27 de agosto de 2009

De Émile Durkheim, confronto com G. Tarde

"A sociologia deve continuar a ser uma especulação filosófica que abraça a vida social em uma fórmula sintética? Deve ela, ao contrário, fragmentar-se em diferentes ciências e, se ela deve especializar-se, como esta especialização se faria? A sociologia puramente filosófica repousa inteiramente sobre esta idéia de que os fenômenos sociais estão submetidos a leis necessárias. Os fatos sociais têm entre si ligações que a vontade humana não pode arbitrariamente romper. Essa verdade supunha uma mentalidade avançada e não podia ser senão o fruto de especulações filosóficas. A sociologia é a filha do pensamento filosófico, ela nasceu no seio da filosofia comtista e não é dela senão o coroamento lógico. Mas, para Comte, a sociologia não consiste na pluralidade de problemas definidos que os sábios estudam separadamente; ela atém-se a um problema único e deve abraçar, num instante indivisível, a seqüência do desenvolvimento histórico para perceber a lei que o domina em seu conjunto. Os estudos de detalhe são perigosos, dizia Comte, porque eles desviam a atenção do sociólogo do problema fundamental que é o todo da sociologia. Os fatos sociais são solidários, e não se pode estudá-los isoladamente, senão que em alterando gravemente sua natureza. Os discípulos de Comte não fazem senão reproduzir o pensamento do mestre, e as mesmas fórmulas têm sido repetidas sem que a sociologia tenha progredido. Mas por que a sociologia consistiria em um único problema? A realidade social é essencialmente complexa, não ininteligível, mas apenas refratária às formas simples. A sociologia não é uma ciência unitária e, ainda que respeitando a solidariedade e a interdependência dos fatos sociais, ela deve estudar cada categoria separadamente. Todavia, a concepção que conduz a sociologia a um só e único problema é ainda a mais geral, mesmo entre os autores contemporâneos. Trata-se sempre de descobrir a lei geral da sociedade. Todos os fatos estudados pelas ciências sociais distintas teriam um caráter comum, pois que sociais, e a sociologia teria por objeto estudar o fato social em sua abstração. Em comparando os fatos sociais, ver-se-ão quais são os elementos que se encontram em todas as espécies e destacar-se-ão os caracteres gerais da sociabilidade. Mas onde e como alcançar essa abstração? Os fatos dados são concretos, complexos; mesmo as civilizações mais inferiores são de uma extrema complexidade. Como destacar o fato elementar com seus caracteres abstratos, se não se começa por estudar os fenômenos concretos onde ele se realiza? Se, pois, a sociologia quiser viver, ela deverá renunciar ao caráter filosófico ao qual ela deve sua origem e aproximar-se das realidades concretas por meio de pesquisas especiais. Há interesse em que o público saiba que a sociologia não é puramente filosófica, e que ela pede precisão e objetividade. Mas isso não quer dizer que as disciplinas especiais não devam, — para se tornarem ciências verdadeiramente sociológicas, — senão permanecerem aquilo que elas são atualmente. Elas não têm sido ainda suficientemente penetradas pelas idéias que a filosofia social destacou. Elas têm necessidade de se transformar, de orientarem-se em um sentido expressamente sociológico. No momento atual, não se pode senão formular o problema".

Fonte: Citação extraída da edição eletrônica realizada a partir de um texto de Émile Durkheim (1903), La sociologie et les sciences sociales. Confrontation avec Tarde. Texto disponível na coleção produzida por Jean-Marie Tremblay, Professor de Sociologia em Chicoutini, Les classiques des sciences sociales. Tradução minha.

