27 de março de 2013

REVISTA VIDA BRASIL

MULHERES FEIAS
quarta-feira, 13 de março de 2013
São muitos os tipos femininos. Eu ficaria horas e horas falando sobre isso, e escreveria páginas e páginas. Contudo, quero falar hoje apenas sobre um tipo de mulher. A que me comove mais. A mulher considerada feia. Fico perplexa quando percebo, a toda hora, a colocação de juízos de valor sobre mulheres, desqualificando-as a partir do simples fato de serem feias. Isso é perturbador, especialmente em um mundo onde a imensa maioria de nós está bem longe de ser bonita!

Quem, afinal, é tão pleno de perfeições que se dê ao luxo de apontar, no outro, a feiura como defeito. Eu diria que a feiura é normal; o belo, exceção. E uma rara exceção.
E estes juízos não nos vêm de pessoas incultas, excluídas do universo social que acrescenta uma boa formação intelectual ou mesmo um mínimo de aptidão para a vida em sociedade. Desqualificações deste tipo partem, na maioria das vezes que eu as escuto, de homens. E de homens cultos, bem formados, que parecem achar bonito fazer referências debochadas, irônicas ou sarcásticas a propósito da imagem de certas mulheres, especialmente quando elas, por qualquer motivo, se destacam.
Pudera! ― dizem. ― Só podia ser gorda, ou só podia ser feia, ou só podia ser uma velha, um bagulho, uma baranga, etc. E isso não parte de nenhuma Brastemp de homem, não! Parte de sujeitos comuns, por vezes bem longe de se constituírem no sonho de consumo feminino das areias de uma praia. De bermuda (sem grife) e de chinelo de dedo (também sem grife), parados numa esquina, privados de suas referências econômicas, sociais e culturais, não sei se arrumavam plateia ou fãs. Como diz minha querida amiga Verinha: ―“Eles se acham! Chamam mulher de baranga, de bagulho, de velha! Mas se a gente soltá-los na rua, sem o carro, sem os títulos, sem os cartões de crédito e sem a identidade pela qual são conhecidos, sobra o quê? Ah! Não arrumam nem uma só daquelas que chamam de feias para ficar com eles!” ― Palmas, Verinha! Adorei! E, cá entre nós, mulher quando quer, seja do jeito que for, feia, bonita, gorda, magra, velha ou moça, como se diz, “para o gasto”, arruma, sim, senhor!
Maldade por maldade, se você conferir com que mulheres estes homens convivem ou conviveram, descobre que nenhuma delas era assim um modelo de perfeição física. Poucos têm ou tiveram por esposas ou companheiras mulheres que sairiam em capas de revistas masculinas. Talvez nem mesmo tenham descolado alguma assim para “ficar” com eles ao menos... Alguns escondem a própria mulher! Têm vergonha dela. Outros simplificam: trocam. Eu me pergunto, então, que tipo de ressentimento pode ser este? Ocorre-me a famosa frase de Vinícius, que disse “as feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”.  Ao menos ele pediu perdão. Fora o fato de ter a seu favor a poesia, e um gosto pelo feminino que ele, melhor que ninguém, soube construir com sua literatura. Não se trata, pois, de uma opinião, como a que partiu do poeta, o tipo de desqualificação à qual eu me refiro. Falo das colocações estúpidas, pesadas, reducionistas. Falo daquelas que saem de bocas repletas de crueldade, e que buscam plateias e aplausos.
Ouvi um dia, de passagem, um diálogo entre um homem e uma mulher, esta última jovem e bonita, onde ele se divertia em descrever uma terceira figura feminina, aliás, famosa e empreendedora, como gorda, bagulho, juntamente com outros adjetivos que, de forma alguma, serviam para desmerecer qualquer uma das realizações levadas a efeito por esta mulher. Obviamente ele agiu assim por um motivo muito evidente. Não precisou dizer que a interlocutora era bonita, pois subentendeu o elogio através da desqualificação da outra, a terceira no diálogo, referencial do “não dito”. Nenhum homem diz para uma mulher que ele julgue feia que outra mulher é feia. A crítica feita a uma é um elogio indireto a outra. Há mulheres que caem nessa, infelizmente. Compreensível.
Eu nunca negaria que é bom sentir-se mais bonita do que “a” ou do que “b”, quando a competição é de ordem manifestamente sexual. Se querem competir para ver qual a mais gostosa, muito bem! Vale tudo. Até unhada e puxão de cabelo. Mas é coisa de mulher, ora! É entre gêneros! O terreno é o eminentemente sexual. A mais gostosa leva, a mais atraente, a mais bonita.  Jogo limpo, sem disfarces, sem deslocar o alvo. A coisa se torna muito diferente, quando esta competência, de ordem sexual, é usada para negar todas as demais competências ou qualidades, que ficam invisíveis, só a fealdade sendo objeto de considerações, e base exclusiva de um juízo de valor.
