tempo grandioso e bom? Tantos de nós somos meros talentos, crianças espertas no jogo da vida, que quando um gênio se levanta em nossa presença, nós podemos apenas nos curvar à sua frente como a uma obra de Deus, um prosseguimento da criação. Tais homens são a própria vida e o sangue da história, para os quais a política e a indústria não passam de moldura e ossos.Causa parcial do academicismo árido do qual estávamos sofrendo quando James Harvey Robinson nos convocou a humanizar nosso conhecimento foi a concepção da história como um fluxo impessoal de figuras e "fatos", no qual o gênio exercia um papel tão pouco essencial que os historiadores se orgulhavam de ignorá-los. Deveu-se a Marx, acima de tudo, essa teoria da história; ela estava amarrada a uma visão da vida que desconfiava do homem excepcional, invejava o talento superior, e exaltava os humildes como os herdeiros da terra. No fim, os homens começaram a escrever a história como se ela jamais tivesse sido vivida, como se nenhum drama jamais tivesse passado por ela, nenhuma comédia ou tragédia de homens em luta ou frustrados. As vívidas narrativas de Gibbon e Taine deram lugar a montes de cinzas feitas com uma erudição irrelevante na qual todos os fatos estavam corretos, documentados e mortos.Não, a história verdadeira do homem não está em preços e salários, nem em eleições e batalhas, nem nas tendências rasas do homem comum; está nas contribuições duradouras feitas pelos gênios ao conjunto da civilização humana e da cultura. A história da França não é, se é possível dizer isso com toda a cortesia, a história do povo francês; a história daqueles homens e mulheres anônimos que cultivavam a terra, consertavam os sapatos, cortavam a roupa e vendiam as mercadorias (pois tais coiss tem sido feitas sempre e em todos os lugares) -- a história da França é o registro de seus homens e mulheres excepcionais, seus inventores, cientistas, estadistas, poetas, artistas, músicos, filósofos e santos, e os acréscimos que eles fizeram à tecnologia e à sabedoria, às artes e à decência, do seu povo e da espécie humana. E assim com todo país, assim com o mundo; sua história é propriamente a história de seus grandes homens. Que somos o resto de nós senão tijolos e argamassa dóceis em suas mãos, para que eles possam fazer uma raça um pouco melhor que nós mesmos? Portanto, eu vejo a história não como um cenário triste de político e carnificina, mas como o esforço do homem -- por meio do gênio -- contra a inércia obstinada da matéria e o mistério atordoante da mente; o esforço para compreender, controla e reconstruir a si próprio e ao mundo.Vejo homens de pé à beira do conhecimento, e segurando a luz uma pouco mais além; homens esculpindo o mármore em formas enobrecedoras; homens moldando povos em instrumentos melhores de grandeza; homens criando uma línguagem da música e uma música da linguagem; homens sonhando com vidas melhores, e vivendo-as. Eis um processo de criação mais vívido que em qualquer mito, uma divindade mais real que em qualquer credo.Contemplar tais homens, nos insinuarmos pelo estudo em algum modesto discipulado em relação a eles, observá-los em seu trabalho e nos aquecermos no fogo que os consome -- isto é recapturar um pouco da emoção que a juventude nos dava quando pensávamos, no altar ou no confessionário, que estávamos a tocar ou a ouvir Deus.Nessa juventude sonhadora nós acreditamos que a vida era má, e que somente a morte poderia nos conduzir ao paraíso. Estávamos errados; mesmo agora -- enquanto vivemos -- podemos entrar nele. Cada grande livro, cada trabalho de arte reveladora, cada registro de uma vida devotada é um chamado e um "Abre-te, sésamo" para os Campos Elísios.Extinguimos cedo demais a chama de nossa esperança e nossa reverência. Mudemos os ícones, e acendamos as velas mais uma vez.

Will Durant

Erva Mate

28 de dezembro de 2008

AS CARTAS XIII

Carta de Francisco para Maria de algum dia de agosto de 1924.
Maria,

Penso que foi para a sensação de receber flores que eu adoeci, tanto elas me satisfizeram. E nem tenho já quase vontade de restabelecer-me!... As primeiras violetas, as outras... Elas tomam quase sempre a forma das tuas carícias, quando as toco e quando as olho, e sinto-as com pura volúpia... Mas é um gozo triste, um gozo com sabor amargo de lágrimas, porque as violetas são tristes, e são tristes os seus longos olhos de melancólicas pupilas. São tristes como a morte...
Talvez, infelizmente, elas me ofereçam um símbolo... No destino de cada criatura, para seu sofrer eterno ou para sua eterna alegria, existe uma lágrima, a última, a que não nos é dado conhecer, que já se abeira do túmulo, e dele nos traz a amável sensação de alívio. E são certas flores as portadoras da forma visível desse fim, provocando, assim, nas criaturas, determinadas emoções reveladoras da sua proximidade. E, eu creio, a violeta é uma dessas flores predestinadas.
Mas, não filosofemos. Sejamos mais sábios. Falemos um pouco de ti. Que tens feito? E a minha ausência? Pouco te faz sofrer, não é? Ainda bem. Eu, entretanto, longe de ti, não sinto a vida. Trago, a queimar-me o peito, uma grande saudade do meu amor. É que eu te amo mais que a mim próprio. Coloquei o universo dentro do teu ser, e só por ele vivo e palpito. Encontrei, no mundo, a minha “pedra luminosa”... Na extinção da sua luz está a extinção da minha vida. E és tu a guardadora dessa minha pedra... Está nas tuas mãos, pois, a minha vida, a vida do teu,
para o sempre,
Francisco

Revista Leoplán

25 de dezembro de 2008

AS CARTAS XII

Carta de Francisco para Maria de 1º de agosto de 1924.

