18 de junho de 2024

A Marcha do Tempo


 Gosto desse desenho. Talvez por conta do tempo que ele representa. As horas. A vida. Há momentos em que eu simplesmente presto atenção nele. O tempo. Eu o sinto apenas. Tem horas que não passa, quando, por exemplo, fora de mim, me deparo com algo que desejo muito eliminar. Esse congelamento pode ser desesperador. Desvio do alvo e passo a ficar atenta ao tempo. Imagino então, que quando ele passar, levará consigo aquele elemento perturbador, e vai deixá-lo lá atrás, para sempre, sepultado em um passado inapreensível de onde só eu posso retirá-lo, porém, na forma de memórias do ódio. Sim, há memórias do ódio, memórias da dor, como há memórias do esquecimento. Se você também flerta com o tempo, como eu, vai saber exatamente do que estou falando. Se não flerta, não saberá jamais, razão pela qual não vou explicar nada. Há horas, porém, como agora, precisamente. Agora mesmo: passada a meia-noite, em meio à tranquilidade dos mortos que me cercam de dentro dos livros. Sossego e paz da casa que desconhece o amanhecer. Silêncios da noite que vêm ter comigo, interrompidos apenas pelos sons amigos dos relógios. A marcha dos ponteiros, tão certeira e precisa. E eu aqui, escrevendo para todos e para ninguém. O tempo, que conjuga o verbo continuar, que continua espaços afora, sempre rumo ao nada que a gente deve saber transformar em coisas assim, como essas palavras. Se é que você me entende.

10 de junho de 2024

Ernesto Sabato

Ernesto Sábato (1911-2011) nasceu em Rojas, na Argentina. Diria dele que é complexo como escritor, porque sua imaginação não conhece limites. Quem já o leu, que o diga. E quando pensamos que era um cientista que saiu das exatas ― estudou física e matemática na Argentina e em Paris ― para a literatura, essa transição me parece assustadora, ainda mais quando se pensa que ele não encontrou nem na lógica nem na precisão as respostas que buscou para sua existência e a de seus personagens talvez. De sua obra, ele mesmo falou que veio de um espírito contraditório, manifestando-se melhor na ficção do que no ensaio. 

Com diferentes personagens e seus desgarramentos interiores a ficção lhe permitia expressar seu mundo interior em sua diversidade e unidade. Tem-se, assim, que ele próprio se via como paradoxal. Não menos do que alguns de seus personagens. Juan Pablo Castel, por exemplo, saído de “El túnel” (1948) é um pintor solitário que comete um crime passional. Do célebre "Sobre héroes y tumbas" (1961), a temática varia entre a decadência e a redenção. Fernando Vidal Olmos, personagem que sofre com obsessões, busca por significado em um mundo que absurdo. Influenciado por teorias conspiratórias, acredita na existência de uma sociedade secreta composta por cegos que controlam o mundo. Ele representa o extremo do indivíduo entregue à loucura, que dá a ver toda a complexidade da mente humana em sua condição existencial, tema central de sua obra, assim como a dualidade: o bem e o mal que refletem os dilemas morais da humanidade. 

Em “El escritor e sus fantasma”, ele nos leva a passeio pela literatura. Não é um livro estruturado e tenso, como às vezes podem ser os seus escritos. Há muito do autor nessa obra, na qual ele conta ao leitor o que sentiu, suas perplexidades e preferências. Sobre estilo, por exemplo, fala-nos que enquanto a ciência é genérica, a arte é individual, razão por que há estilo na arte e não na ciência. Radical por vezes, não hesita em opinar: “Se vem dinheiro por nossa obra, está bem. Mas escrever para ganhar dinheiro é uma abominação. Esta abominação se paga com o abominável produto que assim se engendra.