Daí, então, a gente está diante de algo que, francamente, me incomoda muito. Porque não se trata de julgar ou de avaliar nenhuma outra qualidade. Trata-se, sim, de simplificar a questão: faça o que fizer, não vai prestar, porque é feia. E quando se trata de uma mulher envolvida em qualquer escândalo, ou acusada de algum crime, nem se fala. Se for feia, é condenada antes de qualquer julgamento. Nem é preciso dar exemplos. Seria cansativo, porque acredito que não há quem não saiba do que eu estou falando. Mais: acredito que muitos de meus ora leitores já fizeram ou fazem assim, ou já se acostumaram a conviver com isso. Pena. Talvez a coisa resulte ― de acordo com alguns ― do fato de vivermos numa sociedade que valoriza juventude e beleza. Bem, se isso explica, não justifica.
Enfim, acho que fazer referências pejorativas a mulheres feias já virou até mesmo uma banalidade. É algo de que se ri, algo de que se faz piada, como se ofensa e desqualificação, crueldade e sarcasmo fossem coisas socialmente corriqueiras. O pior é que são. E quando me dei conta disso resolvi escrever esta crônica. Só para ser do contra, só para dizer que eu não gosto. Sei que não vai mudar nada o fato de manifestar-me assim, mas queria dizer que eu me sinto profundamente ofendida quando ouço alguém, seja homem ou mulher, falar desse modo sobre outra pessoa, seja ela homem ou mulher. E me sinto ainda mais revoltada, quando a crítica parte de um homem e atinge uma mulher, pois isso me parece ainda menos justificável, exatamente pela banalização, e pelo fato de se tratar um comportamento quase que oficialmente aceito por sua circulação nas veias sociais que oxigenam os programas humorísticos. A propósito, nunca acho isso engraçado. Na TV, aliás, me parece ainda mais chocante e lamentável. Mas sou apenas eu e minha opiniãozinha. Eu a sustento, todavia. E gostaria muito de pegar pesado com quem adora debochar das mulheres ditas feias.
Pegar pesado, sim. Descobrir, lá na vidinha íntima desses homens, afinal, o lado invejoso e mesquinho que os leva a agir assim. E acho que mostraria, sem pena, sem remorsos, a insegurança mal camuflada que deve reger, e mesmo determinar, comportamentos deste tipo. Há homens dotados de uma masculinidade destrutiva. Homens que se afirmam, não competindo com outros machos, de homem para homem, mas colocando as mulheres umas contra as outras para, no final, ver se sobra alguma coisa para eles. Evitam confrontos diretos, valem-se de sarcasmos, tiram partido de um senso de humor destrutivo, ou agridem abertamente na base da desqualificação, deslocando o objeto de uma discussão para outra área. Se assunto é a maior ou menor aptidão para um cargo, enfatizam a obesidade, a feiura, ou o fato de tratar-se de uma mulher “passada”. Provocam o riso, ganham plateia, e o aplauso de todos os medíocres que acham bonito esse tipo de “espirituosidade”. Se alguém reclama, é porque não tem senso de humor, porque é do contra, porque não entendeu, porque distorce valores, etc. Se não funciona, e insistimos no protesto, o carimbo é o clássico. Além de ser chamada de feia, vem o carimbo de frustrada.
Mulher é mulher, e chega o dia em que o nosso feminino se esgota. Às vezes até decidimos que ele chegou ao fim, mesmo que ainda sobre alguma coisa de vaidade dentro da gente. A feminilidade é também algo de que se desiste, porque se trata de um império cujo rei se chama Tempo. Bonita ou feia, gorda ou magra, envelhecemos, e a feminilidade, ao menos esta que alimenta as fantasias masculinas, decai, apesar dos paliativos tipo botox, plásticas e silicones que vêm em seu favor. Beleza gasta. Beleza desgasta. Beleza até mesmo enjoa e passa de moda. Beleza é um produto altamente perecível. Resta saber o que vai nos sobrar em matéria de competências humanas, afetivas, intelectuais. Cedo ou tarde é hora de enfrentar o balanço.
É verdade que os preconceitos são hoje muito combatidos, mas alguns são tão corriqueiros que passam ao largo de nossa capacidade crítica. Eu mesma escrevi um romance, há muito tempo, onde criei uma personagem feminina na qual eu desejava salientar uma série de defeitos. Eu a criei gorda e, com isso, acabei perdendo qualidade literária no meu trabalho, uma vez que os leitores se orientavam muito mais pelo fato de a personagem ser gorda, do que por sua superficialidade, sua ambição, a pequenez de sua moral burguesa. Eu tinha muito mais a dizer sobre ela. Não precisava recorrer à gordura para criá-la menos rica em humanidades.  Acabei derrapando num clichê, quando não precisava disso, seguramente. Errei, mas aprendi. Desisti de publicar, ao menos do jeito que está.
Procuro saber de mim. Dos outros não sei. De você, leitor, também não sei. Mas já que chegamos até aqui em mais esta crônica, que tal repassar alguns conceitos? Não custa. Não custa passar a limpo alguns dos tantos e tantos preconceitos que mais nos cegam do que nos dão a perceber do mundo e, sobretudo, da gente mesmo.
Autor: Maristela Bleggi Tomasini

