2 de agosto de 2009

AS CARTAS XXIII


Observações:A história de amor de Francisco e Maria estava tensa nos últimos meses de 1924. Na carta anterior, a do dia 30 de outubro (AS CARTAS XXII), ele implora para que ela volte a lhe escrever. Depois desta data, encontrei ainda estes dois cartões. O menor, perfurado, sugere que tenha acompanhado flores. Clássicas rosas vermelhas? Não sei. O outro cartão, maior, estava em um envelope que nada indica tenha passado pelos Correios. Seriam felicitações pelo aniversário entregues por alguém na casa de Maria? Muito provavelmente, sim, com direito a flores. Francisco demonstrou não ter esquecido a data, e se fez presente, ainda que angustiado, na ausência de notícias de sua amada. De 1924, localizei apenas mais duas cartas. Uma é do dia 7 de novembro e a outra de 15 de dezembro.
Essas cartas são um tesouro literário que ilustra não apenas uma verdadeira história de amor que teve lugar entre dois jovens, mas também como se passou esse amor nos anos 20 em Porto Alegre. Amor vivido por um homem culto, educado, refinado em sua estética e uma mulher que ele mesmo define de maneira adorável através de sua letra pequena, frágil, nervosa, como se fosse a imagem de tua sensibilidade, em extremo desperta, ao alarme das menores impressões.
Quem ainda não conhece o que vêm a ser AS CARTAS, basta procurar nas postagens mais antigas, a explicação disso. Querendo ver tudo, na barra superior, à esquerda, basta digitar na guia "pesquisar no blog" a expressão AS CARTAS e todas as postagens anteriores vão aparecer em ordem mais ou menos cronológica. Há mais cartas, muito mais. E na medida do possível eu vou mostrá-las a vocês aqui no Traças, Ácaros & Cia.

AS CARTAS XXII


Carta de Francisco para Maria de 30 de outubro de 1924.

Maria,
Há tanto tempo, há tanto! Que não me dás a alegria de ler qualquer cousa que mandas, através de tua letra pequenina, frágil, nervosa, tal se fosse a imagem da tua sensibilidade, em extremo desperta, sempre, ao alarme das menores impressões...
Por que não continuaste a escrever-me? Acaso terás o propósito de por, agora, o ponto final na nossa correspondência? Não sei de motivo algum para isso. Se os há, eles se ocultam tão fundo no interior de teu espírito, e nunca vêm à tona para a graça de uma revelação... Minha profunda amiga!...
Ouve: eu exijo uma explicação de teu silêncio. Sabes? Pensa na significação desta exigência. Porque, se não me explicares, eu... eu... implorar-te-ei,de joelhos, o favor acariciante de uma resposta, para o sossego de minha alma.
Do Francisco.

É.

É, sim. As Traças e os ácaros voltaram a aparecer. Quantas coisas postadas aqui! Coisas que eu nem lembrava mais que havia lembrado de escrever. Fragmentos de memórias descosturadas, paginas marcadas, linhas, frases e poeira. Hoje revi até o primeiro dia o que fui trazendo para cá, para este meu canto, um outro armário da minha vida, uma outra prateleira, só que virtual. Esteve fechada, mas agora se abriu novamente, embora de outro jeito. Continua cheia de coisas, menos umas ou outras que eram menos minhas, por assim dizer.

31 de julho de 2009

Clarice Lispector


Minha força está na solidão.
Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.

A Aparição


E o busto invisível de Voltaire apareceu para mim, em meio aos meus livros. E tempos depois de ter me arriscado a pintar isso, ainda gosto de olhar pra ele.

Por Obrigação

A gente pensa que vive por gosto, mas vive por obrigação.
Riobaldo
Guimarães Rosa, Grande Sertão Veredas.

14 de julho de 2009

Hamlet, tradução de Machado de Assis

Ser ou não ser, eis a questão. Acaso/ É mais nobre a cerviz curvar aos golpes/ Da ultrajosa fortuna, ou japa lutando/ Extenso mar vencer de acerbos males?/ Morrer, dormir, não mais. E um sono apenas,/ Que as angústias extingue e à carne a herança/ Da nossa dor eternamente acaba,/ Sim, cabe ao homem suspirar por ele./ Morrer, dormir. Dormir? Sonhar, quem sabe!/ Ai, eis a dúvida. Ao perpétuo sono,/ Quando o lodo mortal despido houvermos,/ Que sonhos hão de vir? Pesá-lo cumpre,/ Essa a razão que os lutuosos dias/ Alonga do infortúnio. Quem do tempo/ Sofrer quisera ultrajes e castigos,/ Injúrias da opressão, baldões de orgulho,/ Do mal prezado amor choradas mágoas,/ Das leis a inércia, dos mandões a afronta,/ E o vão desdém que de rasteiras almas/ O paciente mérito recebe,/ Quem, se na ponta da despida lâmina/ Lhe acenara o descanso? Quem ao peso/ De uma vida de enfados e misérias/ Quereria gemer, se não sentira/ Terror de alguma não sabida coisa/ Que aguarda o homem para lá da morte,/ Esse eterno país misterioso/ Donde um viajor sequer há regressado?/ Este só pensamento enleia o homem; / Este nos leva a suportar as dores/ Já sabidas de nós, em vez de abrirmos/ Caminho aos males que o futuro esconde,/ E a todos acovarda a consciência./ Assim da reflexão à luz mortiça/ A viva cor da decisão desmaia;/ E o firme, essencial cometimento,/ Que esta idéia abalou, desvia o curso,/ Perde-se, até de ação perder o nome.
Para quem não sabia desse lado de Machado de Assis, aí está a amostra de um trabalho seu de tradução, valendo lembrar que ele foi um autodidata. Achei este arquivo guardado faz alguns anos, e pensei ser uma boa idéia compartilhá-lo com vocês.

