... ou quase. Falta pouco agora.
31 de dezembro de 2018
21 de dezembro de 2018
Reclames de Antigamente
17 de dezembro de 2018
REVISTA VIDA BRASIL
Coisas que só acontecem com bibliófilos
sexta-feira, 14 de dezembro de 2018
C’est la vie! Chegou o dia em que o desapego se impôs. Tive de me desfazer da metade de minha biblioteca. Imposição cruel. Sacrifiquei boa parte da literatura, todas as enciclopédias ― a literária, inclusive, com seus mais de vinte volumes ―, e todos os livros dedicados a temas, digamos assim, mais leves. Foram diversos carregamentos de pesadas caixas que vi sendo levadas para longe de mim, deixando-me desolada. Em compensação, ― porque parece que sempre é preciso buscar desesperadamente recompensas aos nossos sacrifícios ―, a renúncia me impôs uma revisão geral de tudo.
Procedi a um verdadeiro inventário do que possuo. Disputando o espaço centímetro a centímetro, cada um dos livros que me restaram teve de encontrar um lugar certo e inteiramente seu, vizinhando com seus pares, uma vez que tudo agora precisa estar muito organizado.
Essa dolorosa perda de muitos deles só reforçou minha ligação com os remanescentes. Há livros em praticamente todas as peças da casa. São os sobreviventes, brinco. E, se eu já mantinha grande proximidade com eles, agora essa relação se tornou absolutamente promíscua. Retomei-os. Rever, reler, reparar, colar lombadas, encapar, redescobrir. A separaç
ão de uns provocou a reaproximação dos demais e ainda felizes reencontros. Como o de hoje, por exemplo, com um livro adquirido em São Paulo, 2007, mês de julho. ― Já faz tanto tempo? Sim. ― Presente do Rogério, que me levara então ao sebo doSeu Luis, gentilíssimo cavalheiro português, com todas as suas décadas como livreiro. Foi ele próprio que, tomando da escada, buscou, no alto de uma das muitas prateleiras de seu enorme estabelecimento, um livro bastante antigo na aparência, talvez adivinhando em mim alguém capaz de dar valor a algo tão anacrônico, definitivamente.
O livro é de 1864 e foi editado na França. Trata-se do segundo volume de Vies des saints avec le martyrologe romain et réflexions morales en forme de lecture de piété pour chaque jour de l’année.Traduzindo: Vidas dos santos com o martirológio romano e reflexões morais em forma de leitura de piedade para cada dia do ano. A obra foi aprovada pelo bispado, e é de autoria do Abade Caillet, antigo professor do Seminário de Langres. Esse segundo volume, com suas 680 páginas, é dedicado aos mártires cristãos que marcam cada dia do calendário dos meses de abril, maio e junho. Naturalmente, na prática, inencontráveis os outros volumes da mesma obra. Mas a este, é possível consultá-lo como a um calendário, ainda que incompleto. É sempre tentador também abri-lo ao acaso, como se fora um oráculo, e realizar ― por que não? ― leituras edificantes ou, no mínimo, lúdicas.
Foi assim, ao sabor do acaso, que encontrei uma referência a São Bonifácio, apontado como o mártir cristão festejado no dia 14 de maio. Descubro que ele foi supliciado em Tarso, na antiga Cicília romana, — atual Turquia —, sob Diocleciano. Levado às portas de Roma, foi enterra
do na via Latina. Sua história, ainda que sob o estatuto da lenda, me pareceu muito interessante. Divido-a com vocês.
Pois bem. O ano é 304 de nossa era, e a cidade é Roma, onde então vivia Aglaia, uma linda mulher. Uma mulher, aliás, cujas qualidades não se limitavam à beleza, porque era de origem ilustre e também muito, muito, muito rica. Para administrar sua imensa fortuna, valia-se de mais de sessenta intendentes, todos comandados por Bonifácio que, como eles, era também servo de Aglaia. Tão poderosa era ela que, por três vezes, patrocinara jogos públicos naquela cidade. Aglaia vivia, enfim, em meio ao luxo e à opulência que excitam as paixões.