13 de março de 2013

Conformar-se

...e os ventos, as chuvas, as tempestades, o tempo, a ordem das coisas, os durantes, os depois, o agora, o sempre, e todos os nuncas, e os raios de sol, e tudo o mais, e a vida enfim, os etc... E ela curvou-se. Não humildemente, mas por efeito de tudo isso, até a conformidade.

Cidade


12 de março de 2013

Ouvido de Passagem

Eles formam um casal tão bonito... Combinam feito um par de vasos!

24 de fevereiro de 2013

Interrupção

Às vezes acontece. A paisagem é interrompida por muros, cercas, telas e essas coisas assim, tão feias. É, sim. Acontece.

13 de fevereiro de 2013

REVISTA VIDA BRASIL

EU, ELE, ELA E A INTERNET
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
Ela é completamente óbvia. Ainda assim parece que consegue prender a atenção do público masculino, ao menos de alguns. Bem, esta prendeu a atenção dele, ora! Eu jamais faria de conta que não morri de ciúme, mas também fiquei chocada com o fato de ela ser exatamente assim como eu acabo de dizer: uma mulher completamente óbvia. Por que, santo deus, uma criatura dessas consegue deixá-lo tão vulnerável? A ponto de se expor, publicamente, elaborando pomposos elogios às posições defendidas ela...
( CONFISSÕES DE UMA MULHER CIUMENTA )
A ponto de ele se expor, publicamente, elaborando pomposos elogios às posições defendidas pela moça em um desses muitos sítios virtuais onde pessoas colocam opiniões inteligentes, reciprocamente elogiadas. Opiniões essa moça tem de sobra. O que nunca entendi foi o que ele achou nisso de tão sensacional. Suspeito que o interesse dele, contudo, deva-se bem mais aos trinta e poucos anos dela, sem contar com aquela simpatia que se desprende das saudações entusiásticas de um pelo outro. Morri de ciúme quando encontrei a tal página na WEB e rastreei descaradamente nomes e diálogos, salvando frase por frase.
Sim, eu fiz isso. Não me proibi de satisfazer este impulso que acho que a maioria das pessoas tem. Mulheres? Sim. E homens também. A diferença é que não faço isso escondido nem me sinto culpada por fazer. Faço e confronto. E procuro fotos ainda! Naturalmente ele nunca elogia nenhuma mulher que seja feia, ou que tenha passado da idade dele, por exemplo.
Ah! Você, meu leitor, está chocado? Eu sei que deveria me abster de dizer isso assim, sem mais nem menos. Mas creio que esse tipo de coisa deve ser colocada de maneira aberta, ainda que a custa de destruir essas propostas de mulher segura, independente, firme, etc. Se você é tudo isso de verdade, parabéns. Eu não sou. Eu me sinto insegura, sim, sempre que ele faz, a outras mulheres, comentários elogiosos, especialmente quando o que existe “a elogiar” é, na verdade, qualquer outra coisa menos o que parece. Ele? Impressionado com uma opinião enlatada, quando não descaradamente montada com frases feitas e expressões de uso comum? Conta outra!
É certo que experimento, com isso, muito ciúme e um profundo despeito. São sentimentos que fazem parte da minha humanidade e não tenho motivo algum para bancar a mulher superior, que se sente por cima, etc. Não me sinto por cima. Nem superior. Mas triste. Isso me afeta, me faz mal. Vê-lo dirigir-se a outra em termos elogiosos, vê-lo exibir-se diante dela, mesmo indiretamente, especialmente quando sabe, com toda certeza, que será notado e anotado por ela numa dessas investidas opiniáticas. Isso é namoro virtual. É cantada.
Faz tempo que me dispensei de muitos faz de conta. Faz tempo que expresso quase tudo o que sinto. Quase. Ainda finjo bastante às vezes, e disfarço muitos sentimentos nada edificantes. Mas só às vezes. Aprendi a lidar de perto com o que me dói, do mesmo jeito que lido com o que me agrada, me entusiasma, me faz viver. É que, passado o primeiro choque da dor, a gente começa a olhar bem de perto o que magoa, e repara bem no que vê. Daí o despeito e o ciúmecomeçarem a dar lugar a um sentimento bem mais interessante, que consiste no olhar de ver. Olhar de ver é assim, coisa que gera escritas, que me inspira.