Sobre Gall

Maristela,

Não sei o que você tem e/ou sabe sobre Gall, motivo de escrever esta breve contribuição.
O neuro-anatomista Franz Joseph Gall (1758-1828), publica na Paris de 1825 uma volumosa obra intitulada Sobre as funções do cérebro e cada uma de suas partes, com observações sobre a possibilidade de determinar os instintos e talentos, e as disposições morais e intelectuais do homem e dos animais pela configuração do cérebro e da cabeça. Esse estudo de personologia anatômica foi por ele denominada de frenologia. Pequenos trechos dessa obra estão publicados em Textos Básicos de História da Psicologia, de Herrnestein e Boring, traduzidos para o brasileiro por Dante Moreira Leite e publicado pela Herder/Editora da Universidade de São Paulo em 1971. Neles, Gall trata de assuntos interessantes como "O sentimento de provisão; cobiça; tendência para o roubo", onde fala da "história natural da tendência para roubar", "sentimento inato de propriedade", "a propriedade como uma instituição da natureza nos animais", "a propriedade é uma instituição da natureza no homem" e "a qualidade fundamental a que se liga a tendência para roubar é o sentimento de propriedade, ou a tendência para fazer provisões".
Veja que trecho legal:
"Os moços de recados, e outros dessa classe de pessoas, que eu costumava reunir em grandes números em minha casa, freqüentemente se acusavam de pequenos furtos, ou, como o diziam, chiperies, e tinham grande prazer em indicar os que se salientavam nessas práticas; enquanto os próprios chipeurs se apresentavam, orgulhosos de sua habilidade superior. O que mais me chamava a atenção era que algumas dessas pessoas mostravam a maior repugnância por roubo, e preferiam passar fome a aceitar qualquer parte do pão e das frutas que seus companheiros tivessem roubado; os chipeurs ridicularizavam essa conduta e pensavam que era tola.
Quando eu podia reunir um número considerável, freqüentemente dividia as pessoas em três classes. A primeira incluia os chipeurs; a segunda os que não gostavam de roubo; e a terceira, os que o viam com indiferença. Ao examinar suas cabeças, espantava-me ao verificar que os chipeurs mais intervalos tinham em uma proeminência, que ia desde o órgão da esperteza até quase o ângulo externo da saliência do supercílio; e que essa região era achatada naqueles que mostravam horror ao roubo; enquanto que, nos indiferentes ao roubo, a parte era às vezes menos desenvolvida, mas nunca tão desenvolvida quanto nos ladrões confessos" (Gall, 1825 - in Herrnstein & Boring, 1971, p.259). Herrnstein & Boring (1971) Franz Josheph Gall (1758-1828) Frenologia, a localização das funções do cérebro, 1825. (trad. de Leite, D.M.) São Paulo, Herder/Editora da Universidade de São Paulo.
Em 25/11/2007 às 22H13min

A Travessia

Não tenho medo que nossa travessia torne-se cansativa e monótona. Sabemos inventar e reinventar a nós mesmos todos os dias. A bordo a presença não será inútil, desnecessária ou mesmo incômoda. Preferiríamos naufragar a reconhecer qualquer uma dessas possibilidades viajando como clandestina em nossa vida comum.

26 de agosto de 2009

Lombroso, sobre crianças

“Está, pois, demostrado que um certo número de criminosos são tais desde a primeira infância, qualquer que seja a parte devida às causas hereditárias. Digamos melhor: se alguns são produto de uma má educação, em outros, a boa não influi em nada. Todavia, sua ação benfazeja é, precisamente, iluminar este fato, qual seja, o de que as tendências criminais são gerais entre as crianças, de sorte que, sem a educação, não saberíamos explicar o fenômeno que se produz no maior número de casos, e que nós chamaremos sua metamorfose normal. De resto, por educação, não entendemos as simples instruções teóricas, raramente úteis aos próprios adultos, aos quais vemos tão pouco influenciados pela literatura, a eloqüência, as artes ditas moralizadoras. Por educação entendemos, menos ainda, as violências pedagógicas que, freqüentemente, engendram os hipócritas e, longe de mudar o vício em virtude, transformam-na em outro vício. A educação é, para nós, uma série de impulsos reflexos, que lentamente substituem outros que engendram diretamente as tendências depravadas, ou, ao menos, favorecem seu desenvolvimento. Devemos, para isso, socorrer-nos da imitação, dos hábitos gradualmente introduzidos pelo convívio com pessoas honestas e por precauções sabiamente tomadas para impedir a idéia fixa que vimos tornar-se tão fatal na infância, jorrando em terreno muito fértil. Agora, ainda, a pena, por ela mesma, não se mostra tão eficaz quanto certos meios preventivos, tais como as condições favoráveis de arejamento, iluminação e de espaço, uma nutrição onde faremos predominar, por exemplo, as substâncias vegetais, com privação de bebidas alcoólicas, em completa abstinência e, em certos casos, uma ginástica sexual preventiva de excessos solitários. Os meios preventivos importam em evitar os ciúmes fáceis para impedir as violências impulsivas; reprimir o orgulho precoce por meio de provas palpáveis, – tão fáceis de encontrar e de produzir, – da inferioridade humana, sobretudo na infância. Importam, ainda, em cultivar a inteligência pela via dos sentidos, e o coração pela via da inteligência, como o faz, de modo tão admirável, o sistema de Froebel. Há crianças tristes, violentas, levadas à masturbação em razão de doenças, de raquitismo, ou por causa de vermes, etc. Os depurativos, os vermífugos tornam-se, então, os únicos meios de correção.”
Fonte: LOMBROSO, César. O Homem Delinqüente, Ricardo Lenz Editor, Porto Alegre, 2001.

