25 de dezembro de 2008

Da condição das mulheres nos diversos governos

Nos estados despóticos, as mulheres não introduzem o luxo. Elas próprias são um objeto de luxo. Elas devem ser extremamente submissas.
(pg. 111)

21 de dezembro de 2008

Revista Leoplán

Nós, Déspotas.

Despotismo é uma tendência e talvez mesmo um componente nosso. É humano, integra o homem sempre que ele se vê desfrutando de um poder qualquer. Poder também é um tipo de paixão exercida de múltiplas formas, de acordo com cada governante, desde o reizinho do asteróide do Pequeno Príncipe até as crianças diante dos insetos, e os Napoleões, e os Alexandres, e os Césares e os Sesóstris. Amorfos, porém, escapam disso. Amorfos nunca são despóticos, por exemplo. Mas a maioria de nós o é, numa ou noutra fase da vida, seja manejando exército de soldadinhos de chumbo, seja dirigindo uma empresa, seja fantasiando o cachorro de Papai Noel e conferindo-lhe humanidade, seja mesmo se colocando como guia, exemplo, guru ou proprietário de verdades reveladas.
Todos nós temos, enfim, nossos momentos de déspota, de roubar cenas e brilhar no cenário da vida. Alguns se viciam nisso, e sentem-se insultados quando não são reconhecidos como tais, ou quando o seu fascínio falha, e percebe-se então que o rei sempre esteve nu, porque a realeza passa, a beleza passa, o poder passa e mesmo as verdades mudam quando convém.
Felizmente, não somos sempre os mesmos ao longo do tempo. E até as paixões e mesmo o poder deixam de fascinar um dia, e se acabam, mudam de rumo ou sofrem desvios, viram rotina e acomodação, sofrem desgastes. E no final, — no tão esperado e temido THE END que já está escrito na história de todos nós, — seremos igualados mediante o império da mais democrática das revoluções que é a própria Morte. Essa sim, induvidosamente, nos vai igualar a todos, por mais ostensivo ou simplório que seja o túmulo: pirâmide, lápide ou vala comum.

Rotinas

O tédio e a mesmice são um culto que se pratica perpetuando hábitos, porque isso nos torna mais úteis e mais eficientes na linha de produção que é a vida social, corrente de repetições mecânicas que amarra o homem às tradições de seu grupo, incluindo-o nele, integrando-o, fazendo-o agir como seus ancestrais. Nisso entra até o que ele deve sentir, regramentos de amor e ódio, visões de mundo, uma vida prêt-à-porter, prêt-à-penser e prêt-à-sentir.
Mas também uma vida repleta de premiações conferidas àqueles que fazem a sua parte no rebanho. A imensa maioria de nós só vê o que lhes foi ensinado ver, e nisso não vai nenhum demérito. Tampouco desistem de defender seus pontos de vista com todas as forças, sempre que uma ameaça de desmentido ou de revolução axiológica faz frente a essa herança viva a que se resume o tesouro do clã.
Desvincular-se é solitário, e a solidão, por si mesma, exclui, separa, desvincula, consagrando o trauma edênico inscrito no imaginário desde a expulsão do Paraíso e o Pecado Original. Os desobedientes viram réprobos ou Cains e revoltam-se, tornando-se visionários e às vezes místicos. E os distraídos e desligados refogem também a essa mecânica insidiosa. São freqüentemente artistas, meio deslocados, porque perdem o tal foco, — palavra da moda, — e olham o mundo por si, sentindo-o, e não para si, utilizando-o. Perdem-se de si e dos outros, mas terminam sempre por encontrar, ainda que nada procurem.
Pode-se olhar e não ver, porque para ver é preciso sentir, e nisso entram, mais que os olhos, ainda o instinto e a intuição, duas coisas um tanto quanto impopulares, porque requerem mais impulsividade que cálculo. Enfim, pensar e perceber, sentir e criar são exercícios solitários, tanto quanto viver.

