29 de junho de 2024
Frio
Sábias Tristezas
25 de junho de 2024
Bel-Ami de Maupassant: Gênero e Moralidade no Século XIX
Amo Maupassant. Simples assim. E amo com todos os exageros que podem caber em um elogio. Ele foi o mestre do conto, mas não deve nada a ninguém como romancista. Bel-Ami, primeiro romance escrito por Maupassant, publicado no jornal Gil Blas como folhetim em 1885, apresenta-nos uma das mais penetrantes análises do poder de sedução e de manipulação. O título, embora literalmente designe um “bom amigo” tem, no caso, uma dupla conotação não sem ironia.
O personagem Georges Duroy, bonito, dono de um ar desafiador e que bem lembraria o vilão dos romances populares, é apresentado em detalhes, objetivamente, em sua atuação, digamos, sedutora; e subjetivamente também, porque sabemos de seus pensamentos, uma vez que Maupassant nos mostra claramente quais os objetivos reais de alguém que é francamente dissimulado.
Georges Duroy mostra como fazer da sedução uma arma poderosa na busca de objetivos pessoais. Não se tratam, pois, de suas competências ou de suas qualidades. Caráter? Ele não tem nenhum e isso sequer o preocupa. O que importa é que ele faz parecer que tem. Comporta-se adequadamente. Estuda cada uma das pessoas de quem pretende alguma coisa, conhecendo suas fraquezas e suas ambições.
Ao longo da narrativa, testemunhamos Duroy envolvido em intricadas relações com outros personagens, especialmente quando são mulheres. Madame Madeleine Forestier e Clotilde de Marelle, por exemplo. A primeira, mulher de um amigo. Ela é jovem, loura, cheia de gentileza e de malícia. É bastante perspicaz. A segunda, baixinha e casada, mostra-se ambiciosa e, além de tudo, infiel ao amante. São tramas complexas, que ultrapassam a simplicidade de uma relação em que há claramente um culpado e uma vítima, pois, na dinâmica do romance, a ilicitude das relações contamina cada personagem. As relações acabam impregnadas de cinismo.
Importante referir também o envolvimento de Duroy com Madame Forestier, mais velha que ele, uma dama rica e distinta da sociedade. Ambos protagonizam uma cena memorável do romance, quando ela, sentimental, em um gesto apaixonado, enrosca alguns fios de cabelo em um dos botões da roupa de Georges Duroy, que nada percebe. Mais tarde, por conta desse gesto para ela simbólico, Madeleine Forestier percebe a evidência, e questiona seu então marido, perguntando se ele teria dormido com uma mulher que pusera cabelos em seus botões. Logo depois, examinando melhor o fio de cabelo branco, ela dá um grito estridente, de uma alegria nervosa e exclama: “Oh!... Oh!... É uma velha... eis aqui um cabelo branco... Ah! Deste agora para velhas... será que elas te pagam?... Ah! És das mulheres velhas... então não tens mais necessidade de mim...fica com a outra...” Por conta da cena, Duroy sente uma raiva furiosa e pensa na amante como a “velha bruxa de Walter”. O romance é repleto de cenas nas quais o caráter dos personagens é colocado em xeque constantemente.
Fica implícito, na sequência dessas cenas, complexas dinâmicas de poder, de desejo e, sobretudo, de controle nas relações entre homens e mulheres na sociedade do século XIX. Afinal, esse era o tempo desta escrita. Os homens e a sociedade, porém, permanecem, assim como a política dos afetos em face do poder e do manejo das ambições.
Há também toda uma representação do feminino jovem e do feminino maduro, designando a “velha bruxa”, expressão que opera de modo a estigmatizar a sexualidade da Senhora Forestier. Não estaria aí o reflexo da falta de proporcionalidade dos castigos na balança moral dos costumes? Enquanto Georges Duroy ascende na escala social, a Senhora Forestier é ridicularizada por suas ações. Velhos estereótipos, sempre persistentes, associados à sexualidade feminina.
Não obstante seu cinismo, Georges alcança seus objetivos e termina por se casar com Suzanne Walter, filha da velha senhora de Walter, culminando uma ascensão social inteiramente baseada em manipulações e traições ao longo de sua trajetória. Apesar do aparente sucesso, resta implícito que ele deverá manter seu comportamento oportunista, talvez para sempre, indefinidamente.
