13 de setembro de 2009

Livro de Arte Virtual

Recentemente fotografei alguns quadros que pintei há quase vinte anos. Estavam todos amontoados num canto e prontos para o lixo. Fotografei tudo. Olhando as fotos, porém, tive esta idéia de criar um tipo de livro de arte virtual, onde eu pudesse também anotar as lembranças associadas a esses estudos, tantos anos depois.
Originalidade?
Ah, desculpem, mas isso fica para as Bienais! Pra mim, o Clássico sempre estará na vanguarda, em que pese eu já tenha criado, sim, as minhas abstrações também.
Aqui nesta publicação vai só o meu profundo sentimento de gratidão para com alguns de meus Mestres da Pintura, os gênios que me ensinaram a ver o que são cores, como se compõem um quadro e com qual tempero se olha o mundo, fixando suas imagens que só mesmo nós podemos imaginar, lá no fundo da mente e do coração.
Hoje uso mais a câmera que ganhei de presente que os meus velhos os pincéis, tintas e telas. Quem sabe um dia eu volte a pintar... Seja como for, fotografo coisas com esse mesmo olhar aprendido deles, os meus Mestres, imaginários talvez, imaginados sempre, mas jamais esquecidos ou abandonados.
Quem quiser ver, o resultado está aí ao lado, nas "Minhas Coisas", com o nome de Imagens Imaginadas. Minhas Pinturas I. Dois arquivos com orientações diferentes: texto e paisagem. Perdeu um pouco de configuração, mas acho que dá para visualizar razoavelmente bem o material.

10 de setembro de 2009

Províncias & Metrópoles

Nos grandes centros somos o que queremos ser. Nas pequenas cidades somos o que é feito de nós, uma referência, um nexo causal associado a qualquer coisa que faça parte daquela existência, e nos tornamos, no máximo, parte da paisagem, pois só como parte da paisagem, inseridos na rotina e na regularidade das coisas e dos acontecimentos, é que nos integramos.

9 de setembro de 2009

O Olhar

Detestava este quadro, um estudo de Manet. Tirei de diante de meus olhos logo depois que o óleo secou o bastante para que ficasse longe. Agora, anos depois, mexo novamente em alguns trabalhos e, estranhamente, algo me faz gostar desse olhar incerto, que expressa uma decepção profunda, uma desilusão, um estranhamento.

31 de agosto de 2009

Reclames de Antigamente

Ah! Um clic com o mouse a imagem bem grande e legível. O texto é bonito e dá pra sentir o talendo dos que redigiam esses reclames de antigamente.

Da Pobreza do Riquíssimo

Dez anos já ―
e nenhuma gota te alcançou?
Nem úmido vento? nem orvalho de amor?
Mas também quem haveria de te de amar,
ó mais que rico?
Tua felicidade torna seco teu redor,
torna pobre de amor
― uma terra sem chuva...

Já ninguém te agradece.
Tu, porém, agradeces a todo aquele
que toma de ti;
por aí eu te reconheço,
ó mais que rico, tu,
o mais pobre de todos os ricos!

Tu te sacrificas, tua riqueza te atormenta ―
Tu dás,
não te poupas, não te amas:
o grande tormento constrange-te o tempo todo,
o tormento dos celeiros transbordantes, do coração transbordante ―
mas já ninguém te agradece...

Tens de tornar-te mais pobre,
ó sábio insensato!
queres ser amado,
Só se ama aos que sofrem,
só se dá amor ao que tem fome:
presenteia antes a ti próprio, ó Zaratustra!
― Eu sou a tua verdade...

Nietzsche

Solidão


Na solidão, o solitário se devora a si mesmo; na multidão, devoram-no inúmeros. Então, escolhe.

