15 de dezembro de 2015
14 de dezembro de 2015
13 de dezembro de 2015
8 de dezembro de 2015
Avdótia Românovna
"Avdótia Românovna era muito
bonita, alta, maravilhosamente bem feita, forte, aprumada, o que se via em
todos os seus gestos, e o que, aliás, não era de maneira nenhuma um obstáculo a
que tivesse também movimentos ágeis e graciosos. No rosto parecia-se com o
irmão, mas podia até dizer-se que era uma autêntica beleza. Tinha os cabelos
castanhos, um pouco mais claros que os do irmão; os olhos quase negros,
cintilantes, altivos e, ao mesmo tempo, às vezes, de uma doçura invulgar. Era
pálida, mas não de palidez doentia; o seu rosto resplandecia fresco e são.
Tinha a boca um tanto pequena; o lábio inferior, fresco e vermelho, era
levemente saliente, bem como o queixo... o que era a única irregularidade
naquele belíssimo rosto, mas que entretanto lhe infundia uma nota especial, e,
entre outras coisas, uma certa altivez. A expressão do seu rosto era sempre
verdadeiramente mais séria do que alegre, preocupada; mas o sorriso ficava bem
a esse rosto; como lhe assentava bem o riso jovial, juvenil, despreocupado! Por
isso era compreensível que o impetuoso Razumíkhin, franco, simples, honesto e
forte como um homem antigo, que nunca na sua vida vira nada semelhante,
perdesse o juízo assim que a viu."
Dostoievski, Fiodor Mikhailovitch, em Crime e Castigo.
4 de dezembro de 2015
A propósito
Você, meu caro, desconfie da esposa
amável, da esposa cordial, gentil. A virtude é triste, azeda e neurastênica.
Nelson Rodrigues
Nelson Rodrigues
30 de novembro de 2015
Juliana
"Juliana entrou, arranjando
nervosamente o colar e o broche. Devia ter quarenta anos e era muitíssimo magra. As feições,
miúdas, espremidas, tinham a amarelidão de tons baços das doenças de coração. Os olhos
grandes, encovados, rolavam numa inquietação, numa curiosidade, raiados de sangue, entre
pálpebras sempre debruadas de vermelho. Usava uma cuia de retrós imitando tranças, que lhe
fazia a cabeça enorme. Tinha um tique nas asas do nariz. E o vestido chato sobre o peito,
curto da roda, tufado pela goma das saias — mostrava um pé pequeno, bonito, muito apertado
em botinas de duraque com ponteiras de verniz".
Eça de Queirós, O Primo Basílio.
Eça de Queirós, O Primo Basílio.
Leopoldina
"Era a sua íntima amiga. Tinham sido vizinhas, em solteiras, na Rua da Madalena, e
estudado no mesmo colégio, à Patriarcal, na Rita Pessoa, a coxa. Leopoldina era a filha única
do Visconde de Quebrais, o devasso, o caquético, que fora pajem de D. Miguel. Tinha feito
um casamento infeliz com um João Noronha, empregado da alfândega. Chamavam-lhe a
"Quebrais"; chamavam-lhe também a "Pão e Queijo".
Sabia-se que tinha amantes, dizia-se que tinha vícios. Jorge odiava-a. E dissera muitas vezes a Luísa: "Tudo, menos a Leopoldina!"
Leopoldina tinha então vinte e sete anos. Não era alta, mas passava por ser a mulher mais bem feita de Lisboa. Usava sempre os vestidos muito colados, com uma justeza que acusava, modelava o corpo como uma pelica, sem largueza de roda, apanhados atrás. Dizia-se dela com os olhos em alvo: "é uma estátua, é uma Vênus!" Tinha ombros de modelo, de uma redondeza descaída e cheia; sentia-se nos seus seios, mesmo através do corpete, o desenho rijo e harmonioso de duas belas metades de limão; a linha dos quadris rica e firme, certos quebrados vibrantes de cintura faziam voltar os olhares acesos dos homens. A cara era um pouco grosseira; as asas do nariz tinham uma dilatação carnuda; na pele, muito fina, de um trigueiro quente e corado, havia sinaizinhos desvanecidos de antigas bexigas. A sua beleza eram os olhos, de uma negrura intensa, afogados num fluido, muito quebrados, com grandes pestanas. Luísa veio para ela com os braços abertos, beijaram-se muito.
E Leopoldina, sentada no sofá, enrolando devagarinho a seda clara do guarda-sol, começou a queixar-se: tinha estado adoentada, muito secada, com tonturas. O calor matava-a. E que tinha ela feito?"
Eça de Queirós, O Primo Basílio.
Sabia-se que tinha amantes, dizia-se que tinha vícios. Jorge odiava-a. E dissera muitas vezes a Luísa: "Tudo, menos a Leopoldina!"
Leopoldina tinha então vinte e sete anos. Não era alta, mas passava por ser a mulher mais bem feita de Lisboa. Usava sempre os vestidos muito colados, com uma justeza que acusava, modelava o corpo como uma pelica, sem largueza de roda, apanhados atrás. Dizia-se dela com os olhos em alvo: "é uma estátua, é uma Vênus!" Tinha ombros de modelo, de uma redondeza descaída e cheia; sentia-se nos seus seios, mesmo através do corpete, o desenho rijo e harmonioso de duas belas metades de limão; a linha dos quadris rica e firme, certos quebrados vibrantes de cintura faziam voltar os olhares acesos dos homens. A cara era um pouco grosseira; as asas do nariz tinham uma dilatação carnuda; na pele, muito fina, de um trigueiro quente e corado, havia sinaizinhos desvanecidos de antigas bexigas. A sua beleza eram os olhos, de uma negrura intensa, afogados num fluido, muito quebrados, com grandes pestanas. Luísa veio para ela com os braços abertos, beijaram-se muito.
E Leopoldina, sentada no sofá, enrolando devagarinho a seda clara do guarda-sol, começou a queixar-se: tinha estado adoentada, muito secada, com tonturas. O calor matava-a. E que tinha ela feito?"
Eça de Queirós, O Primo Basílio.
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