"Queres dizer que a nossa conversa
chegou ao fim, Não foram essas as minhas palavras nem foi esse o sentido delas,
Realmente não, desculpa, Em todo o caso, pensando bem, conviria que nos
deixássemos ficar por aqui, é visível que há demasiada tensão entre nós, saltam
faíscas a cada frase que nos sai da boca, Não era essa a minha intenção, Nem a
minha, Mas assim aconteceu, Sim, assim aconteceu, Por isso vamos despedir-nos
como bons meninos que somos, desejar-nos boas noites e felizes sonhos, até um
destes dias, Liga-me quando quiseres,"
SARAMAGO, José. O homem duplicado.
28 de dezembro de 2015
25 de dezembro de 2015
24 de dezembro de 2015
Dona Felicidade
"Às nove horas, ordinariamente,
entrava D. Felicidade de Noronha. Vinha logo da porta com os braços estendidos,
o seu bom sorriso dilatado. Tinha cinqüenta anos, era muito nutrida, e, como
sofria de dispepsia e de gases, àquela hora não se podia espartilhar e as suas
formas transbordavam. Já se viam alguns fios brancos nos seus cabelos levemente
anelados, mas a cara era lisa e redonda, cheia, de uma alvura baça e mole de
freira; nos olhos papudos, com a pele já engelhada em redor, luzia uma pupila
negra e úmida, muito móbil; e aos cantos da boca uns pêlos de buço pareciam
traços leves e circunflexos de uma pena muito fina. Fora a íntima amiga da mãe
de Luísa, e tomara aquele hábito de vir ver a pequena aos domingos. Era
fidalga, dos Noronhas de Redondela, bastante aparentada em Lisboa, um pouco
devota, muito da Encarnação."
QUEIRÓS, Eça. O Primo Basílio
23 de dezembro de 2015
Corações schillerianos
"Acontece assim sempre a esses corações schillerianos: até o último instante qualquer ganso é para eles um cisne."
Dostoievski, Crime e castigo.
Dostoievski, Crime e castigo.
22 de dezembro de 2015
20 de dezembro de 2015
19 de dezembro de 2015
O Antimundo
Uma nova moda está lançada: a
antimedicina. Ivan Illich[2], citado por Michel
Bosquet, se faz dela o teórico. Ele afirma que a medicina não serve para nada
(ou pouco falta para isso). Que os médicos fazem mais mal do que bem. Que “os
medicamentos matam entre 60 e 140 milhões de americanos nos hospitais” (Le Nouvel Observateur). Sofisma que é preciso
interpretar sob o ângulo ideológico. Illich acusa a medicina de ser objetivamente
“cúmplice” dos poderes constituídos. Ter boa saúde em uma sociedade corrompida
é estar “adaptado” à corrupção. “A medicina, ajudando os indivíduos a
suportarem aquilo que os destrói, contribui para com esta destruição” (ibid.).
A abordagem de Illich assemelha-se àquela
dos antipsiquiatras. Para esses últimos, os doentes mentais são normais,
enquanto as pessoas normais são doentes. Suportar “normalmente” o mundo
exterior é confessar, por este mesmo fato, que se vive em simbiose com ele.
Ora, esse mundo é acusado de ser doente. Ser “normal” é, pois, ser doente. Os “alienados”,
ao contrário, “testemunham” sua alienação. Recusam-se a lidar com a “sociedade
burguesa”: sinal de boa saúde.
Os mesmos sofismas prevalecem pouco a
pouco em todas as disciplinas. A escola é especialmente visada. A seleção
torna-se o inimigo número um. Todos devem chegar aos mesmos resultados. O homem
é uma tábula rasa. Ele tem o “direito” de ser adulto e de ser inteligente. Além
disso, tem direito aos diplomas, evidentemente. O professor, este, não tem mais
o direito de dar lições. Ele deve “colocar-se à escuta” de seus alunos e ajudá-los
a “melhor se compreenderem”. Sua experiência nada vala diante da “espontaneidade”.
É uma antipedagogia.
Há também a antisociedade. Todas as
doutrinas igualitárias se unem para exigir a abolição das “barreiras”. Em
primeiro lugar aquelas das hierarquias. Moralistas impacientes atacam o “pai”
sob todos os seus avatares. As estruturas da família eclodem. O inferior julga
o superior. Condena-se o poder em nome da “segurança”, a beleza em nome do
informal, a cultura em nome da contracultura, o bom-senso em nome do absurdo.
A vida púbica é dominada por uma
tendência: a superioridade social. A ponto de parecer ultrajante desafiá-la. É
preciso dizer, todavia: a primeira tarefa do Estado não é de ordem econômica ou
social. Ela é de ordem política. O Estado não é uma ferramenta a serviço das
massas. Ele transcende a simples soma dos cidadãos. Existe uma razão de Estado,
fundamento da teoria europeia dos poderes. O papel do Estado é o de assegurar
ao povo não somente um “amanhã”, mas, sobretudo, um destino. A condição desse destino é a independência.
Toda política, aliás, exige a designação de um inimigo. Em um mundo de
superpotências, podemos ao menos querer ser uma delas. Falam-nos de
mundialismo, de República Universal e de dependência “obrigatória”. É uma antipolítica.
O biologista Henri Laborit declarou recentemente: “Depois da antipsiquiatria,
da antimedicina, da anti-educação, aguardo a chegada da antipsicologia e a
antisociologia. Embora já tenhamos uma antieconomia, quando a anti-espécie
humana? Teremos então criado um antimundo”.
A verdade será mentira, a fraqueza será
força, a igualdade será a lei. 1984[3]: acontece em nove anos.
[1] Robert de
Herte é um dos pseudônimos
adotados por Alain de Benoist. (N. da T.).
[2] Interessante. Sobre este autor, que fala de
iatrogenia e que Olavo de Carvalho recomenda, encontrei a seguinte crítica em
obra publicada em Les Classiques de Sciences Sociales:
Illich acredita defender o
interesse dos desamparados daqui e dali, propondo o “desemprego criador”, ou
seja, o trabalho não remunerado e destinado a produzir unicamente valores de
uso. Nas sociedades contemporâneas somente os ricos têm a possibilidade de
praticarem o desemprego criador. Se os desamparados, os pobres e os
desfavorecidos dos países subdesenvolvidos e desenvolvidos tentarem ser
desempregados criadores, — bem! — eles serão ainda pobres e verdadeiros
desempregados. Nesse sentido, eu poderia intitular este artigo como “Ivan
Illich u=ou o criador do desemprego”. Illich é, sem dúvida, um profissional mutilador
(ASSOGBA, Yao. “Ivan Illich. Essai de
synthèse”. Artigo publicado na revista Critères,
Montréal, n° 26, 1979, pp. 217-235). N. da T.
[3] George Orwell (N. da T.).
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