Luxo e opulência na Roma antiga dos anos 300? Instigante, penso eu, até porque em seguida descubro que Bonifácio e Aglaia mantinham entre eles um comércio carnal em tudo reprovável. Sei... Impossível não pensar que, sob alguns aspectos, o mundo mudou bem pouco. Bonifácio, enfim, era amante de sua senhora. Além disso, ele costumava entregar-se também ao jogo, ao vinho e a todas as depravações. Divago por um instante, e me imagino uma leitora do
século XIX, com o martirológio nas mãos, num convento talvez, descobrindo o mundo antigo e as tais depravações no livro que se propõe como leitura piedosa. Mas volto, em seguida, às páginas que agora me prendem. Diz ali que, não obstante lúbrico, apesar de voltado aos prazeres da carne e do vinho, a Bonifácio não faltavam boas qualidades. Era hospitaleiro, liberal e generoso. Se algum estrangeiro chegasse a Roma, podia contar com sua pronta acolhida, um dos encantos da hospitalidade. Sensível aos males alheios, muitas vezes ele percorria as ruas de Roma para socorrer e recolher indigentes. Era, pois, um homem de bom coração. E, muito provavelmente, bonito, penso eu, ou Aglaia não teria se interessado por ele.
Saibamos mais dessa mulher. Aglaia, apesar da fartura e dos prazeres em meio aos quais vivia, experimentava o vazio que estes, sempre transitórios, deixam na alma. — Bem, já era hora de a leitura tornar-se edificante. — Nossa heroína, entedia-se. E ela cede a uma graça interior, uma espécie de apelo divino. Por conta disso, chama Bonifácio à sua presença e lhe diz, textualmente: “Vê em que pecados caímos sem pensar que será preciso aparecer diante de Deus. Ouvi dizer dos cristãos que aquele que honrar os santos que combatem por Jesus Cristo partilharão de sua glória. Ouvi também que os servidores de Deus combatem no Oriente contra o demônio e que eles entregam seus corpos aos tormentos para não renunciarem à sua fé. Vá, pois, e traga-nos relíquias de alguns santos mártires, para que nós os honremos e para que sejamos salvos por sua intercessão.” Bonifácio, então, — pelo visto muito obediente aos desejos de sua senhora —, toma boa quantidade de ouro “para adquirir as relíquias e para dar aos pobres” e dispõe-se a partir.
Foram doze cavalos, três liteiras e muitos perfumes para honrar com eles as santas relíquias. Assim equipado, ele parte, dizendo antes a Aglaia: “Senhora, se eu encontrar relíquias, eu as trarei. Mas se as minhas vos chegarem, sob o nome de mártires, vós as recebereis?” Ao que ela lhe respondeu: “Deixa teus prazeres e pensa que vais procurar as relíquias dos santos. Para mim, pobre pecadora, espero pouco. Rogo ao Deus todo-poderoso que tomou a forma de escravo e derramou seu sangue por nós, que envie seu anjo diante de ti, te conduza, e realize meus desejos sem olhar meus pecados.”
Bonifácio partiu. Penso nos caminhos do Império, nos cavalos e nas liteiras. E percebo uma rápida, quase instantânea, transformação em nosso herói. Ao longo do caminho, ele dizia: “É justo que eu não beba vinho nem coma carne, porque, por indigno que eu seja, devo portar as relíquias dos santos.” A seguir, erguendo os olhos aos céus, acrescentou: “Senhor Deus todo-poderoso, pai de vosso único filho, dirigi minha viagem, a fim de que vosso santo nome seja
glorificado por todos os séculos.” Enfim, chegaram a Tarso, onde a perseguição aos cristãos se mostrava particularmente violenta. Dirigindo-se aos seus companheiros, Bonifácio pede-lhes que procurem abrigo e que façam repousar os cavalos, porque ele iria imediatamente ao encontro do que mais desejava. E vai sozinho, então, ao lugar dos combates. O espetáculo que se ofereceu a seus olhos era, porém aterrador: santos mártires supliciados.
