14 de dezembro de 2008

O Acaso

Foi um achado de algumas semanas atrás. No Beco dos Livros, fuçando no recinto dos franceses de uma das lojas da Riachuelo, deparei-me com esse estranho título:

O ACASO
SUA LEI E SUAS CONSEQÜÊNCIAS
NAS CIÊNCIAS E NA FILOSOFIA


Mas se é acaso, como falar de suas leis? O fascínio do acaso não está justamente em sua imprevisibilidade, no imponderável que ele abriga dentro de si? Bem, não resisti e aqui estão novos ácaros que, em breve, completarão cem anos junto comigo, que já estou a meio caminho disso. Ao contrário do que eu pensava, o livro não é sem interesse. No mínimo, tem seu valor pelo que testemunha de uma época. A ediçao é de 1909. Mais curioso, porém, foi constatar que o volume traz ainda um ensaio sobre:

A METEMPSICOSE
BASEADA SOBRE OS PRINCÍPIOS DA BIOLOGIA
E DO MAGNETISMO FISIOLÓGICO

Naturalmente que vou ler. Embora descrente, me encanta constatar o fascínio que certas crenças e teorias, até bem articuladas às vezes, despertam nas pessoas que se entregam a elas sem formular nenhuma objeção. Ora, os ácaros se encontram, e, para isso, devem ter razões que própria razão desconhece.

AS CARTAS XI


Carta de Francisco para Maria escrita em agosto de 1924.
Maria,
Ontem, fui até a casa que abandonaste. Fui em visita de recordação, sofrer a volúpia do abandono.
Pobre casa que te guardou!... Quando cheguei, à procura de qualquer coisa que lá houvesses deixado: um perfume, uma expressão... ela me sorriu um sorriso de tristeza, em que vislumbrei uma queixa, um desconsolo doloroso de velharia abandonada.
Estive, horas e horas, a conversar com ela, a exumar, a reviver... Falou-me, em seguida, de uns olhos, de uma boca, de uns cabelos... Recordou-me um gesto que me enternecera, um dia... Um pedido que me cobrira de emoção... uma promessa que enchera de esperança a minha vida... Contou-me a história de uma separação, que o amor desfizera, para tornar mais nova, mais cheia de encantos, a união... Lembrou-me certas perversidades, certas contrariedades propositais, certos gestos dúbios, que são a tortura e a delícia do amor...
Avivou-me n’alma trechos de dor, trechos de alegria, e tanta coisa, tanta coisa mais... Confidências, frangalhos de alma, pedaços de vida, coisas passadas, coisas vividas que já estão na memória, mas que ainda alegram ou doem...
Disse-me então, que é viva de segredos, de mistérios, de palavras que nunca tocaram ouvido algum, de confissões que morreram no silêncio...
Pôs-se a recordar, depois, a vida que vivera antes. Os dias de festa, os dias de esplendor, quando o seu interior era sacudido pela sonoridade das risadas felizes. A graça feminina que lhe povoara de leve o ambiente... Toda a sua vida anterior, luminosa, e, agora, aquele vazio, aquele silêncio...
— É o fim de todas as coisas, minha pobre amiga.
A casa sorriu tristemente e acabou:
— Vivo, agora, da saudade do que fui antes, da lembrança do que, talvez, não serei mais...
E desandou a chorar. Chorei com ela. Nesse momento, ameia-a mais que nunca. Éramos irmãos na mesma dor...
Deixei-a chorando ainda. E quando me separava, os meus passos acordaram os teus passos adormecidos na calçada.
E eu senti, então, a ilusão da tua chegada.
Mas, não chegaste. Chegou a Tristeza, que me levou, carinhosa e boa, abraçada comigo, até ao meu quarto. Foi a minha companhia de vigília nessa noite. Depois ficou morando comigo. Santa Tristeza!
Santa Tristeza!
Meu amor!
Do teu
Francisco