Procuro então descobrir nele o que viu nela. Observo atentamente as conversas virtuais. Leio bem as entrelinhas, descubro os jogos de sedução. Um faz de conta onde ele assume o papel de intelectual ativo; ela, passivamente, deixa-se impressionar. Elogia a sagacidade dele. A coisa funciona. Dá certo. Lá sai ele tecendo elogios sobre como ela sabe se colocar, de como dá mostras de firmeza, de segurança. Eu leio aquilo e fico pensando no quanto desconheço esses estados. No quanto sou infirme na senda das palavras, no quanto duvido de tudo que sei. Em compensação, sou firme no que sinto, tenho clareza de meus sentimentos, inclusive estes, mesquinhos e pequenos. Espiono a WEB e fico de pernas frouxas. Meu coração dispara. Procuro por ele na lista de amigos dela e vice-versa. Acesso a tal página onde eles escrevem. Salvo as postagens. Analiso. Leio tudo e fico completamente desconsertada. Pequena mesmo. Como máquina quebrada.
Então me ocorre quanta gente já não amargurou o coração por conta dessas coisas de internet. Nem falo do tal Facebook, ainda que não passe às vezes de um “Fakebook”. Vejo que isso se passa mesmo em territórios que não são, assumidamente, páginas pessoais e, menos ainda, sítios de relacionamento. E penso que não há maior bobagem do que tentar fazer de conta que isso não tem o poder de afetar profundamente alguns de nós, ao menos se e enquanto estamos sensíveis e expostos a situações desse tipo.
No meu caso, o incômodo foi bem grande. Experimentei um desgosto profundo, uma decepção amarga ao ler o que ele escrevia para ela diretamente, ou para outros, não ignorando que ela leria, atentamente, cada palavra que ele escrevia, aparentemente, dirigindo-se a outros do mesmo grupo.
E ela? Pelo menos denotava algum talento? Certamente que sim. Ela sabe, como ninguém, inventar e reinventar a roda. Uma mulher óbvia. E ele ali, mostrando-se nas suas habilidades linguísticas, intentando acrobacias literárias, exagerando nos palavrões (há mulheres que adoram homens que dizem palavrões), abusando da expressividade. Eu o via completamente idiotizado com cada obviedade que ela escrevia, num discurso onde dava mostras de ser uma mulher independente, dona de si. Ela abusava da pontuação e dos marcadores tipo emotions. Faz bem tipo: mulher moderna com o lado infantil de menininha. A sonhadora pronta a dar uma chance ao romantismo. Ai, meu deus.... E ele se prestando para isso! Óbvia, pensei. Prosaica. Insipiente. E eu? Despeitada, ciumenta, insegura. Sim, tudo isso. Mas completa e inteiramente eu mesma, inclusive nestas falhas.
Reclamei. Fiz escândalo. Chorei. Ouvi Elis Regina me falando dos olhos que olhavam com olhar de adeus. Fui parar atrás da porta. Reclamei, e apanhei, é claro. Levei uma dura, como se diz, sem falar na análise do meu comportamento adjetivado como patológico. Palavra bonita, cheia de significados. Bem, não deixa de ser. Porque o esperável, numa situação destas, é que a mulher “oficial” faça de conta que não vê, que não nota. Ou seja: tenho de contornar a situação e ainda sorrir, fazendo de conta que eu acredito que ele realmente nem sabe que aquela moça existe. E tenho ainda de achar natural o fato de ele bancar a figura paternal e tocante, dando de cavalheiro distinto que mal encobre o homem insinuante diante da outra! Óbvio! Apenas pessoas inteligentes, que sabem se colocar, e que têm muito a dizer é que se dispõem a manter diálogos de um brilhantismo bem peculiar. Ele está apenas se expressando pela internet! É nisso que eu “devo” acreditar para manter as aparências.