Um, pendurado pelo pé, sofria com o fogo aceso sob sua cabeça. Outro, amarrado pelos membros, era esticado em quatro direções. Outro ainda era serrado pelos carrascos. Havia o que teve as mãos cortadas, e o que fora colado na terra com um pé na garganta. Havia também o que tivera os membros torcidos e atados nas costas, enquanto era incessantemente espancado. Vinte cristãos eram assim atormentados. Todavia, enquanto esse espetáculo sangrento e aterrador horrorizava os espectadores, os mártires, eles mesmos aos quais se impunham tais tormentos, mantinham uma tranquilidade inalterável.
Aproximando-se de um deles, Bonifácio beijou respeitosamente suas feridas e exclamou: “Como é grande o Deus dos cristãos! Servidores de Jesus Cristo, rogai por mim, para que eu me una a vós e partilhe de vosso combate contra os demônios.” Disse-lhes ainda: “Coragem, santos mártires! Combatei generosamente! O combate é breve, e a recompensa é eterna.”
Simplício, o governador, percebendo a presença de Bonifácio, perguntou-lhe: “Quem é este que zomba dos deuses e de mim? Que ele seja capturado e conduzido a meu tribunal.” E assim foi. Acrescentou depois: “Quem és tu que desprezas a grandeza de meu tribunal?” Bonifácio: “Já vos disse. Sou cristão. Se perguntais meu nome, chamam-me Bonifácio.” Disse-lhe o juiz: “Antes que eu te faça atormentar, aproxima-te e sacrifica aos deuses.” Bonifácio: “Eu vos digo ainda que sou cristão e que não sacrifico a vossos demônios.” O juiz, enfurecido, afiou ferros e os fez introduzir por debaixo das unhas das mãos de Bonifácio, que sofreu pacientemente olhando para o céu. Ele não cede. Ordenam-lhe que abra a boca, para que nela fosse vertido chumbo derretido. Inútil. Bonifácio diz então: “Senhor Jesus, filho do Deus vivo, vinde em meu socorro e não sofrais porque fui derrotado.” Leio assombrada que o chumbo derretido não lhe causou mal algum, e que tampouco Bonifácio sofreu quando foi atirado para dentro de uma caldeira de breu. E, — garante-nos o livro —, depois de diversos outros suplícios que duraram todo o dia até a manhã seguinte, o juiz, espantado diante dos poderes de Jesus Cristo assim como da constância do agora mártir Bonifácio, ordenou que lhe cortassem a cabeça.
Interrompo a leitura por um momento. Reflito acerca da natureza das pregações cristãs. E penso até que ponto a vida real, material, humana, deveria enfrentar esses implacáveis desafios em nome da salvação. Prossigo. Descubro que os companheiros de viagem de Bonifácio, preocupados com sua prolongada ausência, procuravam-no por toda parte, dizendo uns aos outros: “Sem dúvida está em algum lugar mal frequentado, divertindo-se, enquanto nos atormentamos a procurá-lo.” Nisso, encontram o irmão do carcereiro, ao qual indagam se acaso não vira um estrangeiro vindo de Roma, ao que ele lhes respondeu que um fora martirizado naquela manhã, sofrendo por Jesus Cristo. Ouvindo isso, os companheiros de Bonifácio retrucaram, dizendo que aquele a quem procuravam era um devasso, um bêbado, que nada tinha em comum com os mártires. Todavia, a descrição do martirizado fora exata: um homem firme, forte, de cabelos crespos e louros, que usava um manto escarlate. Conduzidos para diante do corpo, qual não foi a surpresa dos companheiros que nele reconheceram Bonifácio. “Servidor de Deus!” ― exclamaram chorando. — “Perdoai-nos o mal que pensamos de vós!”. Embalsamaram-no depois, e, envolvendo-o em linhos preciosos, retomaram o caminho de volta.