Um final ambíguo e provocativo. Uma obra de arte em termos de literatura que, até hoje, nos faz reverenciar a profundidade com que cada personagem atua na ordem social. Uma ordem que é questionada a cada linha, a cada momento, desde as descrições até os diálogos. Um romance que, mesmo escrito no século XIX, pode ser lido no XXI sem prejuízo dos retratos que faz tanto das relações humanas quanto da psicologia dos personagens. Eu diria mesmo que ainda há Duroys, porque a sociedade na qual vivemos enseja recompensas que reforçam comportamentos tais como os que ele praticou. Por outro lado, suas vítimas não são de todo inocentes, porque aceitam o jogo que ele propõe e aí talvez resida um aparente companheirismo que não é senão cumplicidade. Após certo ponto, reféns da mentira, não há outro caminho a seguir, a não ser manter as aparências e o jogo, indefinidamente. Maupassant. Sempre Maupassant. Irretocável. Imortal.
24 de junho de 2024
23 de junho de 2024
21 de junho de 2024
18 de junho de 2024
A Marcha do Tempo
Gosto desse desenho. Talvez por conta do tempo que ele representa. As horas. A vida. Há momentos em que eu simplesmente presto atenção nele. O tempo. Eu o sinto apenas. Tem horas que não passa, quando, por exemplo, fora de mim, me deparo com algo que desejo muito eliminar. Esse congelamento pode ser desesperador. Desvio do alvo e passo a ficar atenta ao tempo. Imagino então, que quando ele passar, levará consigo aquele elemento perturbador, e vai deixá-lo lá atrás, para sempre, sepultado em um passado inapreensível de onde só eu posso retirá-lo, porém, na forma de memórias do ódio. Sim, há memórias do ódio, memórias da dor, como há memórias do esquecimento. Se você também flerta com o tempo, como eu, vai saber exatamente do que estou falando. Se não flerta, não saberá jamais, razão pela qual não vou explicar nada. Há horas, porém, como agora, precisamente. Agora mesmo: passada a meia-noite, em meio à tranquilidade dos mortos que me cercam de dentro dos livros. Sossego e paz da casa que desconhece o amanhecer. Silêncios da noite que vêm ter comigo, interrompidos apenas pelos sons amigos dos relógios. A marcha dos ponteiros, tão certeira e precisa. E eu aqui, escrevendo para todos e para ninguém. O tempo, que conjuga o verbo continuar, que continua espaços afora, sempre rumo ao nada que a gente deve saber transformar em coisas assim, como essas palavras. Se é que você me entende.
10 de junho de 2024
Ernesto Sabato
Ernesto Sábato (1911-2011) nasceu em Rojas, na Argentina. Diria dele que é complexo como escritor, porque sua imaginação não conhece limites. Quem já o leu, que o diga. E quando pensamos que era um cientista que saiu das exatas ― estudou física e matemática na Argentina e em Paris ― para a literatura, essa transição me parece assustadora, ainda mais quando se pensa que ele não encontrou nem na lógica nem na precisão as respostas que buscou para sua existência e a de seus personagens talvez. De sua obra, ele mesmo falou que veio de um espírito contraditório, manifestando-se melhor na ficção do que no ensaio.
Com diferentes personagens e seus desgarramentos interiores a ficção lhe permitia expressar seu mundo interior em sua diversidade e unidade. Tem-se, assim, que ele próprio se via como paradoxal. Não menos do que alguns de seus personagens. Juan Pablo Castel, por exemplo, saído de “El túnel” (1948) é um pintor solitário que comete um crime passional. Do célebre "Sobre héroes y tumbas" (1961), a temática varia entre a decadência e a redenção. Fernando Vidal Olmos, personagem que sofre com obsessões, busca por significado em um mundo que absurdo. Influenciado por teorias conspiratórias, acredita na existência de uma sociedade secreta composta por cegos que controlam o mundo. Ele representa o extremo do indivíduo entregue à loucura, que dá a ver toda a complexidade da mente humana em sua condição existencial, tema central de sua obra, assim como a dualidade: o bem e o mal que refletem os dilemas morais da humanidade.
