30 de setembro de 2008

JOSE INGENIEROS (1877-1925)

A honestidade é uma imitação; a virtude é uma originalidade. Somente os virtuosos possuem talento moral, e, qualquer ascensão na busca do mais perfeito é obra deles; o rebanho limita-se a seguir suas pegadas, incorporando na honestidade banal aquilo que foi, antes, virtude de poucos. E sempre rebaixando.
O conhecido autor de O Homem Medíocre, obra que, na realidade, foi o resumo de um curso para a Cátedra de Psicologia em Filosofia e Letras. Estudo à parte dentro da retórica de Ingenieros, foi um marco em suas formas e intenções, onde ele aborda a psicologia da mediocridade exposta em um tratado que estigmatiza a rotina, a hipocrisia e o servilismo, retratando impiedosamente as características do homem inferior. Sua Criminologia também é notável, especialmente pela expressividade.
Principais Obras
1. "Simulación de la locura en la lucha por la vida" (1903)
2. "Criminología" (1907)
3. "Sociología argentina" (1908)
4. "Principios de psicología genética" (1911), considerado o primeiro livro pedagógico da disciplina 5. "El hombre mediocre" (1913)
6. "Hacia una moral sin dogmas: lecciones sobre Emerson y el eticismo" (1917)
7."Proposiciones relativas al porvenir de la filosofía" (1918)
8. "La evolución de las ideas argentinas" (1918)
9. "Los tiempos nuevos" (1921)
10. "Las fuerzas morales" (1922)
11. "Archivos de Psiquiatria y Criminologia", vol. XII,(1902 a 1913)
12. Estudios clínicos sobre la histeria y la sugestión
13. La Psicopatologia en el Arte
14. La Simulacion de la Locura
15. Nueva classificación de los delincuentes
16. Patologia del lenguage musical

28 de setembro de 2008

Dicionários

Eu adoro dicionários, essas poderosas ferramentas que nos ajudam tanto. Faz alguns anos que consegui encontrar os seis pesados volumes desta obra que é bem o meu grande hipermercado de palavras francesas, fora referências breves a pessoas e lugares. Além deste, o meu Petit Larousse, surrado, que não tem mais capa, de 1947, comprado por meu avô Bleggi logo depois do fim da II Guerra, para ver como haviam ficado os mapas da Europa que vinham em anexo. Olhar um dicionário é sempre uma surpresa, uma maneira de distrair-se com as palavras, de encontrá-las e reencontrá-las quando elas estão descomprometidas de um sentido que não seja apenas o seu próprio. Gosto de dicionários, de folheá-los ao acaso, e dar com palavras tão estranhas que a gente se pergunta pra que servem. Outras conhecemos e empregamos, mas não é raro perceber-se, ao ler o seu sentido, que elas ainda podiam servir para definir outras coisas. Dicionários também nunca são demais. Grandes, pesados, desajeitados às vezes, com letras econômicas, estão sempre ali, prontos a esclarecer. Agora estão renovados com a virtualidade, o que abre vaga nas estantes. Aurélios, Houaiss e Michaelis já viraram CDs e são guardados em nossos computadores. Destino talvez de nossas bibliotecas será o de habitarem essas máquinas. Mesmo assim, nada substitui livros que a gente segura nas mãos, livros que a gente risca, anota, cheira, sublinha. Dicionários virtuais não se deixam abrir ao acaso, nem percorrer sem objetivo como gosto de fazer. São precisos e, não raro, sem a majestade e a imponência do meu Larousse Siècle XX aí da foto, resistindo às revoluções da tal pós-modernidade.

Serendipity

Embora estivessem certos, os sábios de Salamanca estavam errados; e Colombo, embora estivesse errado, perseguiu fielmente seu erro e provou estar certo, graças a Serendipity.
Umberto Eco

Pessimismo de 1917

AS CARTAS IV



Poema de Francisco para Maria escrito a 25 de julho de 1923.
Filosofia Sentimental
E insistes em querer dizer que és minha! E me olhas
fixamente, de um modo assim de quem espera
um gesto, um olhar... Mas eu não sei se és sincera,
se não são falsas as palavras que desfolhas...

E te moves num gesto, e neste gesto eu sinto
todo o mal e a dor que me faz essa incerteza.
— Sim, porque, às vezes, isso é simples gentileza
que toda mulher tem somente por instinto....

E eu sofro tanto com essa duvida, tanto!
Certas vezes, ensaio um olhar bem profundo,
agudo e longo, que te devassa a alma fundo,
e, ingenuamente, recuo, louco de espanto.

E isso, querida, só porque tenho receio
das profundezas que guardam certas verdades.
Muitas vezes, a flor das infelicidades,
perversamente, tem a verdade do seio!...