Enquanto isso, longe dali, um anjo aparece a Aglaia e lhe diz: “Aquele que era vosso escravo é agora vosso irmão. Recebe-o como vosso senhor e coloca-o dignamente. Vossos pecados serão perdoados por sua intercessão.” E assim foi. Aglaia, tocada pela mensagem, prontamente convidou eclesiásticos piedosos que trouxeram círios e perfumes. Cumprira-se o pedido profético de Bonifácio. As santas relíquias chegaram e foram colocadas em cinquenta locais ao longo da via Latina. Aglaia constrói também um oratório digno do santo mártir e, desde então, renunciou ao mundo, distribuiu suas riquezas entre os pobres e consagrou-se inteiramente a Jesus. Viveu por mais treze anos ainda, em exercício de piedade. Ela foi sepultada ao lado de Bonifácio.
Termino de ler a história e volto à realidade, depois de ter viajado no tempo e experimentado emoções que me são estranhas, a mim e a você talvez. Os livros têm esse poder de nos abstrair de nosso espaço, de nosso tempo, de nossos hábitos. Nesses percursos, todavia, a imaginação é refinada: ela pode nos levar a Roma e nos aproximar de Aglaias e de Bonifácios, em que pese os mais de mil e setecentos anos que nos separam. Fecho o martirológio, e é como se a Roma antiga por onde viajei há pouco se recolhesse, absorvida pelas páginas
amareladas. O livro volta para a estante e eu, para essa minha escrita e para você, desconhecido leitor, a quem eu confidencio que essas coisas, — acredite —, só acontecem com bibliófilos.
Autor: Maristela Bleggi Tomasini
28 de novembro de 2018
26 de novembro de 2018
Reclames de Antigamente
18 de novembro de 2018
O Barão de Lavos
“A plenitude da vida, a arrogância genital, a evolução orgânica ao máximo, própria dos 32 anos, mantinham no barão ainda fortes e dominantes as tendências naturais da virilidade. Ele tinha por enquanto junto do efebo os mesmos apetites de penetração e de posse que o homem sente de ordinário para com a mulher. Todavia, em raros momentos de vertigem, ao contato da sua carne com aquela outra virilidade impetuosa e fresca, percorria-lhe os músculos, fugidio, breve, um movimento efeminado; faiscava-lhe no espírito uma pregustação de prazer que tivesse por base a passividade, o abandono; entrava de suporar-lhe da vontade uma solicitação em escorço de não se entregar, de ser possuído, de ser femeado, em suma. O que era, a um tempo, corolário do seu temperamento, é sinal patognômico do finalisar de uma raça inútil, do agonizar de uma família que vinha assim desfazer-se, podre das últimas aberrações e das últimas baixezas, na pessoa do seu representante derradeiro. Era como o início da formação de um edema de natureza moral, purulento, mole, crescendo traiçoeiramente sem dor e sem pruridos, abeberando-se farto e rápido na degradativa essência do doente, com numa esterqueira os cogumelos.”
BOTELHO, Abel. O Barão de Lavos, 1891, p. 94
Fonte: https://goo.gl/HkNWqE
Obra disponível em: https://goo.gl/x7mzbR
E a propósito, uma nota literária publicada em 1898 pelo Jornal do Recife, periódico que circulou de 1858 a 1938. A nota serve para exemplificar o tipo de repercussão desse gênero literário no Brasil:
E a propósito, uma nota literária publicada em 1898 pelo Jornal do Recife, periódico que circulou de 1858 a 1938. A nota serve para exemplificar o tipo de repercussão desse gênero literário no Brasil:
14 de novembro de 2018
REVISTA VIDA BRASIL
A morte do homem moderno
segunda-feira, 29 de outubro de 2018
É em vão que se busca o homem moderno. Ele morreu ao final do último século.De pagão na Antiguidade a obediente filho de Deus no Medievo, ele deu ouvidos um dia ao discurso de Descartes. Aos poucos, descobriu a razão, e assimilou um método que mudaria a face do mundo. Fez-se revolucionário ao depois, porque desconfiou do poder, desejou a liberdade e a igualdade.Modernizou-se, enfim. Mudou a face do mundo e a sua própria. A luz divina substituiu-se pela luz da razão e pela força da vontade.