20 de dezembro de 2008

Da Estupidez

Nos bons velhos tempos, um rei, com seu poder sem limites, tinha o direito de vida e de morte sobre milhões de súditos que lhe pertenciam desde o berço. E como estava cercado por uma tropa de servidores solidamente armados, robustos e sem escrúpulos, ele podia fazer enforcar e dar tratos de polé, segundo seu prazer. Podia mesmo forçar milhões de indivíduos a trabalhar para seu palácio ou para seu túmulo durante anos e anos. As pirâmides não são apenas um magnífico edifício. Elas são ainda um esplêndido testemunho da loucura humana, pois que todo um povo deslocou e empilhou enormes pedras durante trinta anos, com o único fim de construir, para o Rei Quéops, uma sepultura que desenhasse seu prodigioso perfil a alguns quilômetros de distância. Que dez milhões de escravos tenham assim, sem se revoltar, suado, penado, sofrido para a satisfação de um único personagem, por Quéops que ele fosse, eis uma inépcia que se ergue bem acima do vértice da alta pirâmide.

Mas Quéops não foi o único a escravizar um grande povo a tarefas absurdas. A história do mundo é, sobretudo, aquela dos diversos Quéops, obscuros ou famosos, que foram servidos por milhões de escravos. Houve Sesóstris, Xerxes, Dario, Nero, Julio César, Carlos Magno, Carlos V, Luís XIV, Napoleão, Guilherme II e ainda muitos outros potentados que esmagaram, sob suas fantasias, imensas populações dóceis e estúpidas.

Que certos semideuses, — Carlos Magno ou Luís XIV, Carlos V ou Napoleão, — tenham dado testemunho de uma inteligência superior àquela dos homens vulgares, é quase indiscutível. Ainda assim, que desproporção entre a enormidade de seu poder e o vigor de seu espírito! Assim como seus mais humildes súditos, eles eram homens. Seu sangue era da mesma cor e suas excreções da mesma espécie. Eles respiraram pela primeira vez e deram seu último suspiro à maneira dos mais humildes mamíferos.

Charles Richet

Elegância

18 de dezembro de 2008

O Homem Estúpido

Prefácio

Lineu, tentando colocar em boa ordem as diversas formas vivas que povoam nosso planeta, chamou o homem, — o qual constitui, evidentemente, uma espécie animal distinta de todas as outras, — Homo sapiens, o homem sábio.
Mas tal elogio é manifestamente injustificado, porque o homem acumula em si abundantes exemplos de extraordinária estupidez, tantos, que deveria, — para conformar-se à realidade das coisas, — denominar-se de outro modo, e dizer: homo stultus, o homem estúpido.
Quando concordarmos em empregar uma classificação zoológica séria, será necessário adotar esse termo.
Nesse breve ensaio, estabelecemos — ou, ao menos, tentamos estabelecer — que o homem é inferior à maior parte das espécies animais, seja pelo bom senso, seja pela sabedoria. Parece-me mesmo que teríamos o direito de classificá-lo como homo stultissimus, o homem estupidíssimo.
Todavia, para ser moderado, contentar-nos-emos em dar-lhe — sem superlativo — o apelido que lhe convém: homo stultus, homem estúpido. E daremos as provas de sua imensa e irremediável estupidez.
O autor não faz qualquer alusão à sorte reservada a esse exame de consciência que machucará, que ofenderá os intelectuais, tanto quanto a populaça, e que deixará em todos uma dolorosa impressão.
Sim. Nós o sabemos!
Assim, ó leitor, quem quer que sejas, intelectual ou artista, este livro vai perturbar — ainda que por um instante — a boa opinião que tu tens de ti mesmo. Ele espantará essa convicção íntima de que tu és sábio, prudente, racional. É pouco agradável ouvir-se dizer que se é estúpido, e é muito mais desagradável ainda receber a demonstração.
Mas não se trata de apresentar, à maneira de Watteau ou de Florian, pastores de ópera. Os camponeses de La Bruyère não têm cajados enfeitados com fitas, e estimo, com o velho mestre, que toda verdade é boa de se dizer, por amarga e decepcionante que seja.