As Tatuagens

Estudamos esta questão no trabalho feito em 1881, no laboratório de Medicina Legal da Faculdade de Lyon e no artigo Tatouage do Dicionário de Dechambre (Lyon, 1900). Existe a tatuagem quando materiais corantes, vegetais ou minerais, são introduzidos sob a epiderme a profundidades variáveis, com a finalidade de produzir uma coloração ou desenhos aparentes de longa duração, apesar de não absolutamente indeléveis. Mostramos, em nossa publicação, a influência da idade, do sexo, da profissão e o fato de ver-se a importância médico-legal das tatuagens de acordo com seu local e suas características exteriores. Nesse último ponto de vista, deve-se distinguir a data da tatuagem e o desenho propriamente dito. Em nosso país, os tatuadores fazem uso de nanquim e de vermelhão; o carvão de madeira moído e diluído em água, a tinta azul são às vezes empregados; mais raramente, faz-se uso do azul da prússia ou do azul de lavanderia. Para marcar o desenho, o tatuador emprega agulhas freqüentemente muito finas: estas agulhas, em número de 3, de 5 ou de 10 são mantidas num mesmo nível com a ajuda de fios e fixadas na extremidade de um pedaço de madeira. Os bons tatuadores fazem uma primeira picada, inserindo obliquamente as agulhas a uma profundidade de meio milímetro e muito raramente determinam uma perda de sangue. Freqüentemente, não fazem mais que uma única inserção; talvez o desenho seja repicado uma segunda vez, a fim de exibir contornos aparentes. A operação termina, a superfície da tatuagem é lavada com água, saliva ou urina.
Observamos mais de 2.500 tatuagens. Eis nosso método. A tela transparente é aplicada sobre a parte a ser tatuada. O desenho aparece muito nítido e é fácil seguir seus contornos com um lápis ordinário. Tem-se assim a reprodução matemática da imagem que se torna muito visível quando a tela é posta sobre uma folha de papel branco. Passa-se então aos traços a tinta azul ou vermelha, segundo uma ou outra coloração. Feito isso, a tela é afixada sobre um cartão, cuja dimensão varia segundo o tamanho da tatuagem.
Dividimos as tatuagens, segundo a imagem que representam, em 7 categorias distintas: emblemas patrióticos e religiosos; profissionais; inscrições; militares; metáforas; amores e erotismo; fantasistas e históricas. As tatuagens podem se apagar ou desaparecer, de acordo com a matéria corante empregada: é certo que o nanquim é a substância mais indelével, enquanto que o vermelhão é a menos tenaz. Procura-se fazer desaparecer as tatuagens para desembaraçar-se de um sinal de identidade comprometedor. Tem-se feito uso de substâncias vesicantes, que fazem aparecer bolhas sobre a pele, combinadas com a aplicação matérias quentes ou tópicos de natureza cáustica. Tardieu pretendeu que, com a ajuda de certos meios químicos, se poderia fazer desaparecer as tatuagens. Pensamos que, na maior parte dos casos, qualquer que seja o procedimento empregado, provoca-se assim uma cicatriz aparente que dissimula a tatuagem, mas que, do ponto de vista médico-legal, é também um sinal indiscutível da própria tatuagem. Insistimos sobre as tatuagens substituídas ou sobrepostas que chamamos transformadas ou sobrecarregadas para indicar sob quais condições haviam sido feitas. Sobre o cadáver, mesmo que a putrefação ou uma causa acidental haja removido a pele, dever-se-ia examinar com cuidado o estado dos vasos linfáticos e dos gânglios da região, para procurar a matéria corante. Como se vê, as tatuagens têm um grande valor médico-legal. São cicatrizes ideográficas coloridas pela introdução de substências corantes nas malhas do tecido sub-epidérmico.
Conseqüências médido-judiciárias e regras periciais. Na apreciação desses ferimentos, deve-se ter em conta: a extensão do dano, a qualidade do ferimento, a intenção de ferir.
A tatuagem é uma manifestação estética do meio social