O sobrenatural cedeu lugar ao natural. A natureza humana assumiu novo estatuto, inerente à ordem da vida, todavia, com plena consciência de ter consciência disso, capaz de abstrair e de valorar, capaz de dominar uma linguagem não apenas descritiva como ainda simbólica.
Por três séculos o homem construiu a modernidade.
Pouca coisa?
Não. Muita. Grande passo para uma humanidade que, por longo tempo, aceitou passivamente a tutela, se não de um deus, a de seus representantes divinos. A esse deus e seus representantes é que se deve o arcabouço de valores tradicionais que a razão, todavia, não desacreditou: antes os secularizou, esvaziando-os de sua antiga dimensão transcendente. Tais valores pretendiam representar uma ordem que se opunha ao caos, com a mesma polaridade com que o bem se oporia ao mal. Uma antítese, enfim. Porém sem a beleza daquela que o paganismo sacralizara com Apolo e Dionísio, divindades antes complementares que opostas. Velha antítese conservada em seu diapasão pragmático, que o medievo consagrou com acentuada polaridade, quando
separou deus do diabo. Ordem contraposta à desordem, luz contraposta à escuridão. Eis que o bem e o mal viriam a protagonizar, por longo tempo, a divina comédia da existência. O poder temporal, visceralmente unido ao poder espiritual, é imposto em face dos homens como porta-voz do bem maior ao qual opor-se era anátema. O cristianismo, que herda do judaísmo seu fundamento teológico e arcabouço normativo, se sobrepõe ao paganismo. Não se negue, porém, o devido tributo a esse passado medieval que conferiu ao homem uma alma imortal e uma salvação individual: o ser é singular e as coletividades, por consequência, são aparentes e transitórias.
Refém de forças guerreiras, até então fantoche do destino, o homem moderno finalmente encontrou, na razão, ainda que tênue, o fio condutor que livremente escolheu para conduzir seu destino. Reaprendeu-se como homem. Redimensionou-se no mundo e na história, política e filosoficamente, ao longo de três séculos, descobrindo a si mesmo e à realidade, esfinge à qual ele interroga em lugar de a ela conformar-se. Individualista, sim; todavia, à medida que se desprende de velhas pertinências comunitárias, o homem moderno é também massa, quando se espelha e se identifica com os grandes movimentos que vão emergir na história. Em pleno século XIX, ele substitui a fé em deus
pela fé na ciência, ― geral e totalizadora também ela ―, e toma a racionalidade como guia superior, único capaz de lhe fornecer um modelo de mundo, cuja rigidez, pressuposta por convicção moral, desconfia da diversidade, elemento visto como ameaçador ao ideal de unidade histórica: um passado que explicasse o presente e preparasse o futuro. Nesse contexto, as singularidades individuais arriscam contaminar corpus fechados de ideias, o que explicaria a tendência a um pensamento único que só se acentuará ao longo do tempo.
A modernidade racional não era, enfim, sem paradoxos. E de tanto duvidar daquilo que os sentidos lhe entregavam, o homem moderno, talvez por força do próprio método que tanto lhe rendera em termos de ordem e de progresso, começou a duvidar da razão. Como resultado disso, a verdade, enfim, sucumbiu, descoberta não em sua nudez, mas em sua absoluta superficialidade. Porque se o homem moderno pretendeu a verdade, o homem pós-moderno prescinde dela. A verdade banaliza-se: cada um tem a sua, e nenhuma prevalece sobre a outra. Isso não é sem consequência, porque tal sorte de ruptura se estende à história. Passado, presente e futuro coexistem no aqui e agora, eternamente.