Peixes

Peixes! Quanto mais longe dos homens, tanto melhor; trato e familiaridade com eles, Deus vos livre! Se os animais da terra e do ar querem ser seus familiares, façam-no muito embora, que com suas pensões o fazem. Cante-lhes aos homens o rouxinol, mas na sua gaiola; diga-lhes ditos o papagaio, mas na sua cadeia; vá com eles à caça o açor, mas nas suas piozes; faça-lhes bufonarias o bugio, mas no seu cepo; contente-se o cão de lhes roer um osso, mas levado onde não quer pela trela; preze-se o boi de lhe chamarem formoso ou fidalgo, mas com o jugo sobre a cerviz, puxando pelo arado e pelo carro; glorie-se o cavalo de mastigar freios dourados, mas debaixo da vara e da espora; e se os tigres e os leões lhe comem a ração da carne que não caçaram no bosque, sejam presos e encerrados com grades de ferro. E entretanto vós, peixes, longe dos homens e fora dessas cortesanias, vivereis só convosco, sim, mas como peixe na água. De casa e das portas a dentro tendes o exemplo de toda esta verdade, o qual vos quero lembrar, porque há filósofos que dizem que não tendes memória.
Antônio Vieira, Sermão de Santo Antônio aos Peixes, pronunciado em São Luís do Maranhão a 13 de junho de 1654.

27 de junho de 2009

AS CARTAS XXI

Carta de Francisco para Maria de 9 de outubro de 1924.
Maria,
Minha alma em dor, timidamente, implora da tua bondade apenas um gesto, o maior de todos os gestos: o perdão. Um grande perdão estendido sobre mim por todas as coisas más que eu te fiz, por todas as tristezas que eu pus na tua vida, por todas as lágrimas que eu deitei nos teus olhos.
Eu sofro, também, porque te amo demais, amo com tortura, e tanto! Que te faço sofrer... Essa é a minha maior dor! E quando choras, sofro ainda por não poder chorar contigo. Nos grandes sofrimentos, a minha alma como que se diviniza e toma a serenidade das coisas grandes. E a minha ânsia, sublime, então, é de beijar esse pedaço de alma diluída que vem nas tuas lágrimas. Eu todo me espititualizo diante da tua angústia, e sinto a minha alma tocar a tua alma, numa misteriosa penetração. Nesse momento, nós vivemos um mundo irreal, longe das coisas deste mundo, longe dos homens, sentindo a eternidade do nosso amor, dentro de um sonho. E, nos nossos corações, tudo é doçura e bondade.
Por esse motivo, eu bendigo as tuas lágrimas, apesar da amargura, por essas horas de suprema sensação ideal, em que meu amor torna-se igual ao amor de Deus!
Eu sofro também! E o meu sofrimento é eterno, porque é o reflexo do meu amor. O meu amor é grande e doloroso. E é infeliz da sua própria grandeza. Ah! Se eu pudesse amar menos um pouco!...
O teu perdão! ...Bem sei que me perdoas... Bem sei também que sabes perdoar: esquecendo...
Meu grande amor!
Do teu Francisco
24-X-MCMXXIV

18 de junho de 2009

O Livro das Melancolias

Quantos cemitérios tive de percorrer, e em que densa floresta de cruzes tive de embrenhar-me para procurar todos os meus mortos!
Mas lá não encontrei senão os seus nomes, escritos na madeira ou na pedra, e muitos deles haviam sido apagados pelo hálito dos anos.
Procurei os ossos, procurei as cinzas, e não os pude ver, porque estavam sepultados nas profundezas da terra.
E, enquanto os andava procurando entre as cruzes e os túmulos de mármore, os meus olhos não liam senão mentiras, não viam senão vaidades estultas e mesquinhas que, mais tenazes que a vida, duram mais que ela e que a memória dos homens.
O canto do homem era extinto, os sorrisos da juventude tinham se desvanecido, todas as alegrias da alma humana se haviam dissipado, e entre as sepulturas esquecidas e as cruzes tombadas na erva basta, tão somente sobrevivia, tenaz como o ferro, a vaidade humana, e a mentira gritava em falsete em todo aquele mundo de mortos.
E fugi do cemitério, e não voltei mais ali, porque os meus mortos não estavam lá, e eu os havia procurado onde eles se não encontravam.

Paulo Mantegazza
Extraído de O Livro das Melancolias