Nietzsche

28 de agosto de 2009

Política

A política não é uma ciência matemática; em política nem sempre é verdade que dois mais dois fazem quatro, nem que a linha reta seja a mais curta.
Eugéne Poitou
Fonte: Migalhas 2.215

27 de agosto de 2009

Sighele, sobre a imitação

E é uma verdade incontestável e incontestada que a tendência que um homem tem para imitar é uma das tendências mais fortes de sua natureza. É bastante lançar um olhar em torno de nós para ver que o mundo social não é senão um tecido de similitudes; similitudes que são produzidas pela imitação sob todas as suas formas, imitação-moda ou imitação-costume, imitação-simpatia ou imitação-obediência, imitação-instrução ou imitação-educação, imitação espontânea ou imitação reflexa. “Nada é tão contagioso quanto o exemplo, — diz La Rochefoucauld, — e nós não fazemos jamais grandes bens ou grandes males senão que produzindo semelhantes”.
"Os homens, — dizia Tarde, — são um rebanho de ovelhas entre as quais se vê nascer às vezes uma ovelha louca, — o gênio, — que, pela única força do exemplo, constrange as outras a segui-la. Com efeito, tudo aquilo que existe e que é obra do homem, — desde os objetos materiais até as idéias, — tudo não é senão a imitação ou a repetição mais ou menos modificada de uma idéia outrora inventada por uma individualidade superior. Assim como todas as palavras de nosso vocabulário, palavras hoje bastante conhecidas, foram outrora neologismos, da mesma maneira, tudo aquilo de ordinário que hoje existe foi outrora único e original".

Fonte: SIGHELE, Scipio. La Foule Criminelle. Essai de psychologie collective. 2ª ed. Paris, Alcan, 1901, p. 34-35. Tradução minha.

De Émile Durkheim, confronto com G. Tarde

"A sociologia deve continuar a ser uma especulação filosófica que abraça a vida social em uma fórmula sintética? Deve ela, ao contrário, fragmentar-se em diferentes ciências e, se ela deve especializar-se, como esta especialização se faria? A sociologia puramente filosófica repousa inteiramente sobre esta idéia de que os fenômenos sociais estão submetidos a leis necessárias. Os fatos sociais têm entre si ligações que a vontade humana não pode arbitrariamente romper. Essa verdade supunha uma mentalidade avançada e não podia ser senão o fruto de especulações filosóficas. A sociologia é a filha do pensamento filosófico, ela nasceu no seio da filosofia comtista e não é dela senão o coroamento lógico. Mas, para Comte, a sociologia não consiste na pluralidade de problemas definidos que os sábios estudam separadamente; ela atém-se a um problema único e deve abraçar, num instante indivisível, a seqüência do desenvolvimento histórico para perceber a lei que o domina em seu conjunto. Os estudos de detalhe são perigosos, dizia Comte, porque eles desviam a atenção do sociólogo do problema fundamental que é o todo da sociologia. Os fatos sociais são solidários, e não se pode estudá-los isoladamente, senão que em alterando gravemente sua natureza. Os discípulos de Comte não fazem senão reproduzir o pensamento do mestre, e as mesmas fórmulas têm sido repetidas sem que a sociologia tenha progredido. Mas por que a sociologia consistiria em um único problema? A realidade social é essencialmente complexa, não ininteligível, mas apenas refratária às formas simples. A sociologia não é uma ciência unitária e, ainda que respeitando a solidariedade e a interdependência dos fatos sociais, ela deve estudar cada categoria separadamente. Todavia, a concepção que conduz a sociologia a um só e único problema é ainda a mais geral, mesmo entre os autores contemporâneos. Trata-se sempre de descobrir a lei geral da sociedade. Todos os fatos estudados pelas ciências sociais distintas teriam um caráter comum, pois que sociais, e a sociologia teria por objeto estudar o fato social em sua abstração. Em comparando os fatos sociais, ver-se-ão quais são os elementos que se encontram em todas as espécies e destacar-se-ão os caracteres gerais da sociabilidade. Mas onde e como alcançar essa abstração? Os fatos dados são concretos, complexos; mesmo as civilizações mais inferiores são de uma extrema complexidade. Como destacar o fato elementar com seus caracteres abstratos, se não se começa por estudar os fenômenos concretos onde ele se realiza? Se, pois, a sociologia quiser viver, ela deverá renunciar ao caráter filosófico ao qual ela deve sua origem e aproximar-se das realidades concretas por meio de pesquisas especiais. Há interesse em que o público saiba que a sociologia não é puramente filosófica, e que ela pede precisão e objetividade. Mas isso não quer dizer que as disciplinas especiais não devam, — para se tornarem ciências verdadeiramente sociológicas, — senão permanecerem aquilo que elas são atualmente. Elas não têm sido ainda suficientemente penetradas pelas idéias que a filosofia social destacou. Elas têm necessidade de se transformar, de orientarem-se em um sentido expressamente sociológico. No momento atual, não se pode senão formular o problema".