Para onde foi o homem moderno que se movia pelo mundo impulsionado pela vontade dirigida pela razão? Que punha sua fé no progresso, que ora a técnica, ora a ciência lhe trariam, graças a Deus. Cada vez menos visível, ele talvez ainda se esforce para protagonizar, ao menos, aqui e ali, os valores tradicionais dos quais se acredita herdeiro. Pouco a pouco, o dono de si sucumbe aos mecanismos de dominação, que falseiam a liberdade substituindo-a por um ideal meramente formal. Neste processo, entre a coletivização comunista e a capitalização dos desejos que cria cada vez mais e maiores necessidades, direitos são proclamados à revelia da possibilidade de seu pleno exercício. Cada vez mais as gerações se deparam com mundos profundamente diferentes daqueles que habitaram seus pais. O passado é desqualificado na medida em que a existência se acelera, de sorte que a felicidade se aproxima cada vez mais da angústia, ambas despontando, porém, espetacularmente. Porque efêmero, virtualmente efêmero, é o caráter de tudo quanto hoje nos cerca.
Decepcionado pelas ideologias mobilizadoras, liberais, sociais ou nacionais que trouxeram guerras e massacres com vistas a um universalismo utópico, homem moderno assistiu a modernidade esvaziar-se de sentidos, mesmo daqueles que só a linguagem pode conferir ao mundo, por vezes tão ricamente, aliás. É que mesmo a linguagem mais nobre foi assimilada àquela dos anúncios publicitários. Mediocrizou-se. Homens e produtos disputam o mercado, cada vez mais violentamente, obedientes ao coro formado pelas vozes de multidões anônimas, ora pacíficas, ora hostis, ao sabor de suas inclinações momentâneas.
Até que a vontade do homem se tornasse a vontade do nada.
Nihil, o nada que dissolve a subjetividade, núcleo do indivíduo que agora se descobre, contudo, múltiplo, projetado nas facetas multiplicadoras das redes. No nada imagético, espelho narcísico, apaixona-se por um eu que não é senão eco de frases feitas. Descobre-se prosélito de uma religião cujo corpo doutrinal foi substituído por slogans. Ele discursa, ele grita, ele vocifera ora Paz, ora Justiça, podendo escolher, ― #malmequer, #bem-me-quer ― a cada manhã, uma nova causa pela qual lutar no evento que terá lugar logo mais. As regras devem ceder diante das exceções. O denuncismo substituiu-se à capacidade crítica. Nada mais se debate, e os espíritos empobrecem. A liberdade de escolha resta profundamente comprometida. É no nada que este homem pós-moderno deposita sua liberdade. Pensa-se múltiplo, quando não está senão dividido, dissolvido na massa, nos movimentos, morto em sua subjetividade à qual renúncia, hipnotizado por paradigmas estéticos e culturais fragmentados, onde é possível acreditar um pseudo passado e pseudo futuro, velho sonho das bruxas que o medievo estigmatizara no caos que se opunha à Ordem Divina.
Releio-me. Constato não sem surpresa o quanto minha própria percepção das coisas precisa fragmentar-se, ela também, para melhor descrever o que percebo à minha volta. E ocorre-me o quanto de nostalgia encontro em minhas palavras, fruto contagioso talvez dos sonhos vislumbrados no olhar de alguns dos que me cercam. Desejaríamos ressuscitar o homem moderno, cuja carne já se desprende dos ossos? Mac Benac! Para tanto seria preciso recriar ou despertar alguém ingenuamente capaz de acreditar em verdades universais. Fugindo às decepções e aos desenganos, ele escolhe sonhar com um destino inspirado em ideais da fé, espelho divino da Lei e da Ordem. Seus sentidos
despertam, ao som mágico da flauta que o encanta. O futuro, do fundo do abismo, lhe sorri aqui e agora, reflexo insólito da ilusão que encarna a Esperança, brilhando escondida entre todos os males do mundo.
Autor: Maristela Bleggi Tomasini
2 de novembro de 2018
Quanta saudade, Alex
Encontro então fotografias de tempos atrás e, por um instante, apenas me encanto.
Depois sobrevêm as saudades e a dor.
Vou chorar para sempre a tua perda.
Depois sobrevêm as saudades e a dor.
Vou chorar para sempre a tua perda.
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