25 de julho de 1923

Observações:De todos os papéis, este é o único que foi amassado com força algum dia, e depois alisado novamente. São duas poesias, esta, do dia 25 e outra, do dia 27, ambas escritas numa mesma página e noticiando o que parece ser uma crise de dúvidas e incertezas que Francisco coloca em versos belos, bastante filosóficos. Eis a segunda poesia, da qual, entretanto, consta uma palavra cujo significado me escapa: store. Pelo contexto, parece-me ser um tipo de equipamento de iluminação utilizada nos anos 20, quem sabe, uma lanterna à base de acetileno, comum nesse tempo, segundo Dona Genny, minha mãe, a quem consultei a propósito desta dúvida.

Minueto de uma Noite de Chuva
Chove prata. Na sala, onde escrevo à luz de ouro
do store, há pelo ambiente um esgarçar de sedas...
e, no ar, cuido sentir, esvoaçando, ledas,
as asas de cetim de encantado besouro:

São versos que componho ao céu do teu olhar,
à sombra de teu vulto indolente, de pluma,
à luz de teu sorrir, feito todo de espuma,
ao som de tua voz cristalina, de luar.

São versos em que falo em minha dor fremente,
em tudo o que vivi, e que amei e perdi,
em tudo o que passou, em tudo o que sofri,
numa ronda sem fim, longa e perdidamente...
.......................................................................
Enquanto as horas vão caindo, silenciosas...
e eu penso em ti, em minha pobre alma dorida,
em nosso triste amor, em minha infeliz vida...

E as finas gotas de chuva rolam, chorosas...

27 de julho de 23.

AS CARTAS III



Poema de Francisco para Maria escrito no dia 25 de maio de 1923 e intitulado Cantique d'Amour.
Oh! Amar somente pela alegria de amar.
No entanto, é dolorosa essa alegria,
acerbo esse prazer que se goza num dia
no infinito volver do teu olhar.
Acerbo esse prazer
que brilha sempre no teu sorrido divino,
na tua linda voz de veludo, que é um hino
de faiança, que faz amar e padecer...

Amar — que encanto,
que sonho, que alegria deliciosa!
é minha vida...
E se um dia, querida,
tu me vires sorrindo, e nos olhos o pranto,
como um triste precito abandonado,
a cumprir pelo mundo o negro fado
por teus régios dedos traçado,
não me consoles, não. Ri, ri bastante
teu sorrido de luz, de prata, deslumbrante!...
E, após, deixa-me só, como um palhaço, amor,
dissimulando num sorriso a minha dor...

-XXV-V-MCMXXIII

Observações:Este poema aparece também em uma página escrita à máquina, precedido de uma citação em francês e ao final assinada por Francisco, com a observação outono de 1925. A versão da foto, escrita com lápis de cor azul, não está assinada.

26 de setembro de 2008

Desastre de Automóvel

Humor do princípio do século. Tirado do Almanaque Bertrand, 1917. Diz a legenda:
— Ora, aqui está um caso que até está dando vontade de rir àqueles cavalos!...

Pharmacia Formosinho

Está no Almanaque Bertrant de 1917. Propaganda de uma farmácia onde se poderia adquirir o Fermento de Uvas Formosinho que, segundo o anúncio, curava diabetes, furúnculos, dispepsia, eczemas, doenças de pele em geral. E ainda o milagroso UROL, o mais poderoso dissolvente do ácido úrico, que seria capaz de curar artritismo, cálculos, gota, obesidade, nevralgias, dispepsias, ciática, eczema, arterosclerose e areias.

Almanaque Bertrand

Adoro almanaques. Desses mesmos que a gente ganha em farmácias, e ainda os tais que se editam todos os anos, uns até tornados clássicos, como o Almanaque do Pensamento. Tenho alguns bastante antigos que até hoje me dão gosto de ler, seja pelos artigos, seja pelas piadas, charges, desenhos, seja mesmo pelos anúncios publicitários, especialmente de remédios. A foto acima é do Almaque Bertrand de 1917. A edição é linda, seguindo o estilo art-nouveau.

Claude Bernard (1813-1878)

Um dos maiores obstáculos que se encontra nessa marcha geral e livre dos conhecimentos humanos é a tendência que leva os diversos conhecimentos a se individualizarem em sistemas... Os sistemas tendem a sujeitar o espírito humano... É preciso procurar quebrar os entraves dos sistemas filosóficos e científicos... A filosofia e a ciência não devem ser sistemáticas.

A Filosofia de Claude Bernard. BERGSON, Henri. La pensée et le mouvant. Essais et conférences. Presses Universitaires de France, 27ª edição, 1950, pág. 229-237.
Tradução: Maristela Bleggi Tomasini. Disponível neste blog.