E eu, que creio em bruxas, mesmo sabendo que elas não existem, penso que esta é apenas mais uma forma esperta de dar início a relacionamentos que, mais cedo ou mais tarde, se explicitam. Postagem após postagem, o grau de intimidade aumenta, os pronomes de tratamento se flexibilizam, os nomes começam a ser escritos no diminutivo, os abraços, os beijos. Fora as colocações de ordem sexual, os palavrões que apimentam os discursos e aquela ironia, tida por tipicamente inteligente, que permeia os diálogos. Não demora muito para que um escreva para o outro em particular. A coisa é pública, naturalmente. Mas é jogo de sedução. E quem me garante que eles não trocam e-mails particulares, hem?
Não me orgulho de ser ciumenta. Tenho, sim, vergonha de ter armado barracos, chorado, feito horrores por causa de ciúme. Mas fazer de conta que não ligo? Não quero isso para mim, mesmo não tendo explicação ou justificativa plausível para esses sentimentos que me amesquinham, que me apequenam diante dessas “outras” tão cheias de glamour. O que não dá mesmo, de verdade, é viver em função de uma imagem tipo que corresponda a comportamentos tidos como adequados, principalmente no campo do afeto.
Não sou politicamente correta no amor. Não mesmo! Sou possessivaciumenta, desconfiada. Tudo isso que qualquer mulher sente, eu sinto. Nunca negaria, entretanto, que somos desestimuladas de assumir o que sentimos. Antes nos ensinam muito bem a repressão, o fingimento, a simulação. Gostamos de dizer, contudo, que eles, homens, são ciumentos, porque isso nos valoriza como mulheres. Verdade ou não, pelo menos este é um sinal exterior tido pelos outros como indicador de afeto.
E o contrário? É possível? Viver amores sem ciúme, sem possessividade? Deve ser, para gente normal. Deve ser. Daí penso em uma paixão morna, que se arrasta pela vida, sem tensões, sem dúvidas, confiante, vivida por adultos, maduros, que sabem quem são, de onde vêm, para onde vão. Bem assim! Gente que caminha para um futuro do tipo que ilustra propaganda de plano de saúde. Penso em amores que calçam pantufas e que acendem lareiras, porque o fogo desse tipo de amor, só na base da lenha. E muita lenha. Querem mais no cenário? Os remédios. Para pressão alta, com certeza. Para dormir também. Este é o preço de se viver uma vida pré-formatada, com pessoas que se comportam dentro de padrões. Eu passo. Como se diz, “tô fora”.
Já bastam os muitos e muitos padrões impostos pela sociedade para quase todas as coisas inerentes ao plano social! Queremos ainda padronizar as formas de expressão de afeto? — Passe uma cantada logo, eu digo para ele! Mas não namore de forma disfarçada, brincando de esconde-esconde que não esconde nada. Ou faça logo um anúncio e diga o que quer, o que procura, mas de maneira aberta, inclusive para detalhes anatômicos e faixa etária. Duro não é aturar uma traição explícita. Duro é ter de conformar-se a estes comportamentos indiretos, que são, no fundo, muito mais explícitos pelo que não declaram do que pelo que literalmente expressam.
Por isso faço questão de escrever aqui com todas as letras: prefiro armar barracos e quebrar os pratos, prefiro mesmo oconfronto direto aos fingimentos, ao faz de conta que não vejo, faz de conta que não sei, faz de conta que não ligo. Na pior das hipóteses ele me troca por ela, ou por qualquer outra dessas outras, bem óbvias. Na pior das hipóteses, mando ambos para o fim do mundo. Sofro um pouquinho. Na verdade sofro um bocado, mas passa. De quebra, ainda por cima, me inspiro e escrevo outros desses textos que são, afinal, muito meus, daí porque assino embaixo. Coisa de mulher ciumenta. Confessadamente.
Autor: Maristela Bleggi Tomasini