Do ponto de vista político, a presença do crítico social se faz sentir na abordagem da corrupção e dos abusos de poder, discurso que lhe assinou destacado papel junto à Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (CONADEP), de onde se originou o "Nunca Más". Nesse sentido, o valor da memória, que ele explora magistralmente como tema: "Porque a memória é o que resiste ao tempo e a seus poderes de destruição, e é algo assim como a forma que a eternidade pode assumir nesse incessante trânsito. E ainda que nós (nossa consciência, nossos sentimentos, nossa dura experiência) nos modifiquemos com os anos, e também nossa pele e nossas rugas vão se convertendo em prova e testemunho desse trânsito, há algo em nós, bem lá dentro, em regiões muito escuras, aferrado com unhas e dentes à infância e ao passado, à raça e à terra, à tradição e aos sonhos, que parece resistir a esse trágico processo: a memória, a misteriosa memória de nós mesmos, do que somos e do que fomos." (Do romance Sobre heróis e tumbas)

 

9 de junho de 2024

Adúlteras na Literatura: Júlia, Emma, Capitu e Luísa

Vou partir dos clássicos. Júlia, a encantadora protagonista de "A Mulher de Trinta Anos" de Honoré de Balzac, nos é retratada como uma figura marcada por virtudes e fraquezas. Sua busca por paixão e romance muitas vezes a leva a tomar decisões impulsivas e arriscadas. Romântica e apaixonada, Júlia é capaz de grandes gestos de amor e sacrifício, mas é também vulnerável às pressões sociais e às expectativas dos outros. Emma Bovary, de Gustave Flaubert, “Madame Bovary”, publicada pela primeira vez em 1857, é retratada como uma mulher insatisfeita. Descontente da vida provinciana, ela tem sonhos românticos e busca fugir às rotinas de um casamento que considera entediante. Seus casos amorosos a induzem a extravagâncias financeiras. A enigmática Capitu, profundamente machadiana, tem sua honestidade questionada pelo narrador, Bentinho, em “Dom Casmurro”. Acusada de adultério, Capitu é complexa e multifacetada. Suas motivações e ações ensejam as mais diversas interpretações, o que a torna uma figura central na literatura brasileira. Por fim, a jovem e ingênua Luísa, passiva e vulnerável, manipulada pelo “Primo Basílio” no romance imortal de Eça de Queiroz. Ela dá a ver a fragilidade das convenções sociais e as consequências devastadoras do adultério em uma sociedade conservadora. 

Em comum, todas demonstram insatisfação e buscam a realização pessoal, seja através de romances proibidos, aventuras emocionais ou fantasias românticas, do resulta um conflito em relação aos seus deveres como esposas, mães e membros respeitáveis da sociedade. A temática do adultério é introduzida como uma forma de fugir à monotonia, à insatisfação ou à falta de paixão em seus casamentos, o que eventualmente leva a consequências significativas e, muitas vezes, trágicas. Destaque para as ambiguidades dessas heroínas que são também vilãs, especialmente em relação ao contexto social e cultural de seus respectivos tempos. Pertencentes à chamada classe média, foram todas mulheres “emergentes” a seu modo. Sua conduta, portanto, se mostrava necessariamente associada a valores conservadores, a uma moralidade rígida, que valoriza a família, virtude feminina e a fidelidade conjugal. 

Nesse contexto, o adultério cometido por mulheres da classe média, principalmente, representava uma violação gravíssima das normas sociais estabelecidas, uma forma de rebeldia e de subversão. Nesse contexto, examinar o adultério do ponto de vista dessas imortais personagens femininas nos faz entender melhor os dilemas pessoais e emocionais que elas enfrentaram, bem como as complexidades e contradições da sociedade em que viviam, marcada por hierarquias de gênero, por valores conservadores e por rígidas normas culturais.

Entre Sábias e Bruxas: Reflexões sobre a Complexidade da Experiência Feminina

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Mulherengos, libertinos e outros: estereótipos e contextos da masculinidade