Charles Richet
Observações.: A obra está disponível nos Classiques des Sciences Sociales.

Charles Richet (1850-1935)

Vou postar alguns textos de Richet que selecionei traduzi da obra intitulada O Homem Estúpido. Assim, não custa expor aqui alguns dados biográficos.
Charles Robert Richet era filho de um cirurgião. Ele nasceu em Paris, em 26 de agosto de 1850 e ali morreu em 04 de dezembro de 1935, sem assistir integralmente ao espetáculo da II Grande Guerra, detalhe providencial talvez. Ainda enquanto estudante, assistiu aos cirurgiões Léon Clément le Fort (1829-1893) e Aristide Auguste Stanislas Verneuil (1823–1895). Porém, servindo como interno em hospitais em 1872, iniciou experimentos relacionados ao hipnotismo. Durante os dois anos seguintes, produziu numerosos transes em pacientes. Foi ele quem cunhou o termo metapsíquica para a pesquisa parapsicológica. Esta experiência provavelmente o influenciou a abandonar a cirurgia e devotar-se à fisiologia.
Foi no campo desta estranha metapsíquica e do estudo dos fenômenos paranormais que Richet tornou-se mais conhecido entre nós como entre seus contemporâneos. Sua obra veio a coroar as investigações mais ou menos convergentes recolhidas ao longo de setenta anos. Seu Traité de Métapsychique, editado em Paris, 1923 por Felix Alcan, obra esta que infelizmente eu ainda não tenho, embora já a tenha manueseado, resume o conhecimento da época nesse campo. Richet, ao longo de toda sua vida, interessou-se vivamente pelos fenômenos ditos paranormais, tornando-se presidente do Instituto Metapsíquico Internacional de Paris e mantendo estreitas relações com metapsiquistas de todo o mundo. Firme adversário da hipótese espiritista, aportou a estas investigações — de caráter tão especial — toda a sua lealdade, vigor, clareza mental, tudo quanto distinguiu sempre, de modo marcante, o seu trabalho. Sua obra comprometeu indiretamente a própria metapsíquica, desferindo-lhe um golpe do qual não se recuperou jamais.
Chamado muitas vezes a investigar fenômenos curiosos, como o aparecimento de fantasmas, nada escapava ao sábio. Pode-se imaginar sua atuação frente ao famoso caso da Villa Carmen, de Argel, onde a médium, uma tal Marthe Béraud, jovem de excelente sociedade, produzia, no ano de 1904, a aparição de um fantasma chamado Bien Boa, fantasma de bigodes que circulava em torno dos assistentes envolto num manto branco e que se desmaterializava sobre o piso. O caso provocou a edição de mais um livro do Dr. Richet: Les Phénomènes Dits de Matèrisation de la Villa Carmen (Os Fenômenos Ditos de Materialização da Villa Carmen), Bureau dos Anais de Ciências Psíquicas, Paris, 1906, onde teceu sérias objeções a respeito do fenômeno.
Em 1878 Richet foi nomeado professor agregado da Faculdade de Medicina. Foi professor da Universidade de Paris, Sorbonne, de 1887 a 1927.
Foi um homem de muitos talentos e interesses. Pesquisador da fisiologia, escritor, atraído pela aviação. Participou, inclusive do desenho e da construção de um dos primeiros aviões. Dedicado pacifista, procurou demonstrar os malévolos efeitos da guerra, publicando trabalhos sob o pseudônimo de Charles Epheyer. Escreveu também sobre filosofia, poesia e drama. Durante a I Guerra, no fronte, investigou problemas relacionados à transfusão de plasma sangüíneo. Em 1926, recebeu a Cruz da Legião de Honra.

Pomada Nital


Caspa, queda de cabelo e calvice. Bem, a propaganda garantia a solução de todos esses problemas.