1 de junho de 2025

Ninguém vai amá-lo

Faz pelo menos vinte e cinco anos que vou ao mesmo salão. A Luísa, que começou como minha cabeleireira, virou amiga — daquelas que já sabem dos silêncios, que olham pelo espelho e entendem o que não se disse. Muita gente ali é assim. Clientes de longa data, histórias cruzadas entre tinturas, cortes e cafés. Às vezes, parece mais uma pequena comunidade do que um salão.

Naquele dia, minha hora seria logo depois de um cliente especial. Luísa já tinha me contado dele algumas vezes, com um cuidado que é só dela. Eu tomava um café quando ele chegou, acompanhado da mãe.

Ele devia ter mais de cinquenta. A mãe, bem mais. Talvez setenta e muitos. Vestia-se com elegância simples, dessas que vêm de tempos antigos. Estava arrumada, com os cabelos presos e as unhas feitas. Mas as mãos tremiam. O filho era magro, moreno, cabelo encaracolado e comprido, barba por fazer, grandes suíças. Sentou-se com ajuda. Ajeitou-se na cadeira como pôde, e as pernas não paravam de se mover.

Luísa o acolheu com aquele jeito leve, sem cerimônia. Prendeu a capa em volta do pescoço dele, ajustou com delicadeza, como se arrumasse um laço. Perguntou sobre música. Ele respondeu que tocava de vez em quando. A voz era quase neutra, o olhar oblíquo, perdido em algum ponto que ninguém mais via.

A mãe, da cadeira, observava tudo com atenção. Em silêncio, acompanhava os gestos. Seus olhos não saíam da cadeira. Observava a cena pelo espelho, muito atenta. Quando Luísa começou a cortar, metodicamente, as camadas de fios que separava com o cabo do pente, ela me olhou. Pude ver, nos olhos dela, algo que pesava bem mais do seu corpo trêmulo já exibia. Falou baixo

— Ele tinha 17 anos quando isso se manifestou. Desde então, nunca mais... você sabe, né? A... esquizo...

Ela foi reticente. O pronome -- isso -- era totalizante. A esquizo...O diagnóstico. Tudo implícito. Assenti, embora ela não esperasse uma resposta. Houve uma pausa. Uma espera de que as palavras se assentassem. No caso, isso e a esquizo... Cumprida a pausa, ela prosseguiu:

— E agora eu, com esta doença. De Parkinson. Penso em como vai ser. Porque... sabe? Eu não posso adoecer. Eu não posso morrer. Tenho que levá-lo toda semana ao tratamento. Eletrochoques. Eu levo. Daí ele melhora. Preciso cuidar dele.

Ela suspirou. Os olhos foram para algum ponto que só poderia saber onde era. 

— Por isso eu não posso morrer.

Outra pausa. Eu ouvia tudo completamente atenta ao que se passava. Não me mexia. Só respirava. Pensava na banalidade que transformava uma tragédia em algo tão cotidiano como uma ida ao salão de beleza. Pensava no louco. Sentado ali, alheio a tudo. Balançando as pernas. Observando o manejo hábil da tesoura nas mãos de Luísa. Olhei para a velha senhora trêmula, mas firme em seus propósitos. Ela me olhava. Talvez para observar o efeito que tudo aquilo me causava.

— É que, se eu morrer, ninguém vai amá-lo.

A frase saiu assim. Como comentário. Como legenda daquele contexto. O corte terminou. Luísa ajeitou os últimos fios, limpou o pescoço dele com o mesmo cuidado de quem penteia uma criança. A mãe agradeceu. Acertaram a conta. Saíram devagar.

A porta fechou-se com o barulho suave do sininho pendurado no alto. Luísa e eu nos olhamos. E calamos.

Não havia o que dizer.

28 de maio de 2025

PARADOXOS

Ela fala, eu escuto. Não por algum impulso de empatia forçada, mas porque estou ali, à mesa de um café qualquer, com a xícara esfriando e o vapor subindo como um detalhe irrelevante. É sobre um homem. Sobre ele: essa categoria que só as mulheres conhecem. Ele pode ser um projeto de futuro. Ele representa o amor, mas na verdade ele não passa de uma equação mal resolvida. Ouço a história repleta de indiferenças. Para cada falha dele, ela cria uma justificativa. Em último caso, a culpa recai sobre uma suposta outra, que sequer existe, mas que deve existir, com certeza, para o fechamento da equação, para o equilíbrio das coisas, para que o déficit não consuma, de uma só vez, todo estoque de esperança.

Penso em Eugénie Grandet, que gastava seus dias esperando ser vista por ele. Não há poesia nisso, só um padrão repetitivo: a espera como armadilha. Minha amiga não vive no século XIX, mas poderia. Ela constrói castelos que desmoronariam sob o peso da lógica. "Ele vai mudar", diz, como se o futuro dependesse do cumprimento de certas cláusulas de contrato que visam garantir sua felicidade. Eu não digo nada. Em vez disso, aponto o óbvio com um comentário cortante: "Esse cara? Ele acha que o mundo é um espelho dele mesmo." Ela ri, um riso breve, que não disfarça o vazio nos olhos dela. Não é um vazio metafórico, é concreto: a ausência de algo que preencha o tempo vivido além da espera.