Maria,
Perdoa-me os versos que hoje te mando. Eu vivi contigo dentro da tua velha casa. Tu partiste; eu fiquei. Ficaram comigo a tua imagem e a saudade, que acorda dentro de mim a imagem da vida que lá vivemos.
A nossa velha casa... Ela era grande, mas para mim se resumia, apenas, no aposento onde tu pensavas no teu amor, sozinha com ele, perfumando-o de carícias.
O teu aposento era pequenino e lindo. Tinha um ar estranho de mistério e sensualidade. Evocava-me, não sei por que, em originais e suaves mutações, cenas febris do Oriente e a vida límpida e pacífica dos santos.
A um canto, sobre um tapete persa, repousava um divã cor de trevo. Era esse o teu recanto predileto.
− É o templo da preguiça e dos sonhos, tu me dizias, sorrindo.
E o teu sorriso, de súbito, abria um reflexo de luz na sala toda e alumiava a minha alma.
O piano, ao longo da parede, punha uma nota solene na melancolia do aposento.
À noite, depois do chá, mal acabavam de soar, no relógio da Igreja, as badaladas das dez horas, tu te sentavas ao piano. E logo, os primeiros acordes da Cathedral Engloutie começavam espaçados, sonolentos, envoltos em sombra, a arrancar pedaços de alma...
Bem me lembro de tudo isso... Eras muito religiosa também. Junto a uma janela, colocaste um oratório, com a imagem de Santa Teresa do Menino Jesus, e uma chama de amor e de fé, a crepitar.
Tinhas uma devoção especial por essa Santa. Recordo que, uma vez, eu fui te encontrar de joelhos em frente dela, numa atitude de êxtase, e uma imploração no olhar. Sorriste, confusa, ao ver-me. E depois, cheia de pudor, a cabeça deitada no meu ombro, confessaste-me o teu pedido: a graça de não acontecer uma coisa que temias... Depois, choraste muito, e eu chorei também... Ficamos os dois, longo tempo, a chorar, ingenuamente, sem saber por que, quase sem querer...
Tudo isso na velha casa... Como eu me lembro!... E como é bom lembrar!... como é bom evocar o tempo que passou, o nosso tempo, aquele tempo... Recordar, ressentir o que ficou lá longe, perdido... Velhas sensações que nos despertam novas... Frangalhos de nós mesmos deixados ao longo do tempo... O passado... Bastante razão tem Henri Bataille: o passado é um segundo coração que bate em nós...
Um grande pensamento
do teu
Francisco

Da condição das mulheres nos diversos governos

Nos estados despóticos, as mulheres não introduzem o luxo. Elas próprias são um objeto de luxo. Elas devem ser extremamente submissas.
(pg. 111)

21 de dezembro de 2008

Revista Leoplán

Nós, Déspotas.

Despotismo é uma tendência e talvez mesmo um componente nosso. É humano, integra o homem sempre que ele se vê desfrutando de um poder qualquer. Poder também é um tipo de paixão exercida de múltiplas formas, de acordo com cada governante, desde o reizinho do asteróide do Pequeno Príncipe até as crianças diante dos insetos, e os Napoleões, e os Alexandres, e os Césares e os Sesóstris. Amorfos, porém, escapam disso. Amorfos nunca são despóticos, por exemplo. Mas a maioria de nós o é, numa ou noutra fase da vida, seja manejando exército de soldadinhos de chumbo, seja dirigindo uma empresa, seja fantasiando o cachorro de Papai Noel e conferindo-lhe humanidade, seja mesmo se colocando como guia, exemplo, guru ou proprietário de verdades reveladas.
Todos nós temos, enfim, nossos momentos de déspota, de roubar cenas e brilhar no cenário da vida. Alguns se viciam nisso, e sentem-se insultados quando não são reconhecidos como tais, ou quando o seu fascínio falha, e percebe-se então que o rei sempre esteve nu, porque a realeza passa, a beleza passa, o poder passa e mesmo as verdades mudam quando convém.
Felizmente, não somos sempre os mesmos ao longo do tempo. E até as paixões e mesmo o poder deixam de fascinar um dia, e se acabam, mudam de rumo ou sofrem desvios, viram rotina e acomodação, sofrem desgastes. E no final, — no tão esperado e temido THE END que já está escrito na história de todos nós, — seremos igualados mediante o império da mais democrática das revoluções que é a própria Morte. Essa sim, induvidosamente, nos vai igualar a todos, por mais ostensivo ou simplório que seja o túmulo: pirâmide, lápide ou vala comum.