Tem coisas deprimentes que escrevo e que assustam quem gosta de mim. É que escrevo sem explicar. Daí contei do livro que, quando dá, quando posso, quando tenho tempo, quando me dão tempo e paz, eu escrevo aos poucos. E contei de Rebeca, meu alter ego, personagem dramática deste livro que não está pronto ainda. Rebeca Mazzalli é seu nome. E ela se faz passar por racional, embora no fundo seja tão mística quanto os místicos e ocultistas que a cercam no romance. Rebeca tem falas no livro, onde dá margem sempre a interpretações, porque ela simboliza um feminino que não se revela. Daí falar por metáforas. Eu lanço aqui no blog muitas falas de Rebeca. E como sou eu que as escrevo, não cito autor, naturalmente, pois a autora sou eu, embora a fala seja dela. Entenderam? Não? Simples. Sou eu, mas não sou. Certo?
Bem, é muito chato explicar o livro, como também seria muito chato explicar um quadro, mas eu não queria deixar ninguém triste, não. De jeito nenhum!
Até porque, seja como for, hoje ainda é segunda com cara de sexta e, com ou sem dor de cabeça, com ou sem pressão alta, com ou sem sal de frutas para baixar o sapão verde que engoli hoje, com ou sem aquele balaio cheio de outros sapos verdes e grandes que a gente tem de engolir, ainda assim é bom descobrir que, milagrosamente, alguém se lembra da gente... só para mim.
6 de setembro de 2010
Hora do adeus
Tem horas que a lucidez nos vem de pronto.
5 de setembro de 2010
Apesar de
... uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteiro, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.
Clarice Lispector
É, como diz a minha amiga Criss, só podia ser Clarice. Como é que esta mulher fala tudo sem dizer quase nada?
Clarice Lispector
É, como diz a minha amiga Criss, só podia ser Clarice. Como é que esta mulher fala tudo sem dizer quase nada?
4 de setembro de 2010
Surpresa
Eu não esperava. Olhei, e foi como receber uma porção de asqueroso escarro em plena face. Paralisou-me primeiro. Enojou-me depois, profundamente.
Saudade
Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.
Clarice Lispector
1 de setembro de 2010
Não sejas
Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens...
não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabes que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade.
És tu.
Cecília Meireles
Não suspires por ontens...
não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabes que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade.
És tu.
Cecília Meireles
29 de agosto de 2010
Diálogo
[1] Um dia, em que comecei a refletir acerca dos seres, e meu pensamento deixou-se planar nas alturas enquanto meus sentidos corporais estavam como que atados, como acontece àqueles atingidos por um sono pesado pelo excesso de alimentação ou de uma grande fatiga corporal, pareceu que se me delineava um ser de um talhe imenso, além de toda medida definível, que me chamou pelo meu nome e disse: "Que desejas ouvir e ver, e pelo pensamento aprender a conhecer?" [2] E eu lhe disse "Mas tu, quem és?". - "Eu", disse ele, "eu sou Poimandres, o Noús da Soberania absoluta. Eu sei o que queres e estou contigo em todo lugar". [3] E eu disse: "Quero ser instruído sobre os seres, compreender sua natureza, conhecer Deus. Oh! como desejo entender!" Respondeu-me ele por sua vez: "Mantém em teu intelecto tudo o que desejas aprender e eu te instruirei."
CORPUS HERMETICUM de Hermes Trismegisto
CORPUS HERMETICUM de Hermes Trismegisto
26 de agosto de 2010
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