Olho para mim e penso no empenho que faço em não depender dessa tal esperança. Talvez porque pense e calcule. Talvez porque tenha medo de parecer patética. Vejo o óbvio, mas posso fingir que ele não existe, porque sei como conferir uma nova versão às coisas, ao mundo, à vida. Faço isso quando misturo farinha, açúcar e suco de laranja numa tigela. Ralo gengibre, misturo canela e o calor do forno perfuma a casa com um cheiro que não explica nada, mas que ocupa todos os espaços. E quando não há farinha, eu escrevo, em cadernos que ninguém lê, frases e histórias que nem sempre publico. Houve um tempo em que plantava sementes em vasos e os colocava na janela, para observar as folhas que cresciam sem alarde. Depois desisti, pois o vento espalhava a terra e as pobres plantas insistiam em morrer, quando eu me esquecia de regá-las. Ou quando eu não fazia nem isso por elas, e as via definhar, pensando que a vida também não acontece por si, a não ser até certo ponto. Tudo porque a morte está sempre presente, à espreita. Mas minha amiga não sabe nada disso. Nem quer saber. Refém do sonho, não cozinha, não escreve, não planta e apenas ele germina em sua vida.

Tento explicar. Penso nos scripts culturais que moldam o que ela reconhece como amor. Regras antigas, papéis de gênero que a Modernidade ainda não apagou, mas que fatalmente apagará, quando daqui partir o último boomer. Mulheres devem ser estratégicas, dizem os ecos de romances baratos e até novelas clássicas. Devem calcular, seduzir, nunca se expor. A sinceridade, nesses scripts, é um erro de amador. Ela parece acreditar nisso, mesmo sem dizer. Ama em segredo, como se admitir o sentimento fosse uma confissão de derrota. Eu não comento. Não porque não me importe, mas porque não sei o que dizer. Desiludi-la seria apontar o óbvio: o amado é uma miragem.

Mas por que eu apagaria a miragem do deserto dela? Para que ela acolhesse e assumisse a rejeição? Rejeição não é mera abstração. É conta que não fecha porque depende do amanhã. Contingente e imponderável, o amanhã não pertence nem a ela, nem a ele, nem a mim. E, além disso, o amanhã dos esperançosos não chega nunca, porque pode ser adiado indefinidamente. E ela “sabe” que só será amanhã quando ele chegar. Penso nas pílulas que prometem felicidade, nos filtros que escondem rugas e verdades. Ela não usa nada disso. Não foge do luto nem da renúncia. Não tem um rosto voltado para o mundo. Ela apenas espera.

O que faço? Escuto, porque é o que posso fazer. Zombo do amado, porque é fácil e porque ela ri. Não digo que a espera é uma escolha nem que escolhas podem ser mudadas. Não porque acredite em grandes viradas, mas porque sei criar futuros. E faço isso quando coloco um novo bolo no forno, quando vejo a tinta desenhar palavras nos meus cadernos. Terra no vaso é promessa cumprida à semente. E depois, histórias bem contadas desafiam o tempo, o destino e a morte.

Hoje ela vai esperar por ele mais uma vez, trocando a vida pelo sonho. E eu, contando essa história, só penso em você que, lendo isso, pensará que não faz sentido. Não importa. Eu só queria mesmo era lembrar você do sabor daquele bolo de laranja. Só não se esqueça do gengibre. Nem da canela. E coma depressa, enquanto seu café não esfria.

REVISTA VIDA BRASIL 

23 de maio de 2025

Sermão da Primeira Sexta-feira da Quaresma

“Um amor naturalmente chama por outro. E não há coração nem tão surdo, que se é chamado não ouça, nem tão mudo, que se ouviu não responda. Até as penhas dos desertos respondem às vozes, e o mesmo eco, que parece que é repulsa, é correspondência. A correspondência não é outra coisa que a reflexão do mesmo amor, que torna dobrado para donde veio. E assim como não há mármore nem bronze tão duro que, ferido do raio do sol, não responda ao mesmo sol com a reflexão do seu raio, assim não há coração tão de mármore na dureza, e tão de bronze na resistência, que, prevenido no amor, o não redobre e corresponda com outro.”

VIEIRA, Antônio. Textos literários em meio eletrônico Sermão da Primeira Sexta-Feira da Quaresma (1644). Texto Fonte: Editoração eletrônica: Verônica Ribas Cúrcio. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16392

O Sermão da Primeira Sexta-Feira da Quaresma, pregado por Padre Antônio Vieira em 1644 na Capela Real de Lisboa, é uma das suas obras mais emblemáticas. Proferido durante a Quaresma, período de penitência e reflexão cristã, o sermão tem como objetivo despertar a consciência para a fé, o arrependimento e a preparação espiritual para a Páscoa. Com uma estrutura densa e estilo marcante, Vieira entrelaça teologia, retórica e exemplos vívidos para abordar temas como pecado, morte, fé e salvação. A obra é um marco da oratória sacra e da literatura portuguesa, com uma mensagem atemporal que continua a inspirar espiritualidade e introspecção.

17 de maio de 2025

Ractio et Auctoritas

Ratio et Auctoritas é meu novo blog. Demorou, mas finalmente resolvi criar um espaço dedicado à reflexão sobre temas ligados ao Direito. O nome expressa a relação entre a razão — entendida como reflexão crítica — e a autoridade, como força normativa que estrutura o ordenamento jurídico. O objetivo do blog é apresentar matérias sobre diversas áreas jurídicas, promovendo a reflexão sobre questões que nos tocam de forma direta e cotidiana. Ratio et Auctoritas: Suum cuique tribuere et blogare cum claritas.