Fonte: LACASSAGNE, A.. Précis de Médecine Légale, Masson, Paris, 1909.

Sólon

Sólon, fundador da democracia e um dos grandes sábios da Grécia, nasceu em Atenas no ano 640 a.C. Entre algumas medidas de resguardo à liberdade, Sólon proibiu a escravidão por dívida, aboliu a hipoteca sobre pessoas e bens e libertou os pequenos proprietários que se encontravam escravizados, implantou reformas políticas e regulamentou o exercício do poder nas diversas categorias sociais. Seu programa político era veiculado sob a forma de poemas, restando hoje apenas fragmentos e citações. Sólon morreu por volta de 560 a.C.

Suicídio

Sobre esse tema, encontra-se um apanhado da época num interessante livro escrito pelo Dr. Élie Metchnikoff, que foi subdiretor do Instituto Pasteur. A obra chama-se Essais Optimistes, 2ª edição, A. Maloine, Paris, 1914. A propósito das causas do suicídio, relata: “Se, de um lado, os filósofos e os poetas pessimistas refletem as opiniões e os sentimentos de seus contemporâneos, é incontestável que, de outro, eles influenciam muito seus leitores. Assim foi enraizada uma concepção pessimista da vida, de acordo com a qual a existência humana não é senão uma série de infelicidades não compensadas pelo bem. É muito provável que tais idéias tenham tido sua parte na extensão dos suicídios nos tempos modernos. Se bem que se conheçam ainda muito pouco os motivos íntimos da maior parte dos suicídios, não se pode negar, todavia, que a concepção geral da vida aí deva desempenhar um importante papel. De acordo com a estatística, o maior número dos suicídios é posto na conta da ‘hipocondria, da melancolia, do tédio de viver, da alienação mental’. Assim, segundo os dados da estatística dinamarquesa (sabe-se que a Dinamarca é um país onde o suicídio é muito freqüente), sobre 1.000 casos de morte voluntária de homens, sobrevindos no período de 1886 a 1895, 224, quer dizer, um quarto são atribuíveis ao conjunto de causas que acabamos de mencionar. A cifra correspondente para as mulheres é ainda mais elevada, porque compreende quase a metade dos suicídios (403 para 1.000). O segundo lugar entre os homens é ocupado pelo alcoolismo que ocasionou 164 suicídios em 1.000 (dados tomados a Westergaard). Ora, é muito provável que, nas duas categorias de causas, os suicídios fossem produzidos por um fundo pessimista. Deduzidos os verdadeiros alienados entre os melancólicos, os hipocondríacos, os entediados da vida, deve restar um número considerável de pessoas nas quais o estado mental não era patológico no estrito sentido da palavra, mas que se deram à morte porque tinham uma concepção pessimista da vida. Entre as pessoas que se envenenaram, houve muitas que o fizeram porque estavam persuadidas de que a vida é má demais para ser conservada. O aumento progressivo dos suicídios nos tempos modernos, constatado pela estatística, indica, por sua vez, a importância das teorias pessimistas. Chegou-se a ir até mesmo à sociedade dos amigos do suicídio. Relata-se que, numa semelhante sociedade, fundada no início do último século em Paris, reunia-se um certo número de pessoas que punham seus nomes numa urna para tirarem a sorte. Aquele cujo nome fosse sorteado devia suicidar-se na presença dos demais sócios. De acordo com os estatutos, a sociedade não aceitava em seu seio senão pessoas honoráveis que deveriam ter passado pela experiência ‘da injustiça dos homens, da ingratidão de um amigo, da infidelidade da esposa ou da amante, acima de tudo, deveriam, desde há anos, ter experimentado um sentimento de vazio na alma e um desprazer de tudo aquilo que pode apresentar este mundo’(Dieudonne, Archiv. für Kulturgeschichte, 1903, tomo I, p. 357). Uma concepção pessimista da vida constituía, pois, a base dessa determinação fatal.”