Observações:
É notável como Francisco encontra, no fato de sofrer, um consolo para a ausência de sua amada. Como se ir até a casa de onde sua Maria se mudara fosse trazê-la para mais perto dele. Recordar-se de coisas alegres ou tristes, cuidar de reviver na memória os menores gestos e detalhes, fosse um perfume, fosse o som de passos na calçada. Ao menos sua ausência, sentida com intensidade, parece-lhe servir de consolo. Estas cartas de 1924 são especialmente poéticas e apresentam passagens notáveis, como aquela da união desfeita pelo próprio amor, para torná-la mais forte. Francisco foi um romântico incorrigível e suas cartas dão inegável testemunho disso. No entanto, ele também encarna um jovem porto-alegrense dos anos vinte, estudante, culto e, penso eu, elegante e refinado, seja pela letra, seja pela correção e estilo. Maria, por sua vez, nos é revelada através do amor de Francisco que, embora não a descreva fisicamente nas cartas, nos fornece dados não pouco precisos sobre a jovem que encantou e o manteve cativo por décadas e décadas, deixando-nos suas cartas como testemunho de sua história.

Especulações Tardianas

Gabriel Tarde é um dos muitos autores que mais me fascinam. Tenho por ele um carinho especial, e é difícil que se passe uma semana sem que eu folheie uma de suas obras e assinale alguma passagem. Muitas vezes anoto, traduzo e esqueço a referência. Viram folhas soltas, avulsas, anotações como esta, cuja referência não anotei, e que me serviu para assinalar a faceta surpreendentemente mística deste autor, coisa que lhe valeu críticas de Enrico Ferri. São suas especulações metafísicas, pela quais ele se desculpa, inclusive:

Não digamos nem a outra vida nem o nada; digamos a não-vida, sem nada prejulgar. A não-vida, não mais que o não-eu, não é, necessariamente o não-ser; e os argumentos de certos filósofos contra a possibilidade da existência após a morte não funcionam, não mais que aqueles dos cépticos idealistas contra a realidade do mundo exterior. — Que a vida seja preferível à não-vida, nada de menos demonstrado. — Talvez a vida seja somente um tempo de provas, de exercícios escolares e dolorosos impostos às mônadas que, ao saírem desta dura e mística escola, encontrem-se purgadas de sua anterior necessidade de dominação universal. Persuado-me de que poucas dentre elas, uma vez depostas de seu trono cerebral, aspirem para aí retornar. Retornadas à sua originalidade própria, à sua independência absoluta, elas renunciam sem trabalho e para sempre ao poder corporal, e, durante a eternidade, vão saborear o estado divino, onde o ultimo segundo da vida as mergulhou, isentas de todas os males e de todos os desejos, — eu não digo de todos os amores — e na certeza de terem um bem escondido, eternamente durável. Assim se explicaria a morte: assim se justificaria a vida, pela purgação do desejo... Mas chega de formular hipóteses! Você perdoa-me esta brincadeira metafísica, amiga leitora?

Observação: Melhor esclarecer este ponto para alguns de nossos leitores. Mônada, segundo Leibniz, seria cada uma das substâncias simples e de número infinito, de natureza psíquica. Elas não teriam qualquer relação umas com as outras, e se agregariam harmoniosamente por predeterminação da divindade, constituindo as coisas de que a natureza se compõe.

7 de dezembro de 2008

AS CARTAS X

Carta de Francisco para Maria escrita em agosto de 1924.
Maria,
Longos dias a te procurar em vão, andei pelas ruas da cidade. Meu vulto doloroso, meio esbatido entre a névoa destes últimos dias, era todo o anseio de uma busca e o desânimo de uma desilusão. Tu não me aparecias...
Da primeira claridade do dia, no meio do bulício, entre o torvelinho humano, à meia-tinta do crepúsculo, sempre em vão, rodei pelos caminhos, em procura da minha vida, em procura de mim mesmo.
E a tua figura, vezes e vezes, vivia, efemeramente, aos olhos da minha ilusão, na figura das outras mulheres que passavam, vagas, indistintas, tecendo o meu engano.
Rodavam comigo a Saudade, a soluçar a canção das lágrimas, e o meu cigarro.
E depois, na solidão da noite, todo o impossível de te ver doía-me n’alma... Era uma dor absconsa, enorme, a apertar-me o coração e a umedecer-me os olhos... E eu desesperava...
De repente ela veio... Veio vindo, vagarosa, tímida... Começou tomando-me as mãos entre as suas mãos longas e frias... Depois enlaçou-me o busto, recolheu-me as lágrimas dos olhos com os seus lábios de morta, e pôs-se a murmurar, num sopro, ao meu ouvido, palavras de conforto.
Um pouco anestesiado da grande dor, olheia-a com simpatia de infeliz...
Era a chuva, a minha irmã... A minha doce e melancólica irmã... Trazia nos olhos de violeta toda a doçura e nos gestos de sombra toda a ternura do amor.
Cessaram as minhas lágrimas. Já não era tão só. Envolvi-me, então, longamente, tristemente, nas suas carícias frias, a sonhar, de pálpedras caídas, com as carícias mornas do teu corpo de pássaro...
E quando a chuva se foi, tu vieste
para o teu
Francisco

Guy de Maupassant (1850-1893)

Adoro Maupassant. Tenho sua obra em 17 volumes colocada em lugar de honra numa estante. Este fascinante escritor, insuperável mestre do conto, viveu pouco mais de quarenta anos, e morreu atormentado pela loucura. Seu O HORLA, na versão escrita em forma de diário, descreve em primeira pessoa os transtornos sofridos por alguém que narra os acontecimentos sobrenaturais com que se depara no dia-a-dia. Horla, — título do conto, — é nome próprio, palavra com que o autor batizou a criatura misteriosa que assombra o personagem que escreve o diário. Essa palavra, contudo, tem a mesma pronúncia da expressão hors là, que significa o que está fora daqui, o que se situa além. Uma de minhas passagens favoritas é esta:

12 de maio — Tenho um pouco de febre desde alguns dias; sinto-me sofrer ou, antes, sinto-me triste.
De onde vêm essas influências misteriosas que transformam em desencorajamento nossa felicidade e nossa confiança em desespero? Dir-se-ia que o ar, o ar invisível está cheio de Forças desconhecidas, das quais nós sofremos a vizinhança misteriosa. Desperto cheio de alegria, com vontade de cantar na garganta. — Por quê? — Será um arrepio de frio que, roçando minha pele, abalou meus nervos e escureceu minha alma? Será a forma das nuvens, ou a cor do dia, a cor das coisas, tão variável, que, passando por meus olhos, perturbou meu pensamento? Sabe-se? Tudo aquilo que nos cerca, tudo aquilo que nós vemos sem enxergar, tudo aquilo em que roçamos sem conhecer, tudo aquilo em que tocamos sem palpar, tudo aquilo que encontramos sem distinguir têm sobre nós, sobre nossos órgãos e, através deles, sobre nossas idéias, sobre nosso coração ele mesmo, efeitos rápidos, surpreendentes e inexplicáveis.
Como é profundo esse mistério do Invisível! Nós não o podemos sondar com nossos sentidos miseráveis, com nossos olhos que não sabem perceber nem o muito pequeno, nem o muito grande, nem o muito perto, nem o muito longe, nem os habitantes de uma estrela, nem os habitantes de uma gota d’água... Com nossos ouvidos que nos enganam, porque eles nos transmitem as vibrações do ar em notas sonoras. Eles são fadas que realizam esse milagre de transformar em ruído esse movimento e, através dessa metamorfose, dão nascimento à música que torna cantante a agitação muda da natureza... Com nosso olfato, mais fraco que aquele de um cão... Com nosso paladar que mal pode distinguir a idade de um vinho!
Ah! Se nós tivéssemos outros órgãos que realizassem em nosso favor outros milagres, quantas coisas poderíamos descobrir ainda em torno de nós!

A propósito, é sobre uma passagem desse famoso conto de Maupassant, — O HORLA, — que estudiosos de psicologia coletiva se debruçaram, indicando-a, inclusive. Maupassant é citado por Rossi, por Sighele e por Ferri, entre outros. Vale a pena conhecer esta passagem do diário que, na obra, aparece com a data da Queda da Bastilha, passagem que chamou a atenção de muitos estudiosos das multidões:

14 de julho — Festa da República. Passeio pelas ruas. Os petardos e as bandeiras divertem-me como a uma criança. É, todavia, muito estúpido ser feliz em data fixa, por decreto do governo. O povo é uma tropa imbecil, ora estupidamente paciente e ora ferozmente revoltado. Diz-se-lhe: “Alegra-te.” Ele se alegra. Diz-se-lhe: “Vai bater-te com teu vizinho.” Ele vai bater-se. Diz-se-lhe: “Vota pelo Imperador.” Ele vota pelo Imperador. Depois, diz-se-lhe: “Vota pela República.” E ele vota pela República.
Aqueles que o dirigem são também estúpidos; mas, em lugar de obedecer a homens, eles obedecem a princípios, os quais não podem ser senão nadas, estéreis e falsos, por isso mesmo que são princípios, quer dizer, idéias reputadas certas e imutáveis nesse mundo onde não se está seguro de nada, pois a luz é uma ilusão, pois o ruído é uma ilusão.

6 de dezembro de 2008

AS CARTAS IX

Carta de Francisco para Maria escrita em 17 de março de 1924

Maria,
Em tua carta de hoje, supuseste muita coisa para explicar o não recebimento da minha carta de dez e, entanto, não supuseste tudo. Deixaste até de fazer suposições mais aceitáveis, pelo menos para mim, que aquelas que fizeste. Pensaste, antes de tudo (era natural...) numa exageração de castigo; depois numa viagem imprevista; e, afinal, num outro qualquer motivo grandemente dominador. Erraste em todas as tuas conjecturas, em todas as tuas hipóteses. Motivo grandemente dominador, viagem, exageração de castigo, nada disso houve. Nem pouca vontade de escrever, nem preguiça, nem falta de prazer, nem desejo de dizer-te qualquer coisa, iluminado pela ânsia de receber de ti alguma coisa. Ao contrário: foi até radiante de felicidade que senti chegar o dia oito, que te escrevi, e tão ansiosamente esperava já a tua resposta que nem pus, nessa carta, o dia em que devias esperar outra... Em vez de te castigar, eu é que estava sendo castigado... Por isso foi com surpresa que soube do não recebimento da minha carta. Esta, como já disse, foi escrita e deitada na caixa postal dia oito. Agora, para mim, as presunções possíveis, admissíveis, verdadeiras, são estas: ou houve extravio ou receptação. Tanto a primeira quanto a segunda hipóteses são aceitáveis. Mas quem poderá saber qual foi a realizada? Em todo caso, a segunda é a menos difícil de ser verificada.
Essa complicação veio trazer-me o antigo temor na fragilidade de nosso plano. Eu tenho bem consciência de sua inconsistência. Receio que sejamos descobertos. Não que eu tema por mim. Eu temo por ti unicamente, que estás tão perto das criaturas que se preocupam tanto contigo e com as nossas coisas.
Por isso, dou-te uma sugestão prudente: cessarmos a nossa correspondência. Eu irei sofrer muito. Irei sentir mais desolada a minha solidão. Mas, é necessário. A vida, continuamente, exige do homem, para sua felicidade, um novo sacrifício. Eu estou pronto a fazer todos os que me pedir. Irei fazer mais um.
Responde-me logo.
Francisco

4 de dezembro de 2008

Um Pequeno Cão de Nada

Do Memorial de Aires, o comovente parágrafo 444, escrito ao melhor estilo de Machado de Assis, fala-nos da devoção de um casal a um cão:

Um cão, um pequeno cão de nada. Foi ainda no meu tempo. Um amigo do padrinho levou-lho um dia, com poucos meses de existência, e ambos entraram a gostar dele. Não lhe conto o que a madrinha fazia por ele, desde as sopinhas de leite até aos capotinhos de lã, e o resto; ainda que me sobrasse tempo, não acharia crédito em seus ouvidos. Não é que fosse extravagante nem excessivo; era natural, mas tão igual sempre, tão verdadeiro e cuidadoso que era como se o bicho fosse gente. O bicho viveu os seus dez ou onze anos da raça; a doença achou enfermeira, e a morte teve lágrimas. Quando entrar no jardim à esquerda, ao pé do muro, olhe, foi aí que o enterraram; e já não lembrava, a madrinha é que mo apontou ontem.

Sartre


Calar-se

... o próprio silêncio se define em relação às palavras, assim como a pausa, em música, ganha o seu sentido a partir dos grupos de notas que a circundam. Calar-se não é ficar mudo, é recusar-se a falar ― logo, ainda é falar.
Sartre. Que é a literatura? Ed. Ática, SP, 1989. Pg. 22.

3 de dezembro de 2008

Novas Traças


Tem até um lindo gato nesta loja que fica aqui em POA, no Viaduto da Borges que é, na verdade, o Viaduto Otávio Rocha. Vou garimpar por lá qualquer hora com mais calma.