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6 de junho de 2024

Entre Sábias e Bruxas: : Reflexões sobre a Complexidade da Experiência Feminina

O livro Entre Sábias e Bruxas: : Reflexões sobre a Complexidade da Experiência Feminina reúne sete crônicas inspiradas no universo feminino, uma experiência que exige tanto sabedoria e prudência quanto ousadia e atrevimento. Em pauta, um passeio pela efervescência das músicas inspiradas por tipos femininos que se tornaram imortais, o relacionamento abusivo que marcou para sempre a vida de Dona Maria, a coragem de Lote, o desprezo inspirado pelas mulheres feias, a dissimulação e duplicidade das sonsas, a dimensão mística que habita e anima a feminilidade em seu nível mais básico, a visita inesperada da morte e, finalmente, a cumplicidade e confiança que abrem portas a confidências e confissões. Com exceção das duas últimas crônicas, ambas inéditas, as outras cinco foram publicadas na Revista Vida Brasil entre 2012 e 2017.
A crônica "Mulheres Cantadas" (2012) convida o leitor para parar e pensar. Afinal, como a mulher tem sido descrita na música popular desde a década de 1920 até o início do século XXI? Do pudor à sexualidade explícita nos anos 80 até a representação da mulher da laje, essa jornada destaca a transformação do feminino no tempo.
"Dona Maria" (2017) revela a história de uma desilusão amorosa marcada por um relacionamento abusivo. Destaque para a coragem que floresce mesmo nas adversidades mais sombrias, sugerindo a preservação das lembranças de Dona Maria como uma forma de manter viva sua história e esperança.
"Mulheres Feias" (2013) aborda a delicada questão da desvalorização feminina baseada unicamente no critério da aparência. Transitando entre preconceitos e hipocrisias, a crônica destaca a necessidade urgente de se repensar, cada vez mais, padrões estreitos de beleza perpetuados pela sociedade.
"Lote" (2012) transporta-nos para a vida de uma judia alemã que sofreu na pele as consequências da Segunda Guerra Mundial e que encontrou no Brasil uma vida nova que incluiu o amor e a superação. Esta crônica destaca a vitalidade de Lote, mesmo diante das adversidades e ainda a vivência de uma última história de amor.
"A Sonsa" (2012) traz à luz as artimanhas de uma personalidade dissimulada, explorando as complexidades das relações interpessoais com um tom irônico e bem-humorado. Que tal desmascarar as sonsas?
A Pombagira (2018) dá testemunho de uma história vivida nos idos da década de 1980. Em pauta meu namoro com Ricardo e a grande surpresa que tive ao descobrir que ele se dedicava às chamadas ciências ocultas. Afinal, foi mesmo um encontro com ela, a Pombagira, essa insuperável dimensão de um feminino sedutor que, definitivamente, não se deixa conquistar por ninguém.
"A Morta" (inédita) relata o impacto de Camila ao descobrir a morte inesperada de sua vizinha Suzana. A trama explora a serenidade de Sílvia, amiga da falecida, diante da morte, e revela os dramas familiares de Suzana. A crônica destaca a inesperada forma como a morte se manifesta, criando uma atmosfera propícia à contemplação dos mistérios da existência humana.
"Confidências e Confissões" (inédita) convida à reflexão de temas como a maturidade dos sessenta anos de vida, celebrando a sabedoria adquirida, a autenticidade expressa no vestuário e a valorização das relações de amizade.
O livro
 “Entre Sábias e Bruxas: reflexões sobre a complexidade da experiência feminina” é um convite à exploração das múltiplas facetas que compõem a feminilidade. Em cada crônica, vão expostas experiências únicas que talvez sirvam para enriquecer nosso entendimento sobre as mulheres, esses seres de Vênus, que podem ter também muito de Marte, e que, afinal, são nada menos que a metade do mundo.
Boa leitura!

Disponível em AMAZON

Mulherengos, libertinos e outros: estereótipos e contextos da masculinidade

 O livro "Mulherengos, libertinos e outros: estereótipos e contextos da masculinidade reúne crônicas que exploram o universo masculino em algumas de suas múltiplas facetas. A autora mistura sua imaginação a histórias reais que apresentam a experiência masculina em diferentes contextos. Encontramos o elegante Alberto, que equilibra seu romantismo com sua tendência à infidelidade, e o delegado César, cujas aventuras amorosas nos anos 1970, em uma pequena cidade da serra gaúcha, nos rendem momentos hilariantes e reflexões sobre as complexidades da conduta libertina em uma sociedade conservadora. Roque, apesar de considerado "louco", desafia as normas sociais e mantém uma relação simbiótica com a pequena comunidade onde vive. Seu Antônio, cuja imponência física contrasta com sua doçura e amabilidade, deixa uma marca indelével na memória daqueles que o conheceram. Finalmente, Marcos Silas, um gerente de banco que se sente refém de uma vida banal e insatisfatória, cujas reflexões internas são expostas aos leitores que podem, assim, acompanhar a vida interior do personagem.
O livro percorre estereótipos e expectativas associados à masculinidade, em sua diversidade e complexidade. Uma leitura que tem em vista entreter, mas também inspirar algumas reflexões sobre o que significa ser homem ontem e ainda hoje, quando a pauta dos gêneros está em franco e caloroso debate.
Boa leitura!

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