27 de setembro de 2010

Sim, mas...


Sim, mas... E os livros?

Sonetos que não são

Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha

Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha.)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.
( Roteiro do Silêncio(1959) - Sonetos que não são - I)

HILST, Hilda. Do Amor - São Paulo: Massao Ohno Estúdio - Edith Arnhold / Editores, 1999.

Ego

O melhor dos pontos de vista, é verdade. Mas quando cresce demais, nem o próprio eu aguenta!

14 de setembro de 2010

10 de setembro de 2010

Indefinível

Que canto há de cantar o indefinível?
O toque sem tocar, o olhar sem ver
A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.
Como te amar, sem nunca merecer?
Amar o perecível,
o nada,
o pó,
é sempre despedir-se.

Hilda Hilst (1930-2004)

8 de setembro de 2010

Rosh Hashanah

Rosh Hashanah, Ano Novo
Comemora-se hoje o início do ano 5.771.
Entre as tradições, deve-se comer uma maçã com mel para ter um ano doce.
Shana Tova!

Bebelle


A Sra. Lupin, mulher sem a menor espécie de educação, só aparecia nas grandes ocasiões, sob a forma de uma enorme pipa de Borgonha, vestida de veludo e dominada por uma cabecinha que se afundava em espáduas de cor duvidosa. Nenhum processo podia manter-lhe o cinto no lugar próprio. Bebelle confessava ingenuamente que a prudência lhe proibia usar colete. Enfim, nem mesmo a imaginação de um poeta, ou melhor, de um inventor, teria achado nas costas de Bebelle traços da sedutora sinuosidade que aí produzem as vértebras, em todas as mulheres realmente mulheres.
BALZAC, Honoré. A Comédia Humana. Os Camponeses, Vol. XIII, Ed. Globo, Porto Alegre, 1952, p. 211.

7 de setembro de 2010

Homens

Os espelhos e as cópulas são abomináveis porque multiplicam o número de homens.
Jorge Luís Borges, citado em AUGRAS, Monique. A dimensão simbólica, Fundação Getúlio Vargas, 1967.

Os Filhos do Espanto


Nossa arte é a cegueira causada pela verdade. Unicamente a claridade sobre o rosto que se crispa e retrocede é verdeira, o resto é mentira.
Franz Kafka
O filho do espanto é um solitário esmagado por sua solidão. Vimos que a sensibilidade do homem solitário sofre, antes de mais nada, um choque com a desarmonia fundamental da realidade, seu absurdo, que lhe traz, propriamente, a consciência da solidão. A fidelidade a esse primeiro momento de pasmo denuncia o filho do espanto como o homem impotente para erguer-se de seu dramático desamparo. Tal impotência aponta, nele, um esgotamento nas suas intuições originais, um ser sempre mais sensível que reflexivo. O filho do espanto é, por isso, um puro artista, isento das exigências de soluçoes claras e definidas do filósofo. Franz Kafka é ainda o maior deles, o grande angustiado de nosso tempo.
MACIEL, Luiz Carlos. Samuel Beckett e a solidão humana, Instituto Estadual do Livro, 1959, p. 41.