Em “El escritor e sus fantasma”, ele nos leva a passeio pela literatura. Não é um livro estruturado e tenso, como às vezes podem ser os seus escritos. Há muito do autor nessa obra, na qual ele conta ao leitor o que sentiu, suas perplexidades e preferências. Sobre estilo, por exemplo, fala-nos que enquanto a ciência é genérica, a arte é individual, razão por que há estilo na arte e não na ciência. Radical por vezes, não hesita em opinar: “Se vem dinheiro por nossa obra, está bem. Mas escrever para ganhar dinheiro é uma abominação. Esta abominação se paga com o abominável produto que assim se engendra.”
Do ponto de vista político, a presença do crítico social se faz sentir na abordagem da corrupção e dos abusos de poder, discurso que lhe assinou destacado papel junto à Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (CONADEP), de onde se originou o "Nunca Más". Nesse sentido, o valor da memória, que ele explora magistralmente como tema: "Porque a memória é o que resiste ao tempo e a seus poderes de destruição, e é algo assim como a forma que a eternidade pode assumir nesse incessante trânsito. E ainda que nós (nossa consciência, nossos sentimentos, nossa dura experiência) nos modifiquemos com os anos, e também nossa pele e nossas rugas vão se convertendo em prova e testemunho desse trânsito, há algo em nós, bem lá dentro, em regiões muito escuras, aferrado com unhas e dentes à infância e ao passado, à raça e à terra, à tradição e aos sonhos, que parece resistir a esse trágico processo: a memória, a misteriosa memória de nós mesmos, do que somos e do que fomos." (Do romance Sobre heróis e tumbas)
9 de junho de 2024
Adúlteras na Literatura: Júlia, Emma, Capitu e Luísa
Vou partir dos clássicos. Júlia, a encantadora protagonista de "A Mulher de Trinta Anos" de Honoré de Balzac, nos é retratada como uma figura marcada por virtudes e fraquezas. Sua busca por paixão e romance muitas vezes a leva a tomar decisões impulsivas e arriscadas. Romântica e apaixonada, Júlia é capaz de grandes gestos de amor e sacrifício, mas é também vulnerável às pressões sociais e às expectativas dos outros. Emma Bovary, de Gustave Flaubert, “Madame Bovary”, publicada pela primeira vez em 1857, é retratada como uma mulher insatisfeita. Descontente da vida provinciana, ela tem sonhos românticos e busca fugir às rotinas de um casamento que considera entediante. Seus casos amorosos a induzem a extravagâncias financeiras. A enigmática Capitu, profundamente machadiana, tem sua honestidade questionada pelo narrador, Bentinho, em “Dom Casmurro”. Acusada de adultério, Capitu é complexa e multifacetada. Suas motivações e ações ensejam as mais diversas interpretações, o que a torna uma figura central na literatura brasileira. Por fim, a jovem e ingênua Luísa, passiva e vulnerável, manipulada pelo “Primo Basílio” no romance imortal de Eça de Queiroz. Ela dá a ver a fragilidade das convenções sociais e as consequências devastadoras do adultério em uma sociedade conservadora.
Em comum, todas demonstram insatisfação e buscam a realização pessoal, seja através de romances proibidos, aventuras emocionais ou fantasias românticas, do resulta um conflito em relação aos seus deveres como esposas, mães e membros respeitáveis da sociedade. A temática do adultério é introduzida como uma forma de fugir à monotonia, à insatisfação ou à falta de paixão em seus casamentos, o que eventualmente leva a consequências significativas e, muitas vezes, trágicas. Destaque para as ambiguidades dessas heroínas que são também vilãs, especialmente em relação ao contexto social e cultural de seus respectivos tempos. Pertencentes à chamada classe média, foram todas mulheres “emergentes” a seu modo. Sua conduta, portanto, se mostrava necessariamente associada a valores conservadores, a uma moralidade rígida, que valoriza a família, virtude feminina e a fidelidade conjugal.
Nesse contexto, o adultério cometido por mulheres da classe média, principalmente, representava uma violação gravíssima das normas sociais estabelecidas, uma forma de rebeldia e de subversão. Nesse contexto, examinar o adultério do ponto de vista dessas imortais personagens femininas nos faz entender melhor os dilemas pessoais e emocionais que elas enfrentaram, bem como as complexidades e contradições da sociedade em que viviam, marcada por hierarquias de gênero, por valores conservadores e por rígidas normas culturais.