20 de agosto de 2009

Duas Palavras

Há duas palavras que abrem muitas portas: puxe e empurre.

18 de agosto de 2009

O Mestre La Bruyére

Viver com seus inimigos como se eles fossem se tornar um dia nossos amigos, e viver com nossos amigos como se eles pudessem tornar-se nossos inimigos, não é segundo a natureza do ódio, nem segundo as regras da amizade: não é uma máxima moral, mas política.
O autor dessa passagem, Jean de La Bruyère, nasceu em Paris, em 16 de agosto de 1645 e foi um dos maiores nomes do classicismo francês. Recebeu sólida educação humanística e estudou Direito em Orléans. Em 1684, graças à intervenção do teólogo e humanista Jacques-Bénigne Bossuet, foi designado preceptor do duque Luís de Bourbon e permaneceu a serviço deste como bibliotecário do castelo de Chantilly. O contato direto com o mundo da corte forneceu-lhe material para a redação da obra que o tornou célebre: Les Caractères de Théophraste Traduits du Grec avec les Caractères ou les Moeurs de ce Siècle, 1688, Embora de início concebida como uma tradução do autor grego Teofrasto, a obra notabilizou-se por um apêndice, redigido por La Bruyère, que constituía não apenas valioso quadro dos costumes sociais, mas também uma profunda análise do comportamento humano. O método empregado por La Bruyère consistiu em definir diversas qualidades e depois personificá-las por meio de um estilo preciso e satírico, adequado para sua crítica do relaxamento moral da época. Exemplifiquemos: Certos homens, contentes consigo mesmos de qualquer ação ou obra em que não foram mal sucedidos, e tendo ouvido dizer que a modéstia fica bem aos grandes, ousam ser modestos, imitando os simples e os sinceros: assemelham-se às pessoas de estatura meã, que se baixam ao passar uma porta, receando bater a cabeça. Ou ainda: Não há gesto, por mais simples, natural e espontâneo, que não revele a nossa personalidade. Um imbecil não entra nem sai; não senta nem se põe de pé; não fala nem se cala do mesmo modo que um homem inteligente.
Por aí pode-se bem compreender a razão pela qual o Dr. Richet, muito falado aui neste blog, chamou mestre a La Bruyére, para quem a profunda ignorância inspira o tom dogmático... La Bruyère morreu em Versalhes, em 10 ou 11 de maio de 1696.
Fonte: Encyclopaedia Britannica do Brasil; Décio Valente, Seleta Filosófica, Apólogos, Pensamentos e Reflexões, Ed. “O Livreiro”, São Paulo, 3ª edição, 1958; Les Caractères – Extraits, Librairie Laousse, Paris, s/data.

17 de agosto de 2009

A Paixão Segundo GH

Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação. Como é que se explica que o meu maior medo seja exatamente em relação: a ser? e no entanto não há outro caminho. Como se explica que o meu maior medo seja exatamente o de ir vivendo o que for sendo? como é que se explica que eu não tolere ver, só porque a vida não é o que eu pensava e sim outra como se antes eu tivesse sabido o que era! Por que é que ver é uma tal desorganização? E uma desilusão. Mas desilusão de quê? se, sem ao menos sentir, eu mal devia estar tolerando minha organização apenas construída? Talvez desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema. No entanto se deveria dizer assim: ele está muito feliz porque finalmente foi desiludido. O que eu era antes não me era bom. Mas era desse não-bom que eu havia organizado o melhor: a esperança. De meu próprio mal eu havia criado um bem futuro. O medo agora é que meu novo modo não faça sentido? Mas por que não me deixo guiar pelo que for acontecendo? Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituirei o destino pela probabilidade.
Clarice Lispector