24 de outubro de 2020

A Rosa


 A ROSA

A rosa,
a imperecível rosa que não canto,
a que é peso e fragrância,
a do jardim escuro na noite alta,
a de qualquer jardim e qualquer tarde,
a rosa que ressurge da tênue
cinza pela arte da alquimia,
a rosa dos persas e de Ariosto,
a que sempre está só,
a que sempre é a rosa das rosas,
a jovem flor platônica,
a ardente e cega rosa que não canto, 
a rosa inalcançável.
_______

A propósito da rosa de Ariosto, provável relação com Orlando Furioso, canto I, 42-43: La verginella é simile alla rosa, ch'in bel giardin su la nativa spina mentre sola e sicura si riposa... Uma rosa com espinhos que a mantêm só e segura.

Insisto em dizer que me parece provável. 

 Porque Borges é complexo, e nos coloca quase sempre diante de um real que mostra relações intrínsecas e paradoxais: a rosa é uma e é todas, imperecível, porque ressurge alquimicamente das cinzas, e inacessível, porque o autor não a canta, ainda que seja dele o poema que a descreve. 

Memorial das Saudades


 A minha menina azul. Encontrei-a agora perdida em uma pasta de imagens de 2012. Embora eu jamais soubesse de verdade o que achavas dela, gostei quando escolheste levá-la embora, direto da 407 para São Paulo, acomodada numa moldura e envolvida em papelão.

Nunca te disse que, para mim, era confortador que ela se mantivesse contigo para sempre. Sim, para sempre e, a propósito, tipo aquela música que me deste: Until the last moment. E ela ficou.

E depois, na minha imaginação delirante, acreditava que era impossível fugir dela, de sua presença meio impertinente. Um feminino meio Amélie Poulain. Olhar que guarda um misto de receio e de curiosidade. Recatada, observadora, fria como os azuis, mas vaidosa de um pequeno e mal enjambrado lenço vermelho, que destoa das vestes vitorianas. Devia ser pequena. Mesmo o volume das mangas sugere braços finos e delicados. Pouco importa como ou quem ela era: importante era saber que ficava junto de ti, em algum lugar no qual, mesmo invisível, eu estaria sempre presente.

E pouco importa também que fim ela levou. Afinal, agora, sem o teu olhar, ela volta a ser apenas tinta colorida e óleo que secou sobre um pano esticado. Se fosse humana, seria como carne que retém sangue por cima de um esqueleto: bem como a gente, quando fica assim,  desabitada de si e sem sentido nenhum, olhando apenas para o tempo que, sem memória, desacontece com todas as coisas vividas e sentidas.

10 de outubro de 2020

Tempos

 Tempo passa, tempo para, tempo corre, temporal.

27 de setembro de 2020

Domingo

Preguiçoso domingo de chuva sem sol que me distraia ou chame.

22 de setembro de 2020

Primavera


Primavera, dizem. 
Mas o inverno de 2020 será um pouco para sempre ou nunca mais. Porque, na coluna das perdas que se contabilizaram, nem todas as primaveras do mundo vão compensar tua despedida. 

Livro

O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive, e, não tendo ação em si mesmo, move os ânimos e causa grandes efeitos.  

Padre Antonio Vieira, Sermão de Nossa Senhora da Penha, Lisboa, 1652.

20 de setembro de 2020

Então...


 Andar para frente, sim. Mas sem deixar de olhar para trás.