Fonte: Citação extraída da edição eletrônica realizada a partir de um texto de Émile Durkheim (1903), La sociologie et les sciences sociales. Confrontation avec Tarde. Texto disponível na coleção produzida por Jean-Marie Tremblay, Professor de Sociologia em Chicoutini, Les classiques des sciences sociales. Tradução minha.

Sobre Gall

Maristela,

Não sei o que você tem e/ou sabe sobre Gall, motivo de escrever esta breve contribuição.
O neuro-anatomista Franz Joseph Gall (1758-1828), publica na Paris de 1825 uma volumosa obra intitulada Sobre as funções do cérebro e cada uma de suas partes, com observações sobre a possibilidade de determinar os instintos e talentos, e as disposições morais e intelectuais do homem e dos animais pela configuração do cérebro e da cabeça. Esse estudo de personologia anatômica foi por ele denominada de frenologia. Pequenos trechos dessa obra estão publicados em Textos Básicos de História da Psicologia, de Herrnestein e Boring, traduzidos para o brasileiro por Dante Moreira Leite e publicado pela Herder/Editora da Universidade de São Paulo em 1971. Neles, Gall trata de assuntos interessantes como "O sentimento de provisão; cobiça; tendência para o roubo", onde fala da "história natural da tendência para roubar", "sentimento inato de propriedade", "a propriedade como uma instituição da natureza nos animais", "a propriedade é uma instituição da natureza no homem" e "a qualidade fundamental a que se liga a tendência para roubar é o sentimento de propriedade, ou a tendência para fazer provisões".
Veja que trecho legal:
"Os moços de recados, e outros dessa classe de pessoas, que eu costumava reunir em grandes números em minha casa, freqüentemente se acusavam de pequenos furtos, ou, como o diziam, chiperies, e tinham grande prazer em indicar os que se salientavam nessas práticas; enquanto os próprios chipeurs se apresentavam, orgulhosos de sua habilidade superior. O que mais me chamava a atenção era que algumas dessas pessoas mostravam a maior repugnância por roubo, e preferiam passar fome a aceitar qualquer parte do pão e das frutas que seus companheiros tivessem roubado; os chipeurs ridicularizavam essa conduta e pensavam que era tola.
Quando eu podia reunir um número considerável, freqüentemente dividia as pessoas em três classes. A primeira incluia os chipeurs; a segunda os que não gostavam de roubo; e a terceira, os que o viam com indiferença. Ao examinar suas cabeças, espantava-me ao verificar que os chipeurs mais intervalos tinham em uma proeminência, que ia desde o órgão da esperteza até quase o ângulo externo da saliência do supercílio; e que essa região era achatada naqueles que mostravam horror ao roubo; enquanto que, nos indiferentes ao roubo, a parte era às vezes menos desenvolvida, mas nunca tão desenvolvida quanto nos ladrões confessos" (Gall, 1825 - in Herrnstein & Boring, 1971, p.259). Herrnstein & Boring (1971) Franz Josheph Gall (1758-1828) Frenologia, a localização das funções do cérebro, 1825. (trad. de Leite, D.M.) São Paulo, Herder/Editora da Universidade de São Paulo.
Em 25/11